segunda-feira

Veludo Negro



( musica de acompanhamento - Velvet )

A entrada da residência possuía muros altos protegidos por cercas vivas de vegetação
venenosa e o portão electrificado a mensagem de “boas-vindas” para alguns visitantes.
Ultimamente o proprietário havia promovido certas mudanças no ambiente dantesco
da pequena mansão campestre, colocando mais luz onde antes, apenas coabitavam
as sombras do passado.
Agora, os postes de luz iluminavam todo o jardim, começando na entrada do mesmo,
um atrás do outro sucessivamente, até alcançar o salão de festas que se destacava das
demais áreas por ser um elemento moderno presente na propriedade.

A partir dali e por um caminho empedrado, os postes eram trocados por tochas orientais
e o mesmo descia até uma bela e singular piscina, que naquele momento, mais parecia
imitar um lago, um lago tirado de um sonho, porque havia ali flores e velas acesas que
boiavam na água, como que à espera de alguém.

O homem estava parado na varanda da casa e segurava um copo numa das mãos, rodando
o mesmo por entre os dedos de maneira dispersa, enquanto o seu olhar se encontrava
perdido no jardim.
Olhou para trás.
Tinha dispensado todos os seus empregados, até mesmo seu mordomo pessoal.
No entanto, todo aquele silêncio instaurado não lha dava a sensação de que estava sozinho.

Virou o conteúdo do copo e num único gole terminou a sua bebida.
Caminhou pela varanda de maneira calma, sem deixar de prestar atenção ao jardim e às
mariposas que voavam de encontro as lâmpadas.
“Cegam-se por tão pouco !”
Riu-se ao lembrar aquela frase, aquele disparate, partilhada numa gargalhada ao luar...

Desceu a escadaria até a calçada, mas assim que os seus pés descalços tocaram o chão frio,
parou abruptamente.
A friagem parecia querer invadir as suas entranhas a partir dos seus pés, mas não era
só pelo choque térmico que ele havia cessado a intenção de continuar a caminhar.
Olhou para trás.
Um arrepio subiu-lhe pelas costas acima e ele sentiu, novamente, a mesma sensação
de haver olhos a mirá-lo.

Todo o salão iluminou-se quando o interruptor foi acionado.
Havia um piano solitário, no meio.
Cortinas brancas, balançavam devido à brisa da noite que lhes atingia através das
janelas abertas.
A iluminação do jardim penetrava no salão gradualmente, iluminando o piano com
um rastro de luz envergonhada.

O homem olhou para o piano antigo e aproximou-se do mesmo, puxando o banco
para se poder sentar.
Seguidamente, levantou a tampa que protegia as teclas e com uma calma invejável,
puxou o pano de veludo negro que protegia as teclas brancas e pretas, uma prenda
que muito fazia recordar, colocando-o ao lado do copo vazio.
Por um momento o homem de ar aristocrata, observou o ambiente, como as cortinas
se moviam com a brisa, como a luz dos postes e tochas pareciam harmonizar-se
perfeitamente no exterior, e que ali, naquele ambiente nada passava desapercebido,
nada estava deixado ao acaso.

Era chegada a hora.

A iluminação desligou-se.
A escuridão instalou-se.

Virou o rosto lentamente e fitou o caminho que dava para a piscina que era
perfeitamente visível.
Fechou os olhos e inspirou o ar com suavidade, expirando depois, talvez, a
angústia que sentia.
Fez estalar os dedos.

Ele não era um bom pianista, mas as notas fluíam de forma melodiosa dado
o jeito leve e decidido com que os dedos tocavam as teclas, viajando sobre elas
com carinho.

Ele, era simplesmente um homem de negócios.
Não era um homem dado a relacionamentos duradouros.
E depois, depois do que se passará não houvera mais nenhuns.
Sim, tinha-se apaixonado.
Uma vez.
Uma mulher com quem ele havia simpatizado.
Assim sem mais nem menos.
Sem saber porquê
Sem razão aparente.
Sem se aperceber...
Era por ela que ele deslizava os dedos pelo piano, expondo sentimentos de
maneira delicada, assim como quem inspirou a melodia, o era.
Cantou.
Cantou a falar, virado para as portas que se encontravam abertas ao jardim,
passagem envolta em sombras torneadas pela sua amiga celeste,
única luz que desaparecia nas suas trevas.

"Inventaram mentiras.
Juraste que era falso.
Só depois eu percebi...

Como pude eu, deixar-te só...naquela noite?
Deixei-te sozinha...
Parabéns meu amor!

Há quanto tempo foi?
Parece que foi... ontem!
Mas ontem tinha te aqui...sorrindo ao meu lado...

Hoje, o meu presente é esta música,
embalada pelas notas calmas do meu piano.
E, o nosso amor pode pertencer ao passado.

Espero que onde tu estejas,
tenhas um pouco de mim,
contigo, guardado.

Se calhar, tudo aconteceu...porque eu...nunca te disse...
Eu errei!
Eu não me perdoo!

Mas...porque fizeste, o que fizeste?!
Porquê?!!!

Basta !
Basta!!
Basta!!!"

O pianista bateu com as mãos sobre as teclas, quebrando a harmonia,
transformando a bela melodia no mais profundo e desprezível barulho.
Um ponto final na melodia, no ritmo, na letra, na música.
Um ponto final.

Recolocou o pano de veludo no lugar e fechou a tampa do piano novamente.
Outrora quem sabe, noutra noite, voltasse a tocar.

Levantou-se com elegância, afastando o banco. 
Encarou o copo e pegou nele enquanto se movia em direção à saída do salão.
Refez o caminho para a casa em passos lentos, olhos brilhantes, punhos cerrados.
Assim que galgou os degraus, parou novamente na varanda.
Olhou para o jardim e para o céu, vazio e frio.
Sem lua, sem sons, sem vida.

"Até já, meu amor"– murmurou, fechando a porta em um só movimento.

Tudo ficou visceralmente escuro.
A não ser a decoração da piscina.

Do nada, o nevoeiro, um manto denso e espesso cobriu tudo, abafou tudo.
Mas, as velas não pararam de arder e as flores, teimosamente, ainda boiavam.

Um estalido ecoou por toda a casa, fazendo com que os cães nas redondezas
ladrassem devido ao barulho característico de um tiro.

Uma lembrança.
Uma consequência sem volta.
Uma dor sem cura.

Fez-se silêncio.
Puro, gritante, silêncio.

O homem estava à janela.
O homem permanecia imóvel.

Então, a noite chamou pela lua.
O vento levantou o manto e o céu estrelado cobriu o sítio da piscina.

O olhar do homem mudou.
A relva molhada e reluzente, revelara as pegadas.

O homem deitou-se.
A natureza respirou.
E o festim dos grilos voltou ao jardim.

sexta-feira

Sidewalk Confession



( musica de acompanhamento - Honey )

I tried to say something, but the words hid away in my quickly dying throat.


"Will you please stop looking at me like that!
You’ll make me cry.
Don’t worry...I know you have her... I don’t expect anything from you.
The least you can do is hold me.
You know how hard it has been for me lately!"


We crossed over to the other side and couldn’t help but pull her close
to kiss her trembling lips, the smell of the rain clinging to her hair,
intensifying my desire for her.
How soft and warm she was, my thin pullover denounced her hardened nipples,
pressing on my chest, enabling me from trying to conceal my eagerness for her.


"I want you!
From the bottom of my heart.
Believe me, I don't want to loose you.
But there’s nothing I can do right now.
I can’t decide now..."

"Because of her ?"- I nodded a yes.

"You still sleep with her ?"- I told her -"...now and then".

"Does she love you?"- I said it was complicated, confusing.
That I had lost track of us and that she had too.
That I owed her much and had to be responsible.
Even if she didn’t love me, as before.


"Let me tell you this"- she snuggled her face against my neck,
"I’m for real, real blood flows in these veins!
You’re holding me and I’m telling you that I love you!
I’m a bit crazy at times, I know...
But, I’m a decent, honest, hardworking girl.
I’m rather nice looking, I’ve got great tits!
And my cooking is alright.
I’m quite ok, don’t you think ?
What if I end up with someone else ?"

"I’m so sorry. I know. I can’t hold you back."- my voice sounded cloudy
It’s all I can say. I need time."

"But you do love me?"- her eyes pierced deeper into mine.

"Yes! Very much.You know that..."


She stepped away, a big childish smile lighting her face, filling my aching heart.


"Ok. I’ll wait.
Only...don’t hurt me.
I’ve been hurt enough.
I want to be happy now!"
 

I grabbed her near and kissed her passionately.
 

"For heaven’s sake man, let go of the umbrella, hold me with both arms !"

"But we’ll be soaked!"- I justified.

"Who cares! Just hold me! Stop thinking! Stop it!"


The umbrella’s fall was cushioned by the noise of tyres whooshing past,
ripping puddles, involving our embrace in the midst of the heavy summer rain,
turning it into gentle haze.
That day, the rain pressed on,
rolling down or cheeks,
her tears making their way to her belly,
sneaking in between her breasts.


"We’d better seek shelter!"- I picked up the umbrella.

"Yes!"- She laughed.
"Come, let’s go to my place.
I don’t want you catching a cold !!"- She laughed again.


With slippery hands holding tightly and childish faces long forgotten,
I put my arm around her as we made our way down the ancient cobbled road.