domingo

Chama Ardente



Ela desce a longa escadaria com degraus de granito
e um grosso corrimão de madeira escura.

As tochas, presas na parede fria de pedra aquecem o ambiente,
iluminando todo o salão mas deixando-o sempre na penumbra.

O meu corpo promete reagir aos seus movimentos leves, subtis e elegantes.
Lentamente ela desce as escadas, degrau a degrau,
sem nunca desviar os seus negros olhos dos meus, degrau a degrau,
aquele sorriso cativante que transborda, trepando as paredes,
passo a passo, aquele andar sensual,
como que de proposito para me deixar numa enorme inquietação,
o mesmo andar leve e carinhoso, o mesmo olhar terno e selvagem,
o mesmo baloiçar de uma leoa que cativa a presa antes de a atacar e matar.

Mas eu, naquele momento, já estou morto,
nada posso fazer contra ela,
não lhe poderia resistir e não a poderia vencer,
não sou mais do que um estúpido rato que avança para a ratoeira
porque o queijo parece delicioso,
mesmo sabendo que não terei oportunidade para saborear a refeição.
Mas vale a pena arriscar!

O seu corpo veste algo branco, não é tecido,
é um qualquer material, muito mais leve e transparente.
Não consigo tirar os olhos daquele corpo cheio de envolto.
O cabelo comprido, como que despenteado, parece um manto selvagem
que lhe cobre a cabeça, caindo sobre os ombros, atravessando o peito e as costas
acabando sobre a barriga como que a proteger e envolver o seu ventre.
Ela transmite toda a sensualidade e perversão presente na natureza.
Sobre as pernas que continuam a deslizar pela escadaria do salão encontra-se o meu refugio,
só quero estar junto a ela, nos seus braços, explorando todo o seu corpo entre pensamentos e devaneios, quero tocar cada ponto mais sensível e beijar cada pedaço de pele, tão suave e perfeita, tão quente e selvagem.

Mas ela sabe tudo o que eu estou a sentir e a pensar,
sabe de cor que não pensava duas vezes antes de encaixar o meu corpo no seu,
e eu sei que ela se prenderia a mim num só momento,
os seu olhar diz-me que não trocaria nada no mundo por uma noite de amor comigo.
Mas não para uma simples troca de loucuras , mas sim uma noite repleta de sentimentos, palavras e monossílabos, sons, arfares, suores, cheiros e sabores...
Ela sabe o que eu quero e não hesita em manter-me ali sentado, só a olhar,
enquanto se prepara para por o seu perfeito pé direito no degrau seguinte, sem medo...

Estou extasiado, sem me poder mexer... além da morte...
Estou cansado de esperar,
o ambiente está quente de mais,
as paredes sucumbem ás chamas em tons de amarelo e azul,
o fumo começa a causar-me náuseas,
os meus olhos já ardem,
e o calor nos dedos está a tornar-se insuportável !!

Com medo de me queimar deixo cair a fotografia...
Esta consome-se, transformando aquela bela figura em nada mais que cinzas.
Fecho os olhos por momentos.
Esfregue-os.
Volto a abri-los.

Inclino-me para a frente.
Agarro na pequena pá e atiro com o fino pó esbranquiçado.
As chamas irão extinguir-se durante a noite.
No ar continua o aroma amargo e forte do papel fotográfico queimado.

Levanto-me.
A lareira natalícia virou túmulo de cremação.
Pego nas minhas mãos e sacudo-as.
Arrependo-me.
Resta-me apenas a memória.

A não ser...que lhe peça outra....
Mas...dar-me-á ?

Vou dormir.

Tic - Tac



Pega no cálice e leva-o até aos lábios, permanecendo assim, numa doce provocação que pretende fazê-lo dar um passo em frente.
Quer mergulhar no mar escuro daqueles olhos, mas quer que seja ele a atravessar a sala e a vir até ela.
Provoca-o de novo, passando a ponta da língua no rebordo do copo e observa o olhar dele preso na boca insinuante.
Mas ele deixa-se ficar, impavidamente, observando-a nos seus gestos de mulher consumida pela promessa de uma noite juntos.
Os cerca de vinte metros que os separam não revelam a linha ténue que os une.

Olha para o relógio. Dá a entender que está na hora.
Procura os olhos dela.
Levanta-se.

Agora, sentado à sua frente, os mesmos olhos gritam-lhe silenciosamente o quanto a sua presença o afunda numa paixão
sem fim e o devassa.
Vamos até à varanda?
Pode ser...realmente está muito calor aqui...


Beija-a, enrolando a sua língua furiosamente na dela, enquanto os dedos apertam a curva dorsal num gesto de possessão de encontro ao corpo dele, pedindo que lhe mostre que também o quer.
E ela sorri simplesmente, vitoriosa por o ter à sua mercê,
mais uma vez.
Os dedos encobertos dos olhares alheios pelos corpos de ambos, avançam tacteantes pelo interior da perna dele até lhe tocarem.
Quero-te – sussurra, e passa a sua língua radiante pelos seus lábios, como se sentisse já o sabor dele entre eles.

O carro pára abruptamente.
Ele desce e dá a volta, abrindo-lhe a porta impetuosamente.
Também, muito – a voz meia rouca evidencia o desejo.
Sorri, semicerrando os olhos, e sentada, desaperta-lhe
o cinto das calças.

Segura-o entre as mãos, sabendo a carícia que ele deseja.
Aperta-o e desliza as mãos pela carne palpitante,
até ele a fazer parar.
Puxa-a por um braço, enquanto ela solta uma risada de puro desejo e encosta-a ao carro.
Rasga-lhe as colantes, arranca-lhe as cuecas, ergue-lhe uma perna e penetra-a com força, até se ouvirem os gritos que ecoam na noite e se projectam de encontro à lua.

Cheia.

Ela deixa-se cair no peito dele, corpos seminus, suados,
de encontro aos lençóis.
A janela do quarto deixa entrar a brisa que refresca a pele
que arde de paixão.
Beijos de lábios, sedentos ainda, mesmo depois de beberem da paixão que ambos carregam dentro de si.
Ele rebola o corpo e deixa-a deitada na cama, dirigindo-se para a casa de banho. Quando regressa, ela está quase adormecida.
Deita-se atrás dela, encosta-se ao corpo escaldante, desliza os dedos pelas suas costas até às nádegas, separando-as, passando os dedos por entre elas para a tocar como ainda a não tocou nessa noite.

Excita-a, introduzindo um dedo, dois, acariciando, massajando a carne que se vai rendendo ao desejo, molhando-se, entre suspiros e frases soltas que vão saindo dos lábios dela.
Está preparado para amá-la de novo, e ela ansiosa por o receber.
Não hesita e avança para mais uma viagem pelos caminhos da luxúria, agora, sem pressa, com ternura, com amor.

A manhã vem encontrá-los abraçados e o sol penetra por entre as cortinas para deixar um beijo nos seus rostos.
É mais um dia que recomeça naquele jogo que é a vida
composto de bocados...
de gestos, sensações, sentimentos, desejos, tristezas, alegrias, percas e conquistas.

O pequeno tic-tac faz-se ouvir no ainda silêncio presente.
Mais uns bocadinhos...que passaram...e que ficaram.