sábado

Amor Sangrento



Levantou-se assim que o Sol se escondeu no horizonte.
A casa a que se confinara estava vazia e silenciosa como um túmulo.
Abriu as portadas de madeira e cheirou a noite que se erguia lentamente.
Era hora de sair.
Era hora de se vestir, de negro, como sempre.

Em pouco tempo estava na baixa da cidade. Àquela hora ainda se encontrava repleta de pessoas que se misturavam entre si num frenesim angustiante como que procurando anestesiar carências existenciais e quotidianos medíocres que componham vidas de certo modo miseráveis.
Dois mundos cruzavam-se, um que acordara e outro que se preparava para adormecer.

O cheiro era de estranhos odores que se misturavam e tornavam quase num veneno letal de suor, fumo, esgotos e lixo. Há muito que o apurado olfacto dele procurava lidar com aquele cheiro e no entanto, ainda lhe causava nojo e repugnância, chegava mesmo a questionar-se quanto ao porquê das pessoas não verem e sentirem a imundice que os rodeava. Claro, isso trazia de volta as memórias enterradas, de quando ele, também, fazia parte daquele mundo.
Caminhava na parte de dentro do passeio, tão perto da parede que as pessoas apenas se afastavam dele quando casualmente o olhavam de frente.
Mas, para ele, não o viam.
Ele era o ser inabalável, diferente.

Depois de deambular pelas ruas labirínticas durante algum tempo e ao passar pela entrada de um bar, algo impulsionou-o a entrar e ele cedeu ao seu instinto.
Um balcão comprido, com luzes de néon vermelho a iluminar os contornos, hospedava alguns jovens que, em grupos alegres, falavam alto. Não era, de longe, o seu tipo de bar, mas sentou-se ao canto, perto da porta. O empregado de balcão aproximou-se prontamente e saudou-o, “Boa noite, companheiro. O que vai ser ?”
Sem saber o que responder, passou rapidamente os olhos pelas bebidas expostas à sua frente e apontou para primeira que viu.
Logo, um copo alto com um licor vermelho foi-lhe colocado à frente.
Irónico, pensou.
Ele sabia que não ia beber, mas ficou ali a contemplar a simplicidade daquela bebida naquele copo. A sua mente divagou durante alguns instantes até ao momento em que se questionou porque que era que o destino o levara até ali. Não o queria fazer, não podia.
Tinha prometido a si mesmo que nunca mais viveria aqueles momento outra vez, que suportaria a noite sem contemplações, sem sentimentos, sem ressentimentos.
Agora, estava a fracassar...mais uma vez.

Foi então que algo como um sussurro fê-lo olhar para as mesas perto das janelas grandes.
Sobre as cabeças dos jovens viu uma mulher, que olhava lá para fora.
Nesse instante soube, a sua alma comprimiu-se como não acontecia há um ano, era sempre a mesma sensação. A rapariga de cabelos lisos e face pálida perdia-se em pensamentos e sentimentos quase palpáveis para si. Os seus olhos, maquilhados de sombra escura, nem piscavam revelando uma abstracção total da realidade. Ele sabia porquê. Bastava olhar para ela. Era igual. Era tal e qual.
É claro que naquela t-shirt, calças de ganga e botas altas parecia uma outra qualquer, mas ele sabia que não, ele via-a como quem era, como quem foi...

Não esboçou qualquer reacção quando os olhos dela o encontraram ou quando ela se levantou ou quando ela se aproximou dele. Não queria.
Mas, a sua respiração e postura demasiado tensa, à sua passagem, traíram-lhe, e ela como que esperando um sinal ou simplesmente porque fora sempre assim, parou, virou-se e dirigiu-se a ele.
Agora, estava a fracassar.
“Boa noite”, a sua voz... a sua voz serena como águas lentas, continha os tons do passado, “Posso fazer-lhe companhia ?”

Pouco tempo depois já estavam em casa dela, deitados, mergulhados em beijos memoráveis, em carícias eternas e gestos de amor intemporais.
Ele revivia momentos guardados, momentos que lhe foram roubados, momentos presos a momentos como aquele, para sempre.

Matreiro, como era da sua natureza, o tempo passara despercebido até o relógio da igreja bater as seis da madrugada sobre a cidade.
“Tenho de ir!”, disse assustado.
“Não vás...”
“Tu não compreendes! Eu não sou como tu! Tenho de ir!”
Ela agarrou o seu braço com força e olhou fundo nos seus olhos.
“Não vás!” repetiu implorando, “fica comigo...não sei explicar...fica...não vás...”
Ele segurou-a pelos ombros.
“Tenho um segredo em mim que está para além dos teus sonhos.
Eu quero ficar contigo, mas não posso!
Nunca poderei, nunca !”
“Que segredo é esse? Porque sinto o que sinto, que te conheço, que há algo de familiar no meio disto tudo ? Deves-me isso!”, gritou soluçando.
Ele olhou para o lado, a sua mente pedia consentimento ao seu coração para proferir as palavras que iria dizer.
“Eu sou um ser diferente”, disse de olhos baixos, sem coragem para encarar os grandes olhos negros dela.

O mundo parou.

“E, de uma forma estranha, sinto que...eu sou tua...para sempre, não é ?”

Ele não podia responder, como explicar a violação das regras, o amor desmedido, a loucura, a tragedia, o feitiço...para todo tempo...
Como explicar o castigo...de lhe ser dado um amor eterno, em noites singulares, ano após ano, para recordar como era bom, para relembrar como era terrível...

Ela não fugiu, não o temeu... simplesmente abraçou-o.

Sentiu uma chama dentro de si a acender como um toque divino.
Sentiu-se vivo.
Abraçou-a também, fortemente, e sentiu a cabeça dela no seu peito.
Fechou os olhos tentando eternizar aquela sensação de plenitude.
Sucumbiu.

A realidade regressou repentinamente com uma forte dor.
Tão forte que o seu corpo se contorceu em dores.
Viu sangue.
Tentou afastar a jovem dele mas já era tarde.
Todo o seu peito estava manchado de sangue, o seu pescoço, o seu ombro.
Esse sangue que lhe era vital, que era maldito... até que tudo acabou.
Ajoelhou-se.
Deixou o corpo inerte deslizar para a carpete branca.
Passou a mão pelos lábios limpando o sangue que roubara.
Beijou-lhe os lábios imóveis e olhou-a com saudade antecipada.

Hora de ir.
Pensou se deveria negar-se a tal e deixar o sol fazer o seu estrago.
Não, apesar de horrendo, quereria vê-la...outra vez.

Silenciosamente, rodou a tranca e fechou a porta atrás de si.

domingo

Chama Ardente



Ela desce a longa escadaria com degraus de granito
e um grosso corrimão de madeira escura.

As tochas, presas na parede fria de pedra aquecem o ambiente,
iluminando todo o salão mas deixando-o sempre na penumbra.

O meu corpo promete reagir aos seus movimentos leves, subtis e elegantes.
Lentamente ela desce as escadas, degrau a degrau,
sem nunca desviar os seus negros olhos dos meus, degrau a degrau,
aquele sorriso cativante que transborda, trepando as paredes,
passo a passo, aquele andar sensual,
como que de proposito para me deixar numa enorme inquietação,
o mesmo andar leve e carinhoso, o mesmo olhar terno e selvagem,
o mesmo baloiçar de uma leoa que cativa a presa antes de a atacar e matar.

Mas eu, naquele momento, já estou morto,
nada posso fazer contra ela,
não lhe poderia resistir e não a poderia vencer,
não sou mais do que um estúpido rato que avança para a ratoeira
porque o queijo parece delicioso,
mesmo sabendo que não terei oportunidade para saborear a refeição.
Mas vale a pena arriscar!

O seu corpo veste algo branco, não é tecido,
é um qualquer material, muito mais leve e transparente.
Não consigo tirar os olhos daquele corpo cheio de envolto.
O cabelo comprido, como que despenteado, parece um manto selvagem
que lhe cobre a cabeça, caindo sobre os ombros, atravessando o peito e as costas
acabando sobre a barriga como que a proteger e envolver o seu ventre.
Ela transmite toda a sensualidade e perversão presente na natureza.
Sobre as pernas que continuam a deslizar pela escadaria do salão encontra-se o meu refugio,
só quero estar junto a ela, nos seus braços, explorando todo o seu corpo entre pensamentos e devaneios, quero tocar cada ponto mais sensível e beijar cada pedaço de pele, tão suave e perfeita, tão quente e selvagem.

Mas ela sabe tudo o que eu estou a sentir e a pensar,
sabe de cor que não pensava duas vezes antes de encaixar o meu corpo no seu,
e eu sei que ela se prenderia a mim num só momento,
os seu olhar diz-me que não trocaria nada no mundo por uma noite de amor comigo.
Mas não para uma simples troca de loucuras , mas sim uma noite repleta de sentimentos, palavras e monossílabos, sons, arfares, suores, cheiros e sabores...
Ela sabe o que eu quero e não hesita em manter-me ali sentado, só a olhar,
enquanto se prepara para por o seu perfeito pé direito no degrau seguinte, sem medo...

Estou extasiado, sem me poder mexer... além da morte...
Estou cansado de esperar,
o ambiente está quente de mais,
as paredes sucumbem ás chamas em tons de amarelo e azul,
o fumo começa a causar-me náuseas,
os meus olhos já ardem,
e o calor nos dedos está a tornar-se insuportável !!

Com medo de me queimar deixo cair a fotografia...
Esta consome-se, transformando aquela bela figura em nada mais que cinzas.
Fecho os olhos por momentos.
Esfregue-os.
Volto a abri-los.

Inclino-me para a frente.
Agarro na pequena pá e atiro com o fino pó esbranquiçado.
As chamas irão extinguir-se durante a noite.
No ar continua o aroma amargo e forte do papel fotográfico queimado.

Levanto-me.
A lareira natalícia virou túmulo de cremação.
Pego nas minhas mãos e sacudo-as.
Arrependo-me.
Resta-me apenas a memória.

A não ser...que lhe peça outra....
Mas...dar-me-á ?

Vou dormir.

Tic - Tac




Pega no cálice e leva-o até aos lábios, permanecendo assim, numa doce provocação que pretende fazê-lo dar um passo em frente.
Quer mergulhar no mar escuro daqueles olhos, mas quer que seja ele a atravessar a sala e a vir até ela.
Provoca-o de novo, passando a ponta da língua no rebordo do copo e observa o olhar dele preso na boca insinuante.
Mas ele deixa-se ficar, impavidamente, observando-a nos seus gestos de mulher consumida pela promessa de uma noite juntos.
Os cerca de vinte metros que os separam não revelam a linha ténue que os une.

Olha para o relógio. Dá a entender que está na hora.
Procura os olhos dela.
Levanta-se.

Agora, sentado à sua frente, os mesmos olhos gritam-lhe silenciosamente o quanto a sua presença o afunda numa paixão
sem fim e o devassa.
Vamos até à varanda?
Pode ser...realmente está muito calor aqui...


Beija-a, enrolando a sua língua furiosamente na dela, enquanto os dedos apertam a curva dorsal num gesto de possessão de encontro ao corpo dele, pedindo que lhe mostre que também o quer.
E ela sorri simplesmente, vitoriosa por o ter à sua mercê,
mais uma vez.
Os dedos encobertos dos olhares alheios pelos corpos de ambos, avançam tacteantes pelo interior da perna dele até lhe tocarem.
Quero-te – sussurra, e passa a sua língua radiante pelos seus lábios, como se sentisse já o sabor dele entre eles.

O carro pára abruptamente.
Ele desce e dá a volta, abrindo-lhe a porta impetuosamente.
Também, muito – a voz meia rouca evidencia o desejo.
Sorri, semicerrando os olhos, e sentada, desaperta-lhe
o cinto das calças.

Segura-o entre as mãos, sabendo a carícia que ele deseja.
Aperta-o e desliza as mãos pela carne palpitante,
até ele a fazer parar.
Puxa-a por um braço, enquanto ela solta uma risada de puro desejo e encosta-a ao carro.
Rasga-lhe as colantes, arranca-lhe as cuecas, ergue-lhe uma perna e penetra-a com força, até se ouvirem os gritos que ecoam na noite e se projectam de encontro à lua.

Cheia.

Ela deixa-se cair no peito dele, corpos seminus, suados,
de encontro aos lençóis.
A janela do quarto deixa entrar a brisa que refresca a pele
que arde de paixão.
Beijos de lábios, sedentos ainda, mesmo depois de beberem da paixão que ambos carregam dentro de si.
Ele rebola o corpo e deixa-a deitada na cama, dirigindo-se para a casa de banho. Quando regressa, ela está quase adormecida.
Deita-se atrás dela, encosta-se ao corpo escaldante, desliza os dedos pelas suas costas até às nádegas, separando-as, passando os dedos por entre elas para a tocar como ainda a não tocou nessa noite.

Excita-a, introduzindo um dedo, dois, acariciando, massajando a carne que se vai rendendo ao desejo, molhando-se, entre suspiros e frases soltas que vão saindo dos lábios dela.
Está preparado para amá-la de novo, e ela ansiosa por o receber.
Não hesita e avança para mais uma viagem pelos caminhos da luxúria, agora, sem pressa, com ternura, com amor.

A manhã vem encontrá-los abraçados e o sol penetra por entre as cortinas para deixar um beijo nos seus rostos.
É mais um dia que recomeça naquele jogo que é a vida
composto de bocados...
de gestos, sensações, sentimentos, desejos, tristezas, alegrias, percas e conquistas.

O pequeno tic-tac faz-se ouvir no ainda silêncio presente.
Mais uns bocadinhos...que passaram...e que ficaram.