quinta-feira
FNAC
Aprecia arte gótica? Perguntou-lhe, apontando para o livro.
Isto? Não. Tem é umas fotografias espectaculares. Foi apenas um pretexto para me sentar um pouco. São estes sapatos novos que me dão cabo dos pés, disse, com um sorriso de parar o trânsito.
Naquele momento o Paul Auster foi dar uma curva, mais o seu Inventar a Solidão, com a secreta promessa de, mais tarde, comprar o livro.
Conheço um creme, produto natural, que resolve isso em segundos.
Palavra? Que nome tem esse creme?
Sou péssimo para decorar nomes de cremes, mas sei que é um frasco com um rótulo verde e azul com plantas. Logo que o veja, identifico-o.
Se o desejar, podemos ir à loja dos produtos naturais...
Faz isso por mim?
Claro que sim, porque não ? Não custa nada, até fica no caminho.
Levantaram-se e dirigiram-se para a saída. Naquele momento, pensou que não tinha comprado o livro que pretendia. Esperava que o creme compensasse a perda.
Achou por bem fazer as apresentações.
Disse-lhe o nome e ela o dela.
Desceram pelas escadas rolantes e pouco depois entraram na loja de produtos naturais.
Aqui tem. Mas olhe que a aplicação deve ser acompanhada por uma boa massagem, disse-lhe, enquanto soltava um sorriso.
Aposto que o sabe aplicar, respondeu, e ele achou que havia algo de malicioso naquele olhar.
Em boa verdade, considero-me um perito.
Ora, uma mentirinha sem importância !
Mas deve estar com pressa...e na verdade...não a posso ajudar...
E agora? Tenho o creme, mas continuo com as dores nos pés.
Olhou para o frasco e depois para ele.
Alguém podia explicar, como é que uma pessoa se deve comportar numa circunstância daquelas? O facto de lhe ter oferecido o creme, nem chegou a dez euros, não provava nada! Que ele soubesse, a FNAC não era um local habitual para o engate. O que é que um pobre diabo como ele podia dizer numa situação daquelas?
Achou, que só uma coisa: na minha ou na tua?
Lembrou-se que a mulher a dias não ia ao apartamento há mais de quinze dias, um filho doente, tinha dito. Não era difícil de adivinhar o estado em que se encontrava. Não, o apartamento, não era, de facto, o melhor local.
Por outro lado, um conhecimento de poucos minutos não oferecia suficiente confiança para se convidar um desconhecido lá casa.
Depois, ele não era assim tão sortudo, a coisa normalmente funcionava com muito mais dificuldade e trabalho e nem sempre era coroada de êxito.
Não que isso o chateasse sobremaneira, na verdade preferia que o lado romântico prevalece-se. Um jantar à luz de velas, um passeio ao entardecer, horas escorreitas a conversar sobre a importância das futilidades, um beijo fugidio, uma tímida carícia. Enfim, coisas do seu intimo.
Se lhe dói assim tanto, posso dar-lhe uma sugestão, disse, com toda a seriedade estampada no rosto.
Diga. Sou toda ouvidos.
Aplicar-lhe o creme aqui nos corredores, não seria o melhor espectáculo. Se concordar podemos ir ao parque de estacionamento, senta-se no meu carro e eu faço o tratamento. O que acha?
Ao ver o meu carro, vai logo descobrir que sou um teso, pensou. Vamos ver se continua a dar trela...
Aceito...Mas pode ser no meu carro? Eu tenho mesmo de ir embora.
Nada mais lhe restava senão aceitar. Seguiu-a até ao estacionamento.
Num dado momento, ela colocou-se dois passos à sua frente.
Saia branca, justa, pois claro. Nada de fio dental. Ergueu os olhos aos deuses, profundamente agradecido. Não gostava assim tanto de fio dental. Preferia a descoberta ao descoberto.
E depois aquilo não dava trabalho nenhum, não oferecia resistência, não deixava adivinhar nada, não permitia o desvio, o deslocar...
Brancas, num V perfeito, indiscutível, marca bem visível.
Não tinha nenhum fetiche com cuecas, mas era da opinião que essa era a cor que melhor se moldava ao corpo de uma mulher. Achava o vermelho horroroso e o preto muito sexy. Bem, também não era assim tão contra a tanga...
Aquelas...ancas...eram...perfeitas. Ondulantes. Oferecidas.
Mas será que aquela mulher não tinha defeitos?
Virou-se enquanto ela abria a porta do lado do pendura.
Olho o parque de estacionamento em volta. Vazio.
Então, não entra ?
Claro...ia ficando de boca aberta...que pernas...pois ! pernas ! ... e não só ! onde estava a saia ? Como é que ela tinha feito aquilo ?
Assim fico com frio...
Ah...não ficas não...pensou...e entrou...
segunda-feira
Aventura Francesa
Ele aguardava-a ansioso.
Será que vinha mesmo?
Ou teria sido apenas um encontro casual e picante, uma mera coincidência, dois lugares num avião, lado a lado,
duas pessoas, sozinhas...
Ela entrou.
Não ouviu nenhum barulho. Parecia que não havia ali ninguém.
O corredor que passava pela provável casa de banho tornara-se imenso e o silêncio algo assustador.
De repente, sentiu o cheiro dele.
Ela já conhecia aquele perfume que tomava conta do ambiente,
uma consequência de assentos próximos.
Sentiu o calor do seu corpo perto.
Ficou imóvel.
Sentiu a mãos dele nas costas, moviam-se, de cima para baixo, fazendo com que um arrepio lhe subisse pela espinha acima.
Beijou-lhe a nuca. Mordeu-lhe a orelha.
Depois pegou-lhe na mão e conduziu-a quarto adentro.
O cenário era mágico...velas, incenso, uma música suave...
tudo parecia perfeito.
Sentou-a numa enorme e confortável poltrona, ajoelhou-se e tirou-lhe os sapatos de salto alto. Tinha apenas uns boxes pretos vestidos.
Ela sabia o que aconteceria dali em diante, ela desejava ser dominada, ansiava por ser a sua prisioneira...
Ele começou a beijar-lhe as pernas, subindo pelas coxas, erguendo o elegante vestido que ela trazia, expondo a cuecinha fina.
Ela gemeu e esboçou um sorriso, sabia que ele ia perceber o quanto ela já estava excitada.
Com os dentes, ora de um lado, ora de outro, ele fez deslizar aquela peça de roupa íntima para o chão.
Colocou-a de pé, soltou as alças pelos ombros, capultando o vestido na mesma direcção e beijou os seus seios quentes, percorrendo caminhos com a boca, provando a erecção.
Ela sentia o prazer. Entregava-se a ele. Desfazia-se nele.
Mordiscou-lhe os mamilos, passou uma mão na parte interna das suas coxas e ela não aguentou, contorceu-se e caiu para trás, na poltrona, pedia que ele continuasse, que não parasse.
Na cabeceira, estupidamente gelada, estava uma taça de champanhe borbulhante.
Ele levantou olhar, sorriu, bebeu um golo e passou a língua pelos lábios em brasa.
Bebeu mais um pouco. Olhou-a.
Ela mostrou-lhe que já adivinhara, e queria.
Gemeu alto.
Sentiu a boca dele tocar-lhe ao de leve, a preparar o caminho para o delírio, saboreando toda a sua intimidade, todo o gosto dela.
Não ia demorar muito, pensou, a sua respiração estava ofegante, intensa...depois...depois seria a vez dele...ser dela...
mas agora...
agora queria gritar!
domingo
Vazio
Aquela noite prometia ser amena mas corria uma brisa fresca como sempre acontecia por ali naquela altura do ano, apetecia-lhe o mar e uma música leve num bar.
Pousou o telemóvel no balcão, sorrindo com o vibrar de um sms. Leu. Suspirou.
Tinha estado ali, com ela.
Lembrou-se de quando a viu pela primeira vez, do exacto momento em que lhe serviam uma bebida, ele fingindo que não via, de novo, o olhar tímido e breve, mas intenso, tal como já tinha observado ao almoço.
Tinha-lhe pedido o número.
Insensato.
Mas ela tinha-o dado.
Encontraram-se depois no local que seria tão dos dois que o saberiam de cor.
Num meio de conversas e sorrisos de cumplicidade, vieram os abraços e bocas coladas em beijos que formavam abrigos naturais aos desejos contidos.
As mãos e os dedos percorriam caminhos que paravam, voltando atrás e ganhando outros ritmos que se ouviam juntamente com o som do mar.
Depois partiam.
Já não se olhavam mas entendiam que se quereriam de novo, afastavam-se após um beijo longo, envolvido num confortável silêncio em que passeavam as memórias dos momentos recentes.
Hoje, resolvera ficar por ali, mais um pouco.
Procurava esquecer a percepção dos acontecimentos e entregar-se aos sons únicos naquela praia sem ninguém, sentir as ondas calmas embalando o nascer da lua cheia, preenchendo-lhe a alma e fazendo com que se sentasse na areia, tranquilamente, admirando, apenas…
Apercebeu-se de como era tarde mas não ia correr, nem achou importante fazê-lo, caminhou, pensando, em tudo, a preocupação dissipando-se no entardecer, nas cores, na magia do crepúsculo e o cheiro a delícias do mar.
Observava o mundo à sua volta e pensava nela longe dali mas sem dúvida dentro do seu pensamento, dentro do seu coração...
Tinha saudades... muitas, imensas, cresciam descontroladas...uma mistura doce e quente que o envolviam e causavam uma certa dor e faziam crescer nele uma ânsia absoluta de a ver, de estar com ela, novamente.
Recordou o seu abraço, o seu beijo, os seus mimos... estava tudo presente.
Olhou o relógio. Lembrou-se. Lembrou-se dela, deles, dos momentos, das imagens.
Queria estar com ela, é o que sentia, e era o que apenas queria.
Repousou os olhos sonhando para dentro, os dedos caídos na areia.
Sentia-se a adormecer, na memória retalhos de emoções; abriu os olhos e olhou para o caderno que gostava de trazer consigo, na folha branca; desenhos abstractos, palavras soltas e frases riscadas.
Meteu as mãos nos bolsos e...deu uma gargalhada.
Tinha encontrado nele um isqueiro e um cigarro, mole da humidade da noite.
Endireitou-o com os dedos, levantou-se e caminhou em direcção ao mar. Tornou a rir.
Bocadinhos da marota!
Mas as horas...essas...não passavam...
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