domingo
Lua Cheia
Estava uma noite magnífica, o céu límpido e carregado de estrelas,
com a lua cheia a domar toda a imensidão daquele esplendor.
O jantar, num restaurante à beira mar, tinha sido bom, tranquilo e acolhedor.
A escolha, decisão nada habitual, tinha sido dela.
Estava particularmente bonita naquela noite, no seu vestido preto,
com o cabelo solto, meio selvático, como ele gostava ...
Subtilmente, tinha o obrigado a ficar a imaginar o que traria
por debaixo daquele vestido justo e sugestivo.
Tinham ido para casa dela...a pedido dela.
Imaginou que aquele pedido tinha uma segunda intenção.
Desconfiara disso.
Conhecendo-a como conhecia, só poderia esperá-lo algo...especial...
A luz da lua invadira o quarto.
Ela olhou-o e ele logo reconheceu aquele olhar intenso,
cheio de emoção, de provocação, de desejo.
Despe-me. Toca-me. Sente-me...sussurrou-lhe
Sorriu-lhe...
Aproximou-se dela e virou-a de costas para si, prendendo-a,
e reparou como o olhar dela fixava as imagens a reflectir
no enorme espelho que habitava a maior parede do quarto.
Começou pelo fecho do vestido, lentamente,
até antever a lingerie preta.
Depois, foi despindo-a, peça por peça...
Quando, finalmente, ela se virou para ele, nua, não pode deixar
de se rir daquela mistura sensual de vergonha e malícia que emanava
dos seus olhos grandes e brilhantes...
És uma tonta!
Agarrou-lhe a mão e foi-se deitar com ela.
Ficou, então, carinhosamente, a percorrer com a mão aquele
corpo de mulher que ansiava por ele...
Passaram minutos, passaram horas.
Tempos de cumplicidade, de envolvimento, de partilha,
de vontades, de loucura, de desejos...
a cada toque, a cada carícia, a cada reacção dela,
olhos que o fixavam umas vezes e outras se
fechavam, a mão dela que se agarrava ao lençol,
as dele que a envolviam e a traziam de encontro a si...
Estava uma noite magnífica, o céu límpido tinha dado lugar às nuvens
matreiras da madrugada e as estrelas cansadas da sua árdua tarefa, sucumbiam
perante a alvorada sorrateira.
Dentro do quarto escuro e silencioso, eles tinham-se encontrado, outra vez.
Mas o dia.....já não tardava......
terça-feira
Queria saber Pintar...
Parei.
Abri a cadeira de madeira e lona branca.
Silêncio.
O mar...
Gostaria de fechar os olhos e poder pintar os sonhos...
transcrever todos os encantos,
transmitir todo o sentimento
através de um pequeno quadro...
Salpicar a imensidão do desconhecido,
embelezar metamorfoses através de aguarelas,
criar a harmonia do próprio ser...
No vazio de uma tela nasce a arte de quem a vê...
olhos que expressam,
manifestações silenciosas
de químicas adormecidas...
Magia das cores,
traço de pincel que desliza,
em fundo branco...
Deixei-me levar...
Tentei pintar uma flor,
dar conteúdo aos sonhos,
Mas...
Não encontrei na palete das cores,
tons que transmitissem o seu encanto,
nem a forma ou a essência do perfume das suas pétalas...
Tentei pintar o céu,
retratar no espaço os sonhos,
Mas...
Nunca conseguiria demonstrar a sua imensidão,
nem representar o infinito num espaço tão limitado,
nem a magia nem a beleza das estrelas numa noite brilhante,
pontos de luz, encanto que ilumina a alma, danças distantes...
Tentei então, associar o sonho ao mar,
dar cor ao firmamento dos sonhos,
Mas...
Como fazer para ter todos os tons de azul que o pintam,
conseguir desenhar a sua força,
reproduzir o som do gigante que abraça a praia ?
Como pintar o algodão da crista das ondas que chegam e vão,
que guardam segredos imortais nas suas profundezas,
e alimentam histórias de quem o navega e contempla?
Pensei então, pintar os sonhos através de um coração,
porque sempre soube que os sonhos estão em cada um de nós,
Mas...
Não consegui encontrar um tom de vermelho
que representasse a Paixão,
a Vida...
Percebi que não seria capaz de esboçar
o encanto de um sorriso
na minha melodia de traços e rabiscos,
nem alguma vez conseguiria
a alquimia de transformar o Amor em cor...
Como o queria!
Queira saber Pintar!
Saber desenhar apenas,
o encanto de um beijo...
Suspirei.
Não se pintam beijos sem lábios...
Sorri.
Como te pintaria, eu, a Ti?
Olhei o horizonte e sentei-me.
Afinal, descrevera o sonho conforme o sentia...
Não o tinha pintado,
havia escrito,
apenas,
estas,
Palavras.
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