segunda-feira

Tempestade ( 2ª Parte )



Quando ele entrou, ela deixou as mãos descerem frouxamente e levantou os olhos,
para ele. Eram de um negro profundo.
Fechou a porta devagar.
Através das janelas e vindo de várias direcções e lugares, os relâmpagos
persistiam com a brincadeira das sombras.
No rosto dela, não viu surpresa, medo, tristeza ou qualquer outra coisa.
Caminhou até ao sofá à sua frente e sentou-se.
Olharam-se.
Ela esperou que ele falasse.

O que estava a fazer lá fora, no meio da estrada, com esta tempestade?
- perguntou, angustiado.

À espera de uma boleia - disse ela, com um sorriso leve, tímido,
baixando a cabeça.

Boleia? Está vestida para...vai a alguma festa ?

É...ía...quer dizer...fui - confirmou ela, olhando-o através de cabelos molhados.
Mas trocaram-me por outra pessoa.
Meti-me no carro e fugi de lá...queria ficar bem longe dele e de
toda aquela gente hipócrita.
Acabei por ficar sem gasolina...e logo no meio desta chuva.
Suspirou.
E você, Sr. …?

Ferreira...Miguel Ferreira...

Então, ela, estendeu-lhe a mão.

Mas ele hesitou. Estava furioso. Tremia de raiva.
Recolheu a mão.
Carolina Bátista. Mas pode chamar-me Carol - disse sorrindo.
Posso tratar-lhe por Mike?

Comportava-se como se nada tivesse acontecido!
Ele não pode retribuir seu sorriso, estava loucamente irritado!
Está morta! A minha namorada está morta!
Será que dá para entender?
Não se apercebeu de nada??
Não está boa da cabeça, ou quê ?? - explodiu.

O rosto dela mudou para uma expressão de surpresa e tristeza.
Não...Eu não sabia…- disse entre lábios trémulos.
Então...era você...na estrada...o acidente!
Eu matei alguém?… eu matei!..eu....
A última frase foi pouco mais que um sussurro pronunciado
por olho humedecidos.

Isso, quebrou a raiva.
Sentiu-se mal.
Claramente, ela não estava bem, devia estar em estado de choque, pensou,
e foi sentar-se ao seu lado no sofá segurando-a suavemente pelos ombros
enquanto lhe procurava os olhos e dizia - não, não se culpe, foi um acidente,
acontece, depois falamos com mais calma...Vai ver...
Mas ela tinha deixado cair a cabeça de encontra ao seu peito desatando a chorar,
provocando a sua imediata reacção, a de a abraçar.
O contacto com o corpo dela e o cheiro que o rodeou, fizeram lhe sobre-saltar,
algo estava muito errado, como podia ele sentir, daquela maneira, a pele dela...
a suavidade do seu cabelo longo?
Sentiu-se envergonhado, quase agoniado, como?
Detestando-se, empurrou-a para o lado e caminhou até as grandes janelas.

Amava-a? - perguntou, após alguns minutos de silêncio, de pé, atrás dele.
Não fique assim...
Foi um acidente! Você mesmo disse...Eu nunca...

Voltou para encará-la mas logo perdeu a força de resposta.
Ela olhava-o com olhos sedutores.
Temeu que ela tivesse notado o que estava a acontecer dentro dele,
era como se ela conseguisse ver a luta que ele já travava.
Era uma sensação forte, esquisita, algo que não conhecia, algo que o deixava perturbado.
Estaria a ficar assustado?

Os trovões rachavam o céu, a escuridão era quase total mas a chuva caía
com menor intensidade.
Em breve a tempestade daria lugar à imensidão da noite vazia e gelada.
Poderia então voltar ao local do acidente, era necessário tratar de tudo, chamar a policia...isso...precisava de encontrar o telefone...o telemóvel...deu conta que o perderá
..ou estaria lá...

Ela quebrou os seus pensamentos desordenados e aflitos.
Está frio aqui. Vamos acabar por apanhar uma pneumonia com estas roupas molhadas.

Haveria uma segunda intenção por detrás daquelas palavras?
Deu uma olhadela na direcção da lareira e viu o cesto largo e deformado de verga escurecida meio cheio de lenha. Levantou-se e procurou algo com que fazer lume, mas em vão.
Lembrou-se das acendalhas que a Rita tinha comprado no fim de semana anterior
para uma noite romântica...para a qual ele não tivera tempo...
A imagem dela, de repente, assombrou-lhe.
Se calhar nada daquilo era real, se calhar não passava tudo de
um sonho singular e diferente...

Um trovão tremendo sacudiu as janelas como se de folhas de acetato se tratasse.
A tempestade, afinal, tinha vindo para ficar e o vento atirava a chuva de forma
impiedosa para todo lado e lado nenhum.
Miguel sabia o que viria a seguir. Já tinha vivido situações similares.
Um tornado podia estar a caminho!

Esta casa…Ela assusta-me. Carol encolhia os ombros e abraçava-se.

Parece desabitada faz tempo - disse ele. Mas nenhuma casa alguma fez vez mal a alguém.
Agora, quem vive nelas...enfim...
É melhor descansar-mos. Vai ser uma noite muito longa.
Vou só trancar as portadas das janelas e as portas. Evite os andares de cima.
Veja se há uma cave, um local onde possamos ficar recolhidos em segurança até isto passar!
Logo depois de o ter dito isso, arrependeu-se.
A casa era enorme e escura.
Mas, Carol tinha aceite a sua sugestão e saiu do salão sem qualquer sinal de contrariedade.
Concluiu a ronda pela casa e chamou por ela, dando-se conta que fazia tempo que a não ouvia.

Aqui amor, estou aqui.

De imediato um arrepio percorreu-lhe o corpo.
Não podia ser, os acontecimentos bizarros estavam a produzir os seus efeitos.

Vem amor...porque demoras tanto??

Mais uma vez sabia que devia ir, ir embora daquele sitio...mas não conseguia
...era demasiado forte, a sensação de medo e inquietude produziam um bem estar que o dominava, que o impeliam a ficar...a ir ao encontro daquela estranha...

Achou as escadas e desceu ao piso inferior. Os seus passos eram leves e silenciosos.
As escadas davam lugar a um corredor relativamente estreito com cerca de 30m,
mal iluminado pela luz que escapava por entre a fecha de porta entre aberta.
Um quarto grande com uma cama de casal próxima da janela foi revelado pelas escassas e já gastas velas que ardiam enraizadas nos castiçais que também já ostentavam um uso secular..
As teias de aranha deixavam-o desconfortável, mas duvidava que pudesse encontrar um só canto livre delas em toda a casa.
Ela estava sentada, de costas, uma visão deslumbrante.

Ao rugir do trovão seguinte, e ela caminhou até ele e os seus braços envolveram-lhe o corpo,
tão forte quanto podiam.
Por favor - choramingou ela - Fica comigo. Estou com medo.
Mal ele lhe acenou com a cabeça, ela pendurou-se no seu pescoço e beijou-o com fervor.
O que sentiu não poderia ser descrito.
Mas, no momento em que os seus lábios o deixaram, a terrível imagem de Rita a jazer no carro, ensanguentada, imóvel, tomou-o de assalto.

Não gostaste? - perguntou, entre surpresa e desapontamento.

Olha...gostei...mas não podemos…

Não respondeste, amavas ela?

Isso não tem nada haver, isto não pode...

Amavas?

Estávamos juntos. Eu não posso…

Amavas?

O que que isso interessa?
Miguel tentava resistir, pesava-lhe a consciência, os seus princípios, força de vontade,
sabia que estava prestes a desmoronar diante de algo que o ultrapassava.

Eu prometi nunca trair a sua confiança - disse como último esforço.

Miguel...ela está morta - disse Carol, baixo, mas enfaticamente.

Não sabia mais o que pensar dela.
A garotinha de há momentos, era agora uma mulher calma, firme e...dominadora.

Nós estamos vivos - continuou ela - E pertencemos um ao outro.
Como sempre foi. Desde o primeiro instante, desde sempre.
Não podemos mudar isto !

O eco das suas palavras tomavam conta do lugar, enfraqueciam a sua vontade,
apelavam à sua virilidade.
Ela vencera, e ele sabia disso.

Foi devagar até a cama, sentou-se nela e começou a acariciar a coberta.
Uma nuvem de pó elevou-se, fazendo-a parar, sorrindo maliciosamente.
Com gestos fluidos e sensuais, começou a despir-se, olhos sempre grudados nele, boca murmurando palavras doces mas incompreensíveis.
Miguel foi-se sentar na cama e contemplava aquele bailado quente e cativante.
Um corpo belo e esguio contorcia-se ao ritmo de uma musica tempestuosa e ele reparou como ela parecia ficar cada vez mais excitada.
Já totalmente nua, veio ter com ele, de pé, em cima da cama, sorriso aberto, mãos a puxar o cabelo para trás.
Miguel sabia que nunca voltaria a viver um momento semelhante.
Olhava o corpo sensual dela, inspirava o aroma que vinha dela, deu conta do fiozinho brilhante
que corria por uma perna abaixo, e sentiu um desejo desmedido quando ela se ajoelhou
à sua frente, mamilos erectos, a pedir a sua boca.

Ama-me!

Um estrondo atingiu o lugar e tudo ficou iluminado.
Sentiu-a em cima dele, sentiu-se viril e duro.
Sentiu-a a enterrá-lo bem dentro dela.
Uma dança frenética e selvagem tomará conta dos dois corpos que se perdiam,
um no outro, prazer atrás de prazer, fusão perfeita de amor, desejo feito paixão.
Miguel deixou-se levar, não importava procurar o sentido de tudo aquilo.
O que estava a sentir não era descritível.
Queria amá-la!
Virou-se para cima dela e viu como ela lhe sorriu enquanto o recebia.

A noite ia ser longa...e muito molhada...mas a tempestade, essa, estava fora de controlo.
Ali mesmo...

(cont.)

Tempestade ( 1ª Parte )



A tempestade tinha-se intensificado rapidamente e a visibilidade era mínima.
Pela terceira vez, disse que ia parar, mas ela insistiu que continuassem,
argumentando que se quisessem dormir no carro, então,
deveriam ter ficado onde estavam.
Achou-lhe graça, sobretudo à forma como ela franzia a testa e abria os olhos
para fazer jus ao seu intento, e era verdade que àquela hora a estrada estava completamente deserta, o que lhe retirava grande parte do perigo...pensou.
Havia apenas a estrada, a chuva, e a escuridão.

E de repente...!
...uma jovem num vestido branco!
...ajoelhada no alcatrão!
...cabelo comprido!
...Depois!!
...braços estendidos à frente!
...uma expressão apavorada no rosto..!
...exactamente ali!
...em frente !!


Pisou com toda a força no travão enquanto virava o volante desesperadamente...!
...um ensurdecedor trovão abafou o grito que ele não conseguiu distinguir...
...nem tão pouco sabia se tinha conseguido desviar-se...
...a sua manobra tinha colocado o carro fora da estrada...
...a deslizar perigosamente na lama...
...como se uma mão invisível o estivesse a empurrar naquela rota fatal...

Reconheceu o grito que se seguiu.
Deu conta do seu próprio grito.
Então...tão rápido como tinha começado,
...aquilo acabou...
...abruptamente...
...com um tremendo impacto !

Estava escuro.
Mais escuro que antes.
Não havia qualquer luz.
A chuva fustigava o seu rosto através do pára-brisas quebrado.
À sua direita, um braço ensanguentado, imóvel, projectava-se
do meio de um monte de metal retorcido.
Gritou por ela !
Freneticamente, procurou por sinais de vida.
Nada!
Segurou-lhe na mão...
Queria gritar...pedir ajuda...fazê-la acordar...sair daquele pesadelo ..!

O céu, iluminado de riscos descontrolados, delineou a sombra assassina.
Estava ali, diante dele, imponente, impiedoso.
Durante um longo minuto, fixou o olhar inflamado no carvalho imóvel.

Os relâmpagos cortavam a noite novamente e ele conseguiu vislumbrar
uma velha casa de madeira à distância, não muito longe, e com alguma certeza...
alguém a correr por entre as árvores...
O próximo relâmpago não tardou e por um breve momentos, viu-a de novo...
Era ela!
Era a rapariga que tinha atropelado ! Atropelado ?? Como...?

Com ira crescente, arrancou o cinto de segurança, forçou a abertura
da porta e com algum esforço, rastejou para fora da viatura acidentada.
Ergue-se e sem perceber começou a andar na direcção da casa.

Novo relâmpago.

Sim! Tinha a certeza! Era ela!
Dessa vez, pareceu-lhe que tinha olhado para trás e que o tinha visto...
mas rapidamente esgueirou-se pelos enormes portões da velha casa,
subiu uns quantos degraus e desapareceu...

Seguiu-a...instintivamente...pensamentos confusos a percorrem-lhe
a mente enquanto avançava pela mata...ódio...alívio...estupfacção...
Poderia realmente culpá-la pelo acidente?
Provavelmente estaria tão perturbada quanto ele...e apesar de tudo,
...estava viva...


Numa corrida cambaleante, passou entre os portões balouçantes e
alcançou os degraus da entrada, onde, sem saber exactamente porquê,
deteve-se, hesitando.
Algo lhe dizia para correr de volta para carro...estava prestes a fazê-lo
... mas… e..?
Tinha de encontrá-la...tinha que falar com ela!

Girou a maçaneta ferrugenta.
Com uma surpreendente leveza,a pesada porta abriu-se.
A inquietante sensação cresceu.
Dobrou-se ,ajoelhando-se.
Não conseguiu evitar os vómitos que tomavam conta de si.
Reparou que sangrava abundantemente do joelho.
Subitamente, a frequência dos relâmpagos aumentou e
uma luz intensamente sombreada, de clareza sobrenatural,
iluminou a grande sala de estar.

A rapariga do vestido branco estava lá, sentada sobre
um enorme lençol branco que deixava adivinhar o sofá que cobria.
Escondia o rosto entre as mãos...mas...pareceu-lhe...que sorria...

(cont...)

sexta-feira

Chuva Cantada




Olhava a chuva que caía com força oblíqua.
Ergeu os ombros, inclinou a cabeça para trás e comprimiu a nuca na
tentativa desesperada de extinguir a dor de cabeça que se apoderava dele.
Fechou os olhos.
Inclinou-se para trás na cadeira e respirou fundo.
Perguntou a si mesmo o que estaria a sentir naquele momento, mas o
barulho ensurdecedor de pneus molhados e o constante martelar
vedavam a possibilidade de qualquer resposta sã.
Levantou-se e escolheu outro lugar onde se sentou, afinal, por vezes o
simples facto de mudarmos de sítio,pode alterar temperamento e emoções.
Voltou a fechar os olhos.
Não pode deixar de sorrir – aquela canção tinha que tocar !
O barulho era,agora, menor.
A voz sensual da cantora tomará conta do local e as palavras cantadas
ganhavam vida própria.

Esboçou novo sorriso.
Ocorreu-lhe que as canções tinham bastante em comum com os horóscopos.
Quase por magia,cada pessoa reconhece e intrepreta-os à sua maneira,como se
de facto fosse possível atribuir uma verdadeira e específica individualidade
aos mesmos. Era mesmo espantoso!
E depois? Que tinha isso de tão mau?
Quem não terá associado a uma canção,ou outra,um determinado acontecimento ?

A canção atingira o ponto fulcral.
Quadros invasores de imagens intensas sobreponham-se, ficavam a pairar por ali...
não havia como evitar...como contornar...
Por vezes conseguiam ser tão reais que ele apurava com facilidade os cheiros
e sons que deles emanavam.

Abriu os olhos.
A chuva tinha dado lugar a um sol radioso.
A canção terminará.
Tocaria outra vez, provavelmente dali a umas horas.
Tocaria durante dias a fio até perder o seu encanto junto dos milhares que apenas
a ouviam como uma qualquer outra canção, estava irremediavelmente condenada a ser guardada por alguns que a nunca esqueceriam, que fariam dela memória cativa
de situações vividas e jamais apagáveis.

Levantou-se e foi até a rua.
O sol ameaçava fugir e esconder-se.
O transito fluía.
Cães ladravam.
Conversas de esquina.
Crianças a brincar.
Era só mais uma manhã de um quotidiano ritmado ao som da vida.

Na fila de transito que se formará por instantes, um carro atraiu a sua atenção.
Apercebeu-se das lágrimas que nasciam debaixo de uns óculos grandes e escuros
e que não paravam de correr desalmadamente.
Franziu a testa, semicerrou os olhos.
Aquela canção...aquela canção tocava...dentro daquele automóvel..!

Sentiu-se triste.
Não conhecia quem chorava.
Mas entendia.
Pena era, que nem sempre a mesma canção conseguiria trazer o sol
a quem a escutá-se,mesmo depois,
de uma chuva cantada.