segunda-feira
A Janela
Ela gostava de fazer amor com a janela aberta
e sentir o ar fresco aliviar-lhes o suor dos corpos,
ou noutras alturas ouvir a chuva forte cair,
a impulsionar-lhes o ritmo do sexo que juntos inventavam.
Mas naquele dia apeteceu-lhe uma coisa diferente.
Levou-o até à janela.
Queria sentir-se liberta das amarras
que as paredes lhe transmitiam.
Percebia-se invadida pela luxúria, pelo desejo,
pela vontade de senti-lo dentro de si.
Nem precisou dizer-lhe o que quer que fosse.
Entendiam-se pelos sentidos.
Ele aproximou-se dela e encontrou-lhe
as costas com o seu peito.
Encostou-se.
Envolveu-a com os braços.
Ela permaneceu imóvel.
Ela queria senti-lo, só.
Abandonar-se no seu corpo.
Desceu o peito dela com as mãos,
desde o pescoço, passou o umbigo
e chegou-lhe ao sexo, quente,
latejante, ansioso, desesperado.
Sentiu-lho.
Provocou-a.
Fê-la gemer.
Inclinou-se no parapeito.
Ele enlouqueceu de desejo quando a viu assim.
Despojou-a da roupa, já de si leve.
Queria unir-se a ela, sem entraves.
À medida que o fazia, via a pele dela
E sentia o seu cheiro, que sempre o inebriava.
Ficou a olhá-la por breves momentos, assim, tão... sua!
E depois penetrou-a.
Mais e mais e mais... até serem um só.
Um ser único
Naquele quarto
Junto àquela janela...
terça-feira
És uma tretas!
A pequena casa de campo encontrava-se isolada de tudo e todos.
Do relvado frente à sala, que abria sobre a mata de carvalhos,
podia sentir o cheiro molhado da chuva nocturna.
A manhã trazia um sol tímido que se limitava
a espreitar pela bruma, deixando adivinhar que
a próxima estação tinha despontado.
Era já visível o início daquele que seria um
manto de flores selvagens e por toda a parte pequenos ramos
de arvoredo sarapintavam-se de varicela primaveril.
Mais um mês, e todo aquele quadro estariam perfeitos.
Para o casal de esquilos, que dali avistava,
saltitando e roendo,já tudo parecia perfeito.
Da sala chegava-lhe ainda o cheiro acolhedor da lareira,
que acabara por se apagar durante a noite.
Era necessário reacendê-la, pensou.
Quando saíra do quarto para ir fazer café, ela dormia ainda,
o seu corpo seminu sobre os lençóis.
Era uma visão que retinha a cada momento...
Os cabelos compridos, em desalinho sobre a almofada,
cobriam-lhe parcialmente a cara.
Olhos serrados por uma cortina de pestanas,
sob as sobrancelhas cuidadas.
Nariz enterrado na almofada, lábios carnudos esboçando
ainda o sorriso do prazer com que adormecera.
Pescoço esguio, alargando ligeiramente em baixo para
os ombros torneados onde se abrigara de noite.
Seios tenros, movimentando-se ao ritmo da respiração lenta,
que não traíam a agitação por que tinham passado,
os mamilos cor de pêssego,que ao seu toque na véspera
pareciam ganhar vida própria,repousavam agora diluídos na carne.
Uma ponta pudica do lençol que permanecia entre as suas pernas e lhe cobria o umbigo que sabia bem talhado, deixava ver as ancas arredondadas e generosas que eram a parte visível das nádegas, as coxas, que o tinham abraçado em brutais amplexos, repousavam agora emoldurando o lençol,
lençol que lhe escondia da vista o vale húmido onde tanto de si se tinha perdido durante a noite, ou, como ela gostava de dizer, sentia que ele a completava.
Sim, dormia ainda, e ele não quisera acordá-la
ao levantar-se para ir fazer o café.
Tinha acabado de encher uma caneca que fumegava e aquecia as mãos perdido nas recordações.
Foi então que ela apareceu, envergando apenas, sobre o corpo nu, uma camisola velha de algodão grosso, quase desfeita no cós de tanto uso, que lhe pertencia e que guardava numa gaveta destinadas a roupa que trazia por ali.
Ficava-lhe bem.
Atrás tapava-lhe o rabo que, empinado, parecia querer mostrar-se,
à frente, ligeiramente subida pelos seios que nunca antes albergara, ameaçava a qualquer momento descobrir o que, até há pouco, o lençol teimara em cobrir...
O cheiro a café, que tinha chegado ao quarto com aquele magnifico aroma quente, acordou-a. Sorrateiramente, vestiu a primeira camisola que encontrou e dirigiu-se à cozinha com o sorriso com que havia adormecido na noite anterior, ainda com o cheiro dele cravado no corpo e sobretudo na alma.
Encostou-se na ombreira da porta e deteve-se a ver aquele homem, cabelos cuidados, tremendamente sedutor, definitivamente, a vida tinha sido generosa para com ele em certos aspectos, conservava um certo ar de reguila, de rapaz sonhador.
Vê-lo ali de tronco nu, boxer negro, pele lisa e cheirosa, a preparar um café para eles, era algo.... tremendamente belo...excitante. O movimento com que o fazia, a maneira como se mexia, deixava perceber uma forma corporal dominada, e por dentro daquele corpo...tinha que ser um homem bom, generoso, culto, elegante... pensou, enquanto o apreciava e percebia o quão feliz era, por tê-lo para si, naquele momento.
Sem que desse por isso, ele avistou-a.
Ambos perceberam que o que tinham vivido naquela noite de amor e desejo não era um sonho, mas muito real.
Sorriram um para o outro, ela inebriada pelo cheiro do café que vinha da chávena que ele segurava, ele fascinado pela beleza que aquela imagem carregava - uma velha camisola de algodão sua a cobrir o corpo daquela mulher.
Bom dia!
Bom dia minha estrela… dormiste bem?
Sim, muito bem… e tu? - Perguntou com um sorriso quase infantil e igualmente sensual nos lábios, enquanto roçava uma perna ao de leve na outra e bocejava sedutoramente.
Maravilhosamente bem, queres? – Mostrou-lhe a chávena que fumegava nas suas mãos.
Caminhou para ele, em bicos de pés, o que fazia subir a camisola, ligeiramente, deixando antever as ancas, e ele quis, secretamente, que a camisola encolhesse naquele momento… o chão estava gelado aliás como toda casa em si, pegou-lhe na chávena, pousou-a em cima da mesa, olhou para ele, ajeitou uma madeixa de cabelo e beijou-o meigamente nos lábios macios e delicados.
Com isto, afastou-se, caminhando lentamente até à janela do outro lado do quarto.
Abriu os cortinados.
A manhã está linda.
Eu sei...vá, vem beber o teu café...
Agora não, fiquei com frio...
Soltou uma gargalhada marota
Depois… bebemos depois...
Terminou o seu café.
Olhou-a. Pousou a chávena.
És uma tretas !
Tapete
Chegou um som da porta.
No início, indistinto.
A água e as mãos ensaboadas faziam uma tempestade
sobre os seus cabelos.
Depois, mais forte. Batidas.
Gritou “ Já vai !”
Fechou a água, enrolou-se numa toalha e foi
apressadamente para o quarto.
Enquanto uma mão esfregava vigorosamente, a outra vasculhava a primeira gaveta.
“ Já vai ! Espera !”resolveu gritar, antes que batessem novamente.
A correr, vestiu a cuecinha branca, velha conhecida do fim-de-semana sozinha em casa, e enfiou-se no pesado camisolão vermelho que domava qualquer espécie de frio que ousasse fazer-lhe mal.
Francamente, quem quer que fosse naquela noite chuvosa, não se iria importar de vê-la à vontade, e se ligasse, que fosse para o inferno até porque eram onze e tal da noite !
“Já vou !”
Primeiro o desodorizante, depois o perfume,
e saiu a correr para a sala.
Deu uma vista de olhos rápido ao caos que a rodeava – as roupas no chão da casa de banho, louça por lavar, almofadas espalhadas no tapete da sala...
E o pó ! Que se lixe !
Sentiu o vento frio nos pés.
Tinha-se esquecido, outra vez, de comprar o friso de protecção para a porta de entrada.
Sentiu o metal frio na mão amaciada pela água quente do banho.
Girou e abriu.
Mas a lufada de ar gelado que sempre acompanhava o movimento não aconteceu.
Ele barrava o vento.
Estava imóvel e estava a fazer uma verdadeira poça de água no seu soalho !
Olhou para ele.
Cabelos escorridos, camisola agarrada ao corpo, as jeans pesadas, a poça a aumentar !
Mesmo assim, era ele.
Mal podia acreditar.
“Tu?” Contemplou o rosto dele com a vagueio que somente as memórias conferem às expressões humanas. Nem nos mais loucos devaneios conseguira acreditar que um dia o veria novamente.
Há quantos anos não o via?
Trovejou. Não conseguiu dizer nada. Afastou-se, abrindo passagem.
Fechou a porta mecanicamente. Esqueceu-se de trancá-la.
Tornou a olhar para ele.
Sem pensar, estendeu a toalha húmida e esquecida no ombro.
Não pensou em arranjar uma seca.
Nem pensou na provável necessidade de um banho para aquecê-lo.
Não conseguia pensar.
“Eu vou buscar...roupa seca.”
Há quanto tempo, mesmo, não o via? Sete, talvez oito anos.
“Eu vou lá ter...”, era o que ele lhe tinha dito quando se despediu dela, “Eu não vou mais esperar...”, tinha sido sua resposta.
Fechou a gaveta, camisa de flanela e jeans penduradas na dobra entre o braço e o antebraço.
E agora, ele estava ali !
Outro trovão irrompeu lá fora.
Um chá quente. Era disso que ele precisava.
Sentiu um arrepio. O vento ainda conseguia entrar no apartamento.
Do corredor, gritou “vou fazer um chá, troca-te no quatro, ainda te devem servir...”
Parou meio atrapalhada, não o tinha visto passar, já estava na cozinha, a encher o bule.
Carregava no botão do isqueiro e girou o de gás.
Ele estava ali.
Só parou de olhar para a chama azul quando sentiu o cheiro de água fervente, um cheiro característico, bastante curioso, só quando se ferve água em recipientes de alumínio. Porra! Tinha deixado ferver. Não ia dar um bom chá. Colocou as saquetas na água.
Um relâmpago iluminou a janela da cozinha. O cabelo húmido no pescoço causava-lha arrepios. Pegou na manta.
Lembrou-se de quantas noites aquele cobertor tinha acalentado sonhos e enxugado lágrimas.
“Princesa...”
Assustou-se.
Por um momento, tinha enveredado por um trilho de memória.
O som do seu nome naquela voz grave e baixa trouxe-a de volta.
Ajeitou a manta sobre os ombros, prendendo-a com uma das mãos.
Ergueu a cabeça e foi para a sala.
“Onde posso pôr isto?” mostrou-lhe a roupa e a toalha ensopada.
“Dá cá. Foi até à casa de banho e demorou-se a voltar.
Ele estava no sofá, sentado. Não ficaria ali, ao lado dele.
Ficaria bem no tapete, encostada entre as almofadas,
tapada pela sua manta.
“A Maria?”
Ele fez que não com a cabeça. Os olhos grandes e castanhos completavam o silêncio, não havia mais Maria. Desde quando? E porquê? E porque estava ali? Como a tinha encontrado?
E porquê, principalmente, tinha sentido o coração pular uma batida quando abrira a porta?
Outros já tinham ocupado aquele mesmo lugar!
Ou tinham ?Aquele mesmo? Mesmo?
Não queria saber ! E depois ? Tremeu. Atirou-se de encontrou a ele.
O hálito quente humedeceu-lhe a face, perto da orelha.
Rodeou-lhe a cintura e aninhou a cara no peito agora seco e coberto com a sua preciosa camisa. Sentiu o apoio duro do queixo e a pressão leve mas intensa do abraço nas costas.
Poderia morrer assim.
Sem perguntar. Sem querer saber.
Só sentir. Sentir e fazer-se sentida.
Durante a noite choveu ininterruptamente.
A água lavou as ruas, as estradas percorridas,
os caminhos esquecidos e refrescou as folhas castigadas
pelo vento que soprara sem cessar.
No apartamento, o chá ficara esquecido sobre o fogão.
A manta cobria o tapete.
Cobria dois corpos que dormiam, transpirados,
agarrados, ali, no tapete.
No tapete que ele, em tempos, lhe oferecera.
domingo
A Casa
Escuto o som do vento
que traz o manto branco.
Estás lá. Tu.
No vazio
perto da casa.
Sinto a sombra.
O perfume sobrevoa
entre labirintos escondidos.
Olho para ela, a casa.
Retrato de um tempo,
quadro de memória pitoresca.
Procuro outro som.
Aguço sentidos
que provocam sensações.
O encher de abraços
de sonhos adiados,
exaustos, atados à imensidão duma noite.
Misteriosa linguagem, esta.
Entre mim e a imagem
que me enche o ser.
Perco-me entre a casa
e o chão que piso
como se aqui tivesse vivido.
Caminho, caminho sem máscara.
Recomeço onde a realidade parou
em tempos, por momentos.
Preso à memória
sinto-te de novo, vejo-te,
cobre-te um sorriso, no rosto.
Não me despeço.
Hei-de voltar
para te encontrar.
Hoje, o destino assim quis.
Encoberto do mundo,
reencontrei, um pedaço de mim.
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