segunda-feira

Roupa



Era de madrugada.
Levantou-se, dirigiu-se à cozinha para beber água.
Não tinha sede mas beber água era a desculpa para sair da cama
e decidir o que fazer a seguir.
Ocupar-se e não pensar!
Não tinha sono mas os olhos estavam como que inebriados por uma espécie de névoa que mais parecia miopia que ia e vinha, que saltava de olho para olho.
Levantou o estore e abriu a janela.
O frio não o teria impedido de fumar um cigarro.
Mas, ele não fumava...
Sorriu.
O frio, que era tanto, não lhe congelou os pensamentos.
Isso queria ele, mas não.

Voltou para dentro, sentou-se em frente ao computador e quis escrever.
Ainda estava gelado. Dois minutos na varanda tinham chegado para lhe gelar a pele, a carne, os nervos, o sangue, os ossos, mas não o pensamento.
Era da roupa, só podia, afinal estava apenas de boxers, meias
e a parte de cima de um pijama.
Olhou para o ecrã do computador.
O que iria fazer? E iria fazer alguma coisa?
Talvez voltar para a cama.
Queria escrever, precisava escrever, deixar sair palavras, palavras atrás de palavras, mesmo que sem nexo algum.
Estava com frio, ainda com muito frio, mas descalçou as meias.
Colocou os pés descalços no chão gelado.
Queria que o frio lhe subisse pelas pernas ao ponto de se convencer de que era melhor ir-se deitar e deixar-se adormecer.
Precisava de escrever mas não sabia o quê.
Tinha tantas, tantas coisas para escrever mas não conseguia escrever nada.
E não era por causa da falta de sono, não era pelo frio da rua,
não era pelo chão gelado nos pés!
Era por causa daquele pijama ! Convenceu-se disso. Tirou-o depressa.
Desligou o computador e de passo apressado dirigiu-se para o quarto.
Abriu o roupeiro e puxou a gaveta do fundo, para si.
Será que ainda lá estava?
Sim!
Devagarinho, retirou de lá uma camisola com mangas compridas.
Agarrou-a entre as mãos, aproximou-a do seu rosto e cheirou-a.
Mesmo antes de chegar ao roupeiro já sabia ao que ela cheirava.
Conhecia tão bem aquele odor, tão bem.
Mas queria senti-lo o mais possível e, por isso, ali ficou com aquele suposto mero pano junto ao nariz.
Deitou-se, abraçando-se a si mesmo, abraçando aquele pedaço de tecido com mangas.
Inspirou profundamente e sentiu-se a aquecer lentamente.
Madrugada.
Gente nos bares, pelas ruas.
Gente a dormir.
Conversas, discussões, risos, cantos, danças, sexo.
Ele, ali, abraçado a uma camisola. Era ridículo.
Mas ele não se sentia ridículo.
Não conseguia escrever nada mas...
Na sua mente começaram a passar palavras escritas...
Da sua alma fluía calor...
Do seu pensamento imagens nítidas...
Não sorriu, não chorou, apenas se abraçou mais um pouco e apertou o tecido daquela camisola, que fora esquecida, uma vez...
Sem frio, fechou os olhos tranquilamente e vislumbrou uma última frase que arriscou sussurrar...

Sabia que ele não viria...
Estava cheia de frio, apesar do aquecedor estar ligado e a porta do quarto fechada.
Tinha a sua companhia ligada.
Sabia que era mais uma noite para passar sozinha...
Abraçou a peça de vestuário que dormitava a seu lado.
Aquele casaco meio esbatido mas tão macio, retinha o cheiro dele, como que por magia, desde aquele dia...
Sorriu enquanto brincava com o fecho, lembrando-se como ele tinha corrido para chegar ao pé dela.
Enterrou mais a face no tecido meigo e sedutor.
Sentiu o calor familiar espalhar-se pelo corpo à medida que imagens sedutores tomavam conta do seu raciocínio.
Pelo menos não fazia o silêncio do costume, o vento castigava
as janelas do apartamento no 6º andar.
Restava sonhar, lembrar, e pedir ao vento que ouvisse e levasse uma última frase que arriscou sussurrar...

"É de madrugada. Sai daí. Vem ter comigo. Bate à porta."