quarta-feira

Resolução Fim de Ano



"...então porque é que ainda estás preso a essa relação?"

"Não estou...eu já não penso nela desse jeito..." - respondeu,
meio encavacado com a pergunta colocada de forma directa.

"Achas? Olha, para tua informação, os teus olhos continuam a ter
aquele brilhozinho quando falas dela...acho que só tu é que não percebes isso..."

"É impressão tua...Também, já estamos a falar disto há largos minutos,
é natural ficar incomodado..."

"Achas mesmo?" - interromperam-no.
"Natural? Não vês, nem estás com a rapariga, logo mais há 2 anos,
andas a namorar outra, que por sinal é cinco estrelas
e até um ceginho percebe que não esqueceste a ex que te virou de pernas para o ar..."

"Esquece...não vale a pena continuarmos com esta conversa.
É sempre a mesma coisa.
Vocês não conseguem entender...não percebem...é demasiadamente complicado...
Um dia quando encontrares alguém que mexa com os teus sentidos mais profundos vais ver.
Quando sentires em cada beijo uma ligação.
Quando fizeres amor e perceberes que te perdes nela.
Quando tiveres saudades sempre que ela vá embora,
mesmo sabendo que a vais ver dali a umas horas..."

"Pára! Ok? Pára lá com isso! Xiça ! Estás bem pior do que eu pensava!
O que andas a fazer há meses? E...para quê este namoro?
Digo-te...não estás a portar-te nada bem!"

Olhou a amiga fadista, como passou a chamá-la, atentamente.
Pareceu-lhe mesmo, que ela estava algo irritada e desapontada.
Estavam no fim do almoço que ela lhe prometera aquando da vinda a Lisboa
para concluir a edição do seu último Cd.
Conheciam-se há vários anos e se bem que nem sempre a proximidade fora grande,
havia entre eles um respeito mútuo e amizade sincera.
Sabiam o suficiente da vida de um e do outro para poderem trocar, abertamente,
pontos de vista e opiniões.
Aliás, talvez por isso mesmo a amizade sobrevivera às inúmeras alterações
ocorridas na vida de ambos.

Curiosamente, a ex sempre suspeitara de um caso amoroso, contudo,
nesse domínio apenas uns beijos de ocasião, em jeito daquilo que se podia
rotular de "curtição", tinham acontecido.
Pegou no copo de pé alto e deixou que o tinto forte e encorpado aquecesse o gelo interior.
Que dizer? Como justificar? Para quê querer, se quer, explicar o que se passava dentro dele?

"Tens razão. Eu sei que tens. O meu amigo do peito diz-me o mesmo ou pior." - sorriu forçadamente.

"Eu sei que tu sabes. És a pessoa mais pragmática e racional que conheço.
Mas amigo, estás perdido. Tens de perceber de uma vez por todos que acabou. 
Não dizes que desde a separação não houve qualquer contacto da parte dela?
Então? Não queres ver...".
Falava-lhe agora num tom mais calmo, carinhosamente, de certa forma comovida.

"Pois...é me difícil compreender..." - respondeu-lhe, olhos no copo que pousará mas
que ainda segurava, fitando os dedos em torno da base cristalina.
"Dei-lhe tudo de mim...sabes? E tudo que ela me fazia...dizia...
Tudo que partilhamos...que passamos.
Tanto que sonhamos.
Trabalhei e passei tanto para chegar até...
Dei-lhe um anel...não sabes...nesse dia ficou tão feliz..." - calou-se.
A voz faltava-lhe.

"Calma. Vá lá. Não adianta nada ficares assim.
Sabes, a sensação com que fico é que tu ias numa direcção e ela noutra.
Acredito que partilharam algo muito forte e especial. A sério, acredito.
Só que, conhecendo-te, provavelmente não reconheceste os avisos à navegação
que ela te foi dando.
Para ela...desculpa amigo...para ela tu não a tinhas como "a" prioridade.
Com certeza viu-a  nas tuas filhas, no teu orgulho em não falhar...coisas assim.
Se calhar, no inicio e durante muito tempo amo-te por todas essas qualidades.
Só que...as pessoas mudam...e os seus objectivos de vida também.
Tu, és um homem maduro. Ela, conheceu-te assim.
Ela não era...Foi à tua beira que amadureceu."

"Achas que apaixonou-se por outro?
Que queria deixar tudo para trás para estar com alguém que não a conhecia tão bem,
em todos os aspectos, como eu conhecia?"

"Pera lá homem!" - a mulher à sua frente repreendia-lhe com franqueza.
"Tudo isso que dizes é possível. Mas...o que importa?
Ela fez uma escolha. Tens de respeitar.
Se um dia ela quiser, falará contigo.
E, não tenhas assim tanta certeza que não te acompanha de algum modo.
As redes sociais facilitam bastante as coisas.
Olha...provavelmente não diz nada porque acha que isso seria mau para ti.
E eu...já agora...acho que tem razão!" - e soltou uma gargalhada bem disposta
que o fez sorrir também.

"É...pois é...Não te rias...ok?
Eu...eu...tenho mandado umas mensagens de vez em quando.
Tipo de parabéns...bom natal...e outras cenas.
Às vezes...às vezes doí pra caramba..."

"Não acredito...és demais. O teu maior inimigo. Sofres porque queres."

A frase foi que nem o soco bem dirigido às partes moles do seu corpo,
a pancada psicológica acertando em cheio de sua debilidade.
Foi-se abaixo.
Fez por se aguentar.
Conteve a respiração.

"Desculpa...eu não queria magoar-te...desculpa..." - pediu-lhe a amiga, 
vendo como os olhos dele se enchiam de um mar claro revoltoso,
oráculos de sofrimento contido, testemunhas da vida que ele esforçava-se
por viver no dias de agora, sem a esperança de outros tempos,
sem a magia de um amor único.

"Escuta. Por favor escuta-me." - continuou.
"Tu tens de encontrar força em ti...ser aquele pessoa que és capaz de ser,
que foste e tens sido para outros...até para ela. 
E, tens de perceber, outra coisa.
Podes estar a sabotar, inconscientemente, a tua actual relação."

"Eu sei...ela por vezes chama-me à atenção certos comportamentos meus..." - retoquiou.
"Mas foi honesto. Não escondi nada nem faço promessas..."

"Tudo bem. Não duvido.
Pelo que vi no jantar da outra vez que cá estive, e o teu amigo de certeza também,
a Ika está apaixonada por ti. Tu, ainda gozas daquela aura especial.
Por enquanto perdoa-te esses momentos e espera conquistar-te.
Mas isso - isso não durará para sempre.
A uma mulher como ela não faltam pretendentes.
E como dizem os ingleses - e tu gostas tanto dos provérbios deles,
"Get your act together!" e eu acrescento, " focus on the blonde!".

" You're absolutely right." - respondeu, sorrindo simpaticamente perante
a súbita inspiração linguística da sua companhia.


Tinha-se sentido envergonhado.
Apesar da aparente compreensão demonstrada, ele não podia deixar de
reconhecer que, de facto, estava a iludir-se...e pior...a pôr em causa os
sentimentos de outra pessoa...de quem merecia o seu amor e dedicação.

Queres uma resolução Fim de Ano, meu grandíssimo cabrão?

Tens de a ESQUECER...


( deixa de ser IDIOTA !!! )

quinta-feira

Ferry Boat




O céu tingia-se de vermelho inflamado e as ondas encrespadas davam conta
da intensidade com que se espelha tamanha grandeza por toda a parte.
Os recantos escondidos no horizonte em tons variados de cores paletadas escuras
resguardavam-se da fúria de um fim de tarde em que o vento crescente tecia
um bailado vigoroso por entre os passageiros que seguiam a bordo do ferry, aquela hora.

Estava entretido a filmar o cenário divinal que o rodeava e em simultâneo
olhava a sua companhia debruçada sobre o corrimão verde gritante,
a vislumbrar o espectáculo com que a natureza resolvera brindá-los no fim
do passeio que os tinha levado mais a sul, em dia de sol raro,
até Alcacer do Sal para provar o famoso arroz de lingueirão.

Era uma mulher de belos traços e figura sensual.
O agitar frenético dos seus longos cabelos ao vento conferia-lhe um ar jovial e rebelde
que condizia bem com as botas pretas estilo gótico que combinara na perfeição com
o vestuário descontraído e rockeiro.
O dia fora preenchido de cumplicidades bem dispostas, mãos que caminham entrelaçadas,
beijos roubados à socapa, abraços que escudam os ventos agrestes.

Era fácil...gostar dela...
Tinha-o surpreendido logo pela manhã ao pequeno almoço para o qual o tinha convidado.
Realmente, as pessoas são diferentes e expressam-se à sua maneira.
O pequeno almoço, pensado ao pormenor, 
o quadro feito de inúmeras fotos deles em sequência legendada.
a camisa em tons de salmão e pormenores subtis.
Tinha feito de tudo para lhe proporcionar uma manhã especial, em dia de aniversário.
E depois, como poderia esquecer, o fim ...quando ainda terminava o café (?)

Ela tinha-se levantado,
colocando-se a sua frente - "olha...amor..."- abrira o robe de gola felpuda que vestia,
indumentária nova - "...chega aqui...cheira me...tira-me um retrato..."
Assim fez, com gosto, olhos grudados nos dela, em olhos que diziam "quero-te!".
Sabia como isso a deixava excitada  e não era preciso muito para perceber que
aquele momento fora preparado e que fazia parte da manhã que pensara...para ele.
O corpo dela respirava energia e sedução, seios expectantes,
aromas quentes que ele reconheceu imediatamente,
perfume inconfundível que ela já usará noutras ocasiões.

Não tardou em livrar-se das calças dele para poder sentar-se ao colo,
as pernas, uma de cada lado da cadeira,
enterrando-se de seguida, lentamente,
dobrando as costas num arco pronunciado,
mãos afundadas nos cabelos dele enquanto subia e descia ritmicamente,
soltando gemidos de prazer que volta e meia davam lugar ao dizer do nome dele.

Tal entrega, tais sentimentos - intensos e verdadeiros,
em busca do prazer próprio e a dois, por ela mesmo...e por ele,
deixaram-no louco de tesão, sobretudo quando ela se veio de forma abrupta, 
encharcando-o a ele e o assente.
O momento, a dois, acabou por ser explosivo e algo descontrolado, contudo,
ele suspeitará que era daquele jeito que ela o queria...naquela manhã.

Foi longo, muito longo - o abraço após o climax.
Ela dizia-lhe coisa bonitas e ele ria-se, devolvendo-lhe os elogios,
provocando nela gargalhadas em rosto rosado,
até que o sexo dele, sorrateiramente, deslizou para fora dela, satisfeito.
Então, esboçou-lhe um sorriso matreiro e semi-serrando os olhos disse-lhe -
 "qualquer dia venho-me...quando isto acontece...é tãooo bommm".

Pois...(!)
Palavras para quê?
Apreendera a aceitar as coincidências...em gestos...em palavras...
Até na escolha do perfume sedutor.

Agora, guardava o telemóvel no bolso interior do casaco de ganga e caminhou até ela.
Abraçou-a por trás e beijou-lhe a orelha ao de leve.
"Ai amor...pára(!)...arrepias-me..."
"A sério?" - perguntou-lhe - "deixa ver.."- e deslizou as mãos pela camisola acima
descobrindo as pequenas protuberâncias pontiagudos.
"Olha...parece que não és mentirosa!" - e agarrou-a de encontro a ele com firmeza.

Fez-a rodar e olhou-a de frente.
"Sabes miúda, és especial. Quero dizer-te que fazes mesmo parte da minha vida.
És tão linda por dentro como por fora. Obrigado por tudo. Do fundo do coração."
Beijou-a com delicadeza e intento.
Sim, ela era especial.













o Amor é...(?)

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terça-feira

à beira do Pilar 7




Sem desconfiar de nada, até porque à semelhança do que ele fizera uns dias antes,
não lhe tinham dito onde iam jantar, ali estava, a passar à beira da entrada que
dá acesso ao recinto afecto à "Experiência do Pilar 7".
Entraram logo de seguida para o estacionamento à porta do Falstaff,
restaurante do Hotel Vila Galé Ópera, praticamente no sopé da Ponte 25 de Abril.

"Então...surpreendido? Amor??...Bemmm...vejo que sim!" - ela ria-se jovialmente
espreitando-o de lado tal e qual gata assanhada.

Ele quis responder mas tinha a garganta seca.
Um nó tomara conta da traqueia que ele lutava desesperadamente para libertar.

"Olha...sim...estou mesmo. Não podia imaginar que era aqui que vínhamos.
Ao menos podias ter dito que era chic e carote...assim não tinha vindo de ténis!"

Agora, também ele sorria...
No entanto, a verdade é que tentava igualmente sacudir as garras
de um mau estar momentâneo, geradas pelo fluxo diabólico e fulminante
de memórias ainda demasiado frescas presas àquele local em Alcântara,
a uma tarde de Outubro, num dia de aniversário...

"Nem penses! Não podia dizer...não achas? Dizias logo que era demasiado caro!
E quanto aos ténis, ficam te lindamente! Até parece que tens um veleiro ali na marina!"

Não pôde se não acompanhá-la numa risada ao sair do carro, audível para
o garçon com cabelo grisalho e de trajo singular que os aguardava no seu posto.

Ao atravessar a calçada de mão dada com ela, um misto de felicidade e tristeza
irrompeu dentro dele, causando um ligeiro aperto na sua respiração.
Recordava-se de como tinha comentado o valor elevado que deveria ser cobrado
naquele restaurante com esplanada fina e de vista privilegiada para o Tejo.

Passará por ali...de mão dada com outra...sentindo-se feliz.
E ela...a de outros tempos...também ia feliz.

Entraram na sala de refeições, toda ela alusiva a temas musicais clássicos
e à ópera em particular, aliás, a música de fundo também fazia jus ao nome do hotel.
Era um espaço sem duvida confortável e bem decorado onde facilmente
alguém apreciador de ambientes serenos com um toque de romantismo
sofisticado se sentia à vontade.

Mais uma vez dava conta que a vida dele actual estava e provavelmente
estaria, repleta de momentos assim.
Pelos vistos, esta mulher tinha entrado na vida dele para o fazer viver
de novo emoções e sentimentos antigos por forma a fazê-lo entender
que somos, como pessoas, como seres que aspiram ser felizes,
o resultado do somatório de imensas e variadas vivências que compõem
aquilo que é o trajecto das nossas vidas.

Olhou a mulher linda sentada à sua frente.
Ela contemplava-o atentamente, serenamente.
Pareceu-lhe que lia os seus pensamentos, pois havia no olhar dela
um brilho ternurento e um pouco triste.

"Sabes miúda..." - disse-lhe baixinho enquanto estendia a mão sobre
a toalha imaculadamente branca, até cobrir a dela, aproximando-se,
encurtando o espaço entre eles, "Estou muito feliz por estar aqui contigo."

"Mesmo?...Às vezes pareces ficar longe, de costas para o mundo..."

"Tens razão. Ainda luto contra mim mesmo. Ainda desconfio de mim mesmo."

"Não precisas de o fazer amor...Não consegues ver? Porque não experimentas
olhar-me de outra maneira? Já viste que podes estar a deixar escapar algo?'"

Apertou-lhe a mão.
Ele, devolveu o aperto com suave firmeza.

"Sim, és muito perspicaz. É muito bom estar aqui contigo. Obrigado."

"Ai é assim é? Nem penses que fica assim! Vou cobrar tudinho mais logo. Prepara-te!"

"Não me digas que vai haver striptease na cozinha?!"

Ambos ainda riam quando o empregado se aproximou para perguntar o que iam beber.

"Traga-me a lista por favor " - disse ele enquanto tirava os óculos do casaco,
fixando os olhos nela - "Esta noite merece um vinho especial!"









segunda-feira

sem Máscara



 "Não vou dizer nada, não adianta queres saber...é surpresa!"

Dito isto, desligou a chamada rindo-se alegremente enquanto ela resmungava
algo sobre não saber o que vestir, ao qual ele apenas tinha adiantado que para
aquele restaurante e bar as pessoas, sobretudo as mulheres, normalmente caprichavam,
dado tratar-se de um local procurado por gente de bem na vida.

Queria proporcionar-lhe uma noite encantadora,
fazê-la sentir que tinha conquistado uma lugar importante na sua vida
e que para ele, era muito bom tê-la ao seu lado.
Não era fácil para ele admitir que precisava de alguém que entrasse no seu pensamento,
nem tão pouco em planos eventuais para um futuro mais próximo, mas,
o facto é que aos poucos, do jeito dela, isso tinha vindo a acontecer.

Ao reservar a mesa para aquela noite,
o termo "namorada" saiu-lhe naturalmente,
" Será possível arranjar uma mesa para dois no cantinho?
É uma surpresa para a minha namorada."

Sim, ela merecia algo mais da parte dele.
Era uma mulher paciente, partilhava a vida dela com ele e
aguardava que ele fizesse o mesmo.
Mesmo a reacção que tivera ao ver uma foto da sua ex,
que servira para ele mostrar o cão dela, deixou-o satisfeito,
pleno de confiança na sua maturidade.

"Pronto...até que enfim eu a vejo! Ela é uma mulher muito bonita.
Consigo perceber facilmente o teu fascínio por ela, tem uns traços diferentes."
E, de seguida a sorrir ousadamente, acrescentou - "É por isso que te chamei à
atenção também amor? Só pode ser os meus traços únicos!"

Havia claramente parecenças entre"elas" em alguns domínios e bastou
ver como estava vestida para ele sorrir e dizer para si mesmo.
Es um gajo com muita sorte, caralho!
Estava linda, ariscaria dizer - "exótica".

Aliás, ao entrar no Ferroviário, foram algumas as cabeças mascaradas
que deram conta da bela mulher, dona de um andar confiante,
que seguia à frente, mas de mão dada para trás, com ele,
até chegar à mesa indicada pela empregada.

No meio de casais embrulhados nos telemóveis e outros
convivendo com silêncios tristes, eles estavam bem - ela radiante.
Eles, eram um "casal".
Ao olhá-la nos olhos, percebeu bem o que viu.
Gostou.
Muito.
Sabia que precisava de mais tempo...mas...
sentiu também que ela podia ser a resposta para o que ele sempre
procurara durante anos, algo que julgara ter encontrado no relacionamento anterior.
Uma mulher fiel aos seus próprios princípios, que acreditasse nele,
que quisesse construir um futuro a dois, com iguais responsabilidades,
que complementasse a vida dele e que precisasse dele para complementar a dela.
Na verdade, alguém com o qual pudesse construir...um porto seguro.

A noite ia ser de temporal...diziam os entendidos.
Portanto, naturalmente ficariam por casa depois do jantar,
a ver um filme talvez, depois de ele levar o patudo à rua.

Café...Moscatel...enroscados no sofá dela...






sexta-feira

Semelhanças Boas




O tempo estragou-se.
A viagem pelo interior teria de ficar para outra altura.

Assim, naquela Quarta-feira de folga, para ambos, Lisboa piscou-lhes o olho.
Quando estacionou à porta do prédio onde ela reside,
ainda matutava sobre o destino a traçar.
Um beijo matinal mais demorado que o habitual, ao entrar na carrinha,
deu lugar a um sorriso soalheiro, contrastando com o céu cinzento.

"Porque não vamos ao Castelo de São Jorge, não conheço, sabes? Pago eu!"

A pergunta mexeu com ele.
Era daquelas situações que irrompiam, do nada - sem controlo.
O castelo...em Lisboa...

"É mesmo? Nunca foste até lá?  Não sei...é capaz de fazer frio hoje..."
- respondeu-lhe, olhando em frente enquanto arrancava,
fazendo fé que ela não tivesse reparado em alguma reacção diferente nele.

"Se calhar...mas olha...trouxe casaco. Vês?!" - e de novo sorrio-lhe amplamente,
fazendo-o encher-se de coragem ao ver o casaco que se encontrava dobrado
sobre as calças de ganga justas e os olhos que lembram uma criança expectante.

"Pronto! Não se fala mais no assunto! Passamos o dia por lá." - acabou por dizer.
" E, se tivemos vontade, à noite levo-te a um barzinho bem simpático para desfrutar
de um cocktail que faz borbulhar as hormonas femininas !" - acrescentou,
soltando uma gargalhada à qual ela não resistiu.
" Afinal sempre fiz bem em trazer o meu casaco sport!" - disse-lhe, tipo snob.
"Acho bem amor...gosto muito de te ver com ele ..."

A outra também me disse isso - pensou...e deu uma risada.

E assim...o dia começara.
Do nada, nascera um plano compartilhado.
Contudo, ele não sonhava que quando ela vestisse o casaco, mais uma vez,
os Deuses lançariam os dados do acaso e da coincidência,
obrigando-o a ser integro e forte e a dissociar, a ultrapassar...o momento.

Rumaram ao Campo das Cebolas para deixar o carro.
Aí, deslocou-se ao paquímetro mais próximo para tratar do ticket de estacionamento
enquanto ela terminava uma chamada que acabara de receber.
Seguidamente, colocou o papel no tablier de forma visível e enquanto a aguardava
foi dar uma olhadela na ementa do Solar dos Bicos, restaurante que herdava o nome
do famoso edifício centenário, hoje, pertença da Fundação José Saramago.

"Vamos almoçar aí amor?" - a pergunta fez-o rodar para encará-la de frente,
de casaco vestido e mala feita mochila no ombro.
Foda-ssseee! - gritou uma voz bem dentro dele.
Na verdade, não era igual...mas...em tons de preto e branco...bem podia
assemelhar-se a um outro casaco que ele conhecera em tempos,
não muito longínquos...

"Quem sabe...depois vemos por onde andamos...e decidimos onde comemos".
Mais uma vez, nessa amanhã, tivera de esforçar-se por demonstrar uma
naturalidade que ameaçava escapar-lhe.

O dia correu bem.
Melhor do que ele podia supor.
A forma como ela encaixava ao seu lado e bebia do conhecimento que ele
tinha para transmitir era diferente...e isso ajudou.
Lembrava-se bem do último passeio por aquelas ruas e muralhas.
Entendia, cada vez mais, que tudo "aquilo" era necessário.
Só assim ele poderia superar o passado recente de um amor de longa data
que acabará.
Passo a passo - haveria de vencer a dor.
Aquela dor...

Quando o sol fez a sua vénia dando lugar a uma lua cheia, ele, sentia-se bem.
Estava grato por estar vivo.
Feliz por estar ali, outra vez naquele lugar maravilhoso.
Agora, ainda mais razões teria para sorrir,
ao olhar o monte e o seu grandioso castelo.
Nada como um novo amor para pôr tudo, de novo, em perspectiva.

Acabaram por jantar na Rua Augusta armados em turistas,
ele fazendo-a sorrir, cada vez que falava em inglês com o empregado,
a boa disposição reinado e dando lugar à atracção pura e cativante entre eles,
sentimento que assumiria-se com forçar durante a ida ao tal bar prometido,
emoções à flor da pele que tomariam conta da noite fresca,
em que a lua estenderia o seu brilho nas luzes das muitas velas que ela
iria acender ao chegar a casa, enquanto ele, de peito colado às costas dela,
abarcava-lhe os seios com mamilos erectos,
e ela...sucumbia ao gostoso volume que procurava aninhar-se no meio das nádegas
firmes, donas do epicentro tempestuoso...já inundado por antecipação...

A vida dela mudará.

Caminhava...













segunda-feira

3 DIAS 3 NOITES



Senta te e escreve...isso mesmo...escreve...

Talvez assim, percebas...que realmente é possível!
3 dias - ou noites - enfim...3

Maravilhosos.
Por tudo.
Boa conversa e bem estar.
Uma certa cumplicidade natural,
Afectos carinhosos partilhados.
Diversão coberta de gargalhadas e brincadeiras,
a atracção corporal marcando presença,
sendo necessário por vezes disfarçá-la.
Tão contida, que a sua libertação entre paredes reclusas resulta,
consequentemente,
em avalanches de gemidos e orgasmos, repetidos...
Como é bom ouvir -
"Não percebo, é cada vez melhor amor!"
E onde já ia o seu ego, quando ela lhe diz -
"Meu Deus! Nunca me vim assim..."
Até já conseguia aceitar, sem constrangimento -
"Adoro...adoro...como me preenches amor..."

Sim, Caro SR.- wake the fuck up!
Look and see!

Não faças merda!
Começa a dar de ti o que deve ser dado...
Faz por merece tudo que esta bela mulher te entrega,
sem reservas,
porque,
confia em ti,
porque,
não tem receio de te amar como todo o seu ser,
porque,
confessa te o que vai na alma...e o que provocas nela...

O "ideal" não existe.
A "formula mágica" também não.
"Dominar a alma" e "fazer entender o coração" não se apreende
nos livros, nem com ninguém!
Mas...apreendes por ti mesmo!
E tu, até já sabes, que a vida sem arriscar,
sem amar...e ser amado,
de nada vale.
Nada...

Se o próprio mundo vive inconstante,
se nada já é como era,
o futuro cada vez mais uma incógnita,
a vida pressa por nuances fora do nosso controlo!
SE planear durante anos como fizeste,
acabou por ser em vão,
fruto do desgaste,
trazido pelo arrastar do tempo!
Qual será o Amor capaz de resistir a tais exigências,
neste mudo actual??

Abraça esta oportunidade.
Sê forte, honesto, intenso.
Sê tu!
Como tu és!

Quem sabe ???

VAI EM FRENTE!





Quanto tempo leva? Quanto?!



Estava triste.
Triste?
Ou, estaria apenas a sentir-se...em baixo?
Era apenas Monday Blues.
Não...
Era mesmo uma sensação de tristeza...sentia que sim ,
o suspirar, o não ter vontade de nada...
E...porquê?
Perguntava a si mesmo - Porquê?
Suspirou fundo outra vez...
Estava sentado ao teclado para vomitar o que ia dentro dele,
como tantas vezes era habito naquele ecrã branco que há muito
se tinha acostumado aos desencantos,
aos turbulhões de sentimentos esmagados até à exaustão,
e às lágrimas frias derramadas sem sentido nenhum.

Estava triste.
Triste consigo mesmo,
desiludido com a pessoa que se tornara.
Era fraco, inconstante, inconsequente.
E...não merecia o bom que lhe estava a acontecer!

A sensação filha da puta apoderou-se dele no regresso ao trabalho
quando a Antena 3 resolve passar a música que escutara na Sexta-feira à noite.
Merecia sim, uma carga de porrada, ser chamado de besta ao quadrado,
ter a cara pintada de palhaço grotesco!

Na Sexta, ao tocar a campainha da porta, um - "espera um bocadinho amor, não entres já!"
soou lá de dentro...e com isto, a porta foi destrancada mas deixada apenas com uma pequena abertura, seguindo-se uma sinfonia de pés descalços em fuga.

"Já podes!" - e uma risota marota acompanhou a sua entrada no apartamento
que se encontrava à meia luz, as novas lâmpadas led de filamento amarelado
tipo vintage que ela colocara no candeeiro de pé alto ao pé do sofá conferindo
um ar de conforto e quentura envolvente.

Posou as chaves do carro e o telemóvel no móvel ao lado da Tv e encaminhou-se
para o quarto, as expectativas em alta porque, obviamente, ali havia coisa!
Parou e encostou o ombro esquerdo à ombreira da porta, olhando-a incrédulo.
Foda-se! - quase lhe saiu...
O cenário era digno de um filme erótico em que ele faria o papel do Mickey Rourke,
sendo que a Kim Bassinger estava impecavelmente substituída pela mulher,
que o aguardava, na cama de lençóis brancos...destapada.
Uma vela vermelha enorme iluminava de perto o Moscatel, descobriu mais tarde, envolto
na manga gelada, acompanhado de dois copos flute e uma taça repleta de cerejas.
Nua, deitada de bruços, pernas cruzadas para o ar, cabelo solto que resvalava
para o lado ao posto do olhar dela, os olhos melados fitavam-no sem preconceitos
e sorriam de malandrice - "olha, hoje sou eu que digo...não queres tirar-me uma foto...assim?"

Não pode evitar um sorriso aberto de garoto presenteado com algo inesperado.
"Claro que sim! Que homem era capaz de recusar um pedido assim? Um minuto! ..."
Ao buscar o telemóvel na sala apercebe-se do som que passou a inundar a casa,
com certeza vindo da coluna bluetooth que ela tinha no quarto.

"Não conheço..." - disse-lhe enquanto se preparava para a fotografar.

"Gostas? É a tua cara amor!"

" Gosto, uma boa voz sem duvida...Quem é?"

"Nobel...é Português...mas nem parece, pois não?"

"Tens razão...muito giro...Então, estás pronta?"

"Tá...que tal assim?" - descruzou as pernas e deixou uma cair para além do colchão,
o gesto claramente pensado, fizera rodar as ancas, empinando o rabo bonito e provocador.

Foi, ao som de "Honey" que se aproximou dela, a viu levantar-se em cima da cama,
toda sorridente e ficou a olhar enquanto o despia, lentamente, prazerosamente,
para depois voltar a afundar-se nos lençóis, puxando-o para baixo, até ela,
recebendo-o de pernas abertas, agarrando no seu sexo erecto para o introduzir logo
dentro dela, o gesto ansioso soltando um "ai amor que saudades de ti!".

Então?
Então porque estava...assim...fodido da cabeça?

É.
Ña Sexta, no calor dos acontecimentos, tudo tinha sido perfeito.
Mas, há pouco, no carro...recordações de uma outra garota...
que também destrancou a porta e correu para a cama,
fez poses para fotos de rabo lindo empinado,
o despiu em pé e de joelhos na cama dela,
lhe disse - "anda...quero fazer-te uma coisa...sei que vais gostar amor...",
não uma...mas tantas vezes...

...e esta canção que, não queria, mas porra( ! )...lembrava-lhe...Ela.
Merda das recordações !!!

Por isso estava triste.
Muito.

Queria tanto apaixonar-se pela miúda que namorava...agora.
Tantoooooo!
Queria que a química e atracção se transformassem em paixão.
Queria ser livre para amar!

A pergunta, parecia não ter fim...nem resposta!

Quanto tempo leva?
Quanto??
...para esquecer quem amamos para além da razão???








Alentejanícis



A vontade de deixar fluir as forças do universo tinha sido mais forte e ele,
naquele momento, sente-se feliz por isso.

Tivera a suas duvidas, como vinha a ser habitual.
O receio de permitir um envolvimento com a consequente aproximação de alguém,
por pouco ditara um "não" disfarçado de desculpa simpática.
Contudo, desta vez, tomara a decisão de confiar no destino.

A viagem pelas planícies do alto Alentejo, sugerido por ela, correra de de forma descontraída e alegre, as canções dos Roupa Nova a provocarem gargalhadas tendo o Lewis Capaldi
invadido o automóvel de paixão crua, arrancando um brilho intenso dos olhos dela,
fazendo-o rir ao mirar-lhe de esguelha enquanto conduzia, o seu coração dando conta
que algo podia acontecer, que ela era, que havia a possibilidade, podia ser diferente das demais que conhecera depois da separação.

Agora, sentado na pequena sacada, ia bebericando o sumo de laranja da Compal, dito natural, laranja do Algarve, retirado do mini-bar.
Era Domingo.
Havia silêncio. Ou quase...
Porque os sacanas dos grilos graúdos, co-proprietários das terras circundantes e camuflados pelos enormes chaparros, faziam um chinfrim apreciável.
No entanto o vento suave, de aromes selvagens frescas, fazia o favor de encaminhar o convite de acasalamento deles para outras paragens, protegendo assim, o sono da figura esbelta aninhada nos lençóis de cor marfim.
Os tecidos macios que cobriam parte do corpo revelavam curvas bem delineadas,
entre coxas e seios semi-escondidos, cabelos longos perdidos em nuances castanhas e louras,
fazendo lembrar vales e montes em terras de sonhos soalheiros

Estava bem.
Tranquilo.
Respirava com gosto.
Olhava-a meticulosamente.

Era, sem duvida, um retrato bonito..
Entre os mais belos momentos que vivera.
Talvez o medo de sucumbir aos desejos dela, fossem infundados.

Depois da viagem deles a Tomar, que fora igualmente tão boa, decidira afastar-se.
Porque...sentia como ela o queria, como ela o olhava, como ela conscientemente,
ou não,
falava do que pretendia da vida para o futuro,
de como queria alguém que a complementasse,
um homem inteiro, independente, confiante, integro.
Um homem que soubesse apreciá-la pela mulher que é,
um homem que a fizesse entregar-se como nunca o fizera anteriormente.

Tanta coisa...
Tanta responsabilidade...
Tanto sonho...
Tanto dar...de si...outra vez...

Ajeita a toalha de banho em volta da cintura.
O que tinha a perder?
Lembra-se de uma frase que escrevera no seu blogue...sobre estar vivo...sobre amar...

Era linda, bem disposta, quente, inteligente, de ideias fortes, independente.
Tinha tanto para descobrir com ele.
E ele, com ela...

O destino iria sempre pregar-lhe partidas, ele sabia disso.
"adoro como tu me preenches amor" - como era possível, tal frase ? Sorriu.
Há coisas que não se explicam. Aceitam-se. Alentejanícis...

O cantar da rola faz-lhe virar o olhar e por alguns instantes deixa-se vaguear pelos
variados tons dos montes alentejanos, o futuro incerto a querer parecer-lhe mais bonito,
o azul do céu conferindo um manto aconchegante aos pensamentos dispersos dele.

"Amor..."

"Bom dia princesa...isso é que é dormir..." - diz-lhe sorrindo.

Levantava os braços em direcção ao tecto e bocejava - "simmmm...que preguiça...a culpa é tua..."

Ele encostou-se para trás na cadeira - "Minha? Até parece!"

Tinha-se virado de lado para o encarar de olhar matreiro,
o lábio inferior ligeiramente castigado pelos dentes sorridentes. - "És bom demais amor..."

"Ok...pronto...ainda não são oito..." - diz-lhe olhando o relógio do telemóvel,
mas podemos tomar o pequeno almoço cedo e ir dar uma voltita por Mértola..."

"Acho uma óptima ideia..."
Falava lentamente, mexia-se com propósito.
Sentou-se na ponta da cama, desnudada, pernas abertas, pés calçados de saltos altos invisíveis.
Um sorriso do tamanho do mundo e olhos orientais assaltam-lhe os sensores corporais todos.

"Ai é? Achas mesmo ? Estou a ver que estás mesmo a pensar nisso..."

"Estou sim...Massss primeiro...apetece-me pôr de quatro para ti amor, outra vez...
Faz-me vir daquela maneira...apetece-me...apeteces-me tantooo !"

Lá estava, o karma, outra vez, a brincadeira do Deuses!
"Olha...que tal eu tirar-te uma foto...ali...com a luz por detrás de ti ?"

A pergunta inesperada apanha-a de surpresa.
"Ok...ali?"...mas sabes...nunca fiz nada disto...não sei como queres que faça..."
E, em bicos de pés, vai colocar-se diante as duas enormes portas que dão acesso à
varanda lateral ao quarto.

"Põe-te ao meio das cortinas...isso mesmo..Agora...não olhes para mim, nem para câmara..isso...
faz aquele teu ar...meio envergonhado !"
Ele ria-se dela, das expressões dela, das faces rosadas.

"Já está?

"Yep...e ficaste...linda! A foto está espectacular! Já mando para ti."
Sim, realmente o enquadramento tinha ficado perfeito.

"Oh amor...vais ficar a olhar para o telemóvel? - voltará a sentar-se do mesmo jeito,
a provocação ganhara força, toda ela emanava calor e tesão.

Ergue-se da cadeira, o nó da toalha cedendo ao movimento brusco,
o vento atirando-a de encontro aos vasos de barro floreados.
Estava rijo, hirto, grosso.
Estava ansioso por mergulhar nela.
Estava desejoso para lhe dar o que ela queria.

Aproximou-se.

Ela continuava sentada, agora de mãos nas ancas, sorrindo o sorriso de uma garota traquina.

"Então miúda? Não é de quatro?" - arfou, soltando um suspiro cativante.

"É só um cadinho amor...deixa-me prová-lo primeiro..." - levantou os olhos até os dele.

Riu-se - "Tu gostas mesmo dele!"

"Ai como gosto amor...Gosto mesmo muito muitooo dele!"








Há Amores...(?)




Há amores que nunca passam,
que nunca se esgotam,
que nunca se cansam,
que nunca se esquecem,
que nunca se matam?

Será?

Há amores que sobrevivem ao desgaste,
ao desespero,
à solidão,
à ausência,
à presença de outras pessoas?

Parece-me que sim..
Sim!
Há amores que se tornam eternos nós difíceis de cortar,
que nunca vão embora,
que ficam sempre onde nasceram,
que se imortalizam,
que o vento não leva,
que a distância não separa,
que a vida não consegue arrastar para fora do peito de quem os sente!!!

Há amores que fogem para se aprisionarem noutro lugar,
longe do amor que conheceram,
porque buscaram outro amor,
porque querem esquecer o passado vivido,
porque mesmo sabendo que podem voltar,
porque mesmo sentindo o quanto são amados,
escolhem um outro destino,
escolhem outro coração para completar.

Há amores,
amores tão fortes,
tão desmedidos,
que se assemelham às maiores ondas das tempestades,
aos oceanos mais profundos,
às mais resistentes rochas do mar!

Há amores,
que não sabem odiar,
que apenas desejam amar,
que ficam presos a um olhar,
trocado num dia passado,
fazendo amor jurado...

Há amores,
tal como o meu,
por Ti,
que nunca deixarão de viver,
mesmo,
quando um dos corações já não quer bater,
porque o outro,
o Teu,
deixou,
de querer saber...

quinta-feira

visita de Despedida


Foi vê-la, ou melhor, espreitá-la.
Tinha de ser.
Não havia como não fazê-lo.
A força interior que o obrigava a tal, era insuperável.

Teve o máximo dos cuidados e total discrição.
E, demorou a conseguir.
A paciência, contudo, não se esgotou.
Estava focado.

Dentro dele, não havia como negá-lo, a pancada doeu.
Mais do que estava à espera...
Uma mistura de emoções tomaram conta dele.
A dor de meses e meses apareceu e demoliu, mas, ele aguentou-se.
Manteve a distância.

Ela, estava diferente.
Permanecia bela, claro.
Sorria facilmente.
Pareceu-lhe mais magra e que se comportava de uma forma mais...jovem.
À primeira vista, quase hesitou em perceber que era mesmo ela.
O cabelo mais claro, em tons de castanho, apanhou-o de surpresa.
Não lhe ficava mal, linda como era, tudo encontrava uma forma
de assentar-lhe bem!
Mesmo assim, para ele, o cabelo dela negro, autêntico, era mais bonito.
Dava-lhe outro ar, aquele que ele apreciava, de mulher mais sensual,
sobretudo quando o usava comprido e esticado.

Na verdade, arrastou-se um pouco até ao carro.
Antes de ir, ponderou muito se devia ou não.
Mas, concluiu que devia levar por diante a vontade de sossegar a sua vontade.

Agora, teclando as palavras para um dia mais tarde recordar,
sentia que tinha feito o que estava certo.
Apesar da dor que sentira, conseguia, pela primeira vez,
entender que tratava-se de olhar e sentir o passado,  não do presente,
sentiu claramente que aquela mulher já não tinha nada em comum com ele,
que vivia noutro mundo, que se tinha entregue a outro homem,
que haviam outros propósitos, outras intenções.

Mais importante ainda, era ter a percepção vincada quando se encontrava
com a mulher que agora habitava a vida dele, mesmo sendo ao de leve,
que algo nele tinha mudado.
E não era importante, para já, amar, mas ter a certeza de voltar a amar,
de voltar a confiar.
O importante era sentir que estava a dar passos nessa direcção.
O importante era dar a si mesmo a possibilidade de encarar um futuro diferente,
eventualmente, se calhar até melhor do que teria sido com a ela.
Sim, estava tudo numa fase embrionária...mas...estava!
Já não vagueava pelas auto-estradas nem procurava os bares para consumir
as longas horas de noites sem fim.

Havia um olhar novo que se fundia no dele, um corpo sensual que se exprimia
e complementava no dele, palavras de afecto e tesão que se misturavam com as dele.

Um...novo amor?

O tempo diria.
O tempo que estava mais velho e cauteloso.
O tempo que jamais queria que ele voltasse a ser jogado fora.
O tempo que outrora fizera-o acreditar em almas gémeas e vidas passadas
tinha amadurecido.
Talvez o amor não fosse encontrado no meio do caos e numa paixão desmedida,
talvez, apenas, fosse bastante esperar que ele nos encontre,
e que traga consigo a pessoa certa, aquela que nos valoriza sem nada cobrar,
que realmente fica do nosso lado porque é forte e não porque não tem outro remédio,
que espera lealdade, dedicação e paixão e que tem e deseja dar-nos o mesmo,
porque quer, porque precisa, porque acredita, porque tem certezas do que sente,
sem julgamentos, sem comparações, sem hesitações.

Verdade, que em tempos tê-la visto, teria-o rasgado ao meio.
Hoje, felizmente, sentia-se inteiro.
Pensava com clareza.
Estava ciente dos passos que dava.
Tinha retomado o controlo da sua vida.

Sim, haviam uns pedaços quebrados por arranjar e frestas por tapar,
mas o pior passará.

Esta noite, tinha para onde ir,
uma porta que o esperava,
um beijo por receber.
Depois do ginásio,
um robe floreado aveludado,
de certeza,
cairia ao chão,
poucos minutos após a chegada dele.

E,
era tão...bom!



segunda-feira

no meu Castelo



Almourol era mesmo um lugar mágico!
Todo um cenário grandioso e envolvente,
sobretudo para quem era romântico!
Respirava-se história, glória, luta, sangue, conquistas!
Tal como no Convento de Cristo e na Taberna Antigua onde mais parecia que se entra
numa máquina do tempo quer pelo espaço quer pelas comidas e bebidas a degustar.

Acordou ao nascer do sol,
escutou o silencio interrompido pelos cantares da natureza,
enquanto espreitava a praça da republica de Tomar com todo o seu encanto místico.
Com jeitinho,
sentara-se na cama, o seu olhar atento percorrendo o corpo da mulher que ali repousava,
respirando serenamente, abraçando a almofada que até há pouco tinha sido a dele.
Desnudada, quente, macia, ancas sensuais, pernas torneadas pelo exercício,
seios dignos de um top bem sexy.
Fazia tempo que as coisas não tinham tal sabor, tal profundidade.
Sorriu enquanto a olhava e passeava os dedos pelo cabelo longo, de um loiro matizado.
O passeio, a noite, as gargalhadas e carrinhos trocados, fazer amor daquela maneira,
com uma envolvência sincera.

Que dia fantástico!

No horizonte morava uma esperança recém adquirida.
Coisas boas haveriam de acontecer.
Um novo sonho, talvez, pudesse nascer.

Naquele momento que acabava o texto, pensou - vou fazer por ser feliz!
Não vou virar as costas a esta mulher...ela gosta mesmo muito de mim,
e eu, já gosto bastante dela.
Dizer "amo-te" ?
Esse dia ainda estava nos segredos dos Deuses...

Mas, importava VIVER agora!

Para sempre haveria de recordar-la...
Mas, na verdade, há uma parte de qualquer amor, que não nos pertence, pois perdura além de nós.
Gostava que, ao cruzarem-se um dia, trocassem um sorriso caloroso.

Adeus Princesa
, sussurrou.
No meu Castelo, já não moras!


Ando por aí...


Ando por aí, cada vez mais acostumado aos dias tristes.
Tenho numa mão a escrita e na outra a interrogação.
Sigo, invariavelmente, a rota das interrogações.
Sou dono de sorrisos simpáticos e frases cativantes.
E ninguém percebe de onde vem a força gladiadora que conquista
as montanhas de ontem com fome insaciável,
nem o porquê de falar dos sentimentos sem complexos.

No Teu tempo, a primeira estrela chegava para encher a noite.
Hoje, até o primeiro raio de sol explode no vazio.
E, o primeiro nome das coisas começa com um sorriso apenas tímido,
porque agora, tudo no mundo tem uma face distorcida.

Nas noites acordadas acabei por saber que os sonhos são traições,
que a fonte das lágrimas não pode secar.
Afinal, o que seria da dor sem as suas lágrimas?
Que seria de todos os coitadinhos se as lágrimas secassem?

Chegamos ao mundo para subir montanhas e calcorrear estradas.
Para descobrir que nunca descobrimos a Verdade.
Para descobrir que também podemos inventar a Verdade.
E sermos mais nós?
E sermos mais sãos?
E crermos num futuro que fatalmente nos vai atraiçoar?

Mas também podemos atraiçoar um futuro que fatalmente não será nosso.
Rir. Ri-te à vontadinha deste ser dito humano,
descrente de coisas contadas,
quando era criança.
quando era jovem,
quando era adulto, tão apaixonado,
tão...crente...

Vês a prata da lua nos campos?
Não, já não consegues ver.
Deixaste de ver essa Verdade.
Não és Tu.

E queres outra das verdades verdadeiras?

Dias como este - são dias em que qualquer pergunta,
esconde uma vontade de nada perguntar!

Ser.
Apenas ser.
Ser-se.

Enquanto o tempo se escoa pelas entranhas dos prédios.
Enquanto o sol aquece as veias da alma.
Enquanto os candeeiros dormem para logo alumiarem o deserto dos becos,
a física das sombras tecendo enigmas intermináveis,
que passam ao lado das gentes normais.

Andava por aí...a escrever com as palavras.
Mas tive de descansar.
Queria dizer aquela palavra que não saía.
A esquecida.
A intolerável.
Aquela que enchia os regatos da vida.
A palavra-temporal.
A palavra arrancada de dentro.
A palavra normal.
Cheia de riso e de encanto.
A palavra devoradora da obscuridade.
Sem tempo nem hora.
Nem vendaval nem tristeza.
Apenas uma palavra.

Qualquer uma...que me fizesse sentir aconchegado,
nestes dias,
nestas noites.
nesta tarde que sou fugitivo...

Mas,
Ela não veio.
Não me quis encontrar.
Deixou-me sozinho.
Como Tu fizeste.

Apenas espreitou-me pelas fechas obscuras,
fazendo uso da magia que detêm,
para te mostrar ali, ao meu alcance imaginário,
naquele quarto só cheio de mim,
onde me escondi por umas horas,
das ruas que percorro,
holograma perfeito,
como Tu és,
mulher que amo por defeito.

Queres saber outra das verdades?
Saio à rua.
E...na rua...espero...
Espero por um milagre...
Espero por um sinal...
...para que possa voltar a viver,
...ou
...de vez
...MORRER!