sábado

Tenho Noites...



Em que pego nas palavras...

Lanço-as ao vento,
solto as amarras,
atiro ao ar a vontade,
mato o desejo
e escondo a saudade.

Embrulho-as às avessas.
No meu pensamento não as quero.
Mas elas ficam,
teimam em viver,
ficar presas a mim.

Faço delas o que quero.
Tanto as calo como as grito.
Quero-as como não quero.
Pego numa ou outra ao acaso,
e ergo uma linha,
entre o presente e o passado.

Misturo e baralho as palavras.
Separo-as ao sabor.
Não quero nem saber!
E em noites destas,
passadas em dor,
já nem gosto de poemas
terminados em amor.

Levo em frente esta teimosia.
E vou encontrando,
por aí,
dia após dia.
os rascunhos da minha ira...

Há noites,
muitas noites,
assim,
como esta.

Diz-me...
o que resta...?

Mar Adentro



Estava uma noite que muitos chamariam de mágica, sobretudo aqueles que ainda sonham.
Uma meia-lua, sorridente, banhava toda a encosta com a sua aura prateada, acrescentando aqui, retirando acolá, disfarçando e modificando a seu belo prazer, a verdade física do local.
A suave e pegajosa brisa que lhe fazia companhia agitava levemente as folhas carnudas da vegetação que cobria as dunas mais próximas, deixando-as salpicadas de ínfimas gotículas reluzentes.
O mar, pachorrento, ia e vinha, afagando-lhe os pés com frescura salgada e acalmando a bombagem quente e selvagem que tinha tomado conta dele naquela noite.

Não estava a conseguir focar.
Era como se o mar turbulento, naquela noite, tivesse resolvido impregnar-se nele, livrando o resto do mundo da sua habitual ira, soltando-a, toda, nele.
Fechou os olhos.
Como era bom!
Tão bom!


Levantou-se, pesadamente, e caminhou em direcção às ondas quebradiças, queria inalar seu cheiro de perto, envolver-se na espuma espessa, sentir o frio branco...queria acordar...

Ali estava ela...sentada nas rochas humedecidas pelas ainda serenas ondas.
Ele já tinha ido até aquele local, uma vez...de barco...e agora...parecia-lhe tão mais perto...
Estava nua.
O seu corpo ganhava uma tonalidade azul-cinzento à medida que a lua o banhava.
Mesmo assim ele reparou que a sua pele era como leite, macia, branca, acetinada.
Os seus seios redondos estavam cobertos pelos longos caracóis, as mãos eram esguias, o corpo bem delineado.
Ele viu que ela sorria.
Os seus lábios eram carnudos da cor de cerejas maduras.
Olhou-a, ali sentada a acariciar uma estrela-do-mar que descansava.
Contemplou o seu corpo.
Olhou-a nos olhos, uns olhos escuros, tal como o fundo do mar.
Mas havia algo neles.
Ela voltou a sorrir. Desta vez com malícia.
Sacudiu os cabelos deixando os seus seios expostos para que ele pudesse ver. Movimentou os braços e as serenas ondas ondularam, nervosas, até ele.
Sentiu o ar fugir-lhe dos pulmões.

Vem...Espero-te...

Podia sentir que estava a ser consumido pela água.
Esta, inundava-lhe o corpo e esvaziava-lhe a mente para deixar penetrar a voz dela e ele sentiu como o seu corpo a desejava, para além da sua mente.
Mas algo nele lhe dizia que aquela voz poderia ser o seu veneno, os seus lábios, a sua morte...
Um ardor dominou a sua garganta, assim como um sabor excessivo a sal.
Estava a afogar-se.
Sentia o folgo da vida a escapar-se.
Sentiu-a.
As mãos esguias acariciavam o seu peito.
As longas e torneadas pernas entrelaçavam-se nas suas coxas, as unhas penetravam no seu tronco e os cabelos acariciavam a sua face.
Ele murmurou algo que saiu da sua boca em forma de dezenas de bolhas de água.
Morreria, sabia-o.
Se não fosse de afogamento seria do beijo peculiar que ela lhe dava...
Os seus lábios eram frios, a sua língua mais do que ardente.
Sim... Agora tinha a certeza... Morreria!

Já estava tudo escuro...mas ela continuava ali.
O seu corpo já não se encontrava nu, antes, estava coberto por finos fios de ouro e diamantes extraordinariamente alinhados por forma a salientar as suas curvas.
Sem parar de sorrir, entrelaçou os seus braços no pescoço dele e murmurou-lhe ao ouvido:
Demorou tanto tempo... Mas por fim, depois de tantas vidas inúteis, aqui estás tu.
Não voltas a fugir, desta vez, tenho a tua vida...é minha!

O seu olhar mudou, e o seu corpo apertou-se contra o dele com demasiada força para uma simples mulher.
Sentiu novamente o ar a faltar-lhe.
Seria possível morrer na própria morte?

Uma sensação boa e reconfortante invadia-lhe o coração...e este sossegou...
Como morrer era...estranho...
Relaxou.
Suspirou.
Tinha ele, suspirado ??
Mas...como??
E onde tinha ela ido??

Quando pensava encontrar a resposta...acordou...

Ergueu as costas e cruzou as pernas.
Deu conta que estava todo molhado apesar do mar se encontrar bem longe.
Fitou o horizonte longínquo.
O dia começava a aparecer e ele podia ver o início do céu.
Num só movimento, libertou-se da posição em que estava, para logo sentir o inevitável enterrar dos pés descalços na areia.
Levantou as mãos ao alto e soltou um gemido preguiçoso.
Riu.
Não teria sido nada mau – pensou – morrer assim!
Começou a sua caminhada pelas dunas acima enquanto ria descontraidamente.
Repentinamente parou, e o seu coração ameaçou fazer o mesmo.
Tinha chegado ao cimo.
Voltou-se.
Semi-cerrou os olhos.

Tinha ou não visto aquilo??
Aquilo...
Não tinha ele visto pegadas...em direcção...ao mar??