quinta-feira

nas Tuas mãos...

 



"Estás disposto a algo um pouco diferente?"
Estão deitados a ver televisão.
A noite em lua cheia invade o quarto fazendo esquecer o dia de trabalho.
Tinham feito amor.
Ela, aninhara-se nele, quando faz a pergunta.

“Ummm..o quê... sim, claro...”- responde, já meio a dormir.

“Então, no próximo Sábado a partir das nove da noite...vais estar muito ocupado!”

"Sábado? Como assim?"

Sorri.
“O jantar está incluído?”

“Nope. Mas, a sobremesa...quem sabe?”

“Ok...eu ponho na minha agenda”- responde-lhe, um pouco mais acordado.

“Acho bem. Até Sexta ficas a saber mais pormenores relativamente ao teu compromisso.”


Não era de admirar que a semana decorresse lentamente, tanto para ela como para ele.
Tal facto, para ela, é bem vindo.
Planeia tudo cuidadosamente; a escolha do local e do respectivo quarto,
a lingerie a estrear, as velas especiais e a venda de seda, preta.
E, por fim, as sandálias altas...pretas.
Sabia exactamente o que pretendia e como obtê-lo.
Afinal, já era tempo de ele conhecer a fera que morava dentro dela,
a outra face da mulher doce e meiga que eletantas vezes fazia esvaziar-se em
orgasmos repletos de lágrimas.
Sabia que ele geralmente pensava em si mesmo como um macho alfa.
Adorava estar em controlo, de dirigir toda a acção.
E, gostava de acabar “por cima”...no final.


Uma ansiedade crescente tomara conta dele com o passar dos dias.
Apenas suspeitava que ela queria passar uma noite romântica num lugar diferente.
O bilhete misteriosamente colocado dentro de sua carteira, ao lado das notas,
contribuíra para a ideia de uma noite cheia de paixão.
Sendo que, a procura pelas coordenadas gps revelaria um motel luxuoso,
que disponha de vários quartos temáticos devidamente equipados.
A ousadia agradou-lhe.


Tomou um banho bem quente, perfumado e demorado.
Arranjou cuidadosamente o cabelo num estilo bem mais clássico
do que era habitual.
Igualmente, tratou de maquilhar-se de forma mais dramática,
o toque final a ser preconizado por um batom vermelho brilhante.
A lingerie rendada, as luvas a condizer e os saltos altos completavam o
quadro que ela imaginara.
Olhou o quarto.
Tratou de espalhar ao acaso as muitas pétulas de rosa de diversas cores.
Ascendeu as velas, de cor vermelha, minuciosamente colocadas ao redor da sala
e apagou as luzes
A secção de parede estufada munida de algemas iria certamente provocar uma reacção nele.
O telemóvel indicava 20h42.
Deu uma ultima olhadela num dos enorme espelhos adjacentes à cama.
Gostou.
Sentia-se um pouco ofegante, efervescente, mas tão atrevida!
Fechou os olhos e respirou fundo.
Atravessou o quarto e sentou-se, pernas cruzadas, no cadeirão de veludo vermelho.


Não conseguia negar a si mesmo o entusiasmo que o momento lhe causara.
Durante o caminho várias tinham sido as ideias e imagens a percorrer-lhe os pensamentos.
O simples facto de ela ter mantido total secretismo era, em si, estimulante.
Saiu do automóvel, carregou no interruptor para fechar o portão automático
e subiu a escadaria que o levaria até ao quarto.
Ao entrar, depara-se com um cenário que jamais poderia ter previsto.
Era necessário parar para assimilar.
Extraordinário – pensa.
A luz quente e ténue preenchia todo o espaço, dançando um pouco, de vez enquanto,
ao sabor da suave corrente produzida pela grelha do ar condicionado.
A música de fundo evocava aquela sensação de serenidade perigosamente envolvente,
que costuma atravessar-nos quando contemplamos um vulcão prestas a irromper.
Sentada, o mais longe dele possível, ela permanecia imóvel, emproada, pernas cruzadas,
olhar penetrante e sorriso matreiro.
Uma Deusa no seu trono.
Definitivamente deslumbrante.


Esforça-se para conter o nervosismo.
Mas sente a respiração curta.
Tenta disfarçar.
Respira fundo.
Consegue ver que ele está impressionado e dá conta que ele também está algo agitado.
E, não fosse a escassa luz, poderia jurar que ele tinha corado, ao perceber que o tecido
das calças o traíra, revelando um volume delineado para além do normal.


“Estás preparado para fazer tudo...que eu pedir?”

Ele solta uma ligeira risada e diz que sim.

“Ok...então..”- continua -“A tua palavra segura é chantilly.”

Ele larga uma boa gargalhada. “Chantilly??? A sério??”

“Sim. Chantilly. Não a esqueças...”- confirma, sem alterar a sua postura.

“E..porque que é que eu preciso de uma palavra segura?”

"Apenas no caso de…"

"Está bem...Chantilly é gira, e certamente que não vou utilizá-la...”

“Despe-te. Tudinho. Já!”

“Calma. Sabes que tenho a mania de deixar tudo devidamente arrumado!” - ria-se,
bem disposto.


Num gesto de elegância sublime, ela levanta-se e caminha delicadamente até á parede almofada,
não tirando os olhos dele, absorvendo os seus movimentos, cruzando o olhar com o dele.
Está a conseguir comportar-se como idealizou.
Severamente bela.
Em controlo.
Mas, inesperadamente, ao ver o sexo dele saltar de dentro dos boxers, quando ele os remove,
não consegue conter um gemido infiel -“huhhh...”
Merda! - pensa, vendo a reacção triunfante expressa no rosto dele.

“Anda cá!”- impõe.
Mas, sente as bochechas ao rubro.
Já se encontra molhada e desejosa de o ter dentro dela.

“Yes ma'am..”
Ele provoca-a, piscando-lhe o olho

Recuperando a postura, ela encosta-o ao revestimento almofadado e amarra-lhes as mãos
com as algemas de tecido.
Seguidamente coloca a venda.
Dá um passo atrás.
Meu Deus – respira fundo – nunca pensei!
A inquietação cresce dentro dela.
Os seios voluptuosos imploram-lhe o toque dele.

" Abre as pernas"- ordena.

Percebe que ele está ansioso, o seu pénis duro como pedra, da ponta pende
um fio delicado que brilha como teia de aranha ao luar.
A visão daquele suco faz-a gemer outra vez, desta vez, nitidamente de tesão contida,
sinalizando, a ele, que se encontra deveras excitada.
Sabe que ele pode cheirá-la, ouvi-la, mas não pode tocá-la.
Sabe que ele quer domá-la, mas...querendo ele jogar o jogo...não está em posição
de assumir o controlo.
Então, começa por explorar o rosto dele, passando a mão enluvada pela face,
agarrando o queixo,
percorrendo ao de leve a boca e nariz e mordiscando as orelhas.
Ele inala-a profundamente.

“Porra, como cheiras bem!”

Ela bate-lhe, uma pequena tapa, no rosto.

“Shhhh..! Não falas até que eu permita!”

De seguida põe-se a arranhar cuidadosamente o peito e a beliscar os mamilos.
Ele geme e ela, sorrindo, observa o quanto aquele pénis pulsa.
Beija-o apaixonadamente, a língua dela enrolando-se na dele enquanto
acaricia o membro duro, espalhando o liquido por toda a glande.
Sente-se cada vez mais excitada.
Solta uma gargalhada marota.

“O que tem tanta piada?”

“Nada meu amor. Diga-mos apenas que...mesmo amarrado...mexes comigo...”

Não fosse a venda e ele teria visto o riachozinho que fazia trilho por uma
das suas perna abaixo.
Cobria-o de beijos matreiros enquanto o masturbava ao ritmo da sua própria
respiração, rouca.
Sentia como os seus mamilos estavam tão duros quanto os dele.
Então, começa, com a língua, a percorrer o caminho até ao sexo dele.

"Mmmm, isto parece delicioso"- diz, enquanto observa o gotejamento ao nível
dos seus olhos e dá uma longa lambidela, desde os testículos até a ponta que ameaçava explodir.
“Mmmm...és mesmo delicioso...mas é o suficiente...por agora...”

Acaricia-o, observando-o a lutar para não se vir, correndo as unhas afiadas em redor
da sua rigidez sensível.
Ele, geme de prazer.
Inclinado-se, toma-o na sua boca, devorando-o, mas é, propositadamente, de curta duração.
Ergue-se, vira-se e recua lentamente de encontro a ele, curvando-se quase de quatro,
encostando-se à sua erecção e esfregando-a no seu bumbum.
Sente como ele se contem, sabe que a quer, que deseja libertar-se dentro dela,
ensopando-a ainda mais do que já está, agarrando-a, ouvindo os seus gritos de prazer.

“Coisas boas acontecem aos meninos que sabem esperar, mas nada acontece aos que não sabem!”,
diz-lhe maliciosamente, pressionando-o com mais força.

"Estás a adorar provocar-me.."- diz ele, quando ela se coloca de joelhos, os sons de prazer
a ficarem mais altos quando movimenta mais rapidamente o seu sexo na sua boca,
girando a língua em torno da base, lambendo o frênulo e chupando a cabeça fogosamente.

Quer agarrar-lhe a cabeça, quer dominá-la, mas as suas mãos continuam amarradas
acima da cabeça, impedindo-o.
Ela, permanece em controlo.
E, de repente, deixa-o, cair de sua boca.

“Hey! Isso não é justo!”- reclama.

"É sim. Lembra-te. Concordaste em fazer tudo o que eu pedisse.”

"Porra!...Sim, senhora, verdade..."

A sobrancelha dela levanta-se, à palavra 'Senhora'.
“Mas...como és tão bem comportado, vou adoçar as coisas...”
Seguidamente, liberta-lhe as mãos e leva-o a ajoelhar-se à frente dela.
Decide manter a venda.

"Estás com fome?"- pergunta-lhe, ao ouvido.

"Sim. Muita!"- ria-se.

“Bom...então...porque esperas?”
Dito isto, pega-lhe por detrás da cabeço e encosta-se a ele, os lábios inchados,
macios e carnudos, ávidos da boca dele.
Não era difícil encontrar e tactear em ao redor do botão húmido
e erecto que só queria ser sugado.

Agora, é ela quem geme e os habituais acorda vizinhos -“ai amor.!..ai amor!”- soltam-se.
Tal é a vontade dela que ele só é capaz de respirar quando ela o permite.
Olhando os movimentos que fazia de encontro à boca dele, era como se o cavalgasse.
Ele sabe que não tardara muito para que ela atinja o orgasmo.

“Quero ver te vir miúda!”

“Ahhh sim amor...eu...tira...tira!...ai amor!...ai amor”...não aguento mais...!!!”

Liberto da venda, as mãos firmes nas nádegas dela, ele continua
a lamber-lhe a vulva arduamente, levando-a a outro orgasmo.
Por momentos, ela vacila, abraçando-o quando ele se levanta para
a amparar durante as múltiplas convulsões.

“Foi bom?”- pergunta-lhe - “Foi bom ser o comandante?”
Sorria-lhe.
Beija-a suavemente.

“ Sim...gostei muito...”.
Devolve-lhe o beijo, carinhosamente.

“Pois é...mas sabes..”- e com isso, vira-a para a parede e algema-lhe a mãos,
“Tenho a dizer-te...que passaste a estar entregue a um amotinado!”

Seguidamente puxa-a, pelas nádegas, para ele, afastando-a o suficiente da
estrutura que a prende, por forma a poder separar-lhe as pernas,
arqueando um pouco as costas, empinando o rabo o suficiente
para o poder agarrar com virilidade.
Está louco de tesão.

“Adoro ver-te com estes sapatos”- suspira-lhe -“e ficas mesmo à altura certa!”
- brinca, enquanto mergulha o seu mastro nela adentro,
provocando um longo e profundo gemido.

Gosta de penetrá-la com vigor, uma mão na anca, outra circundando-a,
os dedos trabalhando o clitóris dela impetuosamente.
Os gritos dela e o arfar dele anulam por completo o som ambiente.
Movem-se em ritmo alucinante, dois corpos cúmplices na busca do prazer partilhado.
O momento é chegado.
Debruça-se sobre ela, agarrando-a e vem-se violentamente.

“Sou teu meu amor”- murmurou-lhe, ao dar a última estocada,
levando-a a gritar de prazer e a expeli-lo de dentro dela, com um jacto quente,
encharcando-os, alagando o soalho.

Desata-a.
Abraça-a por detrás.
Ela, coloca as mãos dela, sobre as dele.

“Adorei a surpresa miúda...”

“Ainda bem amor. Eu adorei ser a surpresa”- ri-se.

“Bem...da próxima vez, começo eu como chefe...”

"Veremos…"

“Conta com isso..”

Ela vira-se e eles fixam o olhar, um no outro.
Ele adorava aquele jeito traquina dela.

“Por acaso o jantar vai ser servido depois da sobremesa?...”- pergunta-lhe.

segunda-feira

Noutros Tempos



“Então, o que achas, mereceu a pena pedir o jeep emprestado?”
“Meu Deus amor, não fazia ideia...e tão perto! Quase que apetece ficar nua!”
“Bem...nua não digo, mas...”
Deitou-lhe um olhar rasgado, desfez o nó atrás das costas, atirou-lhe com a parte cima do biquíni e pulou porta fora, correndo em direcção à água, o seu cabelo loiro solto e selvagem dando cor à gargalhada.
Em outros tempos, percorrera numa pick-up dele, os trilhos até à lagoa paradisíaca, uma morena linda ao seu lado.
Nessa altura, partilhavam-se sonhos e o momento fora vivido repleto de felicidade.
Naquele local ainda vagueavam fantasmas em jeito de memórias agridoçes.
Agora, encontrava-se de novo ali, desejoso para partilhar aquele pedaço de terra de beleza singular.

E, tão maravilhoso- pensou -a forma como a paisagem circundante acolhe quem lhe trago, pois elas fundem-se na perfeição com as suas dunas de águas calmas e ondas de areias cintilantes!

Na beirinha do areal, de pés molhados, o seu amor, mulher traquina por natureza, devolvi-lhe o olhar com profundidade e soprava-lhe um beijo.
E, os vultos de outros tempos, renderam-se serenamente.

“Que pena ser tão gelada!”
“Olha que hoje até estás com sorte. Está fria mas não dói nos ossos dos pés e a maré está alta. Pode-se entrar sem ter de pisar catrefadas de pedras e conchas!”
Encontravam-se estendidos nas espreguiçadeiras debaixo do chapéu de palha, protecção preciosa contra o sol radiante que já ia alto.
Tinham chegado cedo para apanhar um lugar tranquilo e estacionamento por perto.
Em outros tempos, aquela praia arenosa banhado por um mar turquesa cristalino, que mais parecer tirada de um postal turístico propagando estâncias turísticos longínquas, fora sítio de passeios.
Mas, não no verão. Nesses dias de clima mais agreste, as palavras e os gestos trocados tinham acalentado o namoro.
Belos momentos vividos em tão belo sítio.

E tu, meu amor, como és bela!- olhava-a de esguelha -e como fazes as lembranças do passado encontrarem, facilmente, os seus lugares de tranquilamente, em mim.

“Vá, anda lá! Como queres ganhar apetite para o arroz de tamboril?”
“Não preciso de congelar para ter fome...nem pensar...vai tu!”
Piscou-lhe o olho e virou-se, deitando-se de barriga para baixo.
“OK...como queiras...mas sabes que vou voltar muito muito molhado...!”




“Tenho uma surpresa para ti amor”- disse-lhe, à saída do almoço.
“É hoje que vamos viver a Experiência! Quando falaste em vir ao LX, tão perto...”
“Umm, pois...”- respondeu-lhe -“Pilar 7?”
“Yep!”
Ria-se divertidamente, que nem uma garota, enquanto colocava a mochila às costas.
Afinal, ele tinha-a levado a aventurar-se no Hippo, autocarro anfíbio, premeditadamente, sem ter-lhe dito nada. Ela, estava a fazer-lhe o mesmo.
“Já foste lá cima?”
“Sim...coom quem tu estás a pensar...”
“Ela gostou?”
“Gostou muito...tirando um determinado chão esquisito que há...”- ele não pode deixar de rir.
“Bem, se não fizer xixi nas calças já ficarei contente!”- respondeu-lhe, visivelmente bem-disposta.
Ele adorava aquela sua faceta.
A maturidade e naturalidade com que encarava e falava do passado, de ambos.
Em outros tempos, ele tinha preparado semelhante surpresa para a tal morena de cabelo cumprido escuro cujos ténis, igualmente brancos, faziam parte do quadro pintado a quase 100 metros do solo, numa varanda de tirar a respiração construída em vidro.
O vento vindo do Tejo prometia uma visita agitada e mais uma vez, como em tantas antes, ele via-se a escrever uma nova página em lugar conhecedor do seu passado amoroso.

Fabuloso- lembrou-se do lema do blogue dele -Life's not about how many breathes you take, rather the moments that take your breathe away!”

Deu-lhe a mão e acelerou o passo sorrindo -”Come on girl..!”
“Puxa...para quê tanta pressa agora amor?!”
Parou -“Não quero apanhar uma excursão de chineses reformados de barriga cheia e telemóveis em riste!”
“Tuuuu!”- replicou, pregando-lhe um beijo na boca -”Adoro-te...”




Olhou o texto que escrevera.
Sorriu.
A vida é mesmo imprevisível...
Já não escrevia fazia tempo, mas bem...vamos lá dar isto por encerrado.
Tenho de zarpar que há uma festa à nossa espera!!




sábado

Calzedonia



E, o porquê deste título?
Mas então, não é aquele espaço um blogue, um espaço onde ele ao longo de tanto
tempo escreve as suas mágoas, alegrias, conquistas e perdas?
Sim, até que fazia sentido - apenas queria registar o que sentira nessa manhã.


Nessa manhã de começo de fim de semana, envolto em chuviscos ocasionais,
ele deslocou-se até ao centro comercial mais próximo para comprar cola.
Era um emergência, havia um trabalho a efectuar na loja.

Fazia imenso tempo que não punha lá os pés.

Mal entrou no corredor que dava acesso ao supermercado reparou nas cortinas
brancas que permaneciam desenroladas quase até ao chão, impedindo as três pessoas,
que aguardavam ansiosamente, de aceder à loja de telecomunicações.

Esboçou um leve sorriso.
As recordações de esperas sem conta em frente à tabacaria adjacente chegaram até ele.
Como era fácil lembrar os beijos apressados, as mãos dadas e os olhares cintilantes
que iluminavam sorrisos cúmplices.
Demasiado fácil.

Seria sempre assim?
Haveriam lugares que para sempre ficariam reféns de memórias presas ao passado,
ao romance, ao amor que partilhara com aquele miúda dona de uma beleza quase oriental?
Talvez...
Se calhar...se calhar as lembranças esporádicas que brotam do nada em circunstâncias
variadas e inesperadas são naturais, consequência de sentimentos que vivem eternamente
dentro daqueles que, verdadeiramente, amaram alguém.
Afinal, não são para sempre guardados em nós, os amores mais preciosos,
as pessoas mais importantes, os momentos mais marcantes?
Por muito bem guardadinhas e arrumadas que estejam - não morrem.
Fazia sentido.
O esquecimento torna-se possível, somente, quando o que passou...passou,
isto é, quando na verdade não houvera amor de verdade.

Pegou na bisnaga de cola ( e já agora ) no produto limpa pára-brisas e
dirigiu-se à caixa de pagamento self-service.

Estaria ele naquele momento, ao recordar com ternura alguns momentos do passado,
a trair a companheira?
Ponderou.
Não.
Os sentimentos eram outros.
O tempo decorrido tratara disso e a relação actual era repleta de tanta coisa
boa que ele sabia isso.
Sentia-o.

Efectuou o pagamento e encaminhou-se para o carro, passando pela tal loja que
continuava à espera das 10hrs.

Sentou-se.
Fechou os olhos e respirou profundamente.
Via-a com clareza.
Aquela miúda esbelta de sandálias altas escorregadias, em dia de verão azul,
sorriso aberto e cativante, descendo a rua no passeio do lado oposto.
Que bela recordação... 

Por ventura não lhe teria dito, as vezes suficientes, o quanto era importante para ele,
o quanto a amava, o quanto temia perdê-la.
Ou teria?

Ligou o rádio.
A música agora era outra. ( e este Cd que-lhe fora oferecido era óptimo )
Sabia que nunca mais poderia correr o risco de uma perda semelhante.
Tinha consciência absoluta que o amor alimentava-se de gestos constantes,
naquilo que tem de ser uma dedicação diária.

Deu à chave e arrancou.
Ia surpreendê-la com um programa especial para logo à noite.
Sabia exactamente o quê...!

Mas, a manhã permanecera brincalhona e ao deixar o centro comercial para trás,
ele não tardou em soltar umas valentes gargalhadas.

"Devias ter a idade dela..." - disse em alta voz, olhando o reclame da Calzedonia
na paragem de autocarro, lembrando-se do cartaz daquele ano longínquo.
Lembrar era bom.
Contudo, viver o presente - era muito melhor!

Levantou o som.
Ria-se - "Esta música..!"
O fim de semana prometia.

O olhar dele mudou.














quarta-feira

"The Problem with You!"



Espreguiçavam-se entrelaçando as pernas e aninhando os corpos um no outro,
fundindo o calor que transpirava com falta de ar, os primeiros raios solares do
dia furtando o repouso de quem tem por hábito levantar-se cedo.

O alarme no telemóvel dele soou.
“Vá lá miúda...pára com isso...” - disse-lhe, beijando-a de seguida com ternura.
“O comboio não espera...”

“...simmm...verdade...mas sabe tão bem ...”

Ele riu-se.
Olhou-a quando se levantou.
Realmente, só lhe apetecia mergulhar nos lençóis de flanela e apoderar-se daquele
corpo sedoso e quente.

“Está bemmm...mas só porque quero ver como vai ser a tua surpresa!”



Tinha-a convencido, em dia de folga semanal, a partir com ele numa espécie de
aventura, rumo a um lugar que mantivera secreto.
Sabia como ela adorava situações do género e de como isso mexia com o libido dela.
Não era a primeira vez que partiam os dois em busca de um dia diferente,
longe das pessoas e do dia-a-dia habitual.
No entanto, incluir no passeio a viagem de comboio tinha, desde logo, causado impacto.

Passava pouco das dez e um quarto quando chegaram, literalmente, ao fim da linha e
atravessaram a sala da pequena estação rumo ao centro da cidade.
De mãos dadas e conversa animada trilharam caminho, ele armado em guia,
parando de vez em quando para tirarem fotografias.
O dia tinha acordado revestido de um vento inamistoso e frio mas o calor reluzente do
astro rei salvaguardava-os o bastante e a caminhada revelara-se prazerosa e cheia de
descobertas, sobretudo para ela, já que era a sua primeira vez por terras Alentejanas.


“Então e agora, vamos pôr as mochilas ao hotel, ou coisa parecida?
Não dá muito jeito andar com essa que tu carregas amor...”

Tinha razão, contudo ele sabia que também estava curiosa quanto ao “resto”.
“Verdade...Olha, vês ali para dentro? É a entrada para o restaurante onde vamos
almoçar...e sim, o Páteo...é mesmo num pátio!”

Ela soltou uma gargalhada bem disposta.
“Ok...Évora está a ser adorável, o bolo de mel e as queijadas ao pequeno almoço
foram divinais, a viagem de comboio muito mais amorosa porque podemos vir
agarradinhos...masss... acho que estás a fugir ao assunto.
Onde vamos pernoitar, amor meu, neste dia dos namorados?”

De repente, era como se naquela rua estreita apenas ecoasse o riso deles,
levando-a a corar ao aperceber-se que havia algumas lojistas a olharem-nos.

“Pronto...É ali. Vamos ficar...ali.”

Ela arregalou os olhos.
Contemplou o templo de pilares seculares isolado na praça deserta de gente,
um pouco mais à frente, perto do que parecia ser uma igreja de arquitectura manuelino
e traços góticos, estes partilhados com a imponente Sé que se erguia perante eles,
ou não fosse aquela a maior catedral do país.
Serviu-se do telemóvel e fez ar solene.
“Antigo templo romano também conhecido por Templo de Diana...”

“Istooo...É só modernices.Hoje em dia ninguém lê os letreiros...”- ele interrompeu-a,
fazendo cara de reprovação.

Sem levantar o olhar do ecrã, replicou -“Pois pois...tudo muito bem e lindo claro...mas...
continuas sem responder...à questão...”

Ele riu-se, pegou-lhe na mão e como que arrastou-a pela calçada acima
em direcção à construção de mármore e granito.
“Anda! É só contornar... Achei que seria interessante desvendar mais alguns segredos
teus aqui, onde tantas freiras inocentes, tadinhas, eram levadas à loucura por
 frades loucamente apaixonados!”

“Deve ser...Ummm...Tem um letreiro muito explícito - Pousada dos Loios.
Tu e a tua imaginação fértil!”

“Nada disso...começou por ser um convento” - explicou-lhe de sorriso aberto.
”Google it também minha querida!”

Quando a pesada porta de madeira se fechou, ela atirou-se para cima da enorme cama
de estilo renascentista e suspirou.
“ Meu Deus, sinto que estou a arder! Que calor está aqui dentro!”
Descalçou as botas pretas tipo tropa e despiu as calças de cabedal justas revelando a
cuequinha, diferente das habituais e muito sexy,
que combinava com as meias de cor idêntica,
grossas, pretas, e com pequeníssimos corações brancos.
De seguida foi espreitar a casa de banho.
“Olha que giro! Nunca tomei banho numa banheira com pés!”
E, só parou quando se debruçou sobre a janela para vislumbrar o
pátio que albergava a piscina.

“Isto é mesmo lindo. Respira-se um ar totalmente diferente.”
Tinha-se virado para ele, uma perna flectida para trás e apoiada na parede,
uma mão sobre a manipulo da porta da casa de banho enquanto a outra
manuseava o telemóvel, claramente em busca de algo.
Falava de cabeça inclinada, olhos cintilantes, os cantinhos da boca escondendo
aquele sorriso de marota que busca uma reacção há medida do pensamento que
acabará de tomar conta da sua vontade.

Ele fechou a porta do frigo-bar e olhou-a de relance.
Uma foto em lingerie, assim...- pensou. Tenho de ter.
Depois pegou em dois copos da prateleira de apoio e despejou o conteúdo dos
aperitivo-martini biancos,
com suavidade, à medida que as notas da música escolhida o alcançavam,
rogando-o que se virasse na direcção dela.

"...ummm...com que então sou o teu problema huh?"
Olhou-a de novo e suspendeu os movimentos ao vê-la retirar o resto da roupa,
até ficar apenas com a lingerie que, claramente, escolhera para estrear no dia.

Ela voltara a encostar-se para trás, um feixe de luz espesso inundando o caminho até ele,
esculpindo-a, inflamando os cabelos soltos, a tentação invadindo de novo,
o outrora convento celibatário.
"...the problem with me...is you..."- ela respondia-lhe, acompanhado a canção,
movendo as ancas em harmonia lasciva.

Pousou os copos na mesa com pés de galo e tratou de despir-se.
Sentia-a, a respiração mais curta denunciada pela pulsação que corria.
Afastou o enorme cadeirão em couro claro da mesa.
De costas para ela, livrou-se dos boxers, voltando-se para a encarar de frente
enquanto levava o copo à boca.
“Tens razão miúda. Está bastante calor aqui.”
Viu-a humedecer os lábios, a língua dela faminta de sabores viciantes.

“ Deve ser por isso que ele está...desse jeito...”

“Como? Ah!...sabes como ele é. Pensamentos próprios. Nem me deixa saborear o martini.

“Não seja por isso...mas olha...que tal deixares isso para depois de um banho.
Não vamos almoçar assim...pois não?”

“Assim? Não...creio que temos de ir vestidos....”

Ela riu-se apaixonadamente.
“És tão parvo...não é isso!
É que tenho um...digamos...certo calor...a escorrer-me pelas pernas abaixo...”

Ele pouso o copo e sentou-se no cadeirão.
“Tira...” apontou para a cueqinha.
”Deixa...”- apontou para o soutien.
“Anda cá...”

Fez o que ele mandou, fazendo a pequena peça intima deslizar e cair
no chão de madeira envernizada.
Depois, com passos de bailarina chegou até ele e virou-se,
deitando um olhar pelo ombro.
“Junta as pernas” - disse-lhe - "Também sei mandar..."
Ergue-se em bicos de pés e chegou-se atrás, pernas afastadas.
Inclinou-se ligeiramente colocando as mãos nas pernas dele,
há medida que se enterrava, lentamente, nele,
controlando propositadamente o movimento e a desejada penetração.

Agarrou-a pelas ancas.
Curvas acentuadas desciam até nádegas sensuais,
donas de um rabiosque gostosamente torneado.
Ele gostava de observar aquele gesto que ela tão bem dominava,
a subtileza com que ela o segurava, a meia haste,
o apontar às cegas com perícia,
para seguidamente afundar-se lentamente nele,
soltando um “Ai amorrr...ai...” profundo.

A excitação arrebatará-os por completo.
O lugar, o momento, o dia...a cumplicidade...

Sentia-a começar a estremecer à medida que se movia feito gangorra,
sendo necessário ajudar a controlar a cavalgada desenfreada que tomara conta dela.
Fechou os olhos.
Adorava quando aquele cheiro começava a emanar dela, uma mistura quente,
contagiosa cativante.
Engraçado...
Tal como o nome do eau de parfum que ela lhe oferecera durante a viagem de comboio...Inebriante!

"Hey...miúda..."- suspirou-lhe, chegando-se a ela,
suas mãos envolvendo-he os seios irrequietos
"Glad I'm your problem..."
Tirou-lhe o soutien.

"...me too amor...fogo...como eu te quero!..."



Dali a um bom bocado,
o curioso relógio centenário diria que estavam a atrasar-se para as plumas de porco preto.
Mas,
àquela hora,
o sol voyeur atiçava-os,
apenas,
a satisfazerem os impulsos primários.