segunda-feira
Notas Soltas
A entrada da residência possuía muros altos protegidos por cercas vivas de vegetação venenosa e o portão eléctrico a mensagem de “boas-vindas” para os visitantes.
O proprietário da residência havia promovido certas mudanças no ambiente dantesco da pequena mansão campestre, colocando mais luz onde havia apenas as sombras dos fantasmas do passado. Agora, os postes de luz iluminavam todo o jardim, começando na entrada do mesmo, um atrás do outro sucessivamente, até alcançar o salão de festas que se destacava das demais áreas por ser um elemento moderno, presente na propriedade.
A partir dali, e por um caminho empedrado, os postes eram trocados por tochas orientais e o caminho descia até uma bela e singular piscina, que naquele momento, mais parecia imitar um lago, um lago tirado de um sonho, porque havia ali flores e velas acesas que boiavam na água, como que à espera de alguém.
O homem estava parado na varanda da casa e segurava uma taça de champanhe numa das mãos, rodando a mesma por entre os dedos de maneira dispersa, enquanto o seu olhar se encontrava perdido no jardim.
Olhou para trás. Tinha dispensado todos os seus empregados, até mesmo seu mordomo.
Todo aquele silêncio instaurado dava-lhe a sensação de que não estava sozinho.
Virou o conteúdo da taça e num único gole terminou a sua bebida.
Caminhou pela varanda de maneira calma, sem deixar de prestar atenção ao jardim e às mariposas que voavam de encontro as lâmpadas.
“Cegam-se por tão pouco !” Riu-se ao lembrar aquela frase, aquele disparate...
Desceu a escadaria até a calçada, mas assim que os seus pés descalços tocaram o chão frio, parou abruptamente. A friagem parecia querer invadir as suas entranhas a partir dos seus pés, mas não era só pelo choque térmico que ele havia cessado a intenção de continuar a caminhar.
Olhou para trás. Um arrepio subiu-lhe pelas costas acima e ele sentiu, novamente, a mesma sensação de haver olhos a mirá-lo. Repentinamente, pôs-se a caminhar para longe da casa a passos ágeis, seguindo para o salão.
Todo o salão se iluminou, quando o interruptor foi accionado.
Havia um piano solitário, no meio.
Neste salão não existem as habituais paredes que fecham, eram todas de vidro, as cortinas brancas, a balançarem devido à brisa da noite que lhes atingia através das janelas abertas.
A iluminação do jardim penetrava no salão gradualmente, iluminando o piano com um rastro de luz envergonhada.
O homem olhou para o piano branco e aproximou-se do mesmo, puxando o banco para se poder sentar. Apoiou a taça sobre o móvel, levantou a tampa que protegia as teclas e com uma calma invejável, puxou o pano de veludo negro que protegia as teclas brancas e pretas, colocando-o ao lado da taça vazia.
Por um momento o homem de ar aristocrata, observou o ambiente, como as cortinas se moviam com a brisa, como a luz dos postes e tochas pareciam harmonizar-se perfeitamente no exterior, e que ali, naquele ambiente nada passava desapercebido, nada estava deixado ao acaso.
Era chegada a hora. A iluminação desligou-se. O negro. O luar. Amiga. Barato e sem igual.
Virou o rosto lentamente e fitou o caminho que dava para a piscina, era perfeitamente visível.
Fechou os olhos e inspirou o ar com suavidade, expirando depois, talvez, à angústia que sentia. Fez estalar os dedos.
Ele não era um bom pianista, mas as notas fluíam de forma melodiosa dado o jeito leve e decidido com que os dedos tocavam as teclas, viajando sobre elas com carinho.
Era meramente um homem de negócios. Tinha qualidades que o permitia desfrutar de companhias agradáveis, mas também possuía defeitos que contudo, lhe conferiam, apesar de tudo, um certo respeito, fosse nos negócios fossem no seu círculo social.
Não era um homem dado a relacionamentos duradouros.
E depois, depois do que se passará....não houvera mais...nenhuns.
Tinha se apaixonado.
Uma vez.
Uma garota com quem ele havia simpatizado.
Assim sem mais nem menos.
Sem saber porquê
Sem razão aparente.
Sem se aperceber.
Era por ela que ele deslizava os dedos pelo piano, expondo sentimentos de maneira delicada, assim como quem inspirou a melodia, o era.
Cantou. Cantou a falar, virado para as portas que se encontravam abertas ao jardim, passagem envolta em sombras torneadas pela sua amiga celeste, única luz nas suas trevas.
Ainda sou capaz de ouvir o teu riso.
Disse que te amava.
Inventaram mentiras.
Jurei-te que nada disso nos atrapalharia.
Que graça tem a minha vida agora...
Só depois percebi que às vezes damos importância demais
ao que os outros falam de nós, sobre nós...
Ainda me questiono o que te fez ir para ali...
Será que devo somente culpar o erro de te ter deixado só, naquela noite?
Parabéns...
Hoje e sempre.
Sim, como pude eu esquecer-me...naquele dia...naquela noite?
Parabéns meu amor!
Nunca, nunca mais me hei-de esquecer!
Achei que éramos felizes...não percebi...
Há quanto tempo... foi?
Parece que foi... ontem...
Ontem tinha te aqui saltitando ao meu lado...
Hoje, o meu presente é esta música, embalada pelas notas calmas do meu piano...
O nosso amor pode pertencer ao passado
mas eu trago comigo as lembranças
e espero que onde tu estejas, tenhas um pouco de mim, contigo, guardado.
Se calhar, tudo aconteceu...porque eu...nunca te disse...
Amo-te! Amo-te!
Estou preso... a ti...para sempre....
Eu errei...
Eu não me perdoo.
Basta !
O pianista bateu com as mãos sobre as teclas, quebrando a harmonia, transformando a beleza no mais profundo e desprezível barulho.
Um ponto final, na melodia, no ritmo, na letra, na música.
Um ponto final...
Recolocou o veludo no lugar e fechou a tampa do piano novamente.
Outrora quem sabe, noutra noite, noutro lugar...voltasse a tocar.
Levantou-se com elegância, afastando o banco. Encarou a taça sobre o móvel e pegou nela enquanto se movia em direcção à saída.
Refez o caminho para a casa em passos lentos, olhos brilhantes, punhos cerrados.
Assim que galgou os degraus, parou novamente na varanda, olhou para o jardim e para o céu, vazio e frio, sem lua, como era habitual, sem sons, sem vida.
Até já, meu amor... – murmurou, fechando a porta em um movimento, sem som.
Tudo ficou profundamente escuro.
A não ser a decoração da piscina.
O vento trazia o nevoeiro, um manto denso e espesso que cobria tudo, que abafava tudo...
Mas velas ainda ardiam, e as flores ainda boiavam.
Um estalido ecoou por toda a casa, fazendo com que os cães nas redondezas
ladrassem devido ao barulho característico de um tiro...
Uma consequência sem volta, uma dor sem cura.
A noite chamou pela lua.
O vento levantou o manto.
Um céu estrelado cobriu o sítio da piscina de água radiante.
A natureza respirou.
E o festim dos grilos...voltou ao jardim.
domingo
Porquê Esperar ( 2ª Parte )
Tinha chegado a Dublin há pelo menos 2 horas.
Deu uma pequena volta pela cidade e acabou por fazer algumas compras, mesmo sem ter a certeza que ia encontrar-se, de novo, com o ele, algo dizia-lhe que era melhor estar já preparada para tudo o que pudesse acontecer.
Estava planeado que ficasse ali no máximo dois dias e ela ia cumprir com isso. Marcou um almoço com o presidente da “Perfect Eyes”, o almoço foi passado principalmente a dormir, já que o homem não se calava e ainda por cima não falava nada de especial. No entanto, acabou por ganhar a sua confiança ao ouvi-lo falar da sua miserável vida e ele prometeu-lhe que o contrato seria assinado pelos outros accionistas no dia seguinte à mesma hora.
Claro, um decote bem escolhido, também, ajudava sempre.
Depois da reunião, dirigiu-se ao encantador hotel que ficava na margem do Liffey River, ao pé da Anna Livia Bridge, uma das 16 pontes que o atravessavam.
Ao entrar deparou-se com uma rosa vermelha em cima de um das almofadas. Estremeceu ao vê-la. Aquilo parecia mesmo coisa do Paulo. Andou calmamente até ela e ao pegar-lhe, reparou no envelope que estava meio escondido debaixo da almofada. O cheiro da rosa fez-lhe lembrar as primeiras flores que recebera dele, na ocasião, ele tinha faltado ao jantar que lhe prometerá. Na verdade, tinha-se trato apenas de uma flor, uma única rosa vermelha entregue dentro de uma caixa branca envolta por um enorme laço vermelho. Desde então que ambos fugiam desse jantar.
“Espero-te às 21horas na entrada... juro que desta vez não falto!”
Sentou-se na cama e chorou durante algum tempo. Parecia-lhe que tudo voltava sempre ao início, que tudo seria determinado por aquele jantar. Pensou que o melhor era tentar acalmar-se e pensar no que deveria fazer, talvez levar aquilo na brincadeira, um jogo a dois, mais um jantar com um homem.
Sabia que isso era impossível. Não se queria magoar de novo. Deveria fugir?
21horas
Aqui estou eu de novo feita uma tonta – suspirou – que calor, humidade !
Vai chover de certeza.
Vestia um vestido preto que fazia jus aos contornos do corpo dela e evidenciava as costas descobertas. Trazia uma echarpe prateada a combinar com as sandálias de salto alto, que se misturava com o cabelo longo que estava solto como era costume. Levara consigo a rosa vermelha. Estava muito nervosa. Pensou que devia estar diferente, os seus sentimentos não tinham mudado desde aquela noite em que ele a tinha deixado plantada...à espera...
Passaram 20 minutos.
Acabou por se sentar nas escadas do hall, não sabia o que fazer, queria chorar,
o coração sangrava.
Naquela noite tinha-se sentido assim, exactamente os mesmos sentimentos, raiva, decepção e por fim... por fim não tinha conseguido odiá-lo...
Por muito que eu sonhe, nunca nos encontraremos... tu e eu...o nosso destino! Tudo parecer pronto para falhar, desde o início...
As lágrimas finalmente atingiram os seus olhos.
Saiu para a rua, de encontro ao rio...
Teimosa, continuou ali, à chuva, à espera ...
Pediu que a chuva levasse com ela a raiva e todos os sentimentos que tinha tão dentro de si !
-Quem me dera poder abrir o meu coração e tirar o teu nome do meu coração, de certeza que assim eu era capaz de ser feliz mesmo que por apenas umas horas... já que eu iria após isso sentir um tremendo vazio em mim! Tu és que eu quero ! Porque não te disse, meu amor ! Porque te deixei ir ?
Pesadamente, sentou-se nas ripas de madeira encharcada do banco de jardim que tinha uma pequena placa com a inscrição do nome do rio.
Existia a possibilidade de ela não ser o que ele queria, de não ser aquilo que ele procurava, se calhar achava-a atraente, mas os sentimentos...o partilhar de um futuro...
A chuva caía, cada vez mais, com força.
Atirou com a rosa.
Pensava em tudo o que tinha acontecido desde que tinha ouvido pela primeira vez aquele nome, o nome que tinha mudado a vida e tudo nela, o nome que tinha entrado e não tinha e nunca iria sair...
- Hanna... desculpa! – ao ouvir aquela voz, pensou tratar-se da imaginação dela, só podia ser, mas mesmo assim ergueu o rosto e encarou aqueles olhos escuros que a faziam esquecer tudo que a incomodava, num ápice...
- Estás muito zangada comigo, não estás? – ele ajoelhou-se e tocou-lhe suavemente no rosto.
- Toma, fui lá cima buscar-te o chapéu-de-chuva.
- Paulo? estás tão molhado quanto eu!
- Desculpa, eu queria chegar a horas...não, não é nada disso...confesso! Tenho medo, tive para não vir...andei por aí às voltas...mas...aqui estou...meu amor...
Sentia-se desorientada mas não tinha qualquer dúvida que o amava...
- Não faz mal! Vieste, isso é o que importa! Abraça-me !
- Faz mal sim! Eu abandonei-te e depois nem consigo... – Hanna calou-o com um beijo apaixonado, ansiava pelo sabor da boca dele, desde o dia em que ele tinha partido, que sonhava com um beijo daqueles, com ele.
- Eu nunca devia ter te deixado ir! Eu amo-te! Eu pensava que ia conseguir ficar sem ti, que ia conseguir ultrapassar tudo, queria esquecer-te e não sentir a tua falta, mas...eu não consegui! Desculpa!
Ele abraçou-a com força e ela, com medo de que ele fosse desaparecer, que aquilo não fosse real, saltou-lhe par o colo, colocando as pernas
em volta do tronco e os braços por detrás do pescoço.
- Eu também te amo e nunca vou conseguir ficar sem ti! Mesmo que não esteja destinado a acontecer... eu pertenço-te, porque me apaixonei por ti, pelo teu olhar, pelo teu sorriso, pelo teu humor... até pelo teu mau-humor!
Beijaram-se suavemente.
Depois, ficaram ali durante algum tempo debaixo do chapéu dela, à chuva, a festejar, fazendo milhares de promessas de amor eterno e tudo mais, podia não ser o destino, podia até estar destinado, mas por agora, iam aproveitar, iam viver aquele amor que sentiam um pelo outro e que naquele momento, pensavam, jamais, acabaria.
Porquê Esperar ( 1ª Parte )
Estava no aeroporto.
O avião iria com destino a Ibiza dentro de uma hora. Já tinha feito o check-in e agora só lhe faltava esperar pelo Hugo que tinha os documentos essenciais para formalizar o contrato com o grupo espanhol.
- Fiz-te esperar muito? – aquela voz, não era do Hugo...
Ergueu a cabeça e olhou para a sua esquerda. Um aperto tomou conta do seu coração, sentiu-se perto de ter um ataque cardíaco, aquilo não podia estar a acontecer!
- Quem diria? Sr. Ferreira?! Que faz aqui? – perguntou com o tom mais sarcástico possível.
- Sr. Ferreira? Formal demais para meu gosto, mas se preferes tratar-me assim...
- Que está aqui a fazer?
- Eu vou para Ibiza! – o seu sorriso assustou-a.
Ficou claro para ela que ele já tinha alguma coisa em mente e que
de certeza não o ia deixar escapar, contudo, estava no seu feitio tentar.
- Como... vai para o Ibiza? Fazer o que?
- Não achas que estás a fazer perguntas a mais? Eu vou em negócios!
- Ah! Quando é que vais?
- Tu?! Trataste-me por tu...viste ? – ele sorriu, parecia estar a divertir-se.
- Quando é que vai? – disse, franzindo as sobrancelhas.
Eu vou daqui...exactamente a... 45 minutos. E tu?
Toma lá os documentos que precisas para assinar o tal contrato.
- Obrigado... o que aconteceu ao Hugo?
- O Hugo ? Ah sim, aquele que tem sempre vontade de beber café á mesma hora que tu ? Pois...ele realmente disse que gostaria de te acompanhar, mas o teu patrão achou melhor ser eu a tua companhia, durante a semana em Ibiza,
sabes como é, putos...depois é o que dá...
- A minha companhia... não obrigado, sei tomar conta de mim!
- Sim! Ele disse que, como eu conheço Ibiza, é melhor ser eu a acompanhar-te...para não te perderes, e eu tenho muitos contactos entre os accionistas com quem vais falar. Oh Hanna, não fiques assim, só te vou ajudar! – e não consegui reter uma bem audível gargalhada.
- Não me parece! Acho que vais é atrapalhar!
Levantou-se e viu-o a olhar de cima a baixo
- O que foi agora? Nunca me viste?
- Já, mas parecias menos atraente das outras vezes! Não que não o sejas, atenção...
- Isto não me está a acontecer! Eu não acredito nisto !!
Estava com um vestido curto, com alças, de tons térreos com umas pinceladas de amarelo. Se calhar podia ser considerado um pouco demais para uma viagem e mais apropriado para outras ocasiões, mas há muito tempo que não o usava e não era todos os dias que iria puder ir a Ibiza, onde o calor habitualmente é demais.
- Ainda estás a olhar? – perguntou, ao reparar que ele continuava no mesmo sítio enquanto ela já se preparava para virar a esquina e subir para o andar seguinte.
Ele começou a andar na sua direcção, ia num ritmo calmo, com as mãos nos bolsos, parecia bem confortável apesar do fato azul-escuro que vestia.
Viu-o levar a mão à gravata, tirá-la e colocá-la no bolso do casaco.
Desapertou os primeiros botões da camisa e sorriu-lhe.
A ela, pareceu-lhe que ele se estava a pôr à vontade! Mas por que raio estava ele a comportar-se daquela maneira ?! Seria ele sempre assim ? Olhou em redor para se certificar daquele pensamento e, logo se arrependeu, estavam todos a olhar, todos pensou – todas !
Finalmente embarcaram e ele pediu-lhe licença para se sentar à janela.
Bem ao seu lado – pensou - teve logo de arranjar um lugar ao pé de mim, eu a quere-lo bem longe, afinal não tive muita sorte, ou será que tive?
Não conseguia entender, sentia algo muito forte quando o via, quando ouvia a sua voz clara e aveludada ao mesmo tempo, mas depois... quando ele lhe falava, tinha vontade de o matar, de o estrangular até ele a deixar em paz!
Olhou-o meio de lado, pensando no que teria sido...era...que fazia com que ela se sentisse....apaixonada... por aquele homem...
Apaixonada... eu estou sem dúvida apaixonada – a ideia fez-lhe fechar os olhos com toda a força. Considerava-o demasiado misterioso, um completo desconhecido,
não era que não o queira conhecer, até queria, mas quando surgia
uma oportunidade, simplesmente estragava tudo!
Como que por pressentimento ele olhou para ela, aqueles olhos escuros a observar, a cintilar de uma maneira que ela nunca tinha visto antes. Parecia tentar dizer algo com aquele simples e maravilhoso olhar, e a vontade de querer aproximar-se dele e pedir desculpa, tomou conta dela. Devia-lhe uma data de desculpas, primeiro por ter fugido em Londres, depois por o ter despachado quando a convidou para jantar pelo telefone, aliás, a ultima vez que tinham falado...
Que coisa, parece que não estamos destinados, se calhar é isso – pensou, e um calafrio percorreu-lhe o corpo.
- Que pensas fazer quando aterrarmos? – perguntou sem desviar a sua atenção das nuvens que via através da janela.
- Não sei... que achas que devemos fazer? – sentiu-se contente por ele meter conversa e sobretudo pelo sorriso aberto que lhe estava a lançar.
- Que foi?
- É a primeira vez que te referes a tu e eu, como nós – disse-lhe e voltou a olhar pela janela.
- Que estás a ver?
- Nada! Mas eu gosto do ar, em pequeno queria ir para a força aérea...
- Ah! E imagino que também quiseste ser astronauta então?
- Quase fui!
- E porque desististe?
- De ser astronauta? Bem... não era o tipo de profissão aceite por um pai que sempre desejou ter o filho a seguir-lhe as pegadas, mas que no fundo, pouco fez para que isso acontecesse. Acho que não tive muita escolha na verdade...
- E tu?
Ele olhou-a nos olhos e esperou a resposta que parecia não querer surgir.
- Foi mais ou menos assim comigo também.
- Bom, pelo menos já temos algo em comum.
- Achas que os accionistas estão à nossa espera hoje? – perguntou-lhe
voltando-se para a janela.
Lá estava ele a enervá-la! A mudar de assunto sem mais nem menos!,
Apeteceu-lhe tanto mudar de lugar com ele, só para ele a olhar e deixar a janela em paz!
Eu vou tirar o dia de hoje para dar uma volta pela praia. Vamos ficar num hotel mesmo em frente à praia, sabias?
- Deve ser bem confortável... – e começou a morder o lábio
para não mandá-lo para aquele sítio !
Senhores passageiros dentro de 20minutos vamos aterrar em Ibiza, estão aproximadamente 30º, espero que tenham uma boa estadia e que se divirtam muito, muito obrigado por escolherem este voo.
- Bem, quase lá... isto é muito bonito, acho que vai gostar!
- É...eu... sei que vou gostar...
- Temos de combinar uma coisa desde já, eu detesto ser tratado pelo meu apelido, ou me tratas por Paulo, ou eu começo a chamar-te Dª Moura, ou espiga!
- Está bem, está bem... Paulinho ou entrecostozinho !
- Ei! Não abuses! – ele riu e aproximou-se do seu ouvido.
- Quem sabe, se calhar até vais acostumar-te ao entrecostozinho, espiga... – disse ele sussurrando. Ela sentiu algo indescritível...uma sensação única.
Puxa ! - percebeu que a porcaria da hospedeira não deixava de olhar para ele, até mesmo depois de saírem do avião, ela não desgrudou os olhos dele nem por um minuto. Por fim quando passaram por ela, à saída, teve mesmo a lata de lhe piscar o olho. Ele riu-se e ao passar por ela depois, deu-lhe um beijo na face, deixando-a perfeitamente estupefacta.
- És assim com todas? – perguntou continuando a andar e sem se dar ao trabalho de olhar para ele porque estava bem irritada.
- Ciúmes?
- Vai sonhando! - mas teve que se contiver para o não demonstrar.
- Pelos vistos devo estar a sonhar... ela piscou-me o olho, eu apenas decidi deixar-lhe uma recordação minha, qual é o mal de um beijinho tão inocente, pois foi na cara e não me pareceu que ela ficasse nada chateada.
- Querias que ela ficasse, não?! És mesmo...
- O que? Vá ! Diz ! Desabafa comigo! Eu ando à espera disso desde que
nós reencontramos pela primeira vez.
- Que queres dizer com isso?
- Foi por minha causa que não ficaste em Londres?
- Não tens nada com isso!
- Se foi por minha causa, tenho...
- Então não foi por tua causa!
- Vou partir do princípio que estás a dizer o contrário...
- Porque?!
- Porque não é isso que a tua voz nervosa me diz, Hanna, olha para mim...
- Vamos para onde mesmo?
- Eu sabia! Foi por minha causa! Ainda me há-des dizer o que é que eu fiz...e se queres mesmo saber, vamos para o Fiesta Club Palm Beach! Espera aqui que eu já volto!
Ele afastou-se com alguma rapidez, em segundos já não o via nem de longe. Andou um pouco até ao exterior do aeroporto, sentou-se no primeiro banco que viu, olhava de vez em quando para ver se ele vinha, mas nada...
Meia hora e nada dele, começou a ficar chateada e por outro lado preocupada - será que tinha acontecido alguma coisa?
Pronto, podemos ir! – olhou para trás e lá estava o Paulo.
- Que foste fazer, quase morri aqui à seca!
- Se tinhas sede, podias ter ido beber um copo de água...não me digas que tiveste saudades minhas ?? Temos um táxi á nossa espera ali à frente...
Não pode deixar de rir com ele.
- Sim...por acaso...até dá jeito ter-te por perto...às vezes...
sexta-feira
Para Sempre
Ao vê-la, ali, à sua frente, a sua reacção fora simplesmente sorrir.
O tão esperado momento...
Olá ! - ela sorriu, fazendo uma espécie de meia -reverência.
Eu não acredito! És mesmo tu?! - ele aproximou-se num misto de surpresa e alegria.
E porque não seria?... – riu novamente.
Aproximou-se mais, um tudo ou nada exaltado.
Desejava abraçá-la, beijá-la, para nunca mais a soltar...
Ela, estava mesmo ali !
Aquela mulher esbelta e dócil, de cabelos espessos e longos tinha vindo de terras distantes. Guerreira e alegre, conquistara o coração dele. Tinham-se visto apenas uma vez, após uma batalha infernal da qual ela o ajudara a recuperar. Desde então, o guerreiro tinha-lhe mandado cartas ... cartas cheias do seu amor por ela.
Ela, não tinha sabido corresponder aquele sentimento novo. Acreditava que, para amar alguém era necessário tê-lo por perto, mas, incompreensivelmente,
logo descobriu que não era assim.
Sem se dar conta disso, a verdade é que não vivia mais sem as cartas dele.
Ele era o único que parecia amá-la pelo seu jeito de ser, por ser uma caixa de Pandora que se remetera ao silêncio, que havia levado outros a desistir, a odiar e até, a querer destruir.
Aprendera a amá-lo. Sabia que mais ninguém estivera tão perto...de ter a chave.
Então, resolveram que tinham que se encontrar.
Fora um dia de grande expectativa para ambos.
E agora, realizara-se.
Estavam num local que ela escolhera, numa casa de madeira rústica no sopé de uma encosta mesmo à beira de uma floresta de gigantescos eucaliptos que ali davam lugar a um tapete infindável de flores campestres amarelas.
O guerreiro tocou no elmo que cobria a cabeça dela, onde apenas os olhos podiam ser vistos. Com cuidado, retirou-o. Colocou o elmo dela ao lado, na mesa mais próxima.
Como ela era linda, e os seus olhos...como conseguiam eles cintilar em pleno dia ?
Sorrindo, ele retirou o próprio elmo, revelando um rosto comovido.
Como esperei por este momento! – confessou-lhe, abraçando-a com vigor.
Eu também te amo... – disse-lhe enquanto retribuía o abraço, sorrindo perante a surpresa nos olhos dele que davam mostras de que ela não se enganará, apesar da sua postura de homem inabalável.
Umm...vais ter que provar isso guerreira ! – e soltou-a com um risada, como sei que não passam de meras palavras de uma mulher bonita...mas que também consegue ser...tão perigosa...- e voltou a rir, nitidamente, bem disposto.
Por momentos, olhou-o, surpresa.
Mas a surpresa deu lugar ao olhar vitorioso e dos seus lábios emanou o sorriso mas envolvente que ele alguma vez vira.
Quer que eu o prove? Concerteza.
Começou a retirar a sua armadura negra, polida e brilhante, até que toda ela se encontrava sobre a mesa onde ele colocara os elmos.
Ele olhou-a sem entender, tinha sido surpreendido, não esperava tamanha entrega e confiança, ficou verdadeiramente surpreso ao vê-la começar
a retirar a sua armadura também.
Ela pegava nas pesadas partes de metal prateado que compunham a armadura do guerreiro, e colocava-as com cuidado ao lado das suas, na mesa.
Era mais bonita do que ele imaginara. Segui-a com o olhar até ao divã e sentiu com ela o olhou e mordeu o lábio inferior, antes de virar o seu olhar para fora de pequena janela.
Ensina-me... - ela corou - a beijar, a... já que sou sua...
Caminhou devagar até ela, de encontro ao próprio coração e desejo que há muito o haviam deixado para se unir a ela. Puxou-a com delicadeza e encostou os lábios nos dela. Passou um braço por detrás do pescoço dela, aproximando-os. Começou a aprofundar o beijo, tocando-lhe ao de leve na língua, despertando desejos, cativando vontades naturais e provocando pequeninos gemidos de prazer.
Quando perderam o fôlego, ele começou a beijar-lhe o pescoço.
Na brincadeira ela dá um passo para trás, acaba por tropeçar e cai, levando o guerreiro consigo para o chão.
Ela voltara a corar e ele sorri-lhe carinhosamente. Voltou a beijá-a, demonstrando todo o seu desejo, seu amor, sua dedicação a ela.
Ao sentir que a fazia arrepiar, procurava-lhe os lábios,
cada vez mais sedento, mais pronto para a amar.
O que foi isso? – sussurrou-lhe ela, olhando em redor. Meus deus...que foi aquilo ??
O tremendo estrondo fez-se ouvir outra vez...mais perto.
Não sei, mas não gostei nada...Vamos...- suspirou e ajudou-a a se levantar...
Vestiram as suas armaduras.
O guerreiro empunhou a sua espada mística, feita pelo melhor ferreiro,
era única e só ele poderia usá-la.
Ela pegou na sua besta dourada. Era entalhada com enfeites de cobras, rara, difícil de ser manejada, os seus tiros rápidos como raios.
Os dois olharam-se.
Sim, eu amo-te...- disse-lhe, pousando uma mão no elmo dela.
Eu também...- e ela apertou a mão dele, num gesto de carinho.
E ambos saíram da casa.
Ao verem a fera que iriam enfrentar, engoliram em seco. Era enorme e esperava-os com toda a ânsia diabólica que habitava as criaturas que outrora tinham sido criadas para servir nas guerras contra os povos do norte mas que após o holocausto e sem donos, vagueavam as planícies como qualquer outro animal selvagem.
Escuta minha Estrela, esta é minha ! Afasta-te !
A batalha fora árdua e vários golpes e contra golpes mais tarde,
ambos atingiram o seu limite.
A besta caiu, quase morta, sangue jorrando das muitas feridas visíveis.
O guerreiro, cansado, caiu de joelhos no chão, a sua armadura danificada.
Foi então que ela foi até ele.
Acho que conseguimos...- ele tentou sorrir, olhando-a.
Sim...conseguimos...- disse - mas, ao escutar um repentino zumbido,
não pensou duas vezes e jogou-se na frente do guerreiro e acabou
por levar com o último golpe da besta, que finalmente morreu.
Não!!...- o guerreiro pegou-a nos braços.
Por entre a armadura dela escorria um fio de vermelho.
Sangue. Muito sangue. Sangue que corria cada vez mais depressa.
Ela sorriu...- Tu...estás bem? - falou com dificuldade.
Porquê ? Porque fizeste isso?? - murmou com lágrimas nos olhos.
Porque eu te amo...olha...não é esta a melhor prova que eu te posso dar...- sorria fracamente, já com os olhos a ficarem enublados.
Não... Não!!...Por favor... Não me abandones...Não agora que te encontrei...Não agora !! Vais ficar boa, luta, não te entregas, não assim !!
Ela levantou o braço e passou a mão delicadamente nos lábios dele...
Eu nunca te abandonarei... - e sorriu pela última vez.
Assim que fechou os olhos, o braço caiu inerte ao lado de seu corpo.
Naquela hora, o grito de dor do guerreiro trespassou o mundo.
O grito deu lugar ao gesto.
O gesto silenciou o grito.
Mais tarde, houve quem jurasse que esse grito teria sido de um anjo, porque nenhum humano poderia gritar daquela maneira, evidenciar tamanho sofrimento...
Naquele dia...o guerreiro desapareceu, levando consigo seu único amor.
O Anjo voou...levando consigo...a sua única Estrela...
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