domingo

Lua Cheia



Estava uma noite magnífica, o céu límpido e carregado de estrelas,
com a lua cheia a domar toda a imensidão daquele esplendor.

O jantar, num restaurante à beira mar, tinha sido bom, tranquilo e acolhedor.
A escolha, decisão nada habitual, tinha sido dela.
Estava particularmente bonita naquela noite, no seu vestido preto,
com o cabelo solto, meio selvático, como ele gostava ...
Subtilmente, tinha o obrigado a ficar a imaginar o que traria
por debaixo daquele vestido justo e sugestivo.
Tinham ido para casa dela...a pedido dela.
Imaginou que aquele pedido tinha uma segunda intenção.
Desconfiara disso.
Conhecendo-a como conhecia, só poderia esperá-lo algo...especial...

A luz da lua invadira o quarto.
Ela olhou-o e ele logo reconheceu aquele olhar intenso,
cheio de emoção, de provocação, de desejo.
Despe-me. Toca-me. Sente-me...sussurrou-lhe
Sorriu-lhe...
Aproximou-se dela e virou-a de costas para si, prendendo-a,
e reparou como o olhar dela fixava as imagens a reflectir
no enorme espelho que habitava a maior parede do quarto.
Começou pelo fecho do vestido, lentamente,
até antever a lingerie preta.
Depois, foi despindo-a, peça por peça...
Quando, finalmente, ela se virou para ele, nua, não pode deixar
de se rir daquela mistura sensual de vergonha e malícia que emanava
dos seus olhos grandes e brilhantes...
És uma tonta!
Agarrou-lhe a mão e foi-se deitar com ela.
Ficou, então, carinhosamente, a percorrer com a mão aquele
corpo de mulher que ansiava por ele...
Passaram minutos, passaram horas.
Tempos de cumplicidade, de envolvimento, de partilha,
de vontades, de loucura, de desejos...
a cada toque, a cada carícia, a cada reacção dela,
olhos que o fixavam umas vezes e outras se
fechavam, a mão dela que se agarrava ao lençol,
as dele que a envolviam e a traziam de encontro a si...

Estava uma noite magnífica, o céu límpido tinha dado lugar às nuvens
matreiras da madrugada e as estrelas cansadas da sua árdua tarefa, sucumbiam
perante a alvorada sorrateira.
Dentro do quarto escuro e silencioso, eles tinham-se encontrado, outra vez.
Mas o dia.....já não tardava......

terça-feira

Queria saber Pintar...




Parei.
Abri a cadeira de madeira e lona branca.
Silêncio.
O mar...


Gostaria de fechar os olhos e poder pintar os sonhos...
transcrever todos os encantos,
transmitir todo o sentimento
através de um pequeno quadro...
Salpicar a imensidão do desconhecido,
embelezar metamorfoses através de aguarelas,
criar a harmonia do próprio ser...

No vazio de uma tela nasce a arte de quem a vê...
olhos que expressam,
manifestações silenciosas
de químicas adormecidas...
Magia das cores,
traço de pincel que desliza,
em fundo branco...


Deixei-me levar...

Tentei pintar uma flor,
dar conteúdo aos sonhos,
Mas...
Não encontrei na palete das cores,
tons que transmitissem o seu encanto,
nem a forma ou a essência do perfume das suas pétalas...

Tentei pintar o céu,
retratar no espaço os sonhos,
Mas...
Nunca conseguiria demonstrar a sua imensidão,
nem representar o infinito num espaço tão limitado,
nem a magia nem a beleza das estrelas numa noite brilhante,
pontos de luz, encanto que ilumina a alma, danças distantes...

Tentei então, associar o sonho ao mar,
dar cor ao firmamento dos sonhos,
Mas...
Como fazer para ter todos os tons de azul que o pintam,
conseguir desenhar a sua força,
reproduzir o som do gigante que abraça a praia ?
Como pintar o algodão da crista das ondas que chegam e vão,
que guardam segredos imortais nas suas profundezas,
e alimentam histórias de quem o navega e contempla?

Pensei então, pintar os sonhos através de um coração,
porque sempre soube que os sonhos estão em cada um de nós,
Mas...
Não consegui encontrar um tom de vermelho
que representasse a Paixão,
a Vida...

Percebi que não seria capaz de esboçar
o encanto de um sorriso
na minha melodia de traços e rabiscos,
nem alguma vez conseguiria
a alquimia de transformar o Amor em cor...

Como o queria!
Queira saber Pintar!
Saber desenhar apenas,
o encanto de um beijo...

Suspirei.
Não se pintam beijos sem lábios...
Sorri.
Como te pintaria, eu, a Ti?
Olhei o horizonte e sentei-me.
Afinal, descrevera o sonho conforme o sentia...
Não o tinha pintado,
havia escrito,
apenas,
estas,
Palavras.

segunda-feira

Reencontro



Sentia-se trémulo e esgotado.
Mal conseguia acreditar.
Após tanto tempo, ela estava ali, imóvel, como uma imagem barroca que não conseguimos traduzir num só olhar, mas apenas admirar, naquele momento, pela beleza que vemos.
Afagava os cabelos na tentativa de acalmar a respiração, mas, ao encostar a mão nela, logo se repreendia pois não conseguia manter-se inalterado.
Esfregava as mãos levemente nas dela e sorria,
como uma criança que ganhara aquele brinquedo tão ansiado.
Então, entretém-se a contornar partes do corpo com as mãos, desejando poder possui-la outra vez, ao mesmo tempo que as lágrimas lhe escorrem pelos olhos.
Era madrugada alta.
Havia o barulho de carros indo e vindo, a prazos não contabilizados, um cão desesperado que gania, dando lugar a um uivar que lhe percorria a espinha provocando calafrios, e sobretudo, o barulho ensurdecedor de gotas grossas de chuva no telhado.
Não receava que isso viesse a interromper o descanso daquela mulher e quebrar, como um cristal que se partiria em mil pedaços, o encanto daquele momento, que por seu desejo se tornaria eterno.
Ah, como era deliciosamente santa e profana a sua presença naquele quarto pobremente mobilado. Ainda conseguia ouvir os risos ecoando pelas dependências da casa, passos macios arranhando os azulejos, corpos famintos roçando
entre lençóis cheirosos e engomados.
Reinava o mais absoluto silêncio, mas no seu íntimo, haviam vozes, muitas vozes, e tantas vozes criavam uma espécie de mistura de alegria e tristeza.
Alegria porque ela, agora, pertencia-lhe, e tristeza, pois ela partira.
Sentou-se à beirinha da cama e contemplou-a mais uma vez.
Que cenário magnifico, e como era engraçado as cores, como que uma espécie de mar, um véu da natureza, que a cobria, que invadia todo o espaço, que tornava o quadro perfeito e harmonioso, quase como que premeditado.
Reflectiu sobre esse ultimo pensamento.
Não, não tinha desejado isso.
Não tinha acontecido assim.
Tinha visto a alegria nos olhos dela, o riso aberto e meigo quando o viu à porta, ramo de rosas multicolores numa mão, chapéu-de-chuva na outra, e um “boa tarde miúda” meio engasgado pronunciado entre beijos e abraços repentinos.
Fora como ele tinha imaginado, como tinha projectado o dia de a reencontrar, como tantas vezes tinha sonhado!
Depois, as palavras prisioneiras de anos desataram a correr pelo ar, as confissões fizeram-se ouvir, os perdões deram lugar ao amor e sem se aperceber, quando acordou ao lado dela, a tarde já dava lugar à noite tempestuosa.
Porquê falar-lhe do amanhã? Porquê?
Porquê estragar toda a envolvência de um momento tão especial?
Porquê pressioná-la como o já o fizera noutros tempos? Porquê?
Levantou-se pesadamente e dirigiu-se à kitchenete.
Trouxe de volta um pano húmido e agachou-se para proceder à limpeza cuidadosa do parquete. O vermelho vivo devolvia-lhe com toda a clareza aqueles instantes fatais, o salto repentino dela no meio de um grito de discórdia, numa tentativa de abandonar a cama quente que partilhavam, a frase “vou mas é tomar um duche, tu estás doido!”, o trambolhão no chão húmido...

Ajoelhou-se, e colocou o queixo em cima do colchão a escassos centímetros do dela.
A palavra destino encheu-o de raiva.
Se assim era, quem poderia ele culpar, questionar, magoar...odiar??
Teve medo da resposta.
Levantou-se e debruçando-se sobre ela, tapou-a.
Seguidamente foi lavar as mãos.

Fechou a porta do prédio atrás de si, pôs as mãos nos bolsos e saiu de encontro à tempestade que tomava conta da noite fria e escura que o aguardava.
Em poucos instantes o céu molhava-lhe o rosto, cabelos e corpo, sentia-se extasiado!
E agora?
Que rumo?
Destino.
Pensou.
Queria vingança.
Queria vingança de quem a magoará e perseguira todos aqueles anos,
de quem não consegui viver sem ela,
de quem a tirara dele para sempre!!

Sorriu e iniciou a sua caminhada pela encosta abaixo.
Não tardaria mais do que dez minutos até chegar ao posto policial.
Uma vez lá, diria a todos,
que fora ele,
O culpado !

sábado

Pausa para Amar



O quarto iluminava-se apenas pela luz dos relâmpagos que soavam no exterior.
As roupas encontravam-se espalhadas pelo chão.
Franziu a sobrancelha perante esse detalhe, detestava coisas fora do lugar.
Soou outro trovão, mais alto e perto do que os outros, acompanhado por uma rajada de vento que atirou as pesadas gotas de chuva contra a janela de vidro.
A figura na cama moveu-se, atraindo a sua atenção.
Sim, ela era a razão de sua falta de atenção a ‘pequenos’ detalhes como aquele.
Mais um relâmpago iluminou o quarto, intenso e passageiro, mas suficientemente longo para que pudesse ter um vislumbre do que tinham desfrutado há poucos minutos.

Curvas pronunciadas, um lençol preto a escorregar pela pele clara, do mesmo modo que as suas mãos haviam feito há pouco.
Agora, não haviam gemidos a escapar daqueles lábios femininos,
ou o seu nome sendo murmurado de maneira a fazê-lo perder todo o controle de que se orgulhava tanto em possuir.
Levantou-se lentamente da cadeira aveludada e aproximou-se da cama com passos felinos, os olhos percorrendo a sua amante adormecida, e a maneira como
o lençol cobria apenas parte do seu corpo nu.
A sua expressão suavizou-se quando percebeu o modo quase infantil como ela abraçava a almofada. Aquele pequeno gesto era a única coisa infantil nela.
Sentou-se na cama, ainda observando cada traço com atenção. Não era como se a nunca tivesse visto antes, ou mesmo admirado os longos cabelos escuros, que agora jaziam espalhados sobre o lençol e que naquela pouca luminosidade
pareciam ser da mesma tonalidade.
Inclinou-se sobre ela e inspirou o perfume inebriante, enquanto os seus dedos se afundavam na massa sedosa de cabelos.
Mentalmente dizia que estava apenas deixando-a mais confortável ao afastar aquela mecha teimosa, e não, cedendo ao desejo de tocá-la mais uma vez.

Ouviu-a murmurar o seu nome novamente.
O mesmo tom cativante que ouvira antes naquela noite, a mesma necessidade e desejo de tê-lo o mais perto possível. Deslizou o polegar pela maçã do rosto dela e sentiu-a estremecer a seu lado, ficando sem saber ao certo, se por a ter tocado, se pelo barulho da tempestade.
Ficaram assim por algum tempo, o silêncio quebrado apenas pelo som da chuva contra as vidraças e as suas respirações.

Parecia tão natural estar perto dela, sentir o seu toque e tê-la a seu lado, que perder esse breve contacto era quase doloroso.
Viu a expressão dela endurecer, quase uma cópia de sua própria reacção e o corpo quente afastar-se do seu.
Impulsionado por algo forte, que não entendia, ou queria nomear, baixou os lábios sobre os dela, as suas mãos deslizando pelas costas nuas acima, puxando-a contra si.
O toque delicado no seu peito, ao invés de afastá-lo, transformou-se num abraço quando os braços dela enlaçaram o seu pescoço. O beijo, delicado a princípio, tornara-se cada vez mais exigente, enquanto os corpos se moldavam, derretendo-se lentamente para se encaixarem melhor, um no outro.
Pensar era, de facto, algo desnecessário quando as acções falavam mais alto e quando as suas mãos tomavam vida própria, afastando o lençol do corpo delicado, colado ao seu.
Gemidos e suspiros enchiam o quarto.
Surpreendeu-se ao reconhecer a sua própria voz a chamar por ela enquanto lábios escaldantes e aquosos devoravam os seus em resposta a suas provocações.
O perfume feminino parecia penetrar no seu corpo cada vez que inspirava em busca de ar, o corpo dela circundando o seu, gemidos a ecoarem em sintonia.
As suas mãos deslizavam pelo corpo feminino como se procurassem decorar cada curva, cada ponto delicado que a fazia suspirar de prazer e murmurar seu nome como uma suave melodia, algo conhecido e misterioso, que o incentivava a continuar com sua exploração apenas pelo prazer de ouvi-la por mais algum tempo.
Os toques suaves na sua pele transformavam-se em pequenos arranhões nas suas costas, puxando-o contra o corpo que correspondia ao seu com a mesma urgência do desejo que percorria as suas veias.

Adivinhava a suave promessa do êxtase.
Podia senti-la a perder o controle, pequenos gritos deixavam os seus lábios, o corpo contorcia-se sob o seu em busca da mesma sensação inebriante. Apertou os quadris femininos, puxando-a contra si enquanto o seu próprio corpo se afundava no dela uma última vez.
Fechou os olhos, os lábios procurando pelos dela.
Os corpos trémulos fundiam-se plenamente enquanto desfrutavam do prazer intenso que tanto ansiavam, apagando qualquer pensamento persistente.
Deixou as mãos macias escorregaram pelas suas costas húmidas de suor, deu conta da voz feminina ainda rouca, murmurando o seu nome de forma quebrada, sua respiração ofegante, misturando-se com a sua.

Levantou a cabeça, observou a expressão relaxada e satisfeita no rosto dela e beijou os lábios inchados antes de se colocar de lado, puxando-a contra si.
Permaneceram assim, os corpos enroscados um no outro, os lençóis cobrindo-os parcialmente, enquanto a chuva continuava a cair, mais brandamente, do lado de fora.

Olhou o tecto, observou as sombras que se moviam sobre a superfície lisa formando desenhos sem definição, eram apenas mais uma forma de lembrá-lo do pouco tempo de que dispunham. Queria tanto desfrutar daquele momento...o máximo possível!
Abraçou-a com mais força.
Os braços delicados contornaram a sua cintura e o corpo curvilíneo aninhou-se contra o seu, enquanto um suspiro satisfeito escapava.
Tocou o rosto adormecido, tentando lembrar-se do que o havia feito afastar-se dela da primeira vez, algum pensamento perdido no meio das sensações tempestuosas que ainda percorriam seu corpo de vez enquanto, destruindo a sua capacidade de raciocínio.
Não precisava disso mais. Não queria mais isso.
Aquela sensação de plenitude, como se após uma longa jornada houvesse finalmente encontrado o que lhe faltava, era tudo o que precisava.
Estar no controlo ou preocupar-se com a sua rotina quebrada, parecia, agora, completamente sem sentido.

Deixaria tudo isso para o amanhã, quando ela desaparecesse, deixando-o no escuro novamente, devolvendo-o apenas, à sua velha e conhecida rotina.

Tenho Noites...



Em que pego nas palavras...

Lanço-as ao vento,
solto as amarras,
atiro ao ar a vontade,
mato o desejo
e escondo a saudade.

Embrulho-as às avessas.
No meu pensamento não as quero.
Mas elas ficam,
teimam em viver,
ficar presas a mim.

Faço delas o que quero.
Tanto as calo como as grito.
Quero-as como não quero.
Pego numa ou outra ao acaso,
e ergo uma linha,
entre o presente e o passado.

Misturo e baralho as palavras.
Separo-as ao sabor.
Não quero nem saber!
E em noites destas,
passadas em dor,
já nem gosto de poemas
terminados em amor.

Levo em frente esta teimosia.
E vou encontrando,
por aí,
dia após dia.
os rascunhos da minha ira...

Há noites,
muitas noites,
assim,
como esta.

Diz-me...
o que resta...?

Mar Adentro



Estava uma noite que muitos chamariam de mágica, sobretudo aqueles que ainda sonham.
Uma meia-lua, sorridente, banhava toda a encosta com a sua aura prateada, acrescentando aqui, retirando acolá, disfarçando e modificando a seu belo prazer, a verdade física do local.
A suave e pegajosa brisa que lhe fazia companhia agitava levemente as folhas carnudas da vegetação que cobria as dunas mais próximas, deixando-as salpicadas de ínfimas gotículas reluzentes.
O mar, pachorrento, ia e vinha, afagando-lhe os pés com frescura salgada e acalmando a bombagem quente e selvagem que tinha tomado conta dele naquela noite.

Não estava a conseguir focar.
Era como se o mar turbulento, naquela noite, tivesse resolvido impregnar-se nele, livrando o resto do mundo da sua habitual ira, soltando-a, toda, nele.
Fechou os olhos.
Como era bom!
Tão bom!


Levantou-se, pesadamente, e caminhou em direcção às ondas quebradiças, queria inalar seu cheiro de perto, envolver-se na espuma espessa, sentir o frio branco...queria acordar...

Ali estava ela...sentada nas rochas humedecidas pelas ainda serenas ondas.
Ele já tinha ido até aquele local, uma vez...de barco...e agora...parecia-lhe tão mais perto...
Estava nua.
O seu corpo ganhava uma tonalidade azul-cinzento à medida que a lua o banhava.
Mesmo assim ele reparou que a sua pele era como leite, macia, branca, acetinada.
Os seus seios redondos estavam cobertos pelos longos caracóis, as mãos eram esguias, o corpo bem delineado.
Ele viu que ela sorria.
Os seus lábios eram carnudos da cor de cerejas maduras.
Olhou-a, ali sentada a acariciar uma estrela-do-mar que descansava.
Contemplou o seu corpo.
Olhou-a nos olhos, uns olhos escuros, tal como o fundo do mar.
Mas havia algo neles.
Ela voltou a sorrir. Desta vez com malícia.
Sacudiu os cabelos deixando os seus seios expostos para que ele pudesse ver. Movimentou os braços e as serenas ondas ondularam, nervosas, até ele.
Sentiu o ar fugir-lhe dos pulmões.

Vem...Espero-te...

Podia sentir que estava a ser consumido pela água.
Esta, inundava-lhe o corpo e esvaziava-lhe a mente para deixar penetrar a voz dela e ele sentiu como o seu corpo a desejava, para além da sua mente.
Mas algo nele lhe dizia que aquela voz poderia ser o seu veneno, os seus lábios, a sua morte...
Um ardor dominou a sua garganta, assim como um sabor excessivo a sal.
Estava a afogar-se.
Sentia o folgo da vida a escapar-se.
Sentiu-a.
As mãos esguias acariciavam o seu peito.
As longas e torneadas pernas entrelaçavam-se nas suas coxas, as unhas penetravam no seu tronco e os cabelos acariciavam a sua face.
Ele murmurou algo que saiu da sua boca em forma de dezenas de bolhas de água.
Morreria, sabia-o.
Se não fosse de afogamento seria do beijo peculiar que ela lhe dava...
Os seus lábios eram frios, a sua língua mais do que ardente.
Sim... Agora tinha a certeza... Morreria!

Já estava tudo escuro...mas ela continuava ali.
O seu corpo já não se encontrava nu, antes, estava coberto por finos fios de ouro e diamantes extraordinariamente alinhados por forma a salientar as suas curvas.
Sem parar de sorrir, entrelaçou os seus braços no pescoço dele e murmurou-lhe ao ouvido:
Demorou tanto tempo... Mas por fim, depois de tantas vidas inúteis, aqui estás tu.
Não voltas a fugir, desta vez, tenho a tua vida...é minha!

O seu olhar mudou, e o seu corpo apertou-se contra o dele com demasiada força para uma simples mulher.
Sentiu novamente o ar a faltar-lhe.
Seria possível morrer na própria morte?

Uma sensação boa e reconfortante invadia-lhe o coração...e este sossegou...
Como morrer era...estranho...
Relaxou.
Suspirou.
Tinha ele, suspirado ??
Mas...como??
E onde tinha ela ido??

Quando pensava encontrar a resposta...acordou...

Ergueu as costas e cruzou as pernas.
Deu conta que estava todo molhado apesar do mar se encontrar bem longe.
Fitou o horizonte longínquo.
O dia começava a aparecer e ele podia ver o início do céu.
Num só movimento, libertou-se da posição em que estava, para logo sentir o inevitável enterrar dos pés descalços na areia.
Levantou as mãos ao alto e soltou um gemido preguiçoso.
Riu.
Não teria sido nada mau – pensou – morrer assim!
Começou a sua caminhada pelas dunas acima enquanto ria descontraidamente.
Repentinamente parou, e o seu coração ameaçou fazer o mesmo.
Tinha chegado ao cimo.
Voltou-se.
Semi-cerrou os olhos.

Tinha ou não visto aquilo??
Aquilo...
Não tinha ele visto pegadas...em direcção...ao mar??

segunda-feira

Consequências



A entrada da residência possuía muros altos protegidos por cercas vivas de vegetação venenosa e o portão eléctrico a mensagem de “boas-vindas” para os visitantes.
O proprietário da residência havia promovido certas mudanças no ambiente dantesco da pequena mansão campestre, colocando mais luz onde havia apenas as sombras dos fantasmas do passado.
Agora, os postes de luz iluminavam todo o jardim, começando na entrada do mesmo, um atrás do outro sucessivamente, até alcançar o salão de festas que se destacava das demais áreas por ser um elemento moderno, presente na propriedade.

A partir dali e por um caminho empedrado, os postes eram trocados por tochas orientais e o mesmo descia até uma bela e singular piscina, que naquele momento, mais parecia imitar um lago, um lago tirado de um sonho, porque havia ali flores e velas acesas que boiavam na água, como que à espera de alguém.

O homem estava parado na varanda da casa e segurava um copo numa das mãos, rodando o mesmo por entre os dedos de maneira dispersa, enquanto o seu olhar se encontrava perdido no jardim.
Olhou para trás.
Tinha dispensado todos os seus empregados, até mesmo seu mordomo pessoal.
no entanto, todo aquele silêncio instaurado não lha dava a sensação de que estava sozinho.

Virou o conteúdo do copo e num único gole terminou a sua bebida.
Caminhou pela varanda de maneira calma, sem deixar de prestar atenção ao jardim e às mariposas que voavam de encontro as lâmpadas.
“Cegam-se por tão pouco !”
Riu-se ao lembrar aquela frase, aquele disparate, dito numa gargalhada ao luar.

Desceu a escadaria até a calçada, mas assim que os seus pés descalços tocaram o chão frio, parou abruptamente.
A friagem parecia querer invadir as suas entranhas a partir dos seus pés, mas não era só pelo choque térmico que ele havia cessado a intenção de continuar a caminhar.
Olhou para trás.
Um arrepio subiu-lhe pelas costas acima e ele sentiu, novamente, a mesma sensação de haver olhos a mirá-lo.

Todo o salão iluminou-se quando o interruptor foi accionado.
Havia um piano solitário, no meio.
As cortinas brancas, balançavam devido à brisa da noite que lhes atingia através das janelas abertas.
A iluminação do jardim penetrava no salão gradualmente, iluminando o piano com um rastro de luz envergonhada.

O homem olhou para o piano branco e aproximou-se do mesmo, puxando o banco para se poder sentar. Seguidamente, levantou a tampa que protegia as teclas e com uma calma invejável, puxou o pano de veludo negro que protegia as teclas brancas e pretas, colocando-o ao lado do copo vaziu.
Por um momento o homem de ar aristocrata, observou o ambiente, como as cortinas se moviam com a brisa, como a luz dos postes e tochas pareciam harmonizar-se perfeitamente no exterior, e que ali, naquele ambiente nada passava desapercebido, nada estava deixado ao acaso.
Era chegada a hora.

A iluminação desligou-se.
A escuridão instalaou-se.

Virou o rosto lentamente e fitou o caminho que dava para a piscina que era perfeitamente visível.
Fechou os olhos e inspirou o ar com suavidade, expirando depois, talvez, a angústia que sentia.
Fez estalar os dedos.

Ele não era um bom pianista, mas as notas fluíam de forma melodiosa dado o jeito leve e decidido com que os dedos tocavam as teclas, viajando sobre elas com carinho.
Era meramente um homem de negócios.
Não era um homem dado a relacionamentos duradouros.
E depois, depois do que se passará não houvera mais nenhuns.

Tinha se apaixonado.
Uma vez.
Uma mulher com quem ele havia simpatizado.
Assim sem mais nem menos.
Sem saber porquê
Sem razão aparente.
Sem se aperceber.
Era por ela que ele deslizava os dedos pelo piano, expondo sentimentos de maneira delicada,
assim como quem inspirou a melodia, o era.
Cantou.
Cantou a falar, virado para as portas que se encontravam abertas ao jardim,
passagem envolta em sombras torneadas pela sua amiga celeste,
única luz nas suas trevas.

Inventaram mentiras.
Juraste que era falso.
Só depois eu percebi...

Parabéns!
Hoje e sempre!
Como pude eu, deixar-te só...naquela noite?

Deixei-te sozinha...
Parabéns meu amor!

Há quanto tempo foi?
Parece que foi... ontem...
Mas ontem tinha te aqui...sorrindo ao meu lado...

Hoje, o meu presente é esta música,
embalada pelas notas calmas do meu piano.
Sabes, o nosso amor pode pertencer ao passado
mas eu trago comigo as lembranças.
Espero que onde tu estejas,
tenhas um pouco de mim,
contigo, guardado.

Se calhar, tudo aconteceu...porque eu...nunca te disse...

Amo-te! Amo-te! Amo-te!!!

Eu errei...
Eu não me perdoo...

Mas...porque fizeste, o que fizeste?!

Basta !
Basta!!
Basta!!!

O pianista bateu com as mãos sobre as teclas, quebrando a harmonia,
transformando a bela melodia no mais profundo e desprezível barulho.
Um ponto final na melodia, no ritmo, na letra, na música.
Um ponto final...

Recolocou o pano de veludo no lugar e fechou a tampa do piano novamente.
Outrora quem sabe, noutra noite, voltasse a tocar.

Levantou-se com elegância, afastando o banco. 
Encarou o copo e pegou nele enquanto se movia em direcção à saída do salão.
Refez o caminho para a casa em passos lentos, olhos brilhantes, punhos cerrados.
Assim que galgou os degraus, parou novamente na varanda.
Olhou para o jardim e para o céu, vazio e frio.
Sem lua, sem sons, sem vida.

Até já, meu amor... – murmurou, fechando a porta em um só movimento.

Tudo ficou profundamente escuro.
A não ser a decoração da piscina.
Do nada, o nevoeiro, um manto denso e espesso cobriu tudo, abafou tudo.
Mas, as velas não pararam de arder e as flores, teimosamente, ainda boiavam.

Um estalido ecoou por toda a casa, fazendo com que os cães nas redondezas
ladrassem devido ao barulho característico de um tiro.

Uma lembrança.
Uma consequência sem volta.
Uma dor sem cura.

Fez-se silêncio.
Puro, gritante, silêncio.
O homem estava à janela.

Então, a noite chamou pela lua.
O vento levantou o manto e o céu estrelado cobriu o sítio da piscina.

O olhar do homem mudou.
A relva molhada e reluzente, revelára as pegadas.

O homem deitou-se.
A natureza respirou.
E o festim dos grilos voltou ao jardim.

sexta-feira

Para Sempre



Ao vê-la, ali, à sua frente, a sua reacção fora simplesmente sorrir.
Finalmente, o tão esperado momento chegara.
Ela entara pela porta.

"Olá!"- sorriu, fazendo uma espécie de meia -reverência.

"Ainda não acredito! És mesmo tu?"
Ele aproximou-se num misto de surpresa e alegria.

"E porque não seria?"– riu-se, novamente.

Aproximou-se mais, um tudo ou nada exaltado.
Desejava abraçá-la, beijá-la, para nunca mais a soltar.
Sim, ela, estava mesmo ali!

Aquela mulher esbelta de cabelos espessos e longos tinha vindo de terras distantes.
Guerreira e alegre, conquistara o coração dele.
Tinham-se visto apenas uma vez, após uma batalha infernal da qual ela o ajudara a recuperar.
Desde então, o guerreiro tinha-lhe mandado cartas, cartas cheias do seu amor por ela.
Ela, não tinha sabido corresponder àquele sentimento novo.
Acreditava que, para amar alguém era necessário tê-lo por perto, mas, incompreensivelmente,
veio a descobriu que podia não ser assim.
Sem se dar conta disso, a verdade é que não vivia mais sem as cartas dele.
Ele era o único que parecia amá-la pelo seu jeito de ser, por ser uma caixa de Pandora que
se remetera ao silêncio, que havia levado outros a desistir, a odiar e até, a querer destruir.
Aprendera a amá-lo.
Sabia que mais ninguém estivera tão perto...de ter a chave.

Então, resolveram que tinham de encontrar-se.
Fora um dia de grande expectativa para ambos.
E agora, realizara-se.


Estavam num local que ela escolhera, numa casa de madeira rústica no sopé de uma
encosta mesmo à beira de uma floresta de gigantescos eucaliptos que ali davam lugar
a um tapete infindável de flores campestres amarelas.
 
O guerreiro agarrou no elmo que cobria a cabeça dela, onde apenas os olhos podiam
ser vistos e com cuidado, retirou-o, colocando-o na mesa mais próxima.
Como ela era linda, e os seus olhos...como conseguiam eles cintilar em pleno dia?
Sorrindo, ele retirou o próprio elmo, revelando um rosto comovido.

"Como esperei por este momento..."– confessou-lhe, abraçando-a com vigor.

"Eu também, muito!"– disse-lhe, enquanto retribuía o abraço, atenta à surpresa nos
olhos dele, que davam mostras de que ela não se enganará, apesar da sua postura
de homem inabalável.

"Umm...vais ter que provar isso guerreira!"
Soltou-a com um risada, como sei que não passam de meras palavras de uma mulher
bonita que também consegue ser tão perigosa?"
Voltou a rir, nitidamente, bem disposto.

Por momentos, olhou-o, surpresa.
Mas a surpresa deu lugar ao olhar vitorioso e dos seus lábios emanou o sorriso mas
envolvente que ele alguma vez vira.
"Quer que eu o prove? Concerteza."

Começou a retirar a sua armadura, polida e brilhante, até que toda ela se encontrava
sobre a mesa onde ele colocara os elmos.
Ele olhou-a sem entender. Não esperava tamanha entrega e confiança e ficou
verdadeiramente surpreso ao vê-la começar a retirar a sua armadura também.
Ela pegava nas pesadas partes de metal prateado que compunham a armadura
do guerreiro, e colocava-as com cuidado ao lado das suas, na mesa.
Era mais bonita do que ele imaginara.
Segui-a com o olhar até ao divã e viu como ela o olhou, mordendo o lábio inferior,
antes de virar o seu olhar para fora de pequena janela.

"Ensina-me..."- ela corou -"a beijar, a...tu sabes..."

Caminhou devagar até ela, de encontro ao próprio coração que há muito o havia
deixado para se unir a ela. Puxou-a até ela com delicadeza e encostou os lábios nos dela.
Passou a mão por detrás do pescoço dela, aproximando-os e começou a aprofundar
o beijo, tocando-lhe ao de leve na língua, despertando desejos, cativando vontades
naturais e provocando pequeninos gemidos de prazer.
Quando perderam o fôlego, ele começou a beijar-lhe o pescoço.

Na brincadeira ela dá um passo para trás, acaba por tropeçar e cai, levando o guerreiro
consigo para o chão.
Ela voltara a corar e ele sorri-lhe carinhosamente.
Voltou a beijá-a, demonstrando todo o seu desejo, seu amor, sua dedicação.
Ao sentir que a fazia arrepiar, procurava-lhe os lábios, cada vez mais sedento,
mais pronto para a amar.

"O que foi isso?"– sussurrou-lhe ela, olhando em redor. "Meu Deus, que foi aquilo ??"

O tremendo estrondo fez-se ouvir outra vez...mais perto.

"Não sei, mas não gostei nada. Vamos."- suspirou e ajudou-a a se levantar.

Vestiram as suas armaduras.
O guerreiro empunhou a sua espada mística, e ela na sua besta dourada.
Era entalhada com enfeites de cobras, rara, difícil de ser manejada, os seus tiros rápidos
como raios.
Os dois olharam-se.

"Sim, eu amo-te"- disse-lhe, pousando uma mão no elmo dela.
Ela apertou a mão dele, num gesto de carinho.
E ambos saíram da casa.

Ao verem a fera que iriam enfrentar, engoliram em seco.
Era enorme e esperava-os com toda a ânsia diabólica que habitava as criaturas que
outrora tinham sido criadas para servir nas guerras contra os povos do norte mas
que após o holocausto e sem donos, vagueavam as planícies como qualquer outro
animal selvagem.

"Escuta, minha bela guerreira, este é meu! Afasta-te!"

A batalha fora árdua e vários golpes e contra golpes mais tarde,
ambos atingiram o seu limite.
A besta caiu, quase morta, sangue jorrando das muitas feridas visíveis.
O guerreiro, cansado, caiu de joelhos no chão, a sua armadura danificada.
Foi então que ela foi até ele.

"Acho que consegui." Ele tentou sorrir, olhando-a.

"Sim, conseguiste"- começou a responder, mas ao escutar um repentino zumbido,
não pensou duas vezes e jogou-se na frente do guerreiro, acabando por levar com
o último golpe da besta, que finalmente morreu.

"Não!!"- o guerreiro pegou-a nos braços.
Por entre a armadura dela escorria um fio de vermelho.
Sangue. Muito sangue. Sangue que corria cada vez mais depressa.

Ela sorria.
"Tu...estás bem?"- falou com dificuldade.

"Porquê ? Porque fizeste isso??"- murmou com lágrimas nos olhos.

"Olha...porque te amo...Não será esta a melhor prova?"- sorria fracamente, 
já com os olhos a ficarem enublados.

"Não...Não!!...Por favor... Não me deixes...Não agora que te encontrei...Não agora !!
Vais ficar boa, luta, não te entregues, não assim!!

Ela levantou o braço e passou a mão delicadamente nos lábios dele.
"Eu nunca te abandonarei"- e sorriu pela última vez, fechando os olhos,
o braço caindo inerte ao lado de seu corpo.

Naquela hora, o grito de dor do guerreiro trespassou o mundo.

O grito deu lugar ao gesto.
O gesto silenciou o grito.

Mais tarde, houve quem jurasse que esse grito teria sido de um anjo,
porque nenhum humano poderia gritar daquela maneira,
evidenciar tamanho sofrimento!

Naquele dia, aquele amor, sobreviveu.

domingo

Para além de um Horizonte



Um dia, alguém chegou ao céu e pediu para falar com Deus porque,
segundo o seu ponto de vista, havia uma coisa na Criação que não
fazia sentido nenhum...
Deus atendeu-o de imediato, curioso por saber de que falha se tratava.

- Senhor Deus, a sua Criação é muito bonita, muito funcional, cada
coisa tem sua razão de ser...mas no meu ponto de vista, há uma coisa
que não serve para nada...

- E que coisa é essa que não serve para nada? perguntou Deus.

- É o horizonte.
Para que serve o horizonte?
Se eu caminhar um passo em direção ao horizonte,ele afasta-se um passo de mim.
Se caminho dez passos, ele afasta-se outros dez passos.
Se eu caminhar quilômetros em direção ao horizonte, ele afastar-se-á os mesmos quilômetros de mim!
Isso não faz sentido! O horizonte não serve para nada!!

Deus olhou para aquela pessoa, sorriu e disse:

- Que pena teres chegado aqui sem teres percebido...
Teria sido bom para ti, terias tido uma vida...mais completa, mais recheada...

Mas, aquela pessoa continuava a não entender, nos seus olhos permanecia a duvida.

Então, suspirando, Deus falou:
- É justamente para isso, como tu dizes, que ele serve...
O horizonte existe para te...Fazer Caminhar!!

sábado

Doce Tentação



Aroma doce...

Toque gentil...

Sabor suculento...

Doce TENTAÇÂO

Adão e Eva...

Tentação...

Pecado....

Resistir....

Não resistir...

Delicio-me?

Talvez não.

Umm...Talvez Sim...

quinta-feira

Just about Me



Today, is a special day.
I see a new horizon.

I have hurt and have been hurt.
I must think.

My blog says goodbye, maybe for a day or two,
maybe for a longer time,
Who knows, maybe for just a little while.

The Fox must find himself.
If not, he will die.

domingo

Chama Ardente



Ela desce a longa escadaria com degraus de granito
e um grosso corrimão de madeira escura.

As tochas, presas na parede fria de pedra aquecem o ambiente,
iluminando todo o salão mas deixando-o sempre na penumbra.

O meu corpo promete reagir aos seus movimentos leves, subtis e elegantes.
Lentamente ela desce as escadas, degrau a degrau,
sem nunca desviar os seus negros olhos dos meus, degrau a degrau,
aquele sorriso cativante que transborda, trepando as paredes,
passo a passo, aquele andar sensual,
como que de proposito para me deixar numa enorme inquietação,
o mesmo andar leve e carinhoso, o mesmo olhar terno e selvagem,
o mesmo baloiçar de uma leoa que cativa a presa antes de a atacar e matar.

Mas eu, naquele momento, já estou morto,
nada posso fazer contra ela,
não lhe poderia resistir e não a poderia vencer,
não sou mais do que um estúpido rato que avança para a ratoeira
porque o queijo parece delicioso,
mesmo sabendo que não terei oportunidade para saborear a refeição.
Mas vale a pena arriscar!

O seu corpo veste algo branco, não é tecido,
é um qualquer material, muito mais leve e transparente.
Não consigo tirar os olhos daquele corpo cheio de envolto.
O cabelo comprido, como que despenteado, parece um manto selvagem
que lhe cobre a cabeça, caindo sobre os ombros, atravessando o peito e as costas
acabando sobre a barriga como que a proteger e envolver o seu ventre.
Ela transmite toda a sensualidade e perversão presente na natureza.
Sobre as pernas que continuam a deslizar pela escadaria do salão encontra-se o meu refugio,
só quero estar junto a ela, nos seus braços, explorando todo o seu corpo entre pensamentos e devaneios, quero tocar cada ponto mais sensível e beijar cada pedaço de pele, tão suave e perfeita, tão quente e selvagem.

Mas ela sabe tudo o que eu estou a sentir e a pensar,
sabe de cor que não pensava duas vezes antes de encaixar o meu corpo no seu,
e eu sei que ela se prenderia a mim num só momento,
os seu olhar diz-me que não trocaria nada no mundo por uma noite de amor comigo.
Mas não para uma simples troca de loucuras , mas sim uma noite repleta de sentimentos, palavras e monossílabos, sons, arfares, suores, cheiros e sabores...
Ela sabe o que eu quero e não hesita em manter-me ali sentado, só a olhar,
enquanto se prepara para por o seu perfeito pé direito no degrau seguinte, sem medo...

Estou extasiado, sem me poder mexer... além da morte...
Estou cansado de esperar,
o ambiente está quente de mais,
as paredes sucumbem ás chamas em tons de amarelo e azul,
o fumo começa a causar-me náuseas,
os meus olhos já ardem,
e o calor nos dedos está a tornar-se insuportável !!

Com medo de me queimar deixo cair a fotografia...
Esta consome-se, transformando aquela bela figura em nada mais que cinzas.
Fecho os olhos por momentos.
Esfregue-os.
Volto a abri-los.

Inclino-me para a frente.
Agarro na pequena pá e atiro com o fino pó esbranquiçado.
As chamas irão extinguir-se durante a noite.
No ar continua o aroma amargo e forte do papel fotográfico queimado.

Levanto-me.
A lareira natalícia virou túmulo de cremação.
Pego nas minhas mãos e sacudo-as.
Arrependo-me.
Resta-me apenas a memória.

A não ser...que lhe peça outra....
Mas...dar-me-á ?

Vou dormir.

Tic - Tac



Pega no cálice e leva-o até aos lábios, permanecendo assim, numa doce provocação que pretende fazê-lo dar um passo em frente.
Quer mergulhar no mar escuro daqueles olhos, mas quer que seja ele a atravessar a sala e a vir até ela.
Provoca-o de novo, passando a ponta da língua no rebordo do copo e observa o olhar dele preso na boca insinuante.
Mas ele deixa-se ficar, impavidamente, observando-a nos seus gestos de mulher consumida pela promessa de uma noite juntos.
Os cerca de vinte metros que os separam não revelam a linha ténue que os une.

Olha para o relógio. Dá a entender que está na hora.
Procura os olhos dela.
Levanta-se.

Agora, sentado à sua frente, os mesmos olhos gritam-lhe silenciosamente o quanto a sua presença o afunda numa paixão
sem fim e o devassa.
Vamos até à varanda?
Pode ser...realmente está muito calor aqui...


Beija-a, enrolando a sua língua furiosamente na dela, enquanto os dedos apertam a curva dorsal num gesto de possessão de encontro ao corpo dele, pedindo que lhe mostre que também o quer.
E ela sorri simplesmente, vitoriosa por o ter à sua mercê,
mais uma vez.
Os dedos encobertos dos olhares alheios pelos corpos de ambos, avançam tacteantes pelo interior da perna dele até lhe tocarem.
Quero-te – sussurra, e passa a sua língua radiante pelos seus lábios, como se sentisse já o sabor dele entre eles.

O carro pára abruptamente.
Ele desce e dá a volta, abrindo-lhe a porta impetuosamente.
Também, muito – a voz meia rouca evidencia o desejo.
Sorri, semicerrando os olhos, e sentada, desaperta-lhe
o cinto das calças.

Segura-o entre as mãos, sabendo a carícia que ele deseja.
Aperta-o e desliza as mãos pela carne palpitante,
até ele a fazer parar.
Puxa-a por um braço, enquanto ela solta uma risada de puro desejo e encosta-a ao carro.
Rasga-lhe as colantes, arranca-lhe as cuecas, ergue-lhe uma perna e penetra-a com força, até se ouvirem os gritos que ecoam na noite e se projectam de encontro à lua.

Cheia.

Ela deixa-se cair no peito dele, corpos seminus, suados,
de encontro aos lençóis.
A janela do quarto deixa entrar a brisa que refresca a pele
que arde de paixão.
Beijos de lábios, sedentos ainda, mesmo depois de beberem da paixão que ambos carregam dentro de si.
Ele rebola o corpo e deixa-a deitada na cama, dirigindo-se para a casa de banho. Quando regressa, ela está quase adormecida.
Deita-se atrás dela, encosta-se ao corpo escaldante, desliza os dedos pelas suas costas até às nádegas, separando-as, passando os dedos por entre elas para a tocar como ainda a não tocou nessa noite.

Excita-a, introduzindo um dedo, dois, acariciando, massajando a carne que se vai rendendo ao desejo, molhando-se, entre suspiros e frases soltas que vão saindo dos lábios dela.
Está preparado para amá-la de novo, e ela ansiosa por o receber.
Não hesita e avança para mais uma viagem pelos caminhos da luxúria, agora, sem pressa, com ternura, com amor.

A manhã vem encontrá-los abraçados e o sol penetra por entre as cortinas para deixar um beijo nos seus rostos.
É mais um dia que recomeça naquele jogo que é a vida
composto de bocados...
de gestos, sensações, sentimentos, desejos, tristezas, alegrias, percas e conquistas.

O pequeno tic-tac faz-se ouvir no ainda silêncio presente.
Mais uns bocadinhos...que passaram...e que ficaram.

Viagem de Comboio



O comboio corria veloz.

Apanhara-o para ter uma viagem mais confortável e rápida.
No entanto, detestava aquelas constantes paragens em inúmeras estações e as entradas e saídas de tanta gente desconhecida.
Por disso, escolhera a primeira classe que ia sempre com menos gente.
Naquele dia, apenas vislumbrava três cabeças em toda a carruagem e bastante afastadas do lugar onde estava sentada.
Felizmente. Queria descanso e concentração para ler uma última vez as 53 páginas da matéria sobre a qual tinha que dar formação às 15 horas.

Depois de quase uma hora de leitura e a necessitar de uma pausa, decidiu ir tomar um café ao bar a fim de se manter bem desperta.
Já se desabituara de viajar tão cedo.
Procurou um lugar de canto e fez sinal ao empregado para lhe trazer o café.

Olhava pela janela quando pressentiu algo, arrepiou-se, e virou-se repentinamente, deparando-se com o olhar penetrante de um estranho encostado ao balcão do bar.
O olhar masculino desceu pelo corpo dela, de forma lânguida e insinuante. Sentiu-se desnuda de roupas e sentires, como se ele lhe tivesse arrancado mais do que a blusa e saia com aquele olhar.
Não gostou daquela sensação e indignou-se.
Contudo, não deixou de sentir, também, um certo formigueiro de excitação.

Olhava-a com firmeza. Era gira. Parecia cansada e no entanto havia uma frescura leve que rodeava a forma como andava, pensou que era o andar mais perfeito que tinha visto.
Ok, sorriu para si, ou então, era simplesmente um daqueles momentos em que a presença de alguém, sem razão aparente, interfere com a nossa.
Viu-a ficar sem jeito, a passar a mão na saia, ajeitando-a sobre as coxas, e na blusa, para confirmar que estava devidamente abotoada.

Deu conta do quanto estava a ser irracional e corou até à raiz dos cabelos. Terminou de beber o café e dirigiu-se para a sua carruagem, sentindo que os olhos daquele desconhecido a acompanhavam pelo corredor do comboio.
Havia de se recompor e mostrar-lhe que não se sentia minimamente afectada com o seu descaramento.

Aguardou que ela voltá-se ao seu lugar e reparou na tentativa de concentrar-se na leitura e como, claramente irritada, pousou o dossier no banco ao seu lado e colocou os phones, sintonizando uma estação de rádio provavelmente por forma a tentar esquece-lo.
Foi então, que ela fechou os olhos.

Minutos depois sentiu um movimento a seu lado.
Abrindo os olhos, virou a cabeça e viu o estranho a seu lado, de pé.
Com um gesto perguntava se podia sentar-se a seu lado e, sem lhe dar tempo de dizer qualquer palavra, tirou o dossier e acomodou-se, sem deixar de a olhar.
Ela ainda tentou balbuciar um protesto, mas parou quando ele lhe tocou os lábios em sinal de silêncio.
Sem dizer uma palavra, aproximou o rosto e colou os lábios aos seus, sem lhe dar possibilidade de fugir.
Sentia os membros presos.
A mesma emoção prendia-lhe a voz na garganta e a vontade de protestar.
O corpo tremia, invadido de uma sensação estranha.
Devia estar louca para permitir que um estranho a beijasse, lhe tocasse os seios como ele estava a fazer, apertando o seu corpo contra o dele, alguém que nunca havia visto na vida até há menos de meia hora.

Abraçou-a, puxando-a para olhar o seu rosto de novo, antes de a beijar sofregamente.

Sentiu a mão dele subir pelas suas coxas, por baixo da saia, e trémula de desejo, tocou-o ao de leve, numa carícia que revelou toda a ânsia contida.
Abrindo a boca, deixou que a língua masculina tocasse a sua, entrelaçando-se com volúpia.
Não conseguiu aguentar mais.
Levou-o para o seu compartimento.
Uniram os corpos e buscaram o cume do prazer em movimentos acompanhados pelo ritmo do andamento do comboio, entre gemidos mudos, carícias, sussurros, mordidas e suspiros, amaram-se loucamente.
O tempo parecia estar preso àqueles carris, absorvida naquela viagem, perdido e sem rigor, cúmplice de uma ocasião que jamais esqueceria.

Sem uma palavra, ele puxou as calças, abotoou-as, fechou a camisa, levantou-se com um sorriso, beijou-a nos lábios e desapareceu no corredor.
Ela compôs a roupa, ergueu-se e encaminhou-se para a casa de banho, a fim de se pentear e tentar recuperar ainda do que havia acontecido.
Devia ter enlouquecido para fazer aquilo, pensava, enquanto se olhava no espelho.
Mas não.
Como recordação, tinha ficado o gosto de um desconhecido nos lábios e a marca dos seus dentes era bem visível no seu pescoço.

Faltava cerca de 1 hora para o fim da viagem.
Teria tempo par rever a matéria do dossier.
Tempo para esquece-lo.

Se o conseguisse...

sábado

Seduz-me



Despe-te para mim, pediu ele.
E ela obedeceu.

Sentado na cama, ele fixava-a no meio daquele quarto iluminado a meia-luz. O seu rosto estava sereno.
À sua frente, de pé e sem proferir palavra, ela iniciou a tarefa.
Lentamente, desapertou o primeiro botão da blusa que vestia.
Os seus dedos moviam-se delicadamente, como se estivessem a tocar numa jóia preciosa.
Desapertou o botão seguinte.
E outro.
Por baixo, transparecia um soutien branco, acetinado e macio, e o peito dela brotava com voluptuosidade.

Mirou-a.

Após uma pequena pausa, o suficiente para o deixar embevecido com aqueles centímetros de corpo descoberto,
chegou ao último botão.
Via-se agora um rio de pele, do pescoço até ao ventre, que brilhava com os reflexos da luz.O olhar dele permanecia imóvel, concentrado naquele delicioso sulco que os seios formavam.

Olhando para ele, ergueu ambos os braços, e agarrou a blusa junto ao peito, fazendo um gesto lento que a fez deslizar pelos ombros. A sua pele arrepiou-se e os pelos eriçaram-se ao sentir aquele tecido macio a acaricia-la.
Ela olhou para os seus seios, com a blusa ainda caída nos braços e, ao de leve, tocou num com a ponta dos dedos.

Ele sorriu.
Ela também.

Decidida, despiu a blusa por completo, deixando-a cair no chão.
O movimento fez o peito dela projectar-se para a frente, e um mamilo espreitava agora por entre a copa do soutien.

Ela tocou-lhe.
E ele vacilou.

Inebriado, ele ergueu a mão e tocou-lhe
no ventre com a ponta dos dedos.
Aproximou a sua boca desse mesmo sítio, beijou-a,
e ela sentiu os seus lábios entreabrirem-se
e deixarem sair uma língua quente e ávida.
Ao afastar-se, ela sentiu o sopro quente dele na pele que entretanto tinha deixado húmida, e gemeu.

Continua, pediu ele, enquanto se tentava controlar para não lhe tocar.

E ela continuou.

Quando começou a desapertar os jeans, fechou os olhos e movimentou lentamente as ancas. As calças deslizaram pelas pernas, e ficou em roupa interior.
Uma alça do soutien tinha deslizado pelo ombro, e pendia agora no braço. O seio, cujo mamilo antes espreitava,
revelava-se agora ainda mais.

E ele não resistiu.

Mais do que apenas admirar o seu corpo, ele estava envolvido pela sensualidade dela. Puxou-a para si num gesto seco, e mergulhou de novo a boca no ventre dela.
Enquanto lhe beijava a pele e respirava o seu cheiro, as mãos dele percorriam-lhe o fundo das costas, as nádegas, e aventuravam-se ainda mais para o interior das coxas.
Sentia o calor que emanava dela…

E desejava-a.

domingo

Momento a 2



Tinham regressado de um passeio junto ao mar.
A chuva caía desalmadamente, frenéticamente,
vedando o carro do mundo exterior,
emprestando o seu manto de gotas serradas,
que já haviam coberto os seus corpos.

Ela olhou para ele.
Ele sorriu.
Como ela adorava aquele sorriso!
Ela aproximou-se dele, devagar.
Enroscou-se no seu colo e sussurrou-lhe ao ouvido:

Vem.

Ele agitou-se, pegou nela e voltou a sentá-la.
Puxou o banco para trás e ficou a olhar para ela.
Passou as mãos devagar pelo seu cabelo.
Ela fechou os olhos.
Ele continuou.
Passou-lhe os dedos pelos lábios, depois pelo pescoço.
Desapertou-lhe os botões da blusa.
Gostava que ela usasse as prendas que lhe dava.
O colar assentava-lhe tão bem...tão...elegante...
Ela abriu os olhos e seguiu todos os seus gestos.
Lentos, premeditdos, fazendo crescer o desejo dela.

Vem.

Ele continuou, peça por peça, devagar...
Quando os olhos dele voltaram a encontrar os dela, ele voltou a sorrir.

Vem.

E ele foi.
Tocou-lhe nos cabelos como ela gostava,
passou a língua pelo seu ouvido e murmurou:

Já estou a caminho...

Não...Vem...Depressa !

segunda-feira

A Janela




Ela gostava de fazer amor com a janela aberta
e sentir o ar fresco aliviar-lhes o suor dos corpos,
ou noutras alturas ouvir a chuva forte cair,
a impulsionar-lhes o ritmo do sexo que juntos inventavam.

Mas naquele dia apeteceu-lhe uma coisa diferente.
Levou-o até à janela.
Queria sentir-se liberta das amarras
que as paredes lhe transmitiam.
Percebia-se invadida pela luxúria, pelo desejo,
pela vontade de senti-lo dentro de si.
Nem precisou dizer-lhe o que quer que fosse.
Entendiam-se pelos sentidos.

Ele aproximou-se dela e encontrou-lhe
as costas com o seu peito.
Encostou-se.
Envolveu-a com os braços.
Ela permaneceu imóvel.
Ela queria senti-lo, só.
Abandonar-se no seu corpo.
Desceu o peito dela com as mãos,
desde o pescoço, passou o umbigo
e chegou-lhe ao sexo, quente,
latejante, ansioso, desesperado.
Sentiu-lho.
Provocou-a.
Fê-la gemer.

Inclinou-se no parapeito.
Ele enlouqueceu de desejo quando a viu assim.
Despojou-a da roupa, já de si leve.
Queria unir-se a ela, sem entraves.
À medida que o fazia, via a pele dela
E sentia o seu cheiro, que sempre o inebriava.
Ficou a olhá-la por breves momentos, assim, tão... sua!

E depois penetrou-a.
Mais e mais e mais... até serem um só.
Um ser único
Naquele quarto
Junto àquela janela...

terça-feira

Tapete



Chegou um som da porta.
No início, indistinto.
A água e as mãos ensaboadas faziam uma tempestade
sobre os seus cabelos.
Depois, mais forte. Batidas.
Gritou “ Já vai !”
Fechou a água, enrolou-se numa toalha e foi
apressadamente para o quarto.
Enquanto uma mão esfregava vigorosamente, a outra vasculhava a primeira gaveta.
“ Já vai ! Espera !”resolveu gritar, antes que batessem novamente.
A correr, vestiu a cuecinha branca, velha conhecida do fim-de-semana sozinha em casa, e enfiou-se no pesado camisolão vermelho que domava qualquer espécie de frio que ousasse fazer-lhe mal.
Francamente, quem quer que fosse naquela noite chuvosa, não se iria importar de vê-la à vontade, e se ligasse, que fosse para o inferno até porque eram onze e tal da noite !
“Já vou !”
Primeiro o desodorizante, depois o perfume,
e saiu a correr para a sala.
Deu uma vista de olhos rápido ao caos que a rodeava – as roupas no chão da casa de banho, louça por lavar, almofadas espalhadas no tapete da sala...
E o pó ! Que se lixe !
Sentiu o vento frio nos pés.
Tinha-se esquecido, outra vez, de comprar o friso de protecção para a porta de entrada.
Sentiu o metal frio na mão amaciada pela água quente do banho.
Girou e abriu.
Mas a lufada de ar gelado que sempre acompanhava o movimento não aconteceu.
Ele barrava o vento.
Estava imóvel e estava a fazer uma verdadeira poça de água no seu soalho !

Olhou para ele.
Cabelos escorridos, camisola agarrada ao corpo, as jeans pesadas, a poça a aumentar !
Mesmo assim, era ele.
Mal podia acreditar.
“Tu?” Contemplou o rosto dele com a vagueio que somente as memórias conferem às expressões humanas. Nem nos mais loucos devaneios conseguira acreditar que um dia o veria novamente.
Há quantos anos não o via?
Trovejou. Não conseguiu dizer nada. Afastou-se, abrindo passagem.
Fechou a porta mecanicamente. Esqueceu-se de trancá-la.
Tornou a olhar para ele.
Sem pensar, estendeu a toalha húmida e esquecida no ombro.
Não pensou em arranjar uma seca.
Nem pensou na provável necessidade de um banho para aquecê-lo.
Não conseguia pensar.
“Eu vou buscar...roupa seca.”

Há quanto tempo, mesmo, não o via? Sete, talvez oito anos.
“Eu vou lá ter...”, era o que ele lhe tinha dito quando se despediu dela, “Eu não vou mais esperar...”, tinha sido sua resposta.
Fechou a gaveta, camisa de flanela e jeans penduradas na dobra entre o braço e o antebraço.
E agora, ele estava ali !
Outro trovão irrompeu lá fora.
Um chá quente. Era disso que ele precisava.
Sentiu um arrepio. O vento ainda conseguia entrar no apartamento.

Do corredor, gritou “vou fazer um chá, troca-te no quatro, ainda te devem servir...”
Parou meio atrapalhada, não o tinha visto passar, já estava na cozinha, a encher o bule.
Carregava no botão do isqueiro e girou o de gás.
Ele estava ali.
Só parou de olhar para a chama azul quando sentiu o cheiro de água fervente, um cheiro característico, bastante curioso, só quando se ferve água em recipientes de alumínio. Porra! Tinha deixado ferver. Não ia dar um bom chá. Colocou as saquetas na água.
Um relâmpago iluminou a janela da cozinha. O cabelo húmido no pescoço causava-lha arrepios. Pegou na manta.
Lembrou-se de quantas noites aquele cobertor tinha acalentado sonhos e enxugado lágrimas.
“Princesa...”
Assustou-se.
Por um momento, tinha enveredado por um trilho de memória.
O som do seu nome naquela voz grave e baixa trouxe-a de volta.
Ajeitou a manta sobre os ombros, prendendo-a com uma das mãos.
Ergueu a cabeça e foi para a sala.
“Onde posso pôr isto?” mostrou-lhe a roupa e a toalha ensopada.
“Dá cá. Foi até à casa de banho e demorou-se a voltar.
Ele estava no sofá, sentado. Não ficaria ali, ao lado dele.
Ficaria bem no tapete, encostada entre as almofadas,
tapada pela sua manta.

“A Maria?”
Ele fez que não com a cabeça. Os olhos grandes e castanhos completavam o silêncio, não havia mais Maria. Desde quando? E porquê? E porque estava ali? Como a tinha encontrado?
E porquê, principalmente, tinha sentido o coração pular uma batida quando abrira a porta?
Outros já tinham ocupado aquele mesmo lugar!
Ou tinham ?Aquele mesmo? Mesmo?
Não queria saber ! E depois ? Tremeu. Atirou-se de encontrou a ele.
O hálito quente humedeceu-lhe a face, perto da orelha.
Rodeou-lhe a cintura e aninhou a cara no peito agora seco e coberto com a sua preciosa camisa. Sentiu o apoio duro do queixo e a pressão leve mas intensa do abraço nas costas.
Poderia morrer assim.
Sem perguntar. Sem querer saber.
Só sentir. Sentir e fazer-se sentida.

Durante a noite choveu ininterruptamente.
A água lavou as ruas, as estradas percorridas,
os caminhos esquecidos e refrescou as folhas castigadas
pelo vento que soprara sem cessar.
No apartamento, o chá ficara esquecido sobre o fogão.
A manta cobria o tapete.
Cobria dois corpos que dormiam, transpirados,
agarrados, ali, no tapete.
No tapete que ele, em tempos, lhe oferecera.

domingo

A Casa



A casa parece vazia.
Escuto o som do vento
que traz o manto branco.
Estás lá. Tu.
No vazio
perto da casa.

Sinto a sombra.
O perfume sobrevoa
entre labirintos escondidos.
Olho para ela, a casa.
Retrato de um tempo,
quadro de memória pitoresca.

Procuro outro som.
Aguço sentidos
que provocam sensações.
O encher de abraços
de sonhos adiados,
exaustos, atados à imensidão duma noite.

Misteriosa linguagem, esta.
Entre mim e a imagem
que me enche o ser.
Perco-me entre a casa
e o chão que piso
como se aqui tivesse vivido.

Caminho, caminho sem máscara.
Recomeço onde a realidade parou
em tempos, por momentos.
Preso à memória
sinto-te de novo, vejo-te,
cobre-te um sorriso, no rosto.

Não me despeço.
Hei-de voltar
para te encontrar.
Hoje, o destino assim quis.
Encoberto do mundo,
reencontrei, um pedaço de mim.

sexta-feira

Luz



Estava escuro.
Ela pediu para acender a luz.
Ele não quis.
Ela insistiu.
E voltou a insistir.
Ele voltou a não querer.
Estava escuro.
Tocaram-se.
Cada toque, cada respiração.
Inspira. Expira.
Respiração.
Ofegante.
Daquelas que se ouvem uma vez.
E sentem tudo...nessa mesma vez.
Respiração.
Inspira. Expira.
A unha passou pelas costas dele.
Percorreu toda a espinha dorsal.
Passou pelos ombros.
Parou na coxa.
Arrepiou a silhueta.
Esticou o pescoço.
Gemido.
De novo o gemido.
Inspirou tudo.
Toque.
Arrepio.
Estava escuro.
Na testa o suor.
No toque o desejo.
Inspira.
Expira.
E a unha continuava.
Aqui.
Ali.
Acolá.
De novo o arrepio.
Daqueles arrepios que se querem sempre.
Sim. Daqueles.
Sim. Exacto.
Desses mesmo!
Inspira.
Expira.
Foi num estacionamento.
Estava lua cheia.
Como hoje.
Era praia.
Era desejo.
E ele não acendeu a luz!
Não !!
Foi num “estacionamento”.
Eu sei que não estava deserto.
Como podia ele ter acendido a porra da luz !

domingo

A Última Lágrima



Uma pequena escapadela, uma oportunidade para se verem, um momento para se amarem.
O risco era grande, as consequências atrozes, mas a cumplicidade e o prazer... isso era inigualável.

“Por favor. Vai-te embora daqui! “

“Eu quero estar contigo… eu sei...a última vez…”

“Sabes que se te apanharem aqui... Por favor, não quero ser o responsável por isso...também...”

“Acredita, se puder sentir os últimos raios de sol contigo, valerá a pena, sempre foi assim...tu sabes...porque havia de ser diferente agora ? concluiu ela, abrindo, de seguida a sua cela e usando a chave furtada para soltar a pesada corrente da coleira.
Vamos, segue-me.”

Saíram em direcção a um bosque que se situava junto à pequena aldeia. A povoação não possuía muito mais que trinta habitações, um pequeno mercado, uma escola, uma igreja...e uma prisão. As suas tonalidades não fugiam ao castanho, podendo observar-se aqui e ali certos fragmentos de cor que, por isso mesmo ou apesar disso, nessa noite, atribuíam uma certa beleza ao local, pelo menos, foi o que ele achou.

“Para onde vamos?”

“Para o paraíso!” disse-lhe, sorrindo.

Guiada pelo coração, conduzia o pequeno automóvel por entre as árvores sem prestar grande atenção ao caminho, pois o seu olhar percorria aquele que ia a seu lado. Desviava o seu cabelo longo para trás da orelha e olhava-o por diversas vezes, certificando-se de que ele estava mesmo ali...ao seu lado.
Esporadicamente apanhava o seu olhar, os olhos escuros pareciam-lhe mais claros, brilhantes, quentes, era aquela mistura de cor e sentimento contido neles que ela associava à beleza única dele.

“Chegámos!” anunciou, detendo-se na
margem de uma clareira.

“Mas isto… Wow…”

Perdera as palavras no exacto momento que olhara
o local que os rodeava.
Nunca imaginara que no meio de tão denso bosque
pudesse haver tal clareira.
O mais impressionante era a cascata no extremo norte que suavemente e sem grande ruído, alimentava o lago. As águas calmas e refrescantes transmitiam uma tal sensação de serenidade e bem-estar que, por momentos, ele quase esqueceu a situação. A luz do luar que incidia no lago reflectia-se por todo o local, tornando-o ainda mais belo, pois as mais delicadas flores possuíam um brilho único, vivo e lindo.

“Como descobriste este local?”

“Nunca tinha estado aqui antes. Foi na noite que te levaram.
Vim sem destino.
Acho que foi instinto ou…ou fui guiada por algo...”

Olhou-a com mais atenção.
Tão jovem, toda a vida pela frente. Sorriu-lhe. Contudo tinha mais maturidade que certas mulheres da aldeia. Isso tinha-o cativado. Aquele misto de menina-mulher, gentileza e rebeldia, força e fragilidade. Era, de facto, muito bonita.
A sua face continha feições adultas e infantis, o que lhe conferia uma beleza fora do comum. Os cabelos desciam delicadamente pelas suas costas, ondulando ao sabor do vento que soprava suavemente naquela noite de despedida.
Duas madeixas caíam-lhe no rosto emoldurando, assim, os seus olhos feitos berlindes. Sempre tivera naquela cor viva um brilho de alegria e inteligência e em todas as viagens que ele fizera durante anos, até chegar àquela aldeia, nunca vira tal cor.

“Sabes, nunca pensei vir a viver uma situação destas, mas, eu sabia que era proibido. Quero que saibas que não me arrependo de nada.
Contigo, vivi. Não te esqueças. Não te culpes. Promete.”

“Eu tudo...somente... por me amares?”
Simples humanos não conseguem compreender. Que importa isso ?
Nós sabemos que a verdadeira proibição não existe...é nos imposta.
Eu...eu prometo.”

Foi com o embalo de tão belas palavras que ela se entregou naquela noite e o levou para perto do lago que para sempre iria guardar aquele momento de puro amor.
Amaram-se como provavelmente ninguém havia feito naquela aldeia e quem sabe, até em todo o mundo. Aquele era o amor no seu todo, o amor que apenas existia num mundo inteligível e que não era mais uma mera reflexão da verdade que ambos reconheciam dentro de si. Haviam atingido, ainda que inconscientemente, o amor absoluto.
A Natureza, como que sensibilizada com tal paixão, proporcionou-lhes o mais belo momento das suas vidas, disponibilizando até os seus pirilampos para os iluminar com uma luz ténue e doce, e rodeando-os numa frenética dança de alegria.

“Quero...ser tua para todo o sempre” sussurrou-lhe.

“E serás. Acredita. Estás dentro de mim.”

E assim se mantiveram durante toda a noite: beijando-se, acariciando-se e abraçando-se.


Jamais esquecera aquele momento e mesmo já em idade avançada, relembrava com saudade uma paixão que ficou marcada, para sempre, no seu coração. Em todo o restante tempo da sua vida, nunca voltou a amar alguém com tanta intensidade.

Na manhã seguinte chegou o doloroso momento.
Haviam-na obrigado a assistir a tão cruel acto.
Ele subira vagarosamente os degraus para o estrado, mas não demonstrou qualquer medo ou infelicidade. Pelo contrário, do seu rosto irradiava...uma estranha felicidade.
Grosseiramente, o carrasco colocou-lhe a corda no pescoço e posicionou-o por cima do alçapão.
Durante todo o tempo, ela nunca perdeu o contacto com os seus olhos
e mesmo não podendo comunicar, eles...tocavam-se.

O alçapão fora aberto.
Ele sofreu e atingiu lentamente a morte.
Mas, nunca deixou de a fixar, deixando bem claro que a
levava com ele...para sempre.

“Amo-te” foram as últimas palavras dele, deixando pender a sua cabeça ao findar do último suspiro, enquanto mantinha a mesma expressão de felicidade.
“Também te amo...” respondeu-lhe num murmúrio, deixando correr uma lágrima.

Aquela foi, de facto, a última lágrima que mais alguma vez soltou.
Isto é, tirando aquela tarde, quase 9 meses depois.
Mas, aí já estava longe...longe daquela aldeia...daquela gente...
Longe daqueles que pouco tempo de depois...deixaram de...viver.
Também ela, não estava arrependida.

Dirigiu-se até à janela, colocou as mãos em voltada
dos cilindros ferrugentos e frios.
A manhã estava bonita. Sentia-se quente por dentro.
Aguardava, ansiosa.

“Bom dia, senhora.
A sua visita chegou.”

Virou-se para o encarar enquanto ajeitava o cabelo um pouco.

“Mãe !” Então...que cara é essa ?
Até parece que viste um fantasma !!”

Correu ligeiramente para o abraçar.
Aquele sorriso, aqueles olhos...eram iguais.
O seu amor, estava ali...vivo.

segunda-feira

No Terraço



No alto a Lua trazia consigo a sua sombra e a noite erguia um manto de estrelas sobre a cidade.
Ele, sentado à secretária, trabalha incansavelmente, passando a mão pela testa, queixo e pescoço, como se, com isso, pudesse aliviar o cansaço e fazer com que as horas de trabalho ainda pela frente desaparecessem.
Encosta-se na cadeira e vê aquela sombra projectada no terraço.
Levanta-se, e dirige-se para a porta de correr que dá
acesso ao exterior.
Silêncio, somente.
Olha a mesa e cadeiras ao centro, onde toma algo nas
noites mais quentes.
Abre a porta e sai para o terraço.

Imediatamente sente os pelos da nuca eriçarem como se uma presença estranha estivesse no terraço.

Percorre-o com o olhar até vislumbrar numa figura debruçada sobre a murada do terraço, olhando para as luzes da cidade em movimento.
Aproximando-se, apercebe-se de uma figura feminina, cabelos escuros, compridos, coberta com o que aparente ser,
um simples manto branco.
Como havia ela ido parar ali? Por onde?

Ela vira-se e sorri-lhe.
Dá três passos miúdos, silenciosos,
estica um braço, tocando-lhe o rosto.
Quando ele abre a boca para falar, ela apenas toca-lhe nos lábios com a ponta dos dedos, silenciando-o.
Segura-lhe a mão e leva-o até à cadeira mais próxima,
a espreguiçadeira, fazendo com que se sente, se deite.
Ajoelha-se ao lado da cadeira e beija-o suavemente nos olhos, levando-o a fechá-los, deixa-lhe um leve sopro na testa, toca-lhe nos cabelos e beija-o delicadamente nos lábios.
Ele mal sente aquele toque, mas fá-lo estremecer de antecipação.
Parece querer-lo à sua mercê, como se fosse ser dela apenas naquela noite...
Ele não consegue reagir, apenas sentir cada carícia que lhe penetra a pele e desfaz a alma em prazer.
Ela retira o manto que a cobre e fá-lo abrir os olhos para a ver, corpo apenas banhado pela lua cheia.
Ele ergue-se e puxa-a para o seu colo, sentando-a nas suas pernas.
Beija-a apaixonadamente, sôfrego daquele momento inqualificável, estranho, místico. Desliza as mãos com suavidade e paixão pelo corpo dela, até lhe tocar o sexo, que acaricia docemente, mais fortemente, até a fazer suspirar e estremecer num doce orgasmo, enquanto mergulha o rosto nos seus seios, fazendo-a tombar a cabeça em seu ombro.
Depois é ela quem ergue o corpo, toca-lhe, sentindo a excitação que o possui, e com as sua mão o coloca dentro dela, sorrindo como quem recebe um presente.
Abraça-se no seu pescoço, penetra as mãos no cabelo dele e, olhando-o profundamente nos olhos, inicia um movimento que os leva à loucura, ao cume do prazer.
Repousam por momentos infinitos.

Ele abre os olhos.
Acha que adormeceu no terraço, em resultado do trabalho em excesso.
Mas, as suas roupas encontram-se espalhadas pelo chão...

Somente um sonho ?
Mas Quem? - pergunta-se.

quarta-feira

Presente



Era uma daquelas tardes em que o sol e a lua
combinam encontrar-se.
A leve brisa trazia consigo cantigas de ninhos
escondidos e a cada investida preguiçosa,
as ondas faziam chegar o seu cheiro salgado,
molhado e pegajoso.
Era a primeira vez que se encontravam ali.
Não que o tivessem planeado,não naquela tarde,
até porque há muito que sabiam que o tempo lhes fugia,sempre.
Não, aquela tarde tranquila
acontecera com uma naturalidade espontânea,
momento que o próprio tempo lhes devia e ao qual
emprestara um gosto diferente,
como se de um o fim de ciclo se tratasse
e o início de outro se adivinhasse.

Um longo abraço e beijo deram lugar a dedos inter laçados
enquanto se sentavam num pequeno muro arruinado,
órfão naquela praia deserta.

“Isto aqui é mesmo bonito” disse ele,
“nunca pensei, ainda bem que me trouxeste aqui.”

Ela soltou uma gargalhada,“É...engraçado...
normalmente és sempre tu a decidir.”
Com isto piscou-lhe o olho,rui-se novamente,levantou-se, e deu uns
passos em frente enterrando os saltos na areia molhada que
rapidamente a obrigou a dobrar para cima as calças da ganga.

Era a vez dele de se rir,“És sempre a mesma coisa!
Tens cá uma pontaria!
Não me lembro de mais ninguém que anda na praia de saltos altos!”

“E não são estas coisas que me fazem ser especial?” retocou ela,
“se assim não fosse, seria...normal!”

Adorava aquele sorrisinho de marota atrevida,
adorava como as suas faces acaloravam e a denunciavam
quando lhe olhava intensamente nos olhos
deixando que ela adivinhasse o seu pensamento, e desejo.

“Então vamos combinar uma coisa?” perguntou, animado.

“O quê?” disse, curiosa.

“Quando eu conseguir alcançar a lua, vou roubá-la
e dar te de presente para que à noite,quando estiveres
longe de mim,possas atar-lhe um cordel e deixá-la subir ao
céu para eu puder ver e saber,que pensas em mim.”

Ela sorriu com a ideia tola e infantil dele e disse,
tranquila,“Mas se tu roubares a lua só para mim,
o que farão os outros casais,os outros apaixonados
e todos aqueles que a acarinham?
Achas justo ficarem sem o luar?
Umm...não me parece que aceitava essa prenda...”

Ele olhou-a durante algum tempo.
Tinha ficado a contemplar o horizonte alaranjado,
os cabelos a ondularem levemente ao sabor da brisa brincalhona.
”Então, não queres a lua huh? Não entendo.
Não consigo imaginar um outro presente tão fantástico,
precioso e romântico como esse.”

“Eu sei de um”afirmou ela, categórica.
Ӄ certo que pode dar te ainda mais trabalho do que
o teu presente lunar, mas olha, para mim é tudo aquilo
que acabas de dizer...e mais!”

Ficou verdadeiramente intrigado,“Ok, posso saber qual é?”

Virou-se,chegou-se a ele e pegou-lhe nas mãos.
“Tu.Basta que tu me ames.Basta que tu me deixes amar-te.
Basta-me.”

Não pode deixar de sorrir.
Não pode deixar de sentir os olhos humedecerem-se.
Disfarçou,“Tu não estás bem,malditos Martinis !”

“Eu sei...estou apaixonada”disse, encerrando o assunto,
beijando-o de forma perfeita, dizendo-lhe,“eu amo te”.