domingo

Lua Cheia



Estava uma noite magnífica, o céu límpido e carregado de estrelas,
com a lua cheia a domar toda a imensidão daquele esplendor.

O jantar, num restaurante à beira mar, tinha sido bom, tranquilo e acolhedor.
A escolha, decisão nada habitual, tinha sido dela.
Estava particularmente bonita naquela noite, no seu vestido preto,
com o cabelo solto, meio selvático, como ele gostava ...
Subtilmente, tinha o obrigado a ficar a imaginar o que traria
por debaixo daquele vestido justo e sugestivo.
Tinham ido para casa dela...a pedido dela.
Imaginou que aquele pedido tinha uma segunda intenção.
Desconfiara disso.
Conhecendo-a como conhecia, só poderia esperá-lo algo...especial...

A luz da lua invadira o quarto.
Ela olhou-o e ele logo reconheceu aquele olhar intenso,
cheio de emoção, de provocação, de desejo.
Despe-me. Toca-me. Sente-me...sussurrou-lhe
Sorriu-lhe...
Aproximou-se dela e virou-a de costas para si, prendendo-a,
e reparou como o olhar dela fixava as imagens a reflectir
no enorme espelho que habitava a maior parede do quarto.
Começou pelo fecho do vestido, lentamente,
até antever a lingerie preta.
Depois, foi despindo-a, peça por peça...
Quando, finalmente, ela se virou para ele, nua, não pode deixar
de se rir daquela mistura sensual de vergonha e malícia que emanava
dos seus olhos grandes e brilhantes...
És uma tonta!
Agarrou-lhe a mão e foi-se deitar com ela.
Ficou, então, carinhosamente, a percorrer com a mão aquele
corpo de mulher que ansiava por ele...
Passaram minutos, passaram horas.
Tempos de cumplicidade, de envolvimento, de partilha,
de vontades, de loucura, de desejos...
a cada toque, a cada carícia, a cada reacção dela,
olhos que o fixavam umas vezes e outras se
fechavam, a mão dela que se agarrava ao lençol,
as dele que a envolviam e a traziam de encontro a si...

Estava uma noite magnífica, o céu límpido tinha dado lugar às nuvens
matreiras da madrugada e as estrelas cansadas da sua árdua tarefa, sucumbiam
perante a alvorada sorrateira.
Dentro do quarto escuro e silencioso, eles tinham-se encontrado, outra vez.
Mas o dia.....já não tardava......

Fed Up !



He sat there so dam fed up!
The screen just stood there, completely white, utterly blank.
Obviously he understood why it was so – it was merely the reflection of his weariness.
Every now and then, he’d close his eyes and try to make sense of things but it was as if all the possible answers had hidden themselves and so, to him,
it was no surprise he felt that way.
Actually, it had been like that for some time now.
Many and different thoughts and feelings crossed his mind.
Silent screams and contained shouts ripped threw his body leaving
him more and more hollow.
He wondered if this was what losing out was really all about.
Or, maybe, perhaps things in life just were the way they were.
Simple.
Why try to dig deep into issues?
Why bother trying to change ways?
Why even consider believing in…tomorrow?

To others he might say : Keep the faith! Believe!
To others he might give the impression it’d all be alright the end.
To others…
What was he really to others?

Well, he knew the answer to that, it’d all become to obvious.

So…it’d be…just another night.
The blank, white screen, waiting to be filled…
It wasn’t so bad.
He’d give it a shot.
Oddly enough, sometimes it kind of worked out rather nicely…

terça-feira

Queria saber Pintar...




Parei.
Abri a cadeira de madeira e lona branca.
Silêncio.
O mar...


Gostaria de fechar os olhos e poder pintar os sonhos...
descrever todo os encanto,
transmitir todo o sentimento
através de um pequeno quadro...
Salpicar a imensidão do desconhecido,
embelezar metamorfoses através de aguarelas,
criar a harmonia do próprio ser...

No vazio de uma tela nasce a arte de quem a vê...
olhos que expressam,
manifestações silenciosas
de químicas adormecidas...
Magia das cores,
traço de pincel que desliza,
em fundo branco...


Deixei-me levar...

Tentei pintar uma flor,
dar conteúdo aos sonhos,
Mas...
Não encontrei na palete das cores
tons que transmitissem o seu encanto,
nem a forma ou a essência do perfume das suas pétalas...

Tentei pintar o céu,
retratar no espaço os sonhos,
Mas...
Nunca conseguiria demonstrar a sua imensidão,
nem representar o infinito num espaço tão limitado,
nem a magia nem a beleza das estrelas numa noite brilhante,
pontos de luz, encanto que ilumina a alma, danças distantes...

Tentei então, associar o sonho ao mar,
dar cor ao firmamento dos sonhos,
Mas...
Como fazer para ter todos os tons de azul que o pintam,
conseguir desenhar a sua força,
reproduzir o som do gigante que abraça a praia ?
Como pintar o algodão da crista das ondas que chegam e vão,
que guardam segredos imortais nas suas profundezas,
e alimentam histórias de quem o navega e contempla?

Pensei então, pintar os sonhos através de um coração,
porque sempre soube que os sonhos estão em cada um de nós,
Mas...
Não consegui encontrar um tom de vermelho
que representasse a Paixão,
a Vida...

Percebi que não seria capaz de esboçar
o encanto de um sorriso
na minha melodia de traços e rabiscos,
nem alguma vez conseguiria
a alquimia de transformar o Amor em cor...

Como o queria,
Queira saber Pintar,
Saber desenhar apenas,
O encanto de um beijo...

Suspirei.
Não se pintam beijos sem lábios...
Sorri.
Como te pintaria, eu, a Ti?
Olhei o horizonte e sentei-me.
Afinal, descrevera o sonho conforme o sentia...
Não o tinha pintado,
havia escrito,
apenas,
estas,
Palavras.

segunda-feira

Reencontro



Sentia-se trémulo e esgotado.
Mal conseguia acreditar.
Após tanto tempo, ela estava ali, imóvel, como uma imagem barroca que não conseguimos traduzir num só olhar, mas apenas admirar, naquele momento, pela beleza que vemos.
Afagava os cabelos na tentativa de acalmar a respiração, mas, ao encostar a mão nela, logo se repreendia pois não conseguia manter-se inalterado.
Esfregava as mãos levemente nas dela e sorria,
como uma criança que ganhara aquele brinquedo tão ansiado.
Então, entretém-se a contornar partes do corpo com as mãos, desejando poder possui-la outra vez, ao mesmo tempo que as lágrimas lhe escorrem pelos olhos.
Era madrugada alta.
Havia o barulho de carros indo e vindo, a prazos não contabilizados, um cão desesperado que gania, dando lugar a um uivar que lhe percorria a espinha provocando calafrios, e sobretudo, o barulho ensurdecedor de gotas grossas de chuva no telhado.
Não receava que isso viesse a interromper o descanso daquela mulher e quebrar, como um cristal que se partiria em mil pedaços, o encanto daquele momento, que por seu desejo se tornaria eterno.
Ah, como era deliciosamente santa e profana a sua presença naquele quarto pobremente mobilado. Ainda conseguia ouvir os risos ecoando pelas dependências da casa, passos macios arranhando os azulejos, corpos famintos roçando
entre lençóis cheirosos e engomados.
Reinava o mais absoluto silêncio, mas no seu íntimo, haviam vozes, muitas vozes, e tantas vozes criavam uma espécie de mistura de alegria e tristeza.
Alegria porque ela, agora, pertencia-lhe, e tristeza, pois ela partira.
Sentou-se à beirinha da cama e contemplou-a mais uma vez.
Que cenário magnifico, e como era engraçado as cores, como que uma espécie de mar, um véu da natureza, que a cobria, que invadia todo o espaço, que tornava o quadro perfeito e harmonioso, quase como que premeditado.
Reflectiu sobre esse ultimo pensamento.
Não, não tinha desejado isso.
Não tinha acontecido assim.
Tinha visto a alegria nos olhos dela, o riso aberto e meigo quando o viu à porta, ramo de rosas multicolores numa mão, chapéu-de-chuva na outra, e um “boa tarde miúda” meio engasgado pronunciado entre beijos e abraços repentinos.
Fora como ele tinha imaginado, como tinha projectado o dia de a reencontrar, como tantas vezes tinha sonhado!
Depois, as palavras prisioneiras de anos desataram a correr pelo ar, as confissões fizeram-se ouvir, os perdões deram lugar ao amor e sem se aperceber, quando acordou ao lado dela, a tarde já dava lugar à noite tempestuosa.
Porquê falar-lhe do amanhã? Porquê?
Porquê estragar toda a envolvência de um momento tão especial?
Porquê pressioná-la como o já o fizera noutros tempos? Porquê?
Levantou-se pesadamente e dirigiu-se à kitchenete.
Trouxe de volta um pano húmido e agachou-se para proceder à limpeza cuidadosa do parquete. O vermelho vivo devolvia-lhe com toda a clareza aqueles instantes fatais, o salto repentino dela no meio de um grito de discórdia, numa tentativa de abandonar a cama quente que partilhavam, a frase “vou mas é tomar um duche, tu estás doido!”, o trambolhão no chão húmido...

Ajoelhou-se, e colocou o queixo em cima do colchão a escassos centímetros do dela.
A palavra destino encheu-o de raiva.
Se assim era, quem poderia ele culpar, questionar, magoar...odiar??
Teve medo da resposta.
Levantou-se e debruçando-se sobre ela, tapou-a.
Seguidamente foi lavar as mãos.

Fechou a porta do prédio atrás de si, pôs as mãos nos bolsos e saiu de encontro à tempestade que tomava conta da noite fria e escura que o aguardava.
Em poucos instantes o céu molhava-lhe o rosto, cabelos e corpo, sentia-se extasiado!
E agora?
Que rumo?
Destino.
Pensou.
Queria vingança.
Queria vingança de quem a magoará e perseguira todos aqueles anos,
de quem não consegui viver sem ela,
de quem a tirara dele para sempre!!

Sorriu e iniciou a sua caminhada pela encosta abaixo.
Não tardaria mais do que dez minutos até chegar ao posto policial.
Uma vez lá, diria a todos,
que fora ele,
O culpado !

sábado

Pausa para Amar



O quarto iluminava-se apenas pela luz dos relâmpagos que soavam no exterior.
As roupas encontravam-se espalhadas pelo chão.
Franziu a sobrancelha perante esse detalhe, detestava coisas fora do lugar.
Soou outro trovão, mais alto e perto do que os outros, acompanhado por uma rajada de vento que atirou as pesadas gotas de chuva contra a janela de vidro.
A figura na cama moveu-se, atraindo a sua atenção.
Sim, ela era a razão de sua falta de atenção a ‘pequenos’ detalhes como aquele.
Mais um relâmpago iluminou o quarto, intenso e passageiro, mas suficientemente longo para que pudesse ter um vislumbre do que tinham desfrutado há poucos minutos.

Curvas pronunciadas, um lençol preto a escorregar pela pele clara, do mesmo modo que as suas mãos haviam feito há pouco.
Agora, não haviam gemidos a escapar daqueles lábios femininos,
ou o seu nome sendo murmurado de maneira a fazê-lo perder todo o controle de que se orgulhava tanto em possuir.
Levantou-se lentamente da cadeira aveludada e aproximou-se da cama com passos felinos, os olhos percorrendo a sua amante adormecida, e a maneira como
o lençol cobria apenas parte do seu corpo nu.
A sua expressão suavizou-se quando percebeu o modo quase infantil como ela abraçava a almofada. Aquele pequeno gesto era a única coisa infantil nela.
Sentou-se na cama, ainda observando cada traço com atenção. Não era como se a nunca tivesse visto antes, ou mesmo admirado os longos cabelos escuros, que agora jaziam espalhados sobre o lençol e que naquela pouca luminosidade
pareciam ser da mesma tonalidade.
Inclinou-se sobre ela e inspirou o perfume inebriante, enquanto os seus dedos se afundavam na massa sedosa de cabelos.
Mentalmente dizia que estava apenas deixando-a mais confortável ao afastar aquela mecha teimosa, e não, cedendo ao desejo de tocá-la mais uma vez.

Ouviu-a murmurar o seu nome novamente.
O mesmo tom cativante que ouvira antes naquela noite, a mesma necessidade e desejo de tê-lo o mais perto possível. Deslizou o polegar pela maçã do rosto dela e sentiu-a estremecer a seu lado, ficando sem saber ao certo, se por a ter tocado, se pelo barulho da tempestade.
Ficaram assim por algum tempo, o silêncio quebrado apenas pelo som da chuva contra as vidraças e as suas respirações.

Parecia tão natural estar perto dela, sentir o seu toque e tê-la a seu lado, que perder esse breve contacto era quase doloroso.
Viu a expressão dela endurecer, quase uma cópia de sua própria reacção e o corpo quente afastar-se do seu.
Impulsionado por algo forte, que não entendia, ou queria nomear, baixou os lábios sobre os dela, as suas mãos deslizando pelas costas nuas acima, puxando-a contra si.
O toque delicado no seu peito, ao invés de afastá-lo, transformou-se num abraço quando os braços dela enlaçaram o seu pescoço. O beijo, delicado a princípio, tornara-se cada vez mais exigente, enquanto os corpos se moldavam, derretendo-se lentamente para se encaixarem melhor, um no outro.
Pensar era, de facto, algo desnecessário quando as acções falavam mais alto e quando as suas mãos tomavam vida própria, afastando o lençol do corpo delicado, colado ao seu.
Gemidos e suspiros enchiam o quarto.
Surpreendeu-se ao reconhecer a sua própria voz a chamar por ela enquanto lábios escaldantes e aquosos devoravam os seus em resposta a suas provocações.
O perfume feminino parecia penetrar no seu corpo cada vez que inspirava em busca de ar, o corpo dela circundando o seu, gemidos a ecoarem em sintonia.
As suas mãos deslizavam pelo corpo feminino como se procurassem decorar cada curva, cada ponto delicado que a fazia suspirar de prazer e murmurar seu nome como uma suave melodia, algo conhecido e misterioso, que o incentivava a continuar com sua exploração apenas pelo prazer de ouvi-la por mais algum tempo.
Os toques suaves na sua pele transformavam-se em pequenos arranhões nas suas costas, puxando-o contra o corpo que correspondia ao seu com a mesma urgência do desejo que percorria as suas veias.

Adivinhava a suave promessa do êxtase.
Podia senti-la a perder o controle, pequenos gritos deixavam os seus lábios, o corpo contorcia-se sob o seu em busca da mesma sensação inebriante. Apertou os quadris femininos, puxando-a contra si enquanto o seu próprio corpo se afundava no dela uma última vez.
Fechou os olhos, os lábios procurando pelos dela.
Os corpos trémulos fundiam-se plenamente enquanto desfrutavam do prazer intenso que tanto ansiavam, apagando qualquer pensamento persistente.
Deixou as mãos macias escorregaram pelas suas costas húmidas de suor, deu conta da voz feminina ainda rouca, murmurando o seu nome de forma quebrada, sua respiração ofegante, misturando-se com a sua.

Levantou a cabeça, observou a expressão relaxada e satisfeita no rosto dela e beijou os lábios inchados antes de se colocar de lado, puxando-a contra si.
Permaneceram assim, os corpos enroscados um no outro, os lençóis cobrindo-os parcialmente, enquanto a chuva continuava a cair, mais brandamente, do lado de fora.

Olhou o tecto, observou as sombras que se moviam sobre a superfície lisa formando desenhos sem definição, eram apenas mais uma forma de lembrá-lo do pouco tempo de que dispunham. Queria tanto desfrutar daquele momento...o máximo possível!
Abraçou-a com mais força.
Os braços delicados contornaram a sua cintura e o corpo curvilíneo aninhou-se contra o seu, enquanto um suspiro satisfeito escapava.
Tocou o rosto adormecido, tentando lembrar-se do que o havia feito afastar-se dela da primeira vez, algum pensamento perdido no meio das sensações tempestuosas que ainda percorriam seu corpo de vez enquanto, destruindo a sua capacidade de raciocínio.
Não precisava disso mais. Não queria mais isso.
Aquela sensação de plenitude, como se após uma longa jornada houvesse finalmente encontrado o que lhe faltava, era tudo o que precisava.
Estar no controlo ou preocupar-se com a sua rotina quebrada, parecia, agora, completamente sem sentido.

Deixaria tudo isso para o amanhã, quando ela desaparecesse, deixando-o no escuro novamente, devolvendo-o apenas, à sua velha e conhecida rotina.

Tenho Noites...



Em que pego nas palavras...

Lanço-as ao vento,
solto as amarras,
atiro ao ar a vontade,
mato o desejo
e escondo a saudade.

Embrulho-as às avessas.
No meu pensamento não as quero.
Mas elas ficam,
teimam em viver,
ficar presas a mim.

Faço delas o que quero.
Tanto as calo como as grito.
Quero-as como não quero.
Pego numa ou outra ao acaso,
e ergo uma linha,
entre o presente e o passado.

Misturo e baralho as palavras.
Separo-as ao sabor.
Não quero nem saber!
E em noites destas,
passadas em dor,
já nem gosto de poemas
terminados em amor.

Levo em frente esta teimosia.
E vou encontrando,
por aí,
dia após dia.
os rascunhos da minha ira...

Há noites,
muitas noites,
assim,
como esta.

Diz-me...
o que resta...?

Mar Adentro



Estava uma noite que muitos chamariam de mágica, sobretudo aqueles que ainda sonham.
Uma meia-lua, sorridente, banhava toda a encosta com a sua aura prateada, acrescentando aqui, retirando acolá, disfarçando e modificando a seu belo prazer, a verdade física do local.
A suave e pegajosa brisa que lhe fazia companhia agitava levemente as folhas carnudas da vegetação que cobria as dunas mais próximas, deixando-as salpicadas de ínfimas gotículas reluzentes.
O mar, pachorrento, ia e vinha, afagando-lhe os pés com frescura salgada e acalmando a bombagem quente e selvagem que tinha tomado conta dele naquela noite.

Não estava a conseguir focar.
Era como se o mar turbulento, naquela noite, tivesse resolvido impregnar-se nele, livrando o resto do mundo da sua habitual ira, soltando-a, toda, nele.
Fechou os olhos.
Como era bom!
Tão bom!


Levantou-se, pesadamente, e caminhou em direcção às ondas quebradiças, queria inalar seu cheiro de perto, envolver-se na espuma espessa, sentir o frio branco...queria acordar...

Ali estava ela...sentada nas rochas humedecidas pelas ainda serenas ondas.
Ele já tinha ido até aquele local, uma vez...de barco...e agora...parecia-lhe tão mais perto...
Estava nua.
O seu corpo ganhava uma tonalidade azul-cinzento à medida que a lua o banhava.
Mesmo assim ele reparou que a sua pele era como leite, macia, branca, acetinada.
Os seus seios redondos estavam cobertos pelos longos caracóis, as mãos eram esguias, o corpo bem delineado.
Ele viu que ela sorria.
Os seus lábios eram carnudos da cor de cerejas maduras.
Olhou-a, ali sentada a acariciar uma estrela-do-mar que descansava.
Contemplou o seu corpo.
Olhou-a nos olhos, uns olhos escuros, tal como o fundo do mar.
Mas havia algo neles.
Ela voltou a sorrir. Desta vez com malícia.
Sacudiu os cabelos deixando os seus seios expostos para que ele pudesse ver. Movimentou os braços e as serenas ondas ondularam, nervosas, até ele.
Sentiu o ar fugir-lhe dos pulmões.

Vem...Espero-te...

Podia sentir que estava a ser consumido pela água.
Esta, inundava-lhe o corpo e esvaziava-lhe a mente para deixar penetrar a voz dela e ele sentiu como o seu corpo a desejava, para além da sua mente.
Mas algo nele lhe dizia que aquela voz poderia ser o seu veneno, os seus lábios, a sua morte...
Um ardor dominou a sua garganta, assim como um sabor excessivo a sal.
Estava a afogar-se.
Sentia o folgo da vida a escapar-se.
Sentiu-a.
As mãos esguias acariciavam o seu peito.
As longas e torneadas pernas entrelaçavam-se nas suas coxas, as unhas penetravam no seu tronco e os cabelos acariciavam a sua face.
Ele murmurou algo que saiu da sua boca em forma de dezenas de bolhas de água.
Morreria, sabia-o.
Se não fosse de afogamento seria do beijo peculiar que ela lhe dava...
Os seus lábios eram frios, a sua língua mais do que ardente.
Sim... Agora tinha a certeza... Morreria!

Já estava tudo escuro...mas ela continuava ali.
O seu corpo já não se encontrava nu, antes, estava coberto por finos fios de ouro e diamantes extraordinariamente alinhados por forma a salientar as suas curvas.
Sem parar de sorrir, entrelaçou os seus braços no pescoço dele e murmurou-lhe ao ouvido:
Demorou tanto tempo... Mas por fim, depois de tantas vidas inúteis, aqui estás tu.
Não voltas a fugir, desta vez, tenho a tua vida...é minha!

O seu olhar mudou, e o seu corpo apertou-se contra o dele com demasiada força para uma simples mulher.
Sentiu novamente o ar a faltar-lhe.
Seria possível morrer na própria morte?

Uma sensação boa e reconfortante invadia-lhe o coração...e este sossegou...
Como morrer era...estranho...
Relaxou.
Suspirou.
Tinha ele, suspirado ??
Mas...como??
E onde tinha ela ido??

Quando pensava encontrar a resposta...acordou...

Ergueu as costas e cruzou as pernas.
Deu conta que estava todo molhado apesar do mar se encontrar bem longe.
Fitou o horizonte longínquo.
O dia começava a aparecer e ele podia ver o início do céu.
Num só movimento, libertou-se da posição em que estava, para logo sentir o inevitável enterrar dos pés descalços na areia.
Levantou as mãos ao alto e soltou um gemido preguiçoso.
Riu.
Não teria sido nada mau – pensou – morrer assim!
Começou a sua caminhada pelas dunas acima enquanto ria descontraidamente.
Repentinamente parou, e o seu coração ameaçou fazer o mesmo.
Tinha chegado ao cimo.
Voltou-se.
Semi-cerrou os olhos.

Tinha ou não visto aquilo??
Aquilo...
Não tinha ele visto pegadas...em direcção...ao mar??

segunda-feira

Notas Soltas



A entrada da residência possuía muros altos protegidos por cercas vivas de vegetação venenosa e o portão eléctrico a mensagem de “boas-vindas” para os visitantes.
O proprietário da residência havia promovido certas mudanças no ambiente dantesco da pequena mansão campestre, colocando mais luz onde havia apenas as sombras dos fantasmas do passado. Agora, os postes de luz iluminavam todo o jardim, começando na entrada do mesmo, um atrás do outro sucessivamente, até alcançar o salão de festas que se destacava das demais áreas por ser um elemento moderno, presente na propriedade.
A partir dali, e por um caminho empedrado, os postes eram trocados por tochas orientais e o caminho descia até uma bela e singular piscina, que naquele momento, mais parecia imitar um lago, um lago tirado de um sonho, porque havia ali flores e velas acesas que boiavam na água, como que à espera de alguém.

O homem estava parado na varanda da casa e segurava uma taça de champanhe numa das mãos, rodando a mesma por entre os dedos de maneira dispersa, enquanto o seu olhar se encontrava perdido no jardim.
Olhou para trás. Tinha dispensado todos os seus empregados, até mesmo seu mordomo.
Todo aquele silêncio instaurado dava-lhe a sensação de que não estava sozinho.
Virou o conteúdo da taça e num único gole terminou a sua bebida.
Caminhou pela varanda de maneira calma, sem deixar de prestar atenção ao jardim e às mariposas que voavam de encontro as lâmpadas.
“Cegam-se por tão pouco !” Riu-se ao lembrar aquela frase, aquele disparate...

Desceu a escadaria até a calçada, mas assim que os seus pés descalços tocaram o chão frio, parou abruptamente. A friagem parecia querer invadir as suas entranhas a partir dos seus pés, mas não era só pelo choque térmico que ele havia cessado a intenção de continuar a caminhar.
Olhou para trás. Um arrepio subiu-lhe pelas costas acima e ele sentiu, novamente, a mesma sensação de haver olhos a mirá-lo. Repentinamente, pôs-se a caminhar para longe da casa a passos ágeis, seguindo para o salão.

Todo o salão se iluminou, quando o interruptor foi accionado.
Havia um piano solitário, no meio.
Neste salão não existem as habituais paredes que fecham, eram todas de vidro, as cortinas brancas, a balançarem devido à brisa da noite que lhes atingia através das janelas abertas.
A iluminação do jardim penetrava no salão gradualmente, iluminando o piano com um rastro de luz envergonhada.

O homem olhou para o piano branco e aproximou-se do mesmo, puxando o banco para se poder sentar. Apoiou a taça sobre o móvel, levantou a tampa que protegia as teclas e com uma calma invejável, puxou o pano de veludo negro que protegia as teclas brancas e pretas, colocando-o ao lado da taça vazia.
Por um momento o homem de ar aristocrata, observou o ambiente, como as cortinas se moviam com a brisa, como a luz dos postes e tochas pareciam harmonizar-se perfeitamente no exterior, e que ali, naquele ambiente nada passava desapercebido, nada estava deixado ao acaso.
Era chegada a hora. A iluminação desligou-se. O negro. O luar. Amiga. Barato e sem igual.
Virou o rosto lentamente e fitou o caminho que dava para a piscina, era perfeitamente visível.

Fechou os olhos e inspirou o ar com suavidade, expirando depois, talvez, à angústia que sentia. Fez estalar os dedos.
Ele não era um bom pianista, mas as notas fluíam de forma melodiosa dado o jeito leve e decidido com que os dedos tocavam as teclas, viajando sobre elas com carinho.
Era meramente um homem de negócios. Tinha qualidades que o permitia desfrutar de companhias agradáveis, mas também possuía defeitos que contudo, lhe conferiam, apesar de tudo, um certo respeito, fosse nos negócios fossem no seu círculo social.
Não era um homem dado a relacionamentos duradouros.
E depois, depois do que se passará....não houvera mais...nenhuns.
Tinha se apaixonado.
Uma vez.
Uma garota com quem ele havia simpatizado.
Assim sem mais nem menos.
Sem saber porquê
Sem razão aparente.
Sem se aperceber.
Era por ela que ele deslizava os dedos pelo piano, expondo sentimentos de maneira delicada, assim como quem inspirou a melodia, o era.
Cantou. Cantou a falar, virado para as portas que se encontravam abertas ao jardim, passagem envolta em sombras torneadas pela sua amiga celeste, única luz nas suas trevas.

Ainda sou capaz de ouvir o teu riso.
Disse que te amava.
Inventaram mentiras.
Jurei-te que nada disso nos atrapalharia.
Que graça tem a minha vida agora...
Só depois percebi que às vezes damos importância demais
ao que os outros falam de nós, sobre nós...
Ainda me questiono o que te fez ir para ali...
Será que devo somente culpar o erro de te ter deixado só, naquela noite?
Parabéns...
Hoje e sempre.
Sim, como pude eu esquecer-me...naquele dia...naquela noite?
Parabéns meu amor!
Nunca, nunca mais me hei-de esquecer!
Achei que éramos felizes...não percebi...
Há quanto tempo... foi?
Parece que foi... ontem...
Ontem tinha te aqui saltitando ao meu lado...
Hoje, o meu presente é esta música, embalada pelas notas calmas do meu piano...
O nosso amor pode pertencer ao passado
mas eu trago comigo as lembranças
e espero que onde tu estejas, tenhas um pouco de mim, contigo, guardado.
Se calhar, tudo aconteceu...porque eu...nunca te disse...
Amo-te! Amo-te!
Estou preso... a ti...para sempre....
Eu errei...
Eu não me perdoo.

Basta !

O pianista bateu com as mãos sobre as teclas, quebrando a harmonia, transformando a beleza no mais profundo e desprezível barulho.
Um ponto final, na melodia, no ritmo, na letra, na música.
Um ponto final...
Recolocou o veludo no lugar e fechou a tampa do piano novamente.
Outrora quem sabe, noutra noite, noutro lugar...voltasse a tocar.

Levantou-se com elegância, afastando o banco. Encarou a taça sobre o móvel e pegou nela enquanto se movia em direcção à saída.
Refez o caminho para a casa em passos lentos, olhos brilhantes, punhos cerrados.
Assim que galgou os degraus, parou novamente na varanda, olhou para o jardim e para o céu, vazio e frio, sem lua, como era habitual, sem sons, sem vida.

Até já, meu amor... – murmurou, fechando a porta em um movimento, sem som.

Tudo ficou profundamente escuro.
A não ser a decoração da piscina.
O vento trazia o nevoeiro, um manto denso e espesso que cobria tudo, que abafava tudo...
Mas velas ainda ardiam, e as flores ainda boiavam.

Um estalido ecoou por toda a casa, fazendo com que os cães nas redondezas
ladrassem devido ao barulho característico de um tiro...
Uma consequência sem volta, uma dor sem cura.

A noite chamou pela lua.
O vento levantou o manto.
Um céu estrelado cobriu o sítio da piscina de água radiante.
A natureza respirou.
E o festim dos grilos...voltou ao jardim.

domingo

Porquê Esperar ( 2ª Parte )



Tinha chegado a Dublin há pelo menos 2 horas.
Deu uma pequena volta pela cidade e acabou por fazer algumas compras, mesmo sem ter a certeza que ia encontrar-se, de novo, com o ele, algo dizia-lhe que era melhor estar já preparada para tudo o que pudesse acontecer.
Estava planeado que ficasse ali no máximo dois dias e ela ia cumprir com isso. Marcou um almoço com o presidente da “Perfect Eyes”, o almoço foi passado principalmente a dormir, já que o homem não se calava e ainda por cima não falava nada de especial. No entanto, acabou por ganhar a sua confiança ao ouvi-lo falar da sua miserável vida e ele prometeu-lhe que o contrato seria assinado pelos outros accionistas no dia seguinte à mesma hora.
Claro, um decote bem escolhido, também, ajudava sempre.

Depois da reunião, dirigiu-se ao encantador hotel que ficava na margem do Liffey River, ao pé da Anna Livia Bridge, uma das 16 pontes que o atravessavam.
Ao entrar deparou-se com uma rosa vermelha em cima de um das almofadas. Estremeceu ao vê-la. Aquilo parecia mesmo coisa do Paulo. Andou calmamente até ela e ao pegar-lhe, reparou no envelope que estava meio escondido debaixo da almofada. O cheiro da rosa fez-lhe lembrar as primeiras flores que recebera dele, na ocasião, ele tinha faltado ao jantar que lhe prometerá. Na verdade, tinha-se trato apenas de uma flor, uma única rosa vermelha entregue dentro de uma caixa branca envolta por um enorme laço vermelho. Desde então que ambos fugiam desse jantar.

“Espero-te às 21horas na entrada... juro que desta vez não falto!”

Sentou-se na cama e chorou durante algum tempo. Parecia-lhe que tudo voltava sempre ao início, que tudo seria determinado por aquele jantar. Pensou que o melhor era tentar acalmar-se e pensar no que deveria fazer, talvez levar aquilo na brincadeira, um jogo a dois, mais um jantar com um homem.
Sabia que isso era impossível. Não se queria magoar de novo. Deveria fugir?

21horas

Aqui estou eu de novo feita uma tonta – suspirou – que calor, humidade !
Vai chover de certeza.
Vestia um vestido preto que fazia jus aos contornos do corpo dela e evidenciava as costas descobertas. Trazia uma echarpe prateada a combinar com as sandálias de salto alto, que se misturava com o cabelo longo que estava solto como era costume. Levara consigo a rosa vermelha. Estava muito nervosa. Pensou que devia estar diferente, os seus sentimentos não tinham mudado desde aquela noite em que ele a tinha deixado plantada...à espera...
Passaram 20 minutos.
Acabou por se sentar nas escadas do hall, não sabia o que fazer, queria chorar,
o coração sangrava.
Naquela noite tinha-se sentido assim, exactamente os mesmos sentimentos, raiva, decepção e por fim... por fim não tinha conseguido odiá-lo...
Por muito que eu sonhe, nunca nos encontraremos... tu e eu...o nosso destino! Tudo parecer pronto para falhar, desde o início...
As lágrimas finalmente atingiram os seus olhos.
Saiu para a rua, de encontro ao rio...
Teimosa, continuou ali, à chuva, à espera ...
Pediu que a chuva levasse com ela a raiva e todos os sentimentos que tinha tão dentro de si !
-Quem me dera poder abrir o meu coração e tirar o teu nome do meu coração, de certeza que assim eu era capaz de ser feliz mesmo que por apenas umas horas... já que eu iria após isso sentir um tremendo vazio em mim! Tu és que eu quero ! Porque não te disse, meu amor ! Porque te deixei ir ?
Pesadamente, sentou-se nas ripas de madeira encharcada do banco de jardim que tinha uma pequena placa com a inscrição do nome do rio.
Existia a possibilidade de ela não ser o que ele queria, de não ser aquilo que ele procurava, se calhar achava-a atraente, mas os sentimentos...o partilhar de um futuro...
A chuva caía, cada vez mais, com força.
Atirou com a rosa.
Pensava em tudo o que tinha acontecido desde que tinha ouvido pela primeira vez aquele nome, o nome que tinha mudado a vida e tudo nela, o nome que tinha entrado e não tinha e nunca iria sair...

- Hanna... desculpa! – ao ouvir aquela voz, pensou tratar-se da imaginação dela, só podia ser, mas mesmo assim ergueu o rosto e encarou aqueles olhos escuros que a faziam esquecer tudo que a incomodava, num ápice...
- Estás muito zangada comigo, não estás? – ele ajoelhou-se e tocou-lhe suavemente no rosto.
- Toma, fui lá cima buscar-te o chapéu-de-chuva.

- Paulo? estás tão molhado quanto eu!

- Desculpa, eu queria chegar a horas...não, não é nada disso...confesso! Tenho medo, tive para não vir...andei por aí às voltas...mas...aqui estou...meu amor...

Sentia-se desorientada mas não tinha qualquer dúvida que o amava...
- Não faz mal! Vieste, isso é o que importa! Abraça-me !

- Faz mal sim! Eu abandonei-te e depois nem consigo... – Hanna calou-o com um beijo apaixonado, ansiava pelo sabor da boca dele, desde o dia em que ele tinha partido, que sonhava com um beijo daqueles, com ele.

- Eu nunca devia ter te deixado ir! Eu amo-te! Eu pensava que ia conseguir ficar sem ti, que ia conseguir ultrapassar tudo, queria esquecer-te e não sentir a tua falta, mas...eu não consegui! Desculpa!
Ele abraçou-a com força e ela, com medo de que ele fosse desaparecer, que aquilo não fosse real, saltou-lhe par o colo, colocando as pernas
em volta do tronco e os braços por detrás do pescoço.

- Eu também te amo e nunca vou conseguir ficar sem ti! Mesmo que não esteja destinado a acontecer... eu pertenço-te, porque me apaixonei por ti, pelo teu olhar, pelo teu sorriso, pelo teu humor... até pelo teu mau-humor!

Beijaram-se suavemente.
Depois, ficaram ali durante algum tempo debaixo do chapéu dela, à chuva, a festejar, fazendo milhares de promessas de amor eterno e tudo mais, podia não ser o destino, podia até estar destinado, mas por agora, iam aproveitar, iam viver aquele amor que sentiam um pelo outro e que naquele momento, pensavam, jamais, acabaria.

Porquê Esperar ( 1ª Parte )



Estava no aeroporto.
O avião iria com destino a Ibiza dentro de uma hora. Já tinha feito o check-in e agora só lhe faltava esperar pelo Hugo que tinha os documentos essenciais para formalizar o contrato com o grupo espanhol.

- Fiz-te esperar muito? – aquela voz, não era do Hugo...

Ergueu a cabeça e olhou para a sua esquerda. Um aperto tomou conta do seu coração, sentiu-se perto de ter um ataque cardíaco, aquilo não podia estar a acontecer!
- Quem diria? Sr. Ferreira?! Que faz aqui? – perguntou com o tom mais sarcástico possível.

- Sr. Ferreira? Formal demais para meu gosto, mas se preferes tratar-me assim...

- Que está aqui a fazer?

- Eu vou para Ibiza! – o seu sorriso assustou-a.
Ficou claro para ela que ele já tinha alguma coisa em mente e que
de certeza não o ia deixar escapar, contudo, estava no seu feitio tentar.

- Como... vai para o Ibiza? Fazer o que?

- Não achas que estás a fazer perguntas a mais? Eu vou em negócios!

- Ah! Quando é que vais?

- Tu?! Trataste-me por tu...viste ? – ele sorriu, parecia estar a divertir-se.

- Quando é que vai? – disse, franzindo as sobrancelhas.

Eu vou daqui...exactamente a... 45 minutos. E tu?
Toma lá os documentos que precisas para assinar o tal contrato.

- Obrigado... o que aconteceu ao Hugo?

- O Hugo ? Ah sim, aquele que tem sempre vontade de beber café á mesma hora que tu ? Pois...ele realmente disse que gostaria de te acompanhar, mas o teu patrão achou melhor ser eu a tua companhia, durante a semana em Ibiza,
sabes como é, putos...depois é o que dá...

- A minha companhia... não obrigado, sei tomar conta de mim!

- Sim! Ele disse que, como eu conheço Ibiza, é melhor ser eu a acompanhar-te...para não te perderes, e eu tenho muitos contactos entre os accionistas com quem vais falar. Oh Hanna, não fiques assim, só te vou ajudar! – e não consegui reter uma bem audível gargalhada.

- Não me parece! Acho que vais é atrapalhar!
Levantou-se e viu-o a olhar de cima a baixo
- O que foi agora? Nunca me viste?

- Já, mas parecias menos atraente das outras vezes! Não que não o sejas, atenção...

- Isto não me está a acontecer! Eu não acredito nisto !!
Estava com um vestido curto, com alças, de tons térreos com umas pinceladas de amarelo. Se calhar podia ser considerado um pouco demais para uma viagem e mais apropriado para outras ocasiões, mas há muito tempo que não o usava e não era todos os dias que iria puder ir a Ibiza, onde o calor habitualmente é demais.
- Ainda estás a olhar? – perguntou, ao reparar que ele continuava no mesmo sítio enquanto ela já se preparava para virar a esquina e subir para o andar seguinte.
Ele começou a andar na sua direcção, ia num ritmo calmo, com as mãos nos bolsos, parecia bem confortável apesar do fato azul-escuro que vestia.
Viu-o levar a mão à gravata, tirá-la e colocá-la no bolso do casaco.
Desapertou os primeiros botões da camisa e sorriu-lhe.
A ela, pareceu-lhe que ele se estava a pôr à vontade! Mas por que raio estava ele a comportar-se daquela maneira ?! Seria ele sempre assim ? Olhou em redor para se certificar daquele pensamento e, logo se arrependeu, estavam todos a olhar, todos pensou – todas !

Finalmente embarcaram e ele pediu-lhe licença para se sentar à janela.
Bem ao seu lado – pensou - teve logo de arranjar um lugar ao pé de mim, eu a quere-lo bem longe, afinal não tive muita sorte, ou será que tive?
Não conseguia entender, sentia algo muito forte quando o via, quando ouvia a sua voz clara e aveludada ao mesmo tempo, mas depois... quando ele lhe falava, tinha vontade de o matar, de o estrangular até ele a deixar em paz!

Olhou-o meio de lado, pensando no que teria sido...era...que fazia com que ela se sentisse....apaixonada... por aquele homem...
Apaixonada... eu estou sem dúvida apaixonada – a ideia fez-lhe fechar os olhos com toda a força. Considerava-o demasiado misterioso, um completo desconhecido,
não era que não o queira conhecer, até queria, mas quando surgia
uma oportunidade, simplesmente estragava tudo!
Como que por pressentimento ele olhou para ela, aqueles olhos escuros a observar, a cintilar de uma maneira que ela nunca tinha visto antes. Parecia tentar dizer algo com aquele simples e maravilhoso olhar, e a vontade de querer aproximar-se dele e pedir desculpa, tomou conta dela. Devia-lhe uma data de desculpas, primeiro por ter fugido em Londres, depois por o ter despachado quando a convidou para jantar pelo telefone, aliás, a ultima vez que tinham falado...
Que coisa, parece que não estamos destinados, se calhar é isso – pensou, e um calafrio percorreu-lhe o corpo.

- Que pensas fazer quando aterrarmos? – perguntou sem desviar a sua atenção das nuvens que via através da janela.

- Não sei... que achas que devemos fazer? – sentiu-se contente por ele meter conversa e sobretudo pelo sorriso aberto que lhe estava a lançar.

- Que foi?

- É a primeira vez que te referes a tu e eu, como nós – disse-lhe e voltou a olhar pela janela.

- Que estás a ver?

- Nada! Mas eu gosto do ar, em pequeno queria ir para a força aérea...

- Ah! E imagino que também quiseste ser astronauta então?

- Quase fui!

- E porque desististe?

- De ser astronauta? Bem... não era o tipo de profissão aceite por um pai que sempre desejou ter o filho a seguir-lhe as pegadas, mas que no fundo, pouco fez para que isso acontecesse. Acho que não tive muita escolha na verdade...
- E tu?
Ele olhou-a nos olhos e esperou a resposta que parecia não querer surgir.

- Foi mais ou menos assim comigo também.

- Bom, pelo menos já temos algo em comum.
- Achas que os accionistas estão à nossa espera hoje? – perguntou-lhe
voltando-se para a janela.

Lá estava ele a enervá-la! A mudar de assunto sem mais nem menos!,
Apeteceu-lhe tanto mudar de lugar com ele, só para ele a olhar e deixar a janela em paz!
Eu vou tirar o dia de hoje para dar uma volta pela praia. Vamos ficar num hotel mesmo em frente à praia, sabias?

- Deve ser bem confortável... – e começou a morder o lábio
para não mandá-lo para aquele sítio !

Senhores passageiros dentro de 20minutos vamos aterrar em Ibiza, estão aproximadamente 30º, espero que tenham uma boa estadia e que se divirtam muito, muito obrigado por escolherem este voo.

- Bem, quase lá... isto é muito bonito, acho que vai gostar!

- É...eu... sei que vou gostar...

- Temos de combinar uma coisa desde já, eu detesto ser tratado pelo meu apelido, ou me tratas por Paulo, ou eu começo a chamar-te Dª Moura, ou espiga!

- Está bem, está bem... Paulinho ou entrecostozinho !

- Ei! Não abuses! – ele riu e aproximou-se do seu ouvido.
- Quem sabe, se calhar até vais acostumar-te ao entrecostozinho, espiga... – disse ele sussurrando. Ela sentiu algo indescritível...uma sensação única.

Puxa ! - percebeu que a porcaria da hospedeira não deixava de olhar para ele, até mesmo depois de saírem do avião, ela não desgrudou os olhos dele nem por um minuto. Por fim quando passaram por ela, à saída, teve mesmo a lata de lhe piscar o olho. Ele riu-se e ao passar por ela depois, deu-lhe um beijo na face, deixando-a perfeitamente estupefacta.

- És assim com todas? – perguntou continuando a andar e sem se dar ao trabalho de olhar para ele porque estava bem irritada.

- Ciúmes?

- Vai sonhando! - mas teve que se contiver para o não demonstrar.

- Pelos vistos devo estar a sonhar... ela piscou-me o olho, eu apenas decidi deixar-lhe uma recordação minha, qual é o mal de um beijinho tão inocente, pois foi na cara e não me pareceu que ela ficasse nada chateada.

- Querias que ela ficasse, não?! És mesmo...

- O que? Vá ! Diz ! Desabafa comigo! Eu ando à espera disso desde que
nós reencontramos pela primeira vez.

- Que queres dizer com isso?

- Foi por minha causa que não ficaste em Londres?

- Não tens nada com isso!

- Se foi por minha causa, tenho...

- Então não foi por tua causa!

- Vou partir do princípio que estás a dizer o contrário...

- Porque?!

- Porque não é isso que a tua voz nervosa me diz, Hanna, olha para mim...

- Vamos para onde mesmo?

- Eu sabia! Foi por minha causa! Ainda me há-des dizer o que é que eu fiz...e se queres mesmo saber, vamos para o Fiesta Club Palm Beach! Espera aqui que eu já volto!

Ele afastou-se com alguma rapidez, em segundos já não o via nem de longe. Andou um pouco até ao exterior do aeroporto, sentou-se no primeiro banco que viu, olhava de vez em quando para ver se ele vinha, mas nada...
Meia hora e nada dele, começou a ficar chateada e por outro lado preocupada - será que tinha acontecido alguma coisa?
Pronto, podemos ir! – olhou para trás e lá estava o Paulo.

- Que foste fazer, quase morri aqui à seca!

- Se tinhas sede, podias ter ido beber um copo de água...não me digas que tiveste saudades minhas ?? Temos um táxi á nossa espera ali à frente...

Não pode deixar de rir com ele.
- Sim...por acaso...até dá jeito ter-te por perto...às vezes...

sexta-feira

Para Sempre



Ao vê-la, ali, à sua frente, a sua reacção fora simplesmente sorrir.
O tão esperado momento...

Olá ! - ela sorriu, fazendo uma espécie de meia -reverência.

Eu não acredito! És mesmo tu?! - ele aproximou-se num misto de surpresa e alegria.

E porque não seria?... – riu novamente.

Aproximou-se mais, um tudo ou nada exaltado.
Desejava abraçá-la, beijá-la, para nunca mais a soltar...
Ela, estava mesmo ali !

Aquela mulher esbelta e dócil, de cabelos espessos e longos tinha vindo de terras distantes. Guerreira e alegre, conquistara o coração dele. Tinham-se visto apenas uma vez, após uma batalha infernal da qual ela o ajudara a recuperar. Desde então, o guerreiro tinha-lhe mandado cartas ... cartas cheias do seu amor por ela.
Ela, não tinha sabido corresponder aquele sentimento novo. Acreditava que, para amar alguém era necessário tê-lo por perto, mas, incompreensivelmente,
logo descobriu que não era assim.
Sem se dar conta disso, a verdade é que não vivia mais sem as cartas dele.
Ele era o único que parecia amá-la pelo seu jeito de ser, por ser uma caixa de Pandora que se remetera ao silêncio, que havia levado outros a desistir, a odiar e até, a querer destruir.
Aprendera a amá-lo. Sabia que mais ninguém estivera tão perto...de ter a chave.

Então, resolveram que tinham que se encontrar.
Fora um dia de grande expectativa para ambos.
E agora, realizara-se.


Estavam num local que ela escolhera, numa casa de madeira rústica no sopé de uma encosta mesmo à beira de uma floresta de gigantescos eucaliptos que ali davam lugar a um tapete infindável de flores campestres amarelas.
O guerreiro tocou no elmo que cobria a cabeça dela, onde apenas os olhos podiam ser vistos. Com cuidado, retirou-o. Colocou o elmo dela ao lado, na mesa mais próxima.
Como ela era linda, e os seus olhos...como conseguiam eles cintilar em pleno dia ?
Sorrindo, ele retirou o próprio elmo, revelando um rosto comovido.

Como esperei por este momento! – confessou-lhe, abraçando-a com vigor.
Eu também te amo... – disse-lhe enquanto retribuía o abraço, sorrindo perante a surpresa nos olhos dele que davam mostras de que ela não se enganará, apesar da sua postura de homem inabalável.
Umm...vais ter que provar isso guerreira ! – e soltou-a com um risada, como sei que não passam de meras palavras de uma mulher bonita...mas que também consegue ser...tão perigosa...- e voltou a rir, nitidamente, bem disposto.
Por momentos, olhou-o, surpresa.
Mas a surpresa deu lugar ao olhar vitorioso e dos seus lábios emanou o sorriso mas envolvente que ele alguma vez vira.
Quer que eu o prove? Concerteza.

Começou a retirar a sua armadura negra, polida e brilhante, até que toda ela se encontrava sobre a mesa onde ele colocara os elmos.
Ele olhou-a sem entender, tinha sido surpreendido, não esperava tamanha entrega e confiança, ficou verdadeiramente surpreso ao vê-la começar
a retirar a sua armadura também.
Ela pegava nas pesadas partes de metal prateado que compunham a armadura do guerreiro, e colocava-as com cuidado ao lado das suas, na mesa.
Era mais bonita do que ele imaginara. Segui-a com o olhar até ao divã e sentiu com ela o olhou e mordeu o lábio inferior, antes de virar o seu olhar para fora de pequena janela.

Ensina-me... - ela corou - a beijar, a... já que sou sua...

Caminhou devagar até ela, de encontro ao próprio coração e desejo que há muito o haviam deixado para se unir a ela. Puxou-a com delicadeza e encostou os lábios nos dela. Passou um braço por detrás do pescoço dela, aproximando-os. Começou a aprofundar o beijo, tocando-lhe ao de leve na língua, despertando desejos, cativando vontades naturais e provocando pequeninos gemidos de prazer.
Quando perderam o fôlego, ele começou a beijar-lhe o pescoço.

Na brincadeira ela dá um passo para trás, acaba por tropeçar e cai, levando o guerreiro consigo para o chão.
Ela voltara a corar e ele sorri-lhe carinhosamente. Voltou a beijá-a, demonstrando todo o seu desejo, seu amor, sua dedicação a ela.
Ao sentir que a fazia arrepiar, procurava-lhe os lábios,
cada vez mais sedento, mais pronto para a amar.

O que foi isso? – sussurrou-lhe ela, olhando em redor. Meus deus...que foi aquilo ??

O tremendo estrondo fez-se ouvir outra vez...mais perto.

Não sei, mas não gostei nada...Vamos...- suspirou e ajudou-a a se levantar...
Vestiram as suas armaduras.
O guerreiro empunhou a sua espada mística, feita pelo melhor ferreiro,
era única e só ele poderia usá-la.
Ela pegou na sua besta dourada. Era entalhada com enfeites de cobras, rara, difícil de ser manejada, os seus tiros rápidos como raios.
Os dois olharam-se.

Sim, eu amo-te...- disse-lhe, pousando uma mão no elmo dela.

Eu também...- e ela apertou a mão dele, num gesto de carinho.

E ambos saíram da casa.

Ao verem a fera que iriam enfrentar, engoliram em seco. Era enorme e esperava-os com toda a ânsia diabólica que habitava as criaturas que outrora tinham sido criadas para servir nas guerras contra os povos do norte mas que após o holocausto e sem donos, vagueavam as planícies como qualquer outro animal selvagem.
Escuta minha Estrela, esta é minha ! Afasta-te !

A batalha fora árdua e vários golpes e contra golpes mais tarde,
ambos atingiram o seu limite.
A besta caiu, quase morta, sangue jorrando das muitas feridas visíveis.
O guerreiro, cansado, caiu de joelhos no chão, a sua armadura danificada.
Foi então que ela foi até ele.

Acho que conseguimos...- ele tentou sorrir, olhando-a.

Sim...conseguimos...- disse - mas, ao escutar um repentino zumbido,
não pensou duas vezes e jogou-se na frente do guerreiro e acabou
por levar com o último golpe da besta, que finalmente morreu.

Não!!...- o guerreiro pegou-a nos braços.
Por entre a armadura dela escorria um fio de vermelho.
Sangue. Muito sangue. Sangue que corria cada vez mais depressa.

Ela sorriu...- Tu...estás bem? - falou com dificuldade.

Porquê ? Porque fizeste isso?? - murmou com lágrimas nos olhos.

Porque eu te amo...olha...não é esta a melhor prova que eu te posso dar...- sorria fracamente, já com os olhos a ficarem enublados.

Não... Não!!...Por favor... Não me abandones...Não agora que te encontrei...Não agora !! Vais ficar boa, luta, não te entregas, não assim !!

Ela levantou o braço e passou a mão delicadamente nos lábios dele...
Eu nunca te abandonarei... - e sorriu pela última vez.
Assim que fechou os olhos, o braço caiu inerte ao lado de seu corpo.

Naquela hora, o grito de dor do guerreiro trespassou o mundo.
O grito deu lugar ao gesto.
O gesto silenciou o grito.

Mais tarde, houve quem jurasse que esse grito teria sido de um anjo, porque nenhum humano poderia gritar daquela maneira, evidenciar tamanho sofrimento...

Naquele dia...o guerreiro desapareceu, levando consigo seu único amor.

O Anjo voou...levando consigo...a sua única Estrela...

domingo

Beijo


A noite tinha sido animada e surpreendentemente
com umas boas gargalhadas à mistura.
Contudo, o vazio permanecia,
uma sombra que persistia até na noite,
fiel presença de um alguém ausente.

Sentou-se com as pernas cruzadas, enquanto
bebericava uma chávena de chocolate quente.
Àquela hora encontrava-se na varanda, sozinha como gostava.
Olhando a negra e sarapintada imensidão, deixou-se levar
nas suas asas e permitiu o voo dos sonhos, sonhos nascidos
no desencanto de madrugadas adormecidas em angústia e solidão.

Imaginou-o...
Imaginou-o sentado ao seu teclado, tocando para ela uma
sonata de letras musicais que voavam, abrindo brechas
na solidão do silêncio, enquanto o olhar dela se prendia
na luminosidade que dele emanava, ofuscando as luzes da
cidade que se viam pela janela aberta e o emolduravam,
como se fossem uma fiada de pequenos diamantes.
Sentia-se acariciada na alma, enquanto as mãos dele
deslizavam com ardência pelo imaginário teclado,
de onde saiam notas quentes e sons ternurentos.
Ondas de sentires rebentavam-lhe no peito...
O coração dela nunca fora um mar sem ondas, e ele sabia-o...
Percebeu que o coração sempre se deixou levar até ele,
apesar das ausências, do silêncio e da distancia.
Percebeu naquele olhar de espuma, que ela era as ondas no mar dele.

Fechou os olhos.
Era tão fácil recordar, obter um bocado, um momento...partilhado.
Engraçado, pensou, as coisas que uma pessoa se lembra !

Levantou-se.
Sentiu um arrepio na pele... e na boca ainda o sabor do beijo.
Dirigiu-se para a porta.
Era tarde. Era noite.
Fez deslizar a porta.
Olha em volta.
O mar. A cidade.
A saudade...
De repente tudo aquilo lhe parece frio e anestesiante.
Não era ali que queria estar.
Queria tanto saborear aquele beijo...outra vez !

Para além de um Horizonte



Um dia, alguém chegou ao céu e pediu para falar com Deus porque,
segundo o seu ponto de vista, havia uma coisa na Criação que não
fazia sentido nenhum...
Deus atendeu-o de imediato, curioso por saber de que falha se tratava.

- Senhor Deus, a sua Criação é muito bonita, muito funcional, cada
coisa tem sua razão de ser...mas no meu ponto de vista, há uma coisa
que não serve para nada...

- E que coisa é essa que não serve para nada? perguntou Deus.

- É o horizonte.
Para que serve o horizonte?
Se eu caminhar um passo em direção ao horizonte,ele afasta-se um passo de mim.
Se caminho dez passos, ele afasta-se outros dez passos.
Se eu caminhar quilômetros em direção ao horizonte, ele afastar-se-á os mesmos quilômetros de mim!
Isso não faz sentido! O horizonte não serve para nada!!

Deus olhou para aquela pessoa, sorriu e disse:

- Que pena teres chegado aqui sem teres percebido...
Teria sido bom para ti, terias tido uma vida...mais completa, mais recheada...

Mas, aquela pessoa continuava a não entender, nos seus olhos permanecia a duvida.

Então, suspirando, Deus falou:
- É justamente para isso, como tu dizes, que ele serve...
O horizonte existe para te...Fazer Caminhar!!

sábado

Doce Tentação



Aroma doce...

Toque gentil...

Sabor suculento...

Doce TENTAÇÂO

Adão e Eva...

Tentação...

Pecado....

Resistir....

Não resistir...

Delicio-me?

Talvez não.

Umm...Talvez Sim...

segunda-feira

Shhiuu...



Este é o meu strip para ti - disse-me baixinho antes de desaparecer por detrás da parede envidraçada.

Umm...vai ser cá uma noite – pensei, e caminhei até ao maple no canto da sala junto à janela, sentindo a brisa fresca da noite a tocar-me na pele, tentando arrefecer um corpo que anseia de antecipação.
O som estava ligado e a Por umaNoite dos Klept enchia a divisão de ternura escaldante,
a luz, propositadamente fraca, apenas um candeeiro solitário numa mesa baixa e quadrada, em tons de fogo.

Aos primeiros acordes entrou na sala vestida de forma simples, o corpo coberto apenas com um vestido fino, liso, preto e curto, deixando adivinhar por baixo lingerie minúscula, cobrindo o essencial.
A cada passo meneava as ancas, deixando que a música penetrá-se na pele e a fizesse fechar os olhos, deixando a sensualidade comandar cada movimento do seu rebolar libidinoso e quando entre abria os olhos, olhava-me e mordia levemente o próprio lábio inferior, passando a língua em seguida.

O tempo parecia fazer um compasso de espera, também ele ludibriado pela aquela imagem de puro erotismo, um virar de costas para mim e o passar das mãos pelas suas nádegas, coxas, descendo até aos tornozelos, enquanto eu a observava por cima do ombro.
Lentamente, ao ritmo quente da música, ergue-se e fez descer cada uma das alças do vestido, depois decidiu aproximar-se de mim com o olhar fixo no meu, enquanto ia despindo o vestido, fazendo-o deslizar pela cintura, ancas, pernas, até o tirar e o jogar no meu colo.

Peguei nele, respirando o seu odor a frutos silvestres doces, e coloquei-o, como deve ser, nas costas do sofá.

Começa então a desabotoar a minha camisa, sem parar o movimento intenso do corpo que já revelava gotículas de transpiração e depois, virando-se de costas, solta o sutiã, atirando-o por cima da minha cabeça enquanto eu lhe desprendia os cabelos.

Gostava de me fazer vibrar e que eu a fizesse vibrar com o meu olhar intenso de desejo. Voltou a aproximar-se de mim, com os seios cobertos pelas mãos e senta-se ao meu colo, pegando nas minha mãos e com elas cobrindo os seus seios, substituindo as dela.
Ergue o cabelo com as mãos e continua a mexer o corpo ao ritmo da musica, sentindo-se excitada pelas minhas mãos que já deslizavam pela sua pele molhada, tocando lhe na barriga, costas, coxas, agarrando as nádegas e apertando-a contra mim, torcendo-lhe os mamilos que ficavam cada vez mais rijos.

Não dava para esperar mais, queria-a e ela sabia-o, a boca dela desce na direcção da minha....ri junto dos meus lábios, quase os tocando, fugindo quando os aproximo dos dela...
Passo a mão pelos cabelos que me tocam no rosto, agarro-lhe pela nuca e trago-a para mim, sorrindo, olhos brilhantes, rosto maroto que acaba por ceder, pressionando a boca na minha, num beijo forte, intenso e selvagem, que deixa escapar um gemido de saudade contida.
A música continuava a tocar, algo instrumental, sexy, com sons suaves e melodiosos... O strip de corpo terminava...
Seguiria, apenas o nosso desnudar...

És maravilhosa – murmurei-lhe

Shhiuu...vem...

Era chegado o momento...
Esperado
Cativado

O stripteese a dois...
dos nossos sentidos...
das nossas almas...

quinta-feira

Just about Me



Today, is a special day.
I see a new horizon.

I have hurt and have been hurt.
I must think.

My blog says goodbye, maybe for a day or two,
maybe for a longer time,
Who knows, maybe for just a little while.

The Fox must find himself.
If not, he will die.

sábado

Amor Sangrento



Levantou-se assim que o Sol se escondeu no horizonte.
A casa a que se confinara estava vazia e silenciosa como um túmulo.
Abriu as portadas de madeira e cheirou a noite que se erguia lentamente.
Era hora de sair.
Era hora de se vestir, de negro, como sempre.

Em pouco tempo estava na baixa da cidade. Àquela hora ainda se encontrava repleta de pessoas que se misturavam entre si num frenesim angustiante como que procurando anestesiar carências existenciais e quotidianos medíocres que componham vidas de certo modo miseráveis.
Dois mundos cruzavam-se, um que acordara e outro que se preparava para adormecer.

O cheiro era de estranhos odores que se misturavam e tornavam quase num veneno letal de suor, fumo, esgotos e lixo. Há muito que o apurado olfacto dele procurava lidar com aquele cheiro e no entanto, ainda lhe causava nojo e repugnância, chegava mesmo a questionar-se quanto ao porquê das pessoas não verem e sentirem a imundice que os rodeava. Claro, isso trazia de volta as memórias enterradas, de quando ele, também, fazia parte daquele mundo.
Caminhava na parte de dentro do passeio, tão perto da parede que as pessoas apenas se afastavam dele quando casualmente o olhavam de frente.
Mas, para ele, não o viam.
Ele era o ser inabalável, diferente.

Depois de deambular pelas ruas labirínticas durante algum tempo e ao passar pela entrada de um bar, algo impulsionou-o a entrar e ele cedeu ao seu instinto.
Um balcão comprido, com luzes de néon vermelho a iluminar os contornos, hospedava alguns jovens que, em grupos alegres, falavam alto. Não era, de longe, o seu tipo de bar, mas sentou-se ao canto, perto da porta. O empregado de balcão aproximou-se prontamente e saudou-o, “Boa noite, companheiro. O que vai ser ?”
Sem saber o que responder, passou rapidamente os olhos pelas bebidas expostas à sua frente e apontou para primeira que viu.
Logo, um copo alto com um licor vermelho foi-lhe colocado à frente.
Irónico, pensou.
Ele sabia que não ia beber, mas ficou ali a contemplar a simplicidade daquela bebida naquele copo. A sua mente divagou durante alguns instantes até ao momento em que se questionou porque que era que o destino o levara até ali. Não o queria fazer, não podia.
Tinha prometido a si mesmo que nunca mais viveria aqueles momento outra vez, que suportaria a noite sem contemplações, sem sentimentos, sem ressentimentos.
Agora, estava a fracassar...mais uma vez.

Foi então que algo como um sussurro fê-lo olhar para as mesas perto das janelas grandes.
Sobre as cabeças dos jovens viu uma mulher, que olhava lá para fora.
Nesse instante soube, a sua alma comprimiu-se como não acontecia há um ano, era sempre a mesma sensação. A rapariga de cabelos lisos e face pálida perdia-se em pensamentos e sentimentos quase palpáveis para si. Os seus olhos, maquilhados de sombra escura, nem piscavam revelando uma abstracção total da realidade. Ele sabia porquê. Bastava olhar para ela. Era igual. Era tal e qual.
É claro que naquela t-shirt, calças de ganga e botas altas parecia uma outra qualquer, mas ele sabia que não, ele via-a como quem era, como quem foi...

Não esboçou qualquer reacção quando os olhos dela o encontraram ou quando ela se levantou ou quando ela se aproximou dele. Não queria.
Mas, a sua respiração e postura demasiado tensa, à sua passagem, traíram-lhe, e ela como que esperando um sinal ou simplesmente porque fora sempre assim, parou, virou-se e dirigiu-se a ele.
Agora, estava a fracassar.
“Boa noite”, a sua voz... a sua voz serena como águas lentas, continha os tons do passado, “Posso fazer-lhe companhia ?”

Pouco tempo depois já estavam em casa dela, deitados, mergulhados em beijos memoráveis, em carícias eternas e gestos de amor intemporais.
Ele revivia momentos guardados, momentos que lhe foram roubados, momentos presos a momentos como aquele, para sempre.

Matreiro, como era da sua natureza, o tempo passara despercebido até o relógio da igreja bater as seis da madrugada sobre a cidade.
“Tenho de ir!”, disse assustado.
“Não vás...”
“Tu não compreendes! Eu não sou como tu! Tenho de ir!”
Ela agarrou o seu braço com força e olhou fundo nos seus olhos.
“Não vás!” repetiu implorando, “fica comigo...não sei explicar...fica...não vás...”
Ele segurou-a pelos ombros.
“Tenho um segredo em mim que está para além dos teus sonhos.
Eu quero ficar contigo, mas não posso!
Nunca poderei, nunca !”
“Que segredo é esse? Porque sinto o que sinto, que te conheço, que há algo de familiar no meio disto tudo ? Deves-me isso!”, gritou soluçando.
Ele olhou para o lado, a sua mente pedia consentimento ao seu coração para proferir as palavras que iria dizer.
“Eu sou um ser diferente”, disse de olhos baixos, sem coragem para encarar os grandes olhos negros dela.

O mundo parou.

“E, de uma forma estranha, sinto que...eu sou tua...para sempre, não é ?”

Ele não podia responder, como explicar a violação das regras, o amor desmedido, a loucura, a tragedia, o feitiço...para todo tempo...
Como explicar o castigo...de lhe ser dado um amor eterno, em noites singulares, ano após ano, para recordar como era bom, para relembrar como era terrível...

Ela não fugiu, não o temeu... simplesmente abraçou-o.

Sentiu uma chama dentro de si a acender como um toque divino.
Sentiu-se vivo.
Abraçou-a também, fortemente, e sentiu a cabeça dela no seu peito.
Fechou os olhos tentando eternizar aquela sensação de plenitude.
Sucumbiu.

A realidade regressou repentinamente com uma forte dor.
Tão forte que o seu corpo se contorceu em dores.
Viu sangue.
Tentou afastar a jovem dele mas já era tarde.
Todo o seu peito estava manchado de sangue, o seu pescoço, o seu ombro.
Esse sangue que lhe era vital, que era maldito... até que tudo acabou.
Ajoelhou-se.
Deixou o corpo inerte deslizar para a carpete branca.
Passou a mão pelos lábios limpando o sangue que roubara.
Beijou-lhe os lábios imóveis e olhou-a com saudade antecipada.

Hora de ir.
Pensou se deveria negar-se a tal e deixar o sol fazer o seu estrago.
Não, apesar de horrendo, quereria vê-la...outra vez.

Silenciosamente, rodou a tranca e fechou a porta atrás de si.

domingo

Chama Ardente



Ela desce a longa escadaria com degraus de granito
e um grosso corrimão de madeira escura.

As tochas, presas na parede fria de pedra aquecem o ambiente,
iluminando todo o salão mas deixando-o sempre na penumbra.

O meu corpo promete reagir aos seus movimentos leves, subtis e elegantes.
Lentamente ela desce as escadas, degrau a degrau,
sem nunca desviar os seus negros olhos dos meus, degrau a degrau,
aquele sorriso cativante que transborda, trepando as paredes,
passo a passo, aquele andar sensual,
como que de proposito para me deixar numa enorme inquietação,
o mesmo andar leve e carinhoso, o mesmo olhar terno e selvagem,
o mesmo baloiçar de uma leoa que cativa a presa antes de a atacar e matar.

Mas eu, naquele momento, já estou morto,
nada posso fazer contra ela,
não lhe poderia resistir e não a poderia vencer,
não sou mais do que um estúpido rato que avança para a ratoeira
porque o queijo parece delicioso,
mesmo sabendo que não terei oportunidade para saborear a refeição.
Mas vale a pena arriscar!

O seu corpo veste algo branco, não é tecido,
é um qualquer material, muito mais leve e transparente.
Não consigo tirar os olhos daquele corpo cheio de envolto.
O cabelo comprido, como que despenteado, parece um manto selvagem
que lhe cobre a cabeça, caindo sobre os ombros, atravessando o peito e as costas
acabando sobre a barriga como que a proteger e envolver o seu ventre.
Ela transmite toda a sensualidade e perversão presente na natureza.
Sobre as pernas que continuam a deslizar pela escadaria do salão encontra-se o meu refugio,
só quero estar junto a ela, nos seus braços, explorando todo o seu corpo entre pensamentos e devaneios, quero tocar cada ponto mais sensível e beijar cada pedaço de pele, tão suave e perfeita, tão quente e selvagem.

Mas ela sabe tudo o que eu estou a sentir e a pensar,
sabe de cor que não pensava duas vezes antes de encaixar o meu corpo no seu,
e eu sei que ela se prenderia a mim num só momento,
os seu olhar diz-me que não trocaria nada no mundo por uma noite de amor comigo.
Mas não para uma simples troca de loucuras , mas sim uma noite repleta de sentimentos, palavras e monossílabos, sons, arfares, suores, cheiros e sabores...
Ela sabe o que eu quero e não hesita em manter-me ali sentado, só a olhar,
enquanto se prepara para por o seu perfeito pé direito no degrau seguinte, sem medo...

Estou extasiado, sem me poder mexer... além da morte...
Estou cansado de esperar,
o ambiente está quente de mais,
as paredes sucumbem ás chamas em tons de amarelo e azul,
o fumo começa a causar-me náuseas,
os meus olhos já ardem,
e o calor nos dedos está a tornar-se insuportável !!

Com medo de me queimar deixo cair a fotografia...
Esta consome-se, transformando aquela bela figura em nada mais que cinzas.
Fecho os olhos por momentos.
Esfregue-os.
Volto a abri-los.

Inclino-me para a frente.
Agarro na pequena pá e atiro com o fino pó esbranquiçado.
As chamas irão extinguir-se durante a noite.
No ar continua o aroma amargo e forte do papel fotográfico queimado.

Levanto-me.
A lareira natalícia virou túmulo de cremação.
Pego nas minhas mãos e sacudo-as.
Arrependo-me.
Resta-me apenas a memória.

A não ser...que lhe peça outra....
Mas...dar-me-á ?

Vou dormir.

Tic - Tac




Pega no cálice e leva-o até aos lábios, permanecendo assim, numa doce provocação que pretende fazê-lo dar um passo em frente.
Quer mergulhar no mar escuro daqueles olhos, mas quer que seja ele a atravessar a sala e a vir até ela.
Provoca-o de novo, passando a ponta da língua no rebordo do copo e observa o olhar dele preso na boca insinuante.
Mas ele deixa-se ficar, impavidamente, observando-a nos seus gestos de mulher consumida pela promessa de uma noite juntos.
Os cerca de vinte metros que os separam não revelam a linha ténue que os une.

Olha para o relógio. Dá a entender que está na hora.
Procura os olhos dela.
Levanta-se.

Agora, sentado à sua frente, os mesmos olhos gritam-lhe silenciosamente o quanto a sua presença o afunda numa paixão
sem fim e o devassa.
Vamos até à varanda?
Pode ser...realmente está muito calor aqui...


Beija-a, enrolando a sua língua furiosamente na dela, enquanto os dedos apertam a curva dorsal num gesto de possessão de encontro ao corpo dele, pedindo que lhe mostre que também o quer.
E ela sorri simplesmente, vitoriosa por o ter à sua mercê,
mais uma vez.
Os dedos encobertos dos olhares alheios pelos corpos de ambos, avançam tacteantes pelo interior da perna dele até lhe tocarem.
Quero-te – sussurra, e passa a sua língua radiante pelos seus lábios, como se sentisse já o sabor dele entre eles.

O carro pára abruptamente.
Ele desce e dá a volta, abrindo-lhe a porta impetuosamente.
Também, muito – a voz meia rouca evidencia o desejo.
Sorri, semicerrando os olhos, e sentada, desaperta-lhe
o cinto das calças.

Segura-o entre as mãos, sabendo a carícia que ele deseja.
Aperta-o e desliza as mãos pela carne palpitante,
até ele a fazer parar.
Puxa-a por um braço, enquanto ela solta uma risada de puro desejo e encosta-a ao carro.
Rasga-lhe as colantes, arranca-lhe as cuecas, ergue-lhe uma perna e penetra-a com força, até se ouvirem os gritos que ecoam na noite e se projectam de encontro à lua.

Cheia.

Ela deixa-se cair no peito dele, corpos seminus, suados,
de encontro aos lençóis.
A janela do quarto deixa entrar a brisa que refresca a pele
que arde de paixão.
Beijos de lábios, sedentos ainda, mesmo depois de beberem da paixão que ambos carregam dentro de si.
Ele rebola o corpo e deixa-a deitada na cama, dirigindo-se para a casa de banho. Quando regressa, ela está quase adormecida.
Deita-se atrás dela, encosta-se ao corpo escaldante, desliza os dedos pelas suas costas até às nádegas, separando-as, passando os dedos por entre elas para a tocar como ainda a não tocou nessa noite.

Excita-a, introduzindo um dedo, dois, acariciando, massajando a carne que se vai rendendo ao desejo, molhando-se, entre suspiros e frases soltas que vão saindo dos lábios dela.
Está preparado para amá-la de novo, e ela ansiosa por o receber.
Não hesita e avança para mais uma viagem pelos caminhos da luxúria, agora, sem pressa, com ternura, com amor.

A manhã vem encontrá-los abraçados e o sol penetra por entre as cortinas para deixar um beijo nos seus rostos.
É mais um dia que recomeça naquele jogo que é a vida
composto de bocados...
de gestos, sensações, sentimentos, desejos, tristezas, alegrias, percas e conquistas.

O pequeno tic-tac faz-se ouvir no ainda silêncio presente.
Mais uns bocadinhos...que passaram...e que ficaram.

Viagem de Comboio



O comboio corria veloz.

Apanhara-o para ter uma viagem mais confortável e rápida.
No entanto, detestava aquelas constantes paragens em inúmeras estações e as entradas e saídas de tanta gente desconhecida.
Por disso, escolhera a primeira classe que ia sempre com menos gente.
Naquele dia, apenas vislumbrava três cabeças em toda a carruagem e bastante afastadas do lugar onde estava sentada.
Felizmente. Queria descanso e concentração para ler uma última vez as 53 páginas da matéria sobre a qual tinha que dar formação às 15 horas.

Depois de quase uma hora de leitura e a necessitar de uma pausa, decidiu ir tomar um café ao bar a fim de se manter bem desperta.
Já se desabituara de viajar tão cedo.
Procurou um lugar de canto e fez sinal ao empregado para lhe trazer o café.

Olhava pela janela quando pressentiu algo, arrepiou-se, e virou-se repentinamente, deparando-se com o olhar penetrante de um estranho encostado ao balcão do bar.
O olhar masculino desceu pelo corpo dela, de forma lânguida e insinuante. Sentiu-se desnuda de roupas e sentires, como se ele lhe tivesse arrancado mais do que a blusa e saia com aquele olhar.
Não gostou daquela sensação e indignou-se.
Contudo, não deixou de sentir, também, um certo formigueiro de excitação.

Olhava-a com firmeza. Era gira. Parecia cansada e no entanto havia uma frescura leve que rodeava a forma como andava, pensou que era o andar mais perfeito que tinha visto.
Ok, sorriu para si, ou então, era simplesmente um daqueles momentos em que a presença de alguém, sem razão aparente, interfere com a nossa.
Viu-a ficar sem jeito, a passar a mão na saia, ajeitando-a sobre as coxas, e na blusa, para confirmar que estava devidamente abotoada.

Deu conta do quanto estava a ser irracional e corou até à raiz dos cabelos. Terminou de beber o café e dirigiu-se para a sua carruagem, sentindo que os olhos daquele desconhecido a acompanhavam pelo corredor do comboio.
Havia de se recompor e mostrar-lhe que não se sentia minimamente afectada com o seu descaramento.

Aguardou que ela voltá-se ao seu lugar e reparou na tentativa de concentrar-se na leitura e como, claramente irritada, pousou o dossier no banco ao seu lado e colocou os phones, sintonizando uma estação de rádio provavelmente por forma a tentar esquece-lo.
Foi então, que ela fechou os olhos.

Minutos depois sentiu um movimento a seu lado.
Abrindo os olhos, virou a cabeça e viu o estranho a seu lado, de pé.
Com um gesto perguntava se podia sentar-se a seu lado e, sem lhe dar tempo de dizer qualquer palavra, tirou o dossier e acomodou-se, sem deixar de a olhar.
Ela ainda tentou balbuciar um protesto, mas parou quando ele lhe tocou os lábios em sinal de silêncio.
Sem dizer uma palavra, aproximou o rosto e colou os lábios aos seus, sem lhe dar possibilidade de fugir.
Sentia os membros presos.
A mesma emoção prendia-lhe a voz na garganta e a vontade de protestar.
O corpo tremia, invadido de uma sensação estranha.
Devia estar louca para permitir que um estranho a beijasse, lhe tocasse os seios como ele estava a fazer, apertando o seu corpo contra o dele, alguém que nunca havia visto na vida até há menos de meia hora.

Abraçou-a, puxando-a para olhar o seu rosto de novo, antes de a beijar sofregamente.

Sentiu a mão dele subir pelas suas coxas, por baixo da saia, e trémula de desejo, tocou-o ao de leve, numa carícia que revelou toda a ânsia contida.
Abrindo a boca, deixou que a língua masculina tocasse a sua, entrelaçando-se com volúpia.
Não conseguiu aguentar mais.
Levou-o para o seu compartimento.
Uniram os corpos e buscaram o cume do prazer em movimentos acompanhados pelo ritmo do andamento do comboio, entre gemidos mudos, carícias, sussurros, mordidas e suspiros, amaram-se loucamente.
O tempo parecia estar preso àqueles carris, absorvida naquela viagem, perdido e sem rigor, cúmplice de uma ocasião que jamais esqueceria.

Sem uma palavra, ele puxou as calças, abotoou-as, fechou a camisa, levantou-se com um sorriso, beijou-a nos lábios e desapareceu no corredor.
Ela compôs a roupa, ergueu-se e encaminhou-se para a casa de banho, a fim de se pentear e tentar recuperar ainda do que havia acontecido.
Devia ter enlouquecido para fazer aquilo, pensava, enquanto se olhava no espelho.
Mas não.
Como recordação, tinha ficado o gosto de um desconhecido nos lábios e a marca dos seus dentes era bem visível no seu pescoço.

Faltava cerca de 1 hora para o fim da viagem.
Teria tempo par rever a matéria do dossier.
Tempo para esquece-lo.

Se o conseguisse...

quinta-feira

Chocolate Amargo



Enquanto ele olhava com curiosidade, ela balançava as ancas ao som daquela música tão sensual que servia como fonte da sua excitação.
Deu uma volta à cadeira...virou-lhe as costas enquanto descobria um pouco mais a pele.
Reparou que ele já se encontrava muito excitado.
Aproximou-se, deixando-o na expectativa e começou a despi-lo.
Tocou ao de leve nos lábios dele, com os dela,
afastando-se depois, rapidamente.
Caminhou de encontro à cadeira enquanto ia
despindo totalmente o vestido,
até se encontrar nua, à mercê do seu olhar.
Olhou-o nos olhos e com um simples gesto, chamou-o até ela.

Ele correspondeu.

Colocou as mãos sobre o seu peito, beijou-o com doçura
e sentou-o na cadeira.
Pôde ver no seu olhar o desejo de saber o que viria a seguir e isso deixou-a ainda mais molhada.
Foi para traz dele entre beijos no pescoço e
trincas marotas nas orelhas,
enquanto ia passeando as mãos pelos os ombros.
Subitamente, com os dedos no cabelo dele, deu a volta, encostou os seios ao seu rosto e começou a descer, lentamente,
de encontro ao seu sexo.
Ajoelhou-se.
Deu início à provocação, com a língua, com a boca...
...deu início ao delírio...

A cada carícia dada, sentia como a sua excitação crescia.
O seu sexo encontrava-se bem teso, tal como ela gostava.
Sentia-se dona do momento, do prazer, adorava senti-lo,
sentir o seu prazer, proporcionar-lhe prazer, partilhar o prazer,
excitar-se com aquele prazer, perder-se...

Anda, põe-te aqui...quero-te...

Não respondeu, não disse nada, não lhe apetecia falar,
apenas fazer amor.
Levantou-se e de costas para ele, sentando-se, enterrou-o todo, dentro dela.
Agarra-me ! disse-lhe, e as mãos dele cobriram-lhe os seios com força enquanto ela subia e descia, numa cadência cada vez mais ritmada, intensa, ardente.
Os gemidos faziam-se ouvir, os gritos não tardariam.

Parou.
Abandono-o e caminhou de encontro à porta do quarto,
um rio brilhando à meia luz, pela costas abaixo.

Ei ! Onde vais ?

Virou-se de lado, apoiando-se na ombreira da porta,
deixando transparecer a traquinice e sensualidade
que ele tão bem conhecia e gostava.

Não fiques chateado...apeteceu-me um chocolate...
...só isso...amargo...

Chocolate...agora ?
sorriu para ela.

Oh pá... sabes como sou... quando desejo algo...

sábado

Seduz-me



Despe-te para mim, pediu ele.
E ela obedeceu.

Sentado na cama, ele fixava-a no meio daquele quarto iluminado a meia-luz. O seu rosto estava sereno.
À sua frente, de pé e sem proferir palavra, ela iniciou a tarefa.
Lentamente, desapertou o primeiro botão da blusa que vestia.
Os seus dedos moviam-se delicadamente, como se estivessem a tocar numa jóia preciosa.
Desapertou o botão seguinte.
E outro.
Por baixo, transparecia um soutien branco, acetinado e macio, e o peito dela brotava com voluptuosidade.

Mirou-a.

Após uma pequena pausa, o suficiente para o deixar embevecido com aqueles centímetros de corpo descoberto,
chegou ao último botão.
Via-se agora um rio de pele, do pescoço até ao ventre, que brilhava com os reflexos da luz.O olhar dele permanecia imóvel, concentrado naquele delicioso sulco que os seios formavam.

Olhando para ele, ergueu ambos os braços, e agarrou a blusa junto ao peito, fazendo um gesto lento que a fez deslizar pelos ombros. A sua pele arrepiou-se e os pelos eriçaram-se ao sentir aquele tecido macio a acaricia-la.
Ela olhou para os seus seios, com a blusa ainda caída nos braços e, ao de leve, tocou num com a ponta dos dedos.

Ele sorriu.
Ela também.

Decidida, despiu a blusa por completo, deixando-a cair no chão.
O movimento fez o peito dela projectar-se para a frente, e um mamilo espreitava agora por entre a copa do soutien.

Ela tocou-lhe.
E ele vacilou.

Inebriado, ele ergueu a mão e tocou-lhe
no ventre com a ponta dos dedos.
Aproximou a sua boca desse mesmo sítio, beijou-a,
e ela sentiu os seus lábios entreabrirem-se
e deixarem sair uma língua quente e ávida.
Ao afastar-se, ela sentiu o sopro quente dele na pele que entretanto tinha deixado húmida, e gemeu.

Continua, pediu ele, enquanto se tentava controlar para não lhe tocar.

E ela continuou.

Quando começou a desapertar os jeans, fechou os olhos e movimentou lentamente as ancas. As calças deslizaram pelas pernas, e ficou em roupa interior.
Uma alça do soutien tinha deslizado pelo ombro, e pendia agora no braço. O seio, cujo mamilo antes espreitava,
revelava-se agora ainda mais.

E ele não resistiu.

Mais do que apenas admirar o seu corpo, ele estava envolvido pela sensualidade dela. Puxou-a para si num gesto seco, e mergulhou de novo a boca no ventre dela.
Enquanto lhe beijava a pele e respirava o seu cheiro, as mãos dele percorriam-lhe o fundo das costas, as nádegas, e aventuravam-se ainda mais para o interior das coxas.
Sentia o calor que emanava dela…

E desejava-a.