sexta-feira

Next Step

 



"Onde vamos celebrar amor?"

"Diz-me tu Kita...deixo ao teu critério querida."

"Acho que devia ser algures onde ainda vão poucos pessoas..."

"Ok. Que tal...comida Tailandesa? Já experimentaste?"

"Não, nunca...Pode ser! E...levo o espumante, não é ?"

"Como assim? Devem ter...mesmo sendo um restaurante oriental..."

"Oh amor...não é isso...Não vamos inaugurar a casa nova...depois?"

"Ahhhh...tu...."

"Vais ver...E não vais conseguir resistir à tua sobremesa mais logo..."

Encontravam-se à beira mar a desfrutar de um pôr de sol maravilhoso antes
de se porem a caminho do jantar, nessa noite, fora de casa.
Tinha-lhe enviado uma mensagem no whatsapp a dar-lhe conta de que tudo
tinha corrido bem durante a assinatura do contrato.
Tinha ponderado no assunto durante tempo suficiente e tomado a decisão
de ficar com o apartamento.
 
Ela, com o passar do tempo, tornara-se uma mulher cada vez mais interessante
e aquela última mensagem fez-lhe sorrir abertamente.
Safadinha! - pensou. Caí que nem um patinho.

Reservou uma mesa no restaurante que haviam conhecido antes da pandemia
tomar conta do país e qual o seu espanto quando o dono, um velhote à boa maneira
oriental, recebeu-os com repetidas vénias dizendo em português, ou melhor,
português peculiar, que se lembrava deles.
À semelhança daquela noite, escolheram o menu do chefe, abrindo caminho
à degustação dos vários sabores daquela região do mundo.
E, como acontecia muitas vezes quando comiam sushi, ela preferiu o vinho tinto,
Grão Vasco.

Coisas...que não se explicam. 
Também "ela" apreciava-o e deixava-se levar pela onde de leveza sexy
que a bebida do Dão lhe proporcionava.
Será que ainda o bebia, será que alguma vez o sugeriu ao companheiro?
E será que usava aquelas botas altas, os sapatos de salto alto, os vestidos que lhe
enaltecem as curvas perfeitas e as longas pernas?
Fazia fé que sim. 
Uma mulher como "ela" merece ser admirada em toda a sua beleza exótica.

"Estás pensativo...Passa-se algo?"

"Não miúda. Apenas, é curioso com tu gostas deste vinho tal como a minha
namorada anterior gostava." - sorriu-lhe.

"Ai é? Pois...já te disse uma vez que ela é gira e pelo que vi das fotos, tem bom gosto.
Basta dizer que também se apaixonou por ti, não?" - e lançou-lhe uma piscar de olho
enquanto erguia o copo.
"Posso ser eu a fazer o binde hoje?" 

"Claro que sim...passas a vida a recusar!" - e pegou igualmente no copo.

"Então...a ti, que conseguiste o que querias. A nós, que o nosso amor cresça.
A esta noite, que percebas o quanto te amo e o quanto gosto que sejas meu, todo e só meu."

Olhou-a.
Adorava quando ela ficava com aquele olhar de felina meiga.
Sabia que  caminhava na direcção certa.
Era tempo de ariscar de novo, confiar que desta vez não ia ser usado e espezinhado.
Nunca, tinha-lhe pressionado, pedido algo.
Amava-o.
Desejava ser amada.
Tinha uma ideia.
Queria ficar do lado dele.

"És um amor miúda. Especial. Vamos brindara a isso sim. E...obrigado."

Levantou-se, inclinado-se sobre a mesa até assentar um beijo molhado,
ao de leve, nos lábios torneados.

"You're the best my love!" - e levou o copo aos lábios húmidos.

Não pode deixar de soltar uma gargalhada antes de fazer o mesmo.

"Então - o meu sotaque é assim tão mau amor?" - ria-se confortavelmente.

"Não...nada disso...achei piada, só isso".

"Estava a imaginar as fotos que vou tirar...Apenas isso!"

"Que fotos?"

"Ai ai...pois...vês? Agora foste tu que não percebeste. Na inauguração..."













quinta-feira

if You love me...




Olhava o contrato de arrendamento.
Tinha relido as várias cláusulas atentamente.
Se havia algo que tinha apreendido, é que a maior parte das imobiliárias
eram geridas de forma pouco transparente, sendo os seus donos, quase todos,
pouco confiáveis.
Agora, era assinar...ou não.

Conseguia vê-la e ver as suas expressões quando estava feliz.
A música dela tocava no Spotify.

Suspirou fundo e sentou-se ao teclado que servia, tantas vezes,
de terapia prescrita por um psicólogo entendido nos mais profundos
sentimentos e duvidas que permaneciam, caprichosamente,
escondidas nas suas entranhas.

Se era verdade que ansiava por mudar completamente de estilo de vida,
de voltar a ter alguém com quem a partilhar, de poder chegar a casa e ser
recebido com gestos de carinho, de ser importante para outro, de marcar
a diferença na vida de outra pessoa, de aconchegar-se e sentir alguém
aconchegar-se a ele na hora de dormir...ou fazer amor...
também não era menos verdade, que tinha um certo receio.

No entanto, como poderia justificar a quem o amava,
que hoje em dia fazia parte da vida dele,
pessoa que ao longo de vários meses dera provas de amor e dedicação,
como amiga e amante,
miúda louca, envergonhada, temperamental, expectante,
mas mulher ponderada, exuberante, tolerante, madura...
como, não dizer-lhe...que gostaria que ela fosse viver com ele?

Para quê o apartamento maior? Para quê ???

Recordou o momento que lhe dissera que andara à procura de um lugar
maior para poder encarar o futuro com outra qualidade e tranquilidade,
que estava farto de ter apenas um sitio de refugio,
que finalmente, achava estar pronto para a grande mudança.
Sim...a grande mudança.

Sim, a Kita, como carinhosamente passara a chamar-lhe, ficara radiante.
Ele percebeu como ela tentara controlar o entusiasmo, como fizera questão
de conter a alegria que tomara conta da expressão dela.
Não queria dar a entender a emoção que sentira ao ouvi-lo dizer aquilo.
Como sempre, esperava que ele agisse de acordo com as suas convicções,
não pressionando, aguardando pelo desenrolar das coisas.
Mas...ele viu.
E...ela percebeu...que ele viu.

Estavam sentados à mesa a degustar sushi, olhando o mar ao longe.
Trajados de robes brancos grossos, contemplavam as ondas alimentadas pela
chuva forte que se abateu sobre o mar, impedindo o uso da varanda do motel,
quando tudo fazia querer que o sol matinal da tarde iria manter-se.

"O que achas Kita, é desta que juntamos os trapos? - tinha dito, rindo.

"Ohhh...coitadinho
...só se quiseres partilhar os meus trapos também!" - rira-se.
"If you love me amor..."

O almoço dera lugar a uma tarde de sexo escaldante, mas cheio de ternura
e longas trocas de olhares.
E se, como no fantástico duche, o intenso vapor transformara o local no
lugar apto ao prazer carnal puro, a imensa cama, dotada de gigantescas
almofadas cheirosas, fazia o seu papel de oráculo, apontando a um possível
e desejado futuro.

Foi tão perceptível, no olhar dela,
quando o montou,
ansiosa por ser preenchida,
mãos bem assentes no peito dele,
cabelos longos e suaves sobre seios pontiagudos,
ancas num vaivém compassado,
na busca do momento apetecido.

Foi tão audível, no gritar dela,
quando estremeceu em cima dele,
enterrando-se em curva, deixando fugir o nome dele,
enquanto o olhava, fixamente,
olhos cristalinos humedecidos,
expectantes...

Ele, não dormira tanto quanto ela, nessa noite.
Lembranças que jamais quereria ter povoaram-lhe a cabeça.
Imagens de um outro amor, inesquecível, teimavam em aparecer,
trazendo a tona sentimentos de insegurança e dor.

A pergunta morava nele.
SE, com quem ele amara, desmedidamente, não resultara...
então...
como podia ter a certeza que,
como quem ele ainda não amava, achava ele,
mesmo estando muitíssimo perto de tal sentimento,
mesmo reconhecendo tudo que era bom,
mesmo sabendo que ela o fazia feliz...
como podia ter a certeza que...iria dar certo?

O Tempo era agora.
A vida, não esperava.
Uma decisão era requerida.

Até o sexo era bom, foda-se!