sexta-feira
Luz
Estava escuro.
Ela pediu para acender a luz.
Ele não quis.
Ela insistiu.
E voltou a insistir.
Ele voltou a não querer.
Estava escuro.
Tocaram-se.
Cada toque, cada respiração.
Inspira. Expira.
Respiração.
Ofegante.
Daquelas que se ouvem uma vez.
E sentem tudo...nessa mesma vez.
Respiração.
Inspira. Expira.
A unha passou pelas costas dele.
Percorreu toda a espinha dorsal.
Passou pelos ombros.
Parou na coxa.
Arrepiou a silhueta.
Esticou o pescoço.
Gemido.
De novo o gemido.
Inspirou tudo.
Toque.
Arrepio.
Estava escuro.
Na testa o suor.
No toque o desejo.
Inspira.
Expira.
E a unha continuava.
Aqui.
Ali.
Acolá.
De novo o arrepio.
Daqueles arrepios que se querem sempre.
Sim. Daqueles.
Sim. Exacto.
Desses mesmo!
Inspira.
Expira.
Foi num estacionamento.
Estava lua cheia.
Como hoje.
Era praia.
Era desejo.
E ele não acendeu a luz!
Não !!
Foi num “estacionamento”.
Eu sei que não estava deserto.
Como podia ele ter acendido a porra da luz !
domingo
A Última Lágrima
Uma pequena escapadela, uma oportunidade para se verem, um momento para se amarem.
O risco era grande, as consequências atrozes, mas a cumplicidade e o prazer... isso era inigualável.
“Por favor. Vai-te embora daqui! “
“Eu quero estar contigo… eu sei...a última vez…”
“Sabes que se te apanharem aqui... Por favor, não quero ser o responsável por isso...também...”
“Acredita, se puder sentir os últimos raios de sol contigo, valerá a pena, sempre foi assim...tu sabes...porque havia de ser diferente agora ? concluiu ela, abrindo, de seguida a sua cela e usando a chave furtada para soltar a pesada corrente da coleira.
Vamos, segue-me.”
Saíram em direcção a um bosque que se situava junto à pequena aldeia. A povoação não possuía muito mais que trinta habitações, um pequeno mercado, uma escola, uma igreja...e uma prisão. As suas tonalidades não fugiam ao castanho, podendo observar-se aqui e ali certos fragmentos de cor que, por isso mesmo ou apesar disso, nessa noite, atribuíam uma certa beleza ao local, pelo menos, foi o que ele achou.
“Para onde vamos?”
“Para o paraíso!” disse-lhe, sorrindo.
Guiada pelo coração, conduzia o pequeno automóvel por entre as árvores sem prestar grande atenção ao caminho, pois o seu olhar percorria aquele que ia a seu lado. Desviava o seu cabelo longo para trás da orelha e olhava-o por diversas vezes, certificando-se de que ele estava mesmo ali...ao seu lado.
Esporadicamente apanhava o seu olhar, os olhos escuros pareciam-lhe mais claros, brilhantes, quentes, era aquela mistura de cor e sentimento contido neles que ela associava à beleza única dele.
“Chegámos!” anunciou, detendo-se na
margem de uma clareira.
“Mas isto… Wow…”
Perdera as palavras no exacto momento que olhara
o local que os rodeava.
Nunca imaginara que no meio de tão denso bosque
pudesse haver tal clareira.
O mais impressionante era a cascata no extremo norte que suavemente e sem grande ruído, alimentava o lago. As águas calmas e refrescantes transmitiam uma tal sensação de serenidade e bem-estar que, por momentos, ele quase esqueceu a situação. A luz do luar que incidia no lago reflectia-se por todo o local, tornando-o ainda mais belo, pois as mais delicadas flores possuíam um brilho único, vivo e lindo.
“Como descobriste este local?”
“Nunca tinha estado aqui antes. Foi na noite que te levaram.
Vim sem destino.
Acho que foi instinto ou…ou fui guiada por algo...”
Olhou-a com mais atenção.
Tão jovem, toda a vida pela frente. Sorriu-lhe. Contudo tinha mais maturidade que certas mulheres da aldeia. Isso tinha-o cativado. Aquele misto de menina-mulher, gentileza e rebeldia, força e fragilidade. Era, de facto, muito bonita.
A sua face continha feições adultas e infantis, o que lhe conferia uma beleza fora do comum. Os cabelos desciam delicadamente pelas suas costas, ondulando ao sabor do vento que soprava suavemente naquela noite de despedida.
Duas madeixas caíam-lhe no rosto emoldurando, assim, os seus olhos feitos berlindes. Sempre tivera naquela cor viva um brilho de alegria e inteligência e em todas as viagens que ele fizera durante anos, até chegar àquela aldeia, nunca vira tal cor.
“Sabes, nunca pensei vir a viver uma situação destas, mas, eu sabia que era proibido. Quero que saibas que não me arrependo de nada.
Contigo, vivi. Não te esqueças. Não te culpes. Promete.”
“Eu tudo...somente... por me amares?”
Simples humanos não conseguem compreender. Que importa isso ?
Nós sabemos que a verdadeira proibição não existe...é nos imposta.
Eu...eu prometo.”
Foi com o embalo de tão belas palavras que ela se entregou naquela noite e o levou para perto do lago que para sempre iria guardar aquele momento de puro amor.
Amaram-se como provavelmente ninguém havia feito naquela aldeia e quem sabe, até em todo o mundo. Aquele era o amor no seu todo, o amor que apenas existia num mundo inteligível e que não era mais uma mera reflexão da verdade que ambos reconheciam dentro de si. Haviam atingido, ainda que inconscientemente, o amor absoluto.
A Natureza, como que sensibilizada com tal paixão, proporcionou-lhes o mais belo momento das suas vidas, disponibilizando até os seus pirilampos para os iluminar com uma luz ténue e doce, e rodeando-os numa frenética dança de alegria.
“Quero...ser tua para todo o sempre” sussurrou-lhe.
“E serás. Acredita. Estás dentro de mim.”
E assim se mantiveram durante toda a noite: beijando-se, acariciando-se e abraçando-se.
Jamais esquecera aquele momento e mesmo já em idade avançada, relembrava com saudade uma paixão que ficou marcada, para sempre, no seu coração. Em todo o restante tempo da sua vida, nunca voltou a amar alguém com tanta intensidade.
Na manhã seguinte chegou o doloroso momento.
Haviam-na obrigado a assistir a tão cruel acto.
Ele subira vagarosamente os degraus para o estrado, mas não demonstrou qualquer medo ou infelicidade. Pelo contrário, do seu rosto irradiava...uma estranha felicidade.
Grosseiramente, o carrasco colocou-lhe a corda no pescoço e posicionou-o por cima do alçapão.
Durante todo o tempo, ela nunca perdeu o contacto com os seus olhos
e mesmo não podendo comunicar, eles...tocavam-se.
O alçapão fora aberto.
Ele sofreu e atingiu lentamente a morte.
Mas, nunca deixou de a fixar, deixando bem claro que a
levava com ele...para sempre.
“Amo-te” foram as últimas palavras dele, deixando pender a sua cabeça ao findar do último suspiro, enquanto mantinha a mesma expressão de felicidade.
“Também te amo...” respondeu-lhe num murmúrio, deixando correr uma lágrima.
Aquela foi, de facto, a última lágrima que mais alguma vez soltou.
Isto é, tirando aquela tarde, quase 9 meses depois.
Mas, aí já estava longe...longe daquela aldeia...daquela gente...
Longe daqueles que pouco tempo de depois...deixaram de...viver.
Também ela, não estava arrependida.
Dirigiu-se até à janela, colocou as mãos em voltada
dos cilindros ferrugentos e frios.
A manhã estava bonita. Sentia-se quente por dentro.
Aguardava, ansiosa.
“Bom dia, senhora.
A sua visita chegou.”
Virou-se para o encarar enquanto ajeitava o cabelo um pouco.
“Mãe !” Então...que cara é essa ?
Até parece que viste um fantasma !!”
Correu ligeiramente para o abraçar.
Aquele sorriso, aqueles olhos...eram iguais.
O seu amor, estava ali...vivo.
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