segunda-feira

Travo Doce


Por vezes os amores são musicas
e as musicas são amores que cantamos.

Mas ao longe,
os amores não são musicas,
são somente,
as lágrimas que choramos.

Por vezes os amores são a noite
e a noite são amores que embalamos.

Mas ao longe,
os amores não são a noite,
são somente,
as estrelas que contamos.

Por vezes os amores são lugares
onde dois profundamente se amaram.

Mas ao longe,
os amores não são lugares,
são somente,
sítios que partilharam.

Por vezes os amores são momentos
que nos fazem ficar especados.

Mas ao longe,
os amores não são momentos,
são somente,
semelhanças de vestígios encontrados.

Por vezes os amores são doces
na vida amarga que levamos.

Mas ao longe,
os amores não são doces,
são somente,
as recordações que guardamos.

Por vezes,
raras vezes,
os amores voltam,
para novamente,
serem de ambos.

.....aí, o

Amor perde-se no travo doce,
na boca,
de quem,
apaixonadamente,

.....beijamos!

quinta-feira

Vista de Despedida


Foi vê-la, ou melhor, espreitá-la.
Tinha de ser.
Não havia como não fazê-lo.
A força interior que o obrigava a tal, era insuperável.

Teve o máximo dos cuidados e total discrição.
E, demorou a conseguir.
A paciência, contudo, não se esgotou.
Estava focado.

Dentro dele, não havia como negá-lo, a pancada doeu.
Mais do que estava à espera...
Uma mistura de emoções tomaram conta dele.
A dor de meses e meses apareceu e demoliu, mas, ele aguentou-se.
Manteve a distância.

Ela, estava diferente.
Permanecia bela, claro.
Sorria facilmente.
Pareceu-lhe mais magra e que se comportava de uma forma mais...jovem.
À primeira vista, quase hesitou em perceber que era mesmo ela.
O cabelo mais claro, em tons de castanho, apanhou-o de surpresa.
Não lhe ficava mal, linda como era, tudo encontrava uma forma
de assentar-lhe bem!
Mesmo assim, para ele, o cabelo dela negro, autêntico, era mais bonito.
Dava-lhe outro ar, aquele que ele apreciava, de mulher mais sensual,
sobretudo quando o usava comprido e esticado.

Na verdade, arrastou-se um pouco até ao carro.
Antes de ir, ponderou muito se devia ou não.
Mas, concluiu que devia levar por diante a vontade de sossegar a sua vontade.

Agora, teclando as palavras para um dia mais tarde recordar,
sentia que tinha feito o que estava certo.
Apesar da dor que sentira, conseguia, pela primeira vez,
entender que tratava-se de olhar e sentir o passado,  não do presente,
sentiu claramente que aquela mulher já não tinha nada em comum com ele,
que vivia noutro mundo, que se tinha entregue a outro homem,
que haviam outros propósitos, outras intenções.

Mais importante ainda, era ter a percepção vincada quando se encontrava
com a mulher que agora habitava a vida dele, mesmo sendo ao de leve,
que algo nele tinha mudado.
E não era importante, para já, amar, ter a certeza de voltar a amar,
de voltar a confiar,
não!
O importante era sentir que estava a dar passos nessa direcção.
O importante era dar a si mesmo a possibilidade de encarar um futuro diferente,
eventualmente, se calhar até melhor do que teria sido com a ela.
Sim, estava tudo numa fase embrionária...mas...estava!
Já não vagueava pelas auto-estradas nem procurava os bares para consumir
as longas horas de noites sem fim.

Havia um olhar novo que se fundia no dele, um corpo sensual que se exprimia
e complementava no dele, palavras de afecto e tesão que se misturavam com as dele.

Um...novo amor?

O tempo diria.
O tempo que estava mais velho e cauteloso.
O tempo que jamais queria que ele voltasse a ser jogado fora.
O tempo que outrora fizera-o acreditar em almas gémeas e vidas passadas
tinha amadurecido.
Talvez o amor não fosse encontrado no meio do caos e numa paixão desmedida,
talvez, apenas, fosse bastante esperar que ele nos encontre,
e que traga consigo a pessoa certa, aquela que nos valoriza sem nada cobrar,
que realmente fica do nosso lado porque é forte e não porque não tem outro remédio,
que espera lealdade, dedicação e paixão e que tem e deseja dar-nos o mesmo,
porque quer, porque precisa, porque acredita, porque tem certezas do que sente,
sem julgamentos, sem comparações, sem hesitações.

Verdade, que em tempos tê-la visto, teria-o rasgado ao meio.
Hoje, felizmente, sentia-se inteiro.
Pensava com clareza.
Estava ciente dos passos que dava.
Tinha retomado o controlo da sua vida.

Sim, haviam uns pedaços quebrados por arranjar e frestas por tapar,
mas o pior passará.

Esta noite, tinha para onde ir,
uma porta que o esperava,
um beijo por receber.
Depois do ginásio,
um robe floreado aveludado,
de certeza,
cairia ao chão,
poucos minutos após a chegada dele.

E,
era tão...bom!



segunda-feira

14 de Fevereiro



Quantos anos tinham sido, que naquele dia, disseram "amo-te" um ao outro?
Muitos...
Foram dias com momentos maravilhosos, em que quase sempre não puderam estar juntos,
mas onde um grande amor sempre deu ares da sua graça.
Quantas surpresas fizeram, um ao outro?
Tantas...

Sim, hoje acreditava ser possível que o tempo apagasse grande parte das memórias
testemunhas desses dias de amor e paixão desmedida que transbordava dos seus corações.
O tempo encarrega-se de mudar, alterar, mostrar de outra forma...muita coisa.

Ele, hoje em dia, queria apenas guardar o "bom" que vivera.
Queria conservar num cantinho especial, dedicado à sua passagem pela vida dele,
os longos anos repletos de acontecimentos, vivências, alegrias, dores, emoções e sonhos.
Toda uma vida partilhada com a menina-mulher mais bela que conhecera.

Finalmente, conseguira ir em frente...sem ela!
Já jogara fora o seu desprezo, a sua falta de preocupação e deslealdade, bem como,
a provavel traição que acontecera enquanto ainda se deitava com ele.
Tinha perdoado...

Já não a amava.



Almourol era mesmo um lugar mágico!
Todo um cenário grandioso e envolvente,
sobretudo para quem era romântico!
Respirava-se história, glória, luta, sangue, conquistas!
Tal como no Convento de Cristo e na Taberna Antigua onde mais parecia que se entra
numa máquina do tempo quer pelo espaço quer pelas comidas e bebidas a degustar.

Acordou ao nascer do sol,
escutou o silencio interrompido pelos cantares da natureza,
enquanto espreitava a praça da republica de Tomar com todo o seu encanto místico.
Com jeitinho,
sentara-se na cama, o seu olhar atento percorrendo o corpo da mulher que ali repousava,
respirando serenamente, abraçando a almofada que até há pouco tinha sido a dele.
Desnudada, quente, macia, ancas sensuais, pernas torneadas pelo exercício,
seios dignos de um top bem sexy.
Fazia tempo que as coisas não tinham tal sabor, tal profundidade.
Sorriu enquanto a olhava e passeava os dedos pelo cabelo longo, de um loiro matizado.
O passeio, a noite, as gargalhadas e carrinhos trocados, fazer amor daquela maneira,
com uma envolvência sincera.
Engraçado como as mulheres, com ele, descobriam a sua força, a sua beleza fogosa,
quando quase sem perceberem o porquê, inundavam os lençóis abundantemente.
Engraçado como quando era o centro das atenções delas e virava amante insuperável.

Que dia de São Valentim fantástico!

No horizonte morava uma esperança recém adquirida.
Coisas boas haveriam de acontecer.
Um novo sonho, talvez, pudesse nascer.

Naquele momento que acabava o texto, pensou - vou fazer por ser feliz!
Não vou virar as costas a esta mulher...ela gosta mesmo muito de mim,
e eu, já gosto bastante dela.
Dizer "amo-te" ?
Esse dia ainda estava nos segredos dos Deuses...

Mas, importava VIVER agora!

Para sempre haveria de recordar-la...
Mas, na verdade, há uma parte de qualquer amor, que não nos pertence, pois perdura além de nós.
Gostava que, ao cruzarem-se um dia, trocassem um sorriso caloroso.

Adeus Princesa, sussurrou.
No meu Castelo, já não moras.


Ando por aí...


Ando por aí, cada vez mais acostumado aos dias tristes.
Tenho numa mão a escrita  e na outra a interrogação.
Sigo, invariavelmente, a rota das interrogações.
Sou dono de sorrisos simpáticos e frases cativantes.
E ninguém percebe de onde vem a força gladiadora que conquista
as montanhas de ontem com fome insaciável,
nem o porquê de falar dos sentimentos sem complexos.

No Teu tempo, a primeira estrela chegava para encher a noite.
Hoje, até o primeiro raio de sol explode no vazio.
E, o primeiro nome das coisas começa com um sorriso apenas tímido,
porque agora, tudo no mundo tem uma face distorcida.

Nas noites acordadas acabei por saber que os sonhos são traições,
que a fonte das lágrimas não pode secar.
Afinal, o que seria da dor sem as suas lágrimas?
Que seria de todos os coitadinhos se as lágrimas secassem?

Chegamos ao mundo para subir montanhas e calcorrear estradas.
Para descobrir que nunca descobrimos a Verdade.
Para descobrir que também podemos inventar a Verdade.
E sermos mais nós?
E sermos mais sãos?
E crermos num futuro que fatalmente nos vai atraiçoar?

Mas também podemos atraiçoar um futuro que fatalmente não será nosso.
Rir. Ri-te à vontadinha deste ser dito humano,
descrente de coisas contadas,
quando era criança.
quando era jovem,
quando era adulto, tão apaixonado,
tão...crente...

Vês a prata da lua nos campos?
Não, já não consegues ver.
Deixaste de ver essa Verdade.
Não és Tu.

E queres outra das verdades verdadeiras?

Dias como este - são dias em que qualquer pergunta,
esconde uma vontade de nada perguntar!

Ser.
Apenas ser.
Ser-se.

Enquanto o tempo se escoa pelas entranhas dos prédios.
Enquanto o sol aquece as veias da alma.
Enquanto os candeeiros dormem para logo alumiarem o deserto dos becos,
a física das sombras tecendo enigmas intermináveis,
que passam ao lado das gentes normais.

Andava por aí...a escrever com as palavras.
Mas tive de descansar.
Queria dizer aquela palavra que não saía.
A esquecida.
A intolerável.
Aquela que enchia os regatos da vida.
A palavra-temporal.
A palavra arrancada de dentro.
A palavra normal.
Cheia de riso e de encanto.
A palavra devoradora da obscuridade.
Sem tempo nem hora.
Nem vendaval nem tristeza.
Apenas uma palavra.

Qualquer uma...que me fizesse sentir aconchegado,
nestes dias,
nestas noites.
nesta tarde que sou fugitivo...

Mas,
Ela não veio. Não me quis encontrar.
Deixou-me sozinho. Como Tu fizeste.

Apenas espreitou-me pelas fechas obscuras,
fazendo uso da magia que detêm,
para te mostrar ali, ao meu alcance imaginário,
naquele quarto só cheio de mim,
onde me escondi por umas horas,
das ruas que percorro,
holograma perfeito,
como Tu és,
mulher que amo por defeito.

Queres saber outra das verdades?
Saio à rua.
E...na rua...espero...
Espero por um milagre...
Espero por um sinal...
...para que possa voltar a viver,
...ou
...de vez
...MORRER!