segunda-feira

Alentejo 45º



A vontade de deixar fluir as forças do universo tinha sido mais forte e ele,
naquele momento, sente-se feliz por isso.

Tivera a suas duvidas, como vinha a ser habitual.
O receio de permitir um envolvimento com a consequente aproximação de alguém,
por pouco ditara um "não" disfarçado de desculpa simpática.
Contudo, desta vez, tomara a decisão de confiar no destino.

A viagem pelas planícies do alto Alentejo, sugerido por ela, correra de de forma
descontraída e alegre, as canções dos Roupa Nova a provocarem gargalhadas e
tendo o Lewis Capaldi invadido o automóvel, arrancando um brilho intenso dos
olhos dela, fazendo-o rir ao mirar-lhe de esguelha enquanto conduzia.
O seu coração dera-he conta que algo podia acontecer, que ela era,
que havia a possibilidade, que podia ser diferente das demais que conhecera
depois da separação.

Agora, sentado na pequena sacada ia bebericando o sumo de laranja da Compal.
Era Domingo.
Havia silêncio.
Ou quase...
Porque os sacanas dos grilos graúdos, co-proprietários das terras circundantes e
camuflados pelos enormes chaparros, faziam um chinfrim apreciável.
No entanto o vento suave, de aromes selvagens frescas, fazia o favor de encaminhar
o convite de acasalamento deles para outras paragens, protegendo assim, o sono da
figura esbelta aninhada nos lençóis de cor marfim.
Os tecidos macios que cobriam parte do corpo revelavam curvas bem delineadas e
cabelos longos perdidos em nuances castanhas e louras, fazendo lembrar vales e
montes em terras de sonhos soalheiros.

Estava bem.
Tranquilo.
Respirava com gosto.
Olhava-a meticulosamente.

Era, sem duvida, um retrato bonito..
Entre os mais belos momentos que vivera.
Talvez, o medo de sucumbir aos desejos dela fossem infundados.

Depois da viagem deles a Tomar, que fora igualmente tão boa, decidira afastar-se.
Porque sentia como ela o queria, como ela o olhava, como ela conscientemente,
ou não, falava do que pretendia da vida para o futuro, de como queria alguém que
a complementasse, um homem inteiro, independente, confiante, integro.
Um homem que soubesse apreciá-la pela mulher que é, um homem que a fizesse
entregar-se como nunca o fizera anteriormente.

Tanta coisa...
Tanta responsabilidade...
Tanto sonho...
Tanto dar...de si...outra vez...

Ajeitou a toalha de banho em volta da cintura.
O que tinha a perder?
Era linda, bem disposta, quente, inteligente, de ideias fortes, independente.
Tinha tanto para descobrir com ele.
E ele, com ela...

O destino iria sempre pregar-lhe partidas. Ele sabia disso.
"Adoro como tu me preenches amor."- como era possível, tal frase?
Sorriu.
Havia coisas que não se explicam. Aceitam-se.

O cantar da rola fez-lhe virar o olhar e por alguns instantes deixou-se vaguear pelos
variados tons dos montes alentejanos, o futuro incerto a querer parecer-lhe mais bonito,
o azul do céu conferindo um manto aconchegante aos pensamentos dispersos dele.


"Amor..?"

"Bom dia princesa...isso é que é dormir..."- diz-lhe sorrindo.

Levantava os braços em direcção ao tecto e bocejava.
"Simmmm...que preguiça...e a culpa é tua..."

Ele encostou-se para trás na cadeira -"Minha? Até parece!"

Tinha-se virado de lado para o encarar de olhar matreiro,
o lábio inferior ligeiramente castigado pelos dentes sorridentes.

"Ok...pronto...ainda não são oito..."- diz-lhe, olhando o relógio do telemóvel,
mas podemos tomar o pequeno almoço cedo e ir dar uma voltita por Mértola..."

"Acho uma óptima ideia..."
Falava lentamente, mexia-se com propósito.
Sentou-se na ponta da cama, desnudada, pernas abertas, pés calçados de
saltos altos invisíveis e olhos orientais que lhe assaltavam os sentidos todos.

"Ai é? Achas mesmo? Estou a ver que estás mesmo a pensar nisso..."

"Estou simmm...Massss primeiro...apetece-me pôr de quatro...
Faz-me vir daquela maneira...apetece-me...apeteces-me tantooo !"

Lá estava o karma, outra vez, a brincadeira do Deuses!
"Olha...que tal eu tirar-te uma foto...ali...com a luz por detrás de ti ?"

A pergunta inesperada apanhou-a de surpresa.
"Ali?"...como?...nunca fiz nada assim...como queres que faça?"
E, em bicos de pés, foi colocar-se diante as duas enormes portas de vidro que
davam acesso à varanda do quarto.

"Põe-te ao meio das cortinas...isso mesmo..Agora...não olhes para mim,
nem para câmara...isso...faz aquele teu ar...meio envergonhado!"
Ele ria-se dela, das expressões dela, das faces rosadas dela.

"Já está? Puxa, parece está uns 45º aqui dentro!"

"Yep...e ficaste...linda! A foto está espectacular! Já mando para ti."
Sim, realmente o enquadramento tinha ficado perfeito.

"Oh amorrr...vais ficar a olhar para o telemóvel?"
Voltará a sentar-se do mesmo jeito e a provocação ganhara força.
Toda ela emanava calor e tesão.

Levantou-se da cadeira, o nó da toalha cedendo ao movimento brusco,
o mesmo atirando-a de encontro aos vasos de barro floreados.
Estava ansioso por mergulhar nela.
Estava desejoso para lhe dar o que ela queria.

Aproximou-se.

Ela continuava sentada, agora de mãos nas ancas,
sorrindo o sorriso de uma garota traquina.

"Então miúda? Não é de quatro?"- arfou, soltando um suspiro cativante.

"É só um cadinho amor...deixa-me prová-lo primeiro..."- levantou os olhos até os dele.

Riu-se -"Tu gostas mesmo dele!"

"Ai como gosto amor...Gosto mesmo muito muitooo dele!"