segunda-feira

Reencontro



Sentia-se trémulo e esgotado.
Mal conseguia acreditar.
Após tanto tempo, ela estava ali, imóvel, como uma imagem barroca que não conseguimos traduzir num só olhar, mas apenas admirar, naquele momento, pela beleza que vemos.
Afagava os cabelos na tentativa de acalmar a respiração, mas, ao encostar a mão nela, logo se repreendia pois não conseguia manter-se inalterado.
Esfregava as mãos levemente nas dela e sorria,
como uma criança que ganhara aquele brinquedo tão ansiado.
Então, entretém-se a contornar partes do corpo com as mãos, desejando poder possui-la outra vez, ao mesmo tempo que as lágrimas lhe escorrem pelos olhos.
Era madrugada alta.
Havia o barulho de carros indo e vindo, a prazos não contabilizados, um cão desesperado que gania, dando lugar a um uivar que lhe percorria a espinha provocando calafrios, e sobretudo, o barulho ensurdecedor de gotas grossas de chuva no telhado.
Não receava que isso viesse a interromper o descanso daquela mulher e quebrar, como um cristal que se partiria em mil pedaços, o encanto daquele momento, que por seu desejo se tornaria eterno.
Ah, como era deliciosamente santa e profana a sua presença naquele quarto pobremente mobilado. Ainda conseguia ouvir os risos ecoando pelas dependências da casa, passos macios arranhando os azulejos, corpos famintos roçando
entre lençóis cheirosos e engomados.
Reinava o mais absoluto silêncio, mas no seu íntimo, haviam vozes, muitas vozes, e tantas vozes criavam uma espécie de mistura de alegria e tristeza.
Alegria porque ela, agora, pertencia-lhe, e tristeza, pois ela partira.
Sentou-se à beirinha da cama e contemplou-a mais uma vez.
Que cenário magnifico, e como era engraçado as cores, como que uma espécie de mar, um véu da natureza, que a cobria, que invadia todo o espaço, que tornava o quadro perfeito e harmonioso, quase como que premeditado.
Reflectiu sobre esse ultimo pensamento.
Não, não tinha desejado isso.
Não tinha acontecido assim.
Tinha visto a alegria nos olhos dela, o riso aberto e meigo quando o viu à porta, ramo de rosas multicolores numa mão, chapéu-de-chuva na outra, e um “boa tarde miúda” meio engasgado pronunciado entre beijos e abraços repentinos.
Fora como ele tinha imaginado, como tinha projectado o dia de a reencontrar, como tantas vezes tinha sonhado!
Depois, as palavras prisioneiras de anos desataram a correr pelo ar, as confissões fizeram-se ouvir, os perdões deram lugar ao amor e sem se aperceber, quando acordou ao lado dela, a tarde já dava lugar à noite tempestuosa.
Porquê falar-lhe do amanhã? Porquê?
Porquê estragar toda a envolvência de um momento tão especial?
Porquê pressioná-la como o já o fizera noutros tempos? Porquê?
Levantou-se pesadamente e dirigiu-se à kitchenete.
Trouxe de volta um pano húmido e agachou-se para proceder à limpeza cuidadosa do parquete. O vermelho vivo devolvia-lhe com toda a clareza aqueles instantes fatais, o salto repentino dela no meio de um grito de discórdia, numa tentativa de abandonar a cama quente que partilhavam, a frase “vou mas é tomar um duche, tu estás doido!”, o trambolhão no chão húmido...

Ajoelhou-se, e colocou o queixo em cima do colchão a escassos centímetros do dela.
A palavra destino encheu-o de raiva.
Se assim era, quem poderia ele culpar, questionar, magoar...odiar??
Teve medo da resposta.
Levantou-se e debruçando-se sobre ela, tapou-a.
Seguidamente foi lavar as mãos.

Fechou a porta do prédio atrás de si, pôs as mãos nos bolsos e saiu de encontro à tempestade que tomava conta da noite fria e escura que o aguardava.
Em poucos instantes o céu molhava-lhe o rosto, cabelos e corpo, sentia-se extasiado!
E agora?
Que rumo?
Destino.
Pensou.
Queria vingança.
Queria vingança de quem a magoará e perseguira todos aqueles anos,
de quem não consegui viver sem ela,
de quem a tirara dele para sempre!!

Sorriu e iniciou a sua caminhada pela encosta abaixo.
Não tardaria mais do que dez minutos até chegar ao posto policial.
Uma vez lá, diria a todos,
que fora ele,
O culpado !

sábado

Pausa para Amar



O quarto iluminava-se apenas pela luz dos relâmpagos que soavam no exterior.
As roupas encontravam-se espalhadas pelo chão.
Franziu a sobrancelha perante esse detalhe, detestava coisas fora do lugar.
Soou outro trovão, mais alto e perto do que os outros, acompanhado por uma rajada de vento que atirou as pesadas gotas de chuva contra a janela de vidro.
A figura na cama moveu-se, atraindo a sua atenção.
Sim, ela era a razão de sua falta de atenção a ‘pequenos’ detalhes como aquele.
Mais um relâmpago iluminou o quarto, intenso e passageiro, mas suficientemente longo para que pudesse ter um vislumbre do que tinham desfrutado há poucos minutos.

Curvas pronunciadas, um lençol preto a escorregar pela pele clara, do mesmo modo que as suas mãos haviam feito há pouco.
Agora, não haviam gemidos a escapar daqueles lábios femininos,
ou o seu nome sendo murmurado de maneira a fazê-lo perder todo o controle de que se orgulhava tanto em possuir.
Levantou-se lentamente da cadeira aveludada e aproximou-se da cama com passos felinos, os olhos percorrendo a sua amante adormecida, e a maneira como
o lençol cobria apenas parte do seu corpo nu.
A sua expressão suavizou-se quando percebeu o modo quase infantil como ela abraçava a almofada. Aquele pequeno gesto era a única coisa infantil nela.
Sentou-se na cama, ainda observando cada traço com atenção. Não era como se a nunca tivesse visto antes, ou mesmo admirado os longos cabelos escuros, que agora jaziam espalhados sobre o lençol e que naquela pouca luminosidade
pareciam ser da mesma tonalidade.
Inclinou-se sobre ela e inspirou o perfume inebriante, enquanto os seus dedos se afundavam na massa sedosa de cabelos.
Mentalmente dizia que estava apenas deixando-a mais confortável ao afastar aquela mecha teimosa, e não, cedendo ao desejo de tocá-la mais uma vez.

Ouviu-a murmurar o seu nome novamente.
O mesmo tom cativante que ouvira antes naquela noite, a mesma necessidade e desejo de tê-lo o mais perto possível. Deslizou o polegar pela maçã do rosto dela e sentiu-a estremecer a seu lado, ficando sem saber ao certo, se por a ter tocado, se pelo barulho da tempestade.
Ficaram assim por algum tempo, o silêncio quebrado apenas pelo som da chuva contra as vidraças e as suas respirações.

Parecia tão natural estar perto dela, sentir o seu toque e tê-la a seu lado, que perder esse breve contacto era quase doloroso.
Viu a expressão dela endurecer, quase uma cópia de sua própria reacção e o corpo quente afastar-se do seu.
Impulsionado por algo forte, que não entendia, ou queria nomear, baixou os lábios sobre os dela, as suas mãos deslizando pelas costas nuas acima, puxando-a contra si.
O toque delicado no seu peito, ao invés de afastá-lo, transformou-se num abraço quando os braços dela enlaçaram o seu pescoço. O beijo, delicado a princípio, tornara-se cada vez mais exigente, enquanto os corpos se moldavam, derretendo-se lentamente para se encaixarem melhor, um no outro.
Pensar era, de facto, algo desnecessário quando as acções falavam mais alto e quando as suas mãos tomavam vida própria, afastando o lençol do corpo delicado, colado ao seu.
Gemidos e suspiros enchiam o quarto.
Surpreendeu-se ao reconhecer a sua própria voz a chamar por ela enquanto lábios escaldantes e aquosos devoravam os seus em resposta a suas provocações.
O perfume feminino parecia penetrar no seu corpo cada vez que inspirava em busca de ar, o corpo dela circundando o seu, gemidos a ecoarem em sintonia.
As suas mãos deslizavam pelo corpo feminino como se procurassem decorar cada curva, cada ponto delicado que a fazia suspirar de prazer e murmurar seu nome como uma suave melodia, algo conhecido e misterioso, que o incentivava a continuar com sua exploração apenas pelo prazer de ouvi-la por mais algum tempo.
Os toques suaves na sua pele transformavam-se em pequenos arranhões nas suas costas, puxando-o contra o corpo que correspondia ao seu com a mesma urgência do desejo que percorria as suas veias.

Adivinhava a suave promessa do êxtase.
Podia senti-la a perder o controle, pequenos gritos deixavam os seus lábios, o corpo contorcia-se sob o seu em busca da mesma sensação inebriante. Apertou os quadris femininos, puxando-a contra si enquanto o seu próprio corpo se afundava no dela uma última vez.
Fechou os olhos, os lábios procurando pelos dela.
Os corpos trémulos fundiam-se plenamente enquanto desfrutavam do prazer intenso que tanto ansiavam, apagando qualquer pensamento persistente.
Deixou as mãos macias escorregaram pelas suas costas húmidas de suor, deu conta da voz feminina ainda rouca, murmurando o seu nome de forma quebrada, sua respiração ofegante, misturando-se com a sua.

Levantou a cabeça, observou a expressão relaxada e satisfeita no rosto dela e beijou os lábios inchados antes de se colocar de lado, puxando-a contra si.
Permaneceram assim, os corpos enroscados um no outro, os lençóis cobrindo-os parcialmente, enquanto a chuva continuava a cair, mais brandamente, do lado de fora.

Olhou o tecto, observou as sombras que se moviam sobre a superfície lisa formando desenhos sem definição, eram apenas mais uma forma de lembrá-lo do pouco tempo de que dispunham. Queria tanto desfrutar daquele momento...o máximo possível!
Abraçou-a com mais força.
Os braços delicados contornaram a sua cintura e o corpo curvilíneo aninhou-se contra o seu, enquanto um suspiro satisfeito escapava.
Tocou o rosto adormecido, tentando lembrar-se do que o havia feito afastar-se dela da primeira vez, algum pensamento perdido no meio das sensações tempestuosas que ainda percorriam seu corpo de vez enquanto, destruindo a sua capacidade de raciocínio.
Não precisava disso mais. Não queria mais isso.
Aquela sensação de plenitude, como se após uma longa jornada houvesse finalmente encontrado o que lhe faltava, era tudo o que precisava.
Estar no controlo ou preocupar-se com a sua rotina quebrada, parecia, agora, completamente sem sentido.

Deixaria tudo isso para o amanhã, quando ela desaparecesse, deixando-o no escuro novamente, devolvendo-o apenas, à sua velha e conhecida rotina.