quinta-feira

Mea Culpa!



Se Tu derramas lágrimas,
a culpa é minha!
Estás dentro de uma caixa,
lembra-me,
de conserva!

A dor que sentes,
deve-se ao resíduo ácido
que se esvaziou da minha boca!
O aprisionamento penetra nas artérias,
e a solidão consome toda a alegria!

Mesmo assim,
a tua doçura confunde
todo meu sangue,
fecunda a minha alma,
envolve o meu coração.

Choro!
Sal!
Raiva!
Impotência!
À quanto tempo tento
inverter a rosa-dos-ventos,
os métodos comuns e sabidos
as consequências de acções prováveis?

Sim!
Os nossos fantasmas reaparecem!

As pessoas permanecem loucas,
os lugares inóspitos,
o tempo amigo matreiro,
a noite pobre consolo...

E eu,
que te amo,
no teu pequeno espaço,
continuo a ser breve.
Uma manhã,
tarde,
noite,
até meros minutos!
Um carinho,
abraço,
beijo,
momentos de amor

...bocadinhos de bocados...

teu esboço,
teu Amor Desmedido
teu castigo...

sexta-feira

Tempestade ( Fim )


A mão dele procurou o corpo nu dela por toda a cama, mas não o encontrou.
Vagarosamente abriu os olhos.
A tempestade havia passado.
Um vento suave entrava por uma brecha da janela, cuja tranca se partira.
Ela não estava no quarto.
Lembrou-se repentinamente da noite.
Da inimaginável noite que vivera !
Saltou da cama e começou a vestir-se apressadamente.
Fora tudo tão maquiavélico com a Carolina, mas tão bom, como nunca antes o tinha sido.
Mas e a Cristina?
Como tinha ele conseguido fazer tudo aquilo na noite em que ela morrera?
O nascer do dia trazia-lhe uma manta pesada de culpa e remorso,
forçando-o a sair do quarto para procurar um local mais arejado, sentia que ia vomitar.
Uma inexplicável sensação do macabro tomou conta dele.
Que noite horrenda! Que noite maravilhosa...A melhor e também a pior.

Desceu as escadas.
Também não estava na sala.
Estava prestes a ir até a porta da entrada quando os seus olhos, por mero acaso,
repararam numas portas duplas, meio abertas.
Estranho, pensou, não tinha dado por elas antes.
Chegado ao pé, deteve-se diante das mesmas.
Dali, conseguia avistar o começo de uma escada que mergulhava à esquerda, na escuridão.
Resolveu descer.
Talvez a Carolina estivesse lá em baixo no que aparentava ser a cave da velha casa.
Cautelosamente, com cada pé a apalpar o degrau seguinte, Miguel era invadido novamente,
como acontecera na noite anterior, por uma sensação estranha, a qual ganhava mais razão de ser à medida que a temperatura baixava e o frio, a par do silêncio, tornavam aquele destino cada vez mais inquietante.
Havia pouca luz no piso e a sua origem não lhe era perceptível.
No entanto, pode distinguir algumas tochas nas paredes que formavam um corredor largo que deu lugar a um salão de paredes altas que parecia ter alguma coisa no centro, como uma mesa, que as tochas extintas guardavam.
Tornou a chamar pela Carolina.
Que diabo faria ela ali ?

Percebeu então que a pouco luz presente emanava das próprias paredes,
levando-o a pensar que se tratava de um tipo de rocha ou minério invulgar.
Progressivamente, os seus olhos adaptavam-se à luz e Miguel foi surpreendido
pela estranha natureza das paredes.
Aproximou-se e deixou correr a mão pelas irregularidades.
Havia um nicho entre duas das tochas.
Uma pilha de crânios, humanos e não humanos, preenchia-o.
Alguns tinham rolado para fora e ao caminhar, quase pisou neles.
O salão estava a ficar, cada vez mais, perceptível.
Os seus olhos fixaram-se na parede do fundo dominada por uma enorme pintura que,
tinha sido executada precisamente em cima da própria parede.
Miguel olhava a estranha figura incrédulo.
Estava sentado num trono dourado.
Tinha pernas peludas com cascos no lugar de pés e um torso humano enorme,
musculoso, com um coração de fogo ardendo no peito nu.
Na sua mão direita, humana, segurava uma imponente espada.
Olhos escuros, mas meigos, irradiavam de uma cabeça de bode.
Voltou-se para o que havia pensado ser uma mesa.
Tinha uma base esculpida com inúmeros anões deformados segurando uma pesada
laje de mármore. Manchas marrom-avermelhadas concentravam-se no centro da laje,
ainda que várias carreirinhas do mesmo tom seguissem para as bordas,
adivinhando-se o seu local de queda e impacto ao olhar para o chão de pedra.
O seu coração começou a bater mais depressa embora soubesse que
não havia razão para ter medo.
Aquela casa tinha sido erguida sobre um local onde algo terrível acontecera,
à muito, muito tempo atrás.

A parede da direita também tinha um nicho.
Enfiou a mão e agarrou num objecto relativamente grande e pesado, puxando-o para fora.
Era um livro.
Ao retirar o livro de capa dura, não consegui impedir a queda da espada que se encontrava inadvertidamente escondida por debaixo.
O som do metal quebrou o silêncio e Miguel assustou-se com a corrente gerada de ar gelado.
Colocou o livro sobre a mesa a pegou na espada.
Havia uma substância seca avermelhada na lâmina. Não era difícil imaginar o que seria.
Ao erguer os olhos, deu conta que na parede oposta, sobre as portas por onde tinha entrado, outra pintura tinha sido elaborada.
O seu coração contraiu-se violentamente, suor frio cobriu-lhe o corpo todo.
Era o rosto dela ! Carolina!
Caiu de joelhos.
Estava deveras confuso.
O seu coração corria a um ritmo louco e ele contudo sentia-se como que anestesiado!
Carolina era retrata como um anjo de asas brancas e rosto delineado e sereno,
mas ele reconhecia o olhar penetrante e o sorriso cativante, meio escondido,
que ela tinha evidenciado.
Sem duvida, era muito bela. Encontrava-se no local vazio e frio.
Pela primeira vez, Miguel teve aquilo que alguns chamariam de déjà vu.
Levantou-se e colocou a espada ao lado do livro.
Algumas palavras tinham sido escritas na capa de couro, em alguma língua antiga,
mas estavam desgastadas pelo tempo.
Abriu-o e sob a luz tremula, começou a desfolhar.
Folha após folha, olhava os desenhos com espanto e não demorou muito a perceber que aquele livro contava a história de um Anjo e um Sagitário e de um terrível acontecimento.
O seu autor tinha escolhido o meio mais primitivo e mais estendível de todos para contar a história deles – o desenho.

O tempo já não tinha qualquer importância e sua presença ali tornara-se quase obrigatória.
Sabia que não era coincidência.
Sem ligar a horas, Miguel estudava o livro e concluía que um grande amor tinha resultado numa grande tragédia. Pelo que conseguia perceber, o Anjo tinha enfurecido alguns dos deuses porque não lhe era permitido amar, muito menos um sagitário, ser menor e subserviente aos deuses.
Por tal amor, ela fora perseguida e morta num horrendo ritual, naquela mesa, ali mesmo,
tendo a sua alma sido banido para sempre, ficando impedida de contactar com outros seres.
O livro era, depois, dedicado à caça que o sagitário fizera aos assassinos da sua amada, e Miguel não pode deixar de ficar incomodado com os diversos desenhos representativos das diversas execuções levadas a cabo, igualmente naquela mesa.
Que grande amor, pensou, só um amor assim poderia tornar aquele sagitário mais forte do que os deuses.
Ao chegar às ultimas folhas, reparou que os desenhos estavam menos bem conseguidos, como se a mão do autor tremia e quando deu conta que o ultimo desenho do género mostrava o suicídio do próprio sagitário, percebeu.
Percebeu o livro, os crânios, a espada, e as pinturas...
Tudo em memória dela, em memória de um amor proibido, tudo por vingança...

Voltou a ultima folha … e deu um salto para trás enquanto solto um grito desajeitado !

Tinha dado com algo escrito...frases actuais...palavras em português corrente!
Um calor arrebatador invadia o salão e das paredes emanava uma luz replandescente.
Miguel foi até à mesa e olhou o livro.

Todos temos o nosso destino, o dela foi trazer-te até mim.
Não me reconheceste, meu amor ?
Olha a tua espada através do teu coração !
Grita o meu nome !
Vem ter comigo!
Este é o nosso momento!
À tanto tempo...que te espero...

Sempre TUA
Carolina


Uma estranha serenidade tinha tomado conta do Miguel.
O salão transformara-se no olho de uma tempestade violenta.
No entanto, ele permanecia calmo.
Pegou na espada,
Levantou-a diante dos seus olhos e viu o seu reflexo,
e viu o reflexo do sagitário!
Uma súbita felicidade contagiou-o.
Miguel deitou-se sobre a laje de pedra e fechou os olhos.
Ela estava ali, a pairar sobre ele, sorrindo aquele sorriso contagiante...
Ergueu a espada na vertical.
Sim, meu amor, agora...para sempre !

E a espada caiu !
O Amor vencera.
E a Tempestade...terminou...

segunda-feira

Tempestade ( 2ª Parte )



Quando ele entrou, ela deixou as mãos descerem frouxamente e levantou os olhos,
para ele. Eram de um negro profundo.
Fechou a porta devagar.
Através das janelas e vindo de várias direcções e lugares, os relâmpagos
persistiam com a brincadeira das sombras.
No rosto dela, não viu surpresa, medo, tristeza ou qualquer outra coisa.
Caminhou até ao sofá à sua frente e sentou-se.
Olharam-se.
Ela esperou que ele falasse.

O que estava a fazer lá fora, no meio da estrada, com esta tempestade?
- perguntou, angustiado.

À espera de uma boleia - disse ela, com um sorriso leve, tímido,
baixando a cabeça.

Boleia? Está vestida para...vai a alguma festa ?

É...ía...quer dizer...fui - confirmou ela, olhando-o através de cabelos molhados.
Mas trocaram-me por outra pessoa.
Meti-me no carro e fugi de lá...queria ficar bem longe dele e de
toda aquela gente hipócrita.
Acabei por ficar sem gasolina...e logo no meio desta chuva.
Suspirou.
E você, Sr. …?

Ferreira...Miguel Ferreira...

Então, ela, estendeu-lhe a mão.

Mas ele hesitou. Estava furioso. Tremia de raiva.
Recolheu a mão.
Carolina Bátista. Mas pode chamar-me Carol - disse sorrindo.
Posso tratar-lhe por Mike?

Comportava-se como se nada tivesse acontecido!
Ele não pode retribuir seu sorriso, estava loucamente irritado!
Está morta! A minha namorada está morta!
Será que dá para entender?
Não se apercebeu de nada??
Não está boa da cabeça, ou quê ?? - explodiu.

O rosto dela mudou para uma expressão de surpresa e tristeza.
Não...Eu não sabia…- disse entre lábios trémulos.
Então...era você...na estrada...o acidente!
Eu matei alguém?… eu matei!..eu....
A última frase foi pouco mais que um sussurro pronunciado
por olho humedecidos.

Isso, quebrou a raiva.
Sentiu-se mal.
Claramente, ela não estava bem, devia estar em estado de choque, pensou,
e foi sentar-se ao seu lado no sofá segurando-a suavemente pelos ombros
enquanto lhe procurava os olhos e dizia - não, não se culpe, foi um acidente,
acontece, depois falamos com mais calma...Vai ver...
Mas ela tinha deixado cair a cabeça de encontra ao seu peito desatando a chorar,
provocando a sua imediata reacção, a de a abraçar.
O contacto com o corpo dela e o cheiro que o rodeou, fizeram lhe sobre-saltar,
algo estava muito errado, como podia ele sentir, daquela maneira, a pele dela...
a suavidade do seu cabelo longo?
Sentiu-se envergonhado, quase agoniado, como?
Detestando-se, empurrou-a para o lado e caminhou até as grandes janelas.

Amava-a? - perguntou, após alguns minutos de silêncio, de pé, atrás dele.
Não fique assim...
Foi um acidente! Você mesmo disse...Eu nunca...

Voltou para encará-la mas logo perdeu a força de resposta.
Ela olhava-o com olhos sedutores.
Temeu que ela tivesse notado o que estava a acontecer dentro dele,
era como se ela conseguisse ver a luta que ele já travava.
Era uma sensação forte, esquisita, algo que não conhecia, algo que o deixava perturbado.
Estaria a ficar assustado?

Os trovões rachavam o céu, a escuridão era quase total mas a chuva caía
com menor intensidade.
Em breve a tempestade daria lugar à imensidão da noite vazia e gelada.
Poderia então voltar ao local do acidente, era necessário tratar de tudo, chamar a policia...isso...precisava de encontrar o telefone...o telemóvel...deu conta que o perderá
..ou estaria lá...

Ela quebrou os seus pensamentos desordenados e aflitos.
Está frio aqui. Vamos acabar por apanhar uma pneumonia com estas roupas molhadas.

Haveria uma segunda intenção por detrás daquelas palavras?
Deu uma olhadela na direcção da lareira e viu o cesto largo e deformado de verga escurecida meio cheio de lenha. Levantou-se e procurou algo com que fazer lume, mas em vão.
Lembrou-se das acendalhas que a Rita tinha comprado no fim de semana anterior
para uma noite romântica...para a qual ele não tivera tempo...
A imagem dela, de repente, assombrou-lhe.
Se calhar nada daquilo era real, se calhar não passava tudo de
um sonho singular e diferente...

Um trovão tremendo sacudiu as janelas como se de folhas de acetato se tratasse.
A tempestade, afinal, tinha vindo para ficar e o vento atirava a chuva de forma
impiedosa para todo lado e lado nenhum.
Miguel sabia o que viria a seguir. Já tinha vivido situações similares.
Um tornado podia estar a caminho!

Esta casa…Ela assusta-me. Carol encolhia os ombros e abraçava-se.

Parece desabitada faz tempo - disse ele. Mas nenhuma casa alguma fez vez mal a alguém.
Agora, quem vive nelas...enfim...
É melhor descansar-mos. Vai ser uma noite muito longa.
Vou só trancar as portadas das janelas e as portas. Evite os andares de cima.
Veja se há uma cave, um local onde possamos ficar recolhidos em segurança até isto passar!
Logo depois de o ter dito isso, arrependeu-se.
A casa era enorme e escura.
Mas, Carol tinha aceite a sua sugestão e saiu do salão sem qualquer sinal de contrariedade.
Concluiu a ronda pela casa e chamou por ela, dando-se conta que fazia tempo que a não ouvia.

Aqui amor, estou aqui.

De imediato um arrepio percorreu-lhe o corpo.
Não podia ser, os acontecimentos bizarros estavam a produzir os seus efeitos.

Vem amor...porque demoras tanto??

Mais uma vez sabia que devia ir, ir embora daquele sitio...mas não conseguia
...era demasiado forte, a sensação de medo e inquietude produziam um bem estar que o dominava, que o impeliam a ficar...a ir ao encontro daquela estranha...

Achou as escadas e desceu ao piso inferior. Os seus passos eram leves e silenciosos.
As escadas davam lugar a um corredor relativamente estreito com cerca de 30m,
mal iluminado pela luz que escapava por entre a fecha de porta entre aberta.
Um quarto grande com uma cama de casal próxima da janela foi revelado pelas escassas e já gastas velas que ardiam enraizadas nos castiçais que também já ostentavam um uso secular..
As teias de aranha deixavam-o desconfortável, mas duvidava que pudesse encontrar um só canto livre delas em toda a casa.
Ela estava sentada, de costas, uma visão deslumbrante.

Ao rugir do trovão seguinte, e ela caminhou até ele e os seus braços envolveram-lhe o corpo,
tão forte quanto podiam.
Por favor - choramingou ela - Fica comigo. Estou com medo.
Mal ele lhe acenou com a cabeça, ela pendurou-se no seu pescoço e beijou-o com fervor.
O que sentiu não poderia ser descrito.
Mas, no momento em que os seus lábios o deixaram, a terrível imagem de Rita a jazer no carro, ensanguentada, imóvel, tomou-o de assalto.

Não gostaste? - perguntou, entre surpresa e desapontamento.

Olha...gostei...mas não podemos…

Não respondeste, amavas ela?

Isso não tem nada haver, isto não pode...

Amavas?

Estávamos juntos. Eu não posso…

Amavas?

O que que isso interessa?
Miguel tentava resistir, pesava-lhe a consciência, os seus princípios, força de vontade,
sabia que estava prestes a desmoronar diante de algo que o ultrapassava.

Eu prometi nunca trair a sua confiança - disse como último esforço.

Miguel...ela está morta - disse Carol, baixo, mas enfaticamente.

Não sabia mais o que pensar dela.
A garotinha de há momentos, era agora uma mulher calma, firme e...dominadora.

Nós estamos vivos - continuou ela - E pertencemos um ao outro.
Como sempre foi. Desde o primeiro instante, desde sempre.
Não podemos mudar isto !

O eco das suas palavras tomavam conta do lugar, enfraqueciam a sua vontade,
apelavam à sua virilidade.
Ela vencera, e ele sabia disso.

Foi devagar até a cama, sentou-se nela e começou a acariciar a coberta.
Uma nuvem de pó elevou-se, fazendo-a parar, sorrindo maliciosamente.
Com gestos fluidos e sensuais, começou a despir-se, olhos sempre grudados nele, boca murmurando palavras doces mas incompreensíveis.
Miguel foi-se sentar na cama e contemplava aquele bailado quente e cativante.
Um corpo belo e esguio contorcia-se ao ritmo de uma musica tempestuosa e ele reparou como ela parecia ficar cada vez mais excitada.
Já totalmente nua, veio ter com ele, de pé, em cima da cama, sorriso aberto, mãos a puxar o cabelo para trás.
Miguel sabia que nunca voltaria a viver um momento semelhante.
Olhava o corpo sensual dela, inspirava o aroma que vinha dela, deu conta do fiozinho brilhante
que corria por uma perna abaixo, e sentiu um desejo desmedido quando ela se ajoelhou
à sua frente, mamilos erectos, a pedir a sua boca.

Ama-me!

Um estrondo atingiu o lugar e tudo ficou iluminado.
Sentiu-a em cima dele, sentiu-se viril e duro.
Sentiu-a a enterrá-lo bem dentro dela.
Uma dança frenética e selvagem tomará conta dos dois corpos que se perdiam,
um no outro, prazer atrás de prazer, fusão perfeita de amor, desejo feito paixão.
Miguel deixou-se levar, não importava procurar o sentido de tudo aquilo.
O que estava a sentir não era descritível.
Queria amá-la!
Virou-se para cima dela e viu como ela lhe sorriu enquanto o recebia.

A noite ia ser longa...e muito molhada...mas a tempestade, essa, estava fora de controlo.
Ali mesmo...

(cont.)

Tempestade ( 1ª Parte )



A tempestade tinha-se intensificado rapidamente e a visibilidade era mínima.
Pela terceira vez, disse que ia parar, mas ela insistiu que continuassem,
argumentando que se quisessem dormir no carro, então,
deveriam ter ficado onde estavam.
Achou-lhe graça, sobretudo à forma como ela franzia a testa e abria os olhos
para fazer jus ao seu intento, e era verdade que àquela hora a estrada estava completamente deserta, o que lhe retirava grande parte do perigo...pensou.
Havia apenas a estrada, a chuva, e a escuridão.

E de repente...!
...uma jovem num vestido branco!
...ajoelhada no alcatrão!
...cabelo comprido!
...Depois!!
...braços estendidos à frente!
...uma expressão apavorada no rosto..!
...exactamente ali!
...em frente !!


Pisou com toda a força no travão enquanto virava o volante desesperadamente...!
...um ensurdecedor trovão abafou o grito que ele não conseguiu distinguir...
...nem tão pouco sabia se tinha conseguido desviar-se...
...a sua manobra tinha colocado o carro fora da estrada...
...a deslizar perigosamente na lama...
...como se uma mão invisível o estivesse a empurrar naquela rota fatal...

Reconheceu o grito que se seguiu.
Deu conta do seu próprio grito.
Então...tão rápido como tinha começado,
...aquilo acabou...
...abruptamente...
...com um tremendo impacto !

Estava escuro.
Mais escuro que antes.
Não havia qualquer luz.
A chuva fustigava o seu rosto através do pára-brisas quebrado.
À sua direita, um braço ensanguentado, imóvel, projectava-se
do meio de um monte de metal retorcido.
Gritou por ela !
Freneticamente, procurou por sinais de vida.
Nada!
Segurou-lhe na mão...
Queria gritar...pedir ajuda...fazê-la acordar...sair daquele pesadelo ..!

O céu, iluminado de riscos descontrolados, delineou a sombra assassina.
Estava ali, diante dele, imponente, impiedoso.
Durante um longo minuto, fixou o olhar inflamado no carvalho imóvel.

Os relâmpagos cortavam a noite novamente e ele conseguiu vislumbrar
uma velha casa de madeira à distância, não muito longe, e com alguma certeza...
alguém a correr por entre as árvores...
O próximo relâmpago não tardou e por um breve momentos, viu-a de novo...
Era ela!
Era a rapariga que tinha atropelado ! Atropelado ?? Como...?

Com ira crescente, arrancou o cinto de segurança, forçou a abertura
da porta e com algum esforço, rastejou para fora da viatura acidentada.
Ergue-se e sem perceber começou a andar na direcção da casa.

Novo relâmpago.

Sim! Tinha a certeza! Era ela!
Dessa vez, pareceu-lhe que tinha olhado para trás e que o tinha visto...
mas rapidamente esgueirou-se pelos enormes portões da velha casa,
subiu uns quantos degraus e desapareceu...

Seguiu-a...instintivamente...pensamentos confusos a percorrem-lhe
a mente enquanto avançava pela mata...ódio...alívio...estupfacção...
Poderia realmente culpá-la pelo acidente?
Provavelmente estaria tão perturbada quanto ele...e apesar de tudo,
...estava viva...


Numa corrida cambaleante, passou entre os portões balouçantes e
alcançou os degraus da entrada, onde, sem saber exactamente porquê,
deteve-se, hesitando.
Algo lhe dizia para correr de volta para carro...estava prestes a fazê-lo
... mas… e..?
Tinha de encontrá-la...tinha que falar com ela!

Girou a maçaneta ferrugenta.
Com uma surpreendente leveza,a pesada porta abriu-se.
A inquietante sensação cresceu.
Dobrou-se ,ajoelhando-se.
Não conseguiu evitar os vómitos que tomavam conta de si.
Reparou que sangrava abundantemente do joelho.
Subitamente, a frequência dos relâmpagos aumentou e
uma luz intensamente sombreada, de clareza sobrenatural,
iluminou a grande sala de estar.

A rapariga do vestido branco estava lá, sentada sobre
um enorme lençol branco que deixava adivinhar o sofá que cobria.
Escondia o rosto entre as mãos...mas...pareceu-lhe...que sorria...

(cont...)

sexta-feira

Chuva Cantada




Olhava a chuva que caía com força oblíqua.
Ergeu os ombros, inclinou a cabeça para trás e comprimiu a nuca na
tentativa desesperada de extinguir a dor de cabeça que se apoderava dele.
Fechou os olhos.
Inclinou-se para trás na cadeira e respirou fundo.
Perguntou a si mesmo o que estaria a sentir naquele momento, mas o
barulho ensurdecedor de pneus molhados e o constante martelar
vedavam a possibilidade de qualquer resposta sã.
Levantou-se e escolheu outro lugar onde se sentou, afinal, por vezes o
simples facto de mudarmos de sítio,pode alterar temperamento e emoções.
Voltou a fechar os olhos.
Não pode deixar de sorrir – aquela canção tinha que tocar !
O barulho era,agora, menor.
A voz sensual da cantora tomará conta do local e as palavras cantadas
ganhavam vida própria.

Esboçou novo sorriso.
Ocorreu-lhe que as canções tinham bastante em comum com os horóscopos.
Quase por magia,cada pessoa reconhece e intrepreta-os à sua maneira,como se
de facto fosse possível atribuir uma verdadeira e específica individualidade
aos mesmos. Era mesmo espantoso!
E depois? Que tinha isso de tão mau?
Quem não terá associado a uma canção,ou outra,um determinado acontecimento ?

A canção atingira o ponto fulcral.
Quadros invasores de imagens intensas sobreponham-se, ficavam a pairar por ali...
não havia como evitar...como contornar...
Por vezes conseguiam ser tão reais que ele apurava com facilidade os cheiros
e sons que deles emanavam.

Abriu os olhos.
A chuva tinha dado lugar a um sol radioso.
A canção terminará.
Tocaria outra vez, provavelmente dali a umas horas.
Tocaria durante dias a fio até perder o seu encanto junto dos milhares que apenas
a ouviam como uma qualquer outra canção, estava irremediavelmente condenada a ser guardada por alguns que a nunca esqueceriam, que fariam dela memória cativa
de situações vividas e jamais apagáveis.

Levantou-se e foi até a rua.
O sol ameaçava fugir e esconder-se.
O transito fluía.
Cães ladravam.
Conversas de esquina.
Crianças a brincar.
Era só mais uma manhã de um quotidiano ritmado ao som da vida.

Na fila de transito que se formará por instantes, um carro atraiu a sua atenção.
Apercebeu-se das lágrimas que nasciam debaixo de uns óculos grandes e escuros
e que não paravam de correr desalmadamente.
Franziu a testa, semicerrou os olhos.
Aquela canção...aquela canção tocava...dentro daquele automóvel..!

Sentiu-se triste.
Não conhecia quem chorava.
Mas entendia.
Pena era, que nem sempre a mesma canção conseguiria trazer o sol
a quem a escutá-se,mesmo depois,
de uma chuva cantada.

sábado

Fallen Warrior



A wounded warrior is still a warrior!!

...wait

a wounded warrior is still a warrior??

...or

are these few words only meant to
calm the smell of oncoming death?

Among so many wounded, can one trick death
into choosing, into letting one live ??


Slowly he rose to his feet, thoughts linging.
Torn, battered, hollow.

Twilight was near.
Time was running.
He wished for something else...
an easy escape...perhaps...
but in the darkness
he could see he was surrounded.

Weapons broken.
Integrity forsaken.
All to let go
Yet...
So much to reconquer!

"Battle of a lifetime"
...some would say...
There would be losses,
there would be pain,
much anger,
dispair.

Destiny?
maybe,
maybe not,
way out? - NONE!

Stand your ground!
You may loose all,
just don't loose yourself!


...he felt a reassuring touch
on his shoulder.






quarta-feira

Remoinhos de Prazer



Insinuava-se, em gestos lentos
como a brisa de um sopro de vento.
Sorria, linda e ousada
como o reflexo do seu próprio corpo desnudado.
O perfume da sua pele precedia-a,
como prelúdio de um instante que está para chegar.
O fogo da sua alma
incendiava o ar que se aquecia nela.
Da sua voz gemia música que abraçava as notas
fazendo as palavras gritar com o seu próprio prazer.

Ele, espectador atento,
limitava-se a esperá-la,
esperando pelo seu tempo.
Deixava o olhar deslizar por todo o teu perfil,
como um suave traço de contorno,
um risco imaginário com a ponta dos dedos.
Apurava os sentidos,
retirando dela o brilho que lhe ofuscava o olhar
e o calor que aquecia a pele.
Inalava-a,
em cada inspiração,
como se a houvesse dissolvido
naquela atmosfera contagiante.

E depois...

Depois quando os corpos se encontravam,
o universo recomeçava com uma explosão de energias
que iluminam,
o infinito vazio,
de cor!
O tempo começava do zero,
como se antes não existisse um único segundo!

As bocas calavam-se num beijo longo
e no olhar nasciam as primeiras galáxias,
que ficavam no espaço,
perduravam e rodopiavam,
inesquecíveis,
remoinhos de prazer...

segunda-feira

Roupa



Era de madrugada.
Levantou-se, dirigiu-se à cozinha para beber água.
Não tinha sede mas beber água era a desculpa para sair da cama
e decidir o que fazer a seguir.
Ocupar-se e não pensar!
Não tinha sono mas os olhos estavam como que inebriados por uma espécie de névoa que mais parecia miopia que ia e vinha, que saltava de olho para olho.
Levantou o estore e abriu a janela.
O frio não o teria impedido de fumar um cigarro.
Mas, ele não fumava...
Sorriu.
O frio, que era tanto, não lhe congelou os pensamentos.
Isso queria ele, mas não.

Voltou para dentro, sentou-se em frente ao computador e quis escrever.
Ainda estava gelado. Dois minutos na varanda tinham chegado para lhe gelar a pele, a carne, os nervos, o sangue, os ossos, mas não o pensamento.
Era da roupa, só podia, afinal estava apenas de boxers, meias
e a parte de cima de um pijama.
Olhou para o ecrã do computador.
O que iria fazer? E iria fazer alguma coisa?
Talvez voltar para a cama.
Queria escrever, precisava escrever, deixar sair palavras, palavras atrás de palavras, mesmo que sem nexo algum.
Estava com frio, ainda com muito frio, mas descalçou as meias.
Colocou os pés descalços no chão gelado.
Queria que o frio lhe subisse pelas pernas ao ponto de se convencer de que era melhor ir-se deitar e deixar-se adormecer.
Precisava de escrever mas não sabia o quê.
Tinha tantas, tantas coisas para escrever mas não conseguia escrever nada.
E não era por causa da falta de sono, não era pelo frio da rua,
não era pelo chão gelado nos pés!
Era por causa daquele pijama ! Convenceu-se disso. Tirou-o depressa.
Desligou o computador e de passo apressado dirigiu-se para o quarto.
Abriu o roupeiro e puxou a gaveta do fundo, para si.
Será que ainda lá estava?
Sim!
Devagarinho, retirou de lá uma camisola com mangas compridas.
Agarrou-a entre as mãos, aproximou-a do seu rosto e cheirou-a.
Mesmo antes de chegar ao roupeiro já sabia ao que ela cheirava.
Conhecia tão bem aquele odor, tão bem.
Mas queria senti-lo o mais possível e, por isso, ali ficou com aquele suposto mero pano junto ao nariz.
Deitou-se, abraçando-se a si mesmo, abraçando aquele pedaço de tecido com mangas.
Inspirou profundamente e sentiu-se a aquecer lentamente.
Madrugada.
Gente nos bares, pelas ruas.
Gente a dormir.
Conversas, discussões, risos, cantos, danças, sexo.
Ele, ali, abraçado a uma camisola. Era ridículo.
Mas ele não se sentia ridículo.
Não conseguia escrever nada mas...
Na sua mente começaram a passar palavras escritas...
Da sua alma fluía calor...
Do seu pensamento imagens nítidas...
Não sorriu, não chorou, apenas se abraçou mais um pouco e apertou o tecido daquela camisola, que fora esquecida, uma vez...
Sem frio, fechou os olhos tranquilamente e vislumbrou uma última frase que arriscou sussurrar...

Sabia que ele não viria...
Estava cheia de frio, apesar do aquecedor estar ligado e a porta do quarto fechada.
Tinha a sua companhia ligada.
Sabia que era mais uma noite para passar sozinha...
Abraçou a peça de vestuário que dormitava a seu lado.
Aquele casaco meio esbatido mas tão macio, retinha o cheiro dele, como que por magia, desde aquele dia...
Sorriu enquanto brincava com o fecho, lembrando-se como ele tinha corrido para chegar ao pé dela.
Enterrou mais a face no tecido meigo e sedutor.
Sentiu o calor familiar espalhar-se pelo corpo à medida que imagens sedutores tomavam conta do seu raciocínio.
Pelo menos não fazia o silêncio do costume, o vento castigava
as janelas do apartamento no 6º andar.
Restava sonhar, lembrar, e pedir ao vento que ouvisse e levasse uma última frase que arriscou sussurrar...

"É de madrugada. Sai daí. Vem ter comigo. Bate à porta."

quinta-feira

Farol ( 2ª Parte )



Partira ao amanhecer.
Sabia que tinha de ser assim.
Haviam olhado longamente nos olhos de um e outro.
O amor, dando lugar ao silêncio cumplice, sabia que não ia ser suficientemente forte,
que as circunstâncias e as razões fustigavam os corações doridos e que era altura de ponderarem o futuro que se explanava a partir daquela manhã.

Parou ao fim da colina de onde ainda conseguia observar o farol,
e era como se visse através das suas paredes frias.
Conseguia vê-la, enrolada nas mantas quentes.
Não chorava.
Achava, e odiou este pensamento, que ela sentia uma dor tal, uma perca tal,
que as lágrimas teimavam em não sair, antes, preferiam permanecer escondidas por detrás de um espírito que se julgava fragilizado e abandonado.
Como gostaria de voltar para ao pé dela, abraçá-la de novo, amá-la de novo...
Mas...
O que mudaria?
Não!
Precisava que o tempo tomasse conta deles,
precisava sentir que as suas linhas de vida,
estavam, de facto, fundidas.
Naquela manhã, não vislumbrava outra saída.

Fez a janela do carro baixar e inspirou o ar fresco, pesado e salgado.
Tinha o espírito quebrado.
Mas ele era um lutador!

Saiu do automóvel.
Abeirou-se da encosta.
Olhou o céu, o mar, o farol.
Gritou!
E tornou a gritar!

Teria gritado...palavras...frases...sentimentos...emoções
...esperanças ??
Talvez...um pouco de tudo...
Teria ela...os ouvido??

Voltou para o automóvel e fez descer a capota.
O sol prometia aquecer a manhã invernosa.
O vento secaria as lágrimas que eventualmente ele não conseguisse estancar.
Era outro dia.
Outra manhã.
Sem ela.

Ao largar da embraiagem, pneus cuspindo, ferozmente, arrião soltou,
sorriu um sorriso triste e lembrou-se
- Amar não Basta!

segunda-feira

Farol ( 1ª Parte )



Olhando profundamente o mar, inspirou longamente até não lhe caber mais ar nos pulmões. Reteve-o durante longos segundos, numa tentativa frágil de guardar dentro de si as memórias que nele se avivavam.
Era triste aquela imagem da areia moribunda na calçada.
Felizmente aparecera a nortada, fria e protectora, e sopro após sopro, empurrava afectuosamente cada grão para a praia, para junto dos outros grãos,
num gesto quase maternal.
Contrariado, foi libertando o ar lentamente.
Ajustou o casaco de cabedal sobre os ombros, virou as costas ao mar e dirigiu-se para o pequeno descapotável estacionado junto à calçada.

O carro rodava paralelo à marginal, descontraído, como que
vagueando apenas pelo simples prazer de passear.
Mas era precisamente o contrário.
Inconscientemente aliviou a pressão sobre o acelerador.
Ao longe vislumbrava já a silhueta do farol.
Uma dúvida pairava sobre a sua cabeça, uma incerteza que, nunca como agora, desejou manter inalterada, a incógnita de saber, se ela estaria lá.
A aproximação fazia crescer nele o medo, o receio de uma viagem em vão.
Na verdade nunca seria em vão, pois levaria dali uma resposta, talvez não fosse a esperada, mas não deixaria de ser uma resposta.
A distância ia-se dissipando e a silhueta do farol crescia no cimo da falésia.

Chegara finalmente, e tal como temera, não estava lá ninguém.
Olhou para o relógio, o qual, apesar da sofisticação não possuía a resposta à pergunta que lhe fustigava a mente como uma tempestade marítima.
Estaria ela atrasada, ou simplesmente...?

Saiu do carro e dirigiu-se ao pequeno miradouro.
Não era fácil estar ali sozinho.
O farol tinha um significado muito especial.
Para ele, este mantinha uma relação do tipo amor – ódio com o mar e a luta desigual que travava todas as noites com a cegueira enquanto procurava levar luz aos olhos cansados de marinheiros, trazia ao lugar uma harmonia e beleza capaz de despontar nele um bem-estar, uma sensação de protecção e liberdade ao mesmo tempo,
que nunca conseguira nem tentara explicar.
Mais um dia que chegava ao fim.
Ao longe, bem ao longe, o sol, naquela tarde de um tamanho descomunal partia numa viagem com regresso anunciando.

Desviou o olhar em direcção à estrada que serpenteava junto ao mar, e pareceu-lhe ver um carro que se aproximava. Sentiu o coração bater mais depressa e
uma excitação infantil apoderou-se dele.
Casou o olhar com a estrada e segundos depois teve a certeza.
As mãos começaram a suar.
Atabalhoadamente tentava construir um discurso coerente.
Voltou apressadamente para junto do carro.

Ela estacionou o carro junto ao dele.
Olho-o demoradamente através da janela aberta com um sorriso ao canto da boca, olhos semi-cerrados, cabelos longos a esvoaçar ao sabor do vento, e as frases pensadas, afundaram-se bruscamente naquele mar agitado de sentimentos,
rendidas à frase muda que ela tinha para ele.
Depois, com aquela elegância provocante que lhe caracterizava, deslizou para fora do automóvel e atirou os braços em volta dele, aninhando-se com um abraço só comparável em intensidade ao abraço da lapa à rocha.

Pensei que não estivesses cá – disse ele após alguns momentos.
E eu pensei que tu não vinhas – disse-lhe ela.
Como poderia não vir, não pensei noutra coisa desde que falámos.
Eu também.

Não! – disseram os dois em uníssono, libertando uma leve risada.
Vamos entrar? – perguntou ele.
Não é possível… tu… conseguiste? - disse ela num misto de admiração e espanto.
Sim consegui...a chave...do farol! – exclamou ele, enquanto metia a mão no bolso, de onde saiu recheada com uma chave.
Vamos, finalmente, poder partilhar o farol...a sós...
Ela sorriu e sem dizer mais, libertou-se dos braços dele e puxando-o,
guiou-o até à porta do farol.
Entraram em silêncio de mão dada, ela à frente.
Seguiram directamente em direcção às escadas e subiram os inúmeros degraus que davam acesso ao varandim que albergava a lâmpada.
Aí, olhando o horizonte profundo, entregaram-se um ao outro num abraço sereno.

Afastando-lhe os longos cabelos, beijou-a suavemente no pescoço enquanto levantava ligeiramente a camisola dela, deixando os dedos deambular à procura do calor que emanava dela, tacteando ternamente a pele que se arrepiava ao toque.
Ao ouvido ia-lhe murmurando sentimentos, palavras que não ousará libertar antes.
Sentia que era um daqueles raros momentos de eterna comunhão, um instante que iria ficar gravado neles para sempre, mesmo sabendo que aquela alegria se iria desvanecer como a neblina matinal ao encontrar a alvorada de um novo dia.
Afastou-a ligeiramente de si, e mergulhando sem medo no seu olhar, sentiu o calor de um mar tropical. Aproximando-se ligeiramente pousou nos seus lábios um beijo,
que ela retribuiu carinhosamente.
Ambos sabiam que aquele momento teria um fim, mas não iriam pensar nisso.
As suas vidas eram como duas linhas paralelas, que por uma anomalia inexplicável, que nem o mais entendido ousaria tentar explicar, teriam se intersectado durante a sua viagem pelo universo infinito do tempo.
Agora, restava-lhes esperar pela inevitabilidade de outra anomalia, que voltaria a separar as linhas ou mesmo, emaranhá-las para sempre.
Havia, contudo, algo que nunca mais teria solução, que para sempre permaneceria inalterado, que faria vida dentro daquilo que alguns, para tudo e para nada, por tudo e por nada, rotulavam de Coração.
Ambos transportavam em si momentos tatuados na alma, e por mais que se afastassem, jamais se perderiam de vista, pelo menos até que a luz que iluminava cada um dos seus caminhos se extinguisse.
Ela beijou-lhe os olhos com o olhar e puxou-o para si.
Há muito que bastava olharem-se para entenderem o que ambos estavam a pensar, a sentir, a desejar. Nessas alturas, pensavam - fosse tudo...tão simples!
Estavam decididos, iriam aguardar pelos desígnios supremos do tempo.

Olha, parece que esta noite ninguém vai precisar dele, vê como o mar está calmo, que noite perfeita...basta esta lua cheia a qualquer marinheiro...
Não sei amor, sabes o que se diz de noites destas...
Sei, sei...mas não há lobisomens marinhos querida !!
– disse-lhe, soltando uma gargalhada.
Pois não...há sereias!!
Riram-se ambos descontraidamente enquanto ele esboçava uma careta de medo
como se dela se tratasse.

A noite era deles.
O Farol era deles.
Aquele amor...era somente, deles.

Então,ela,atirou com os saltos altos para o canto e sentiu o calor das tábuas aquecidas.
Deixou cair a saia justa para revelar as pernas altas e torneadas e a cuequinha preta com um lacinho ao meio.
Deu dois passos até ele e elevando-se em bicos de pés,
colou os lábios ao ouvido dele.
Sussurou.
Vem amor...vem amar-me.