quinta-feira

Striptease



"Este é o meu strip para ti" - diz-me baixinho, ao ouvido, antes de desaparecer.

"Umm...vai ser cá uma noite" – penso, e caminho até ao cadeirão no canto da sala junto
à janela, sentindo a brisa fresca da noite a tocar-me na pele, tentando arrefecer um
corpo que anseia de antecipação.

Earned It enche a divisão de som escaldante, a luz, propositadamente
fraca, é apenas um candeeiro solitário numa mesa baixa e quadrada, em tons de fogo.

Aos primeiros acordes entra na sala vestida de forma simples, o corpo coberto
apenas por um vestido fino, liso, preto e curto, deixando adivinhar por baixo lingerie
minúscula, cobrindo o essencial.
A cada passo maneia as ancas, deixando que a música penetre na pele, fazendo-a
fechar os olhos, deixando a sensualidade comandar cada movimento do seu rebolar
libidinoso e quando entre abre os olhos, olha-me e morde levemente o lábio inferior,
passando a língua em seguida.

O tempo parece fazer um compasso de espera, também ele ludibriado por aquela
imagem de puro erotismo. Num virar de costas para mim, passa as mãos pelas
nádegas, coxas, descendo até aos tornozelos, enquanto eu a observo.

Lentamente, ao ritmo quente da música, ergue-se e faz descer cada uma das alças do
vestido para depois decidir aproximar-se de mim com o olhar fixo no meu, enquanto
ia despindo o vestido, fazendo-o deslizar pela cintura, ancas, pernas, até o tirar e o
jogar no meu colo.

Pego nele, respirando o seu odor a frutos silvestres doces, e coloque-o, como deve ser,
nas costas do sofá.

Ela já começou a desabotoar a minha camisa e sem parar o movimento intenso do corpo,
que revela gotículas de transpiração, vira-se de costas e solta o sutiã, atirando-o
por cima da minha cabeça enquanto eu lhe desprendo os cabelos.

Gosta de fazer-me vibrar e que eu a faça vibrar, com o meu olhar intenso de desejo.
Agora, volta a aproximar-se de mim, com os seios cobertos pelas mãos e senta-se ao
meu colo, pegando nas minha mãos para substituir as dela para poder assim erguer o
cabelo e continuar a mexer o corpo ao ritmo da musica, sentindo-se excitada pelas
minhas mãos que deslizam pela sua pele molhada, tocando lhe na barriga, costas,
coxas, agarrando as suas nádegas e apertando-a contra mim, torcendo-lhe com ternura
os mamilos que reagem com fervor.

Não dá para esperar mais, quero-a e ela percebe.
A sua boca desce na direcção da minha, ri junto dos meus lábios, quase os tocando,
fugindo quando os aproximo dos dela.
Passo a mão pelos cabelos que me tocam no rosto, agarro-lhe pela nuca e trago-a para
mim, sorrindo, olhos brilhantes, rosto maroto que acaba por ceder, pressionando a boca
na minha, num beijo intenso e selvagem, que deixa escapar um gemido de saudade contida.

A música, continua a tocar.
Algo instrumental, quente e sexy, com sons suaves e melodiosos...
O strip terminara.

"És maravilhosa"

"Shhiuu...vem..."

Chegara o momento.
Esperado.
Cativado.

A dois...

sexta-feira

beijo

 

A saída tinha sido animada e surpreendentemente com umas boas gargalhadas à mistura.
E, não só.
Contudo, agora, o vazio permanecia como uma sombra que persiste até de noite,
fiel presença de um alguém ausente.

Sentou-se com as pernas cruzadas na cadeira solitária, enquanto bebericava uma
chávena de chocolate quente.
Àquela hora encontrava-se na varanda olhando a negra e sarapintada imensidão.
Deixou-se levar nas suas asas e permitiu o voo dos sonhos, sonhos nascidos
no desencanto de madrugadas adormecidas em angústia e solidão.

Imaginou-o...

Imaginou-o sentado ao seu teclado, tocando para ela uma sonata de letras que voavam,
abrindo brechas no silêncio, enquanto o olhar dela se prendia na luminosidade
que dele emanava, ofuscando as luzes da cidade que se viam adiante e o emolduravam,
como se fossem uma fiada de pequenos diamantes.
Sentia-se acariciada, enquanto as mãos dele deslizavam com ardência pelo imaginário
teclado de onde saiam notas vibrantes e ternurentas.

O coração dela nunca fora um mar sem ondas, e ele percebera...
Percebera que o coração dela, a levará até ele.
Percebera naquele olhar cintilante, que ela era as ondas no mar dele.
Percebera...ao beijá-la.

Fechou os olhos.
Era tarde.
Levantou-se.
Sentia um calor arrebatedor, que a deixava toda arrepiada,
mamilos enrijecidos, expectantes.
E ainda, na boca, o sabor do beijo.
Nunca um mero beijo provocará semelhante inquietude nas suas entranhas,
ou invadirá a sua intimidade, deixando-a súbitamente molhada.

Encaminhou-se para a porta.
Era tarde.
Fez deslizar a porta, abrindo-a.
Parou.
Olhou em volta.

O céu encoberto.
O bairro adormecido.
O som da noite viva.
O aperto de uma inesperada saudade...
Era tudo tão frio e anestesiante.
Não era ali que queria estar!

O bom senso dizia-lhe para resistir, mas o olhar dela era traidor sabido.
Pegou no aparelho ligado ao carregador, encostando-o aos lábios frios.
Ao dar-lhe vida, persentiu a inevitabilidade.
Mas, ansiava tanto, para saborear aquele beijo dele, outra vez...