quarta-feira

Não acredito nisto!



Voltou-se.
Aninhou a bochecha esquerda na fofa almofada enquanto deslizava uma perna por fora e para cima do lençol branco.
Tentou ocupar os pensamentos com o som vindo da aparelhagem embutida na cabeceira, de onde You and Me emanava baixinho.
Sorriu. As palavras da canção pareciam lhe escritas de fresco.
Não adiantava.
O barulho de água a correr era mais forte fazendo com que ela se virasse para o outro lado, ficando a olhar a porta semiaberta, escutando a chuva tão familiar ao interior de uma casa de banho.

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez
é a desilusão de um quase.
É o quase que a incomodava, que a entristecia, que a matava,
trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda,
quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.
Bastava pensar nas oportunidades que escapam pelos dedos,
nas que se perdem por medo.
Perguntava-se, às vezes, o que levava tantas pessoas
a escolherem uma vida morna...
A resposta, sabia de cor, estava estampada na distância e frieza dos
sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos
"Bom dia",quase que sussurrados.
Sobrava cobardia e falta coragem até para se ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
Talvez esses seriam bons motivos para decidirmos entre
a alegria e a dor, provavelmente até sentir nada, mas não eram.
Se a virtude estivesse mesmo no meio-termo, o mar não teria ondas,
os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.
O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma,
apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.


O barulho da água cessou.
De repente, e como já era habitual, um calor subido e arrebatador apoderou-se dela. Porque lhe acontecia sempre aquilo?
Sim, hoje até que podia inventar uma desculpa, dizer que estava num quarto estranho, enrolada num lençol desconhecido que apenas escondia a tanguinha branca, e que ele estava já ali...ali...murmurando a canção que ela tão bem conhecia...
"Não, tretas!"
Esboçou mais um sorriso. Ele dizia-lhe isso...
Aquela sensação boa acontecia mesmo ao telefone.
Simplesmente...acontecia.
Engraçado...à quanto tempo não dava pelo
cheiro a espuma de barbear?
Era demasiado tarde.
Estava mesmo ali, deitada, estupidamente nervosa, à espera.

Para os erros há perdão;
para os fracassos, uma segunda oportunidade;
e para os amores impossíveis? Tempo.
De nada ia adiantar manter a cerca que aprisionava um coração magoado e carente ou enveredar por um plano sábio de como economizar nos sentimentos para poupar a alma.


“Não !” gritou para dentro de si, não ia deixar que a saudade
a sufocasse, que a rotina se acomodasse,
que o medo a impedisse de tentar.

“Desconfia do destino e acredite em ti !”

Susteve as lágrimas.
Lembrou-se de uma passagem que tinha lido, fazia tempo,
algures num livro,agora sem título e sem autor;

- Gasta mais horas a agir do que a sonhar, a fazer do que a planear,
a viver do que a esperar, porque; embora quem quase morreu, esteja vivo,
quem quase vive já morreu -

Sentiu a porta abrir.
O cheiro dele cobriu-a e quando olhou...encontro o seu olhar.
Era firme, penetrante, carinhoso.
Olhou-o, intensamente.
Deixou-se sentir.
Era bom.
Era como tinha sonhado.

“Agora...minha Princesa...”

Riu-se. “Não acredito nisto...”

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