quarta-feira

Chuva Cantada




Olhava a chuva que caía com força oblíqua.
Ergeu os ombros, inclinou a cabeça para trás e comprimiu a nuca na
tentativa desesperada de extinguir a dor de cabeça que se apoderava dele.
Fechou os olhos.
Inclinou-se para trás na cadeira e respirou fundo.

Perguntou a si mesmo o que estaria a sentir naquele momento, mas o
barulho ensurdecedor de pneus molhados vedavam a possibilidade
de qualquer resposta sã.
Levantou-se e escolheu outro lugar onde se sentou.
Afinal, por vezes o simples facto de mudarmos de sítio,
pode alterar temperamento e emoções.
Voltou a fechar os olhos.

Não pode deixar de sorrir – aquela canção tinha que tocar !
O barulho era, agora, menor.
A voz sensual da cantora tomará conta do local e as palavras cantadas
ganhavam vida própria.

Esboçou novo sorriso.
Ocorreu-lhe que as canções tinham bastante em comum com os horóscopos.
Quase por magia,cada pessoa reconhece e intrepreta-as à sua maneira,
como se de facto fosse possível atribuir uma verdadeira e específica
individualidade às mesmas.
Era mesmo espantoso!
E depois? Que tinha isso de tão mau?
Quem não terá associado a uma canção, ou outra, um determinado acontecimento ?

A canção atingira o ponto fulcral.
Quadros invasores de imagens intensas sobrepunham se, ficavam a pairar por ali...
não havia como evitar...como contornar...
Por vezes conseguiam ser tão reais que ele apurava com facilidade os cheiros
e sons que deles emanavam.

Abriu os olhos.
A chuva tinha dado lugar a um sol radioso.
A canção terminará.
Tocaria outra vez, provavelmente dali a umas horas.
Tocaria durante dias a fio até perder o seu encanto junto dos milhares que apenas
a ouviam como uma qualquer outra canção.
Mas, também estava irremediavelmente condenada a ser guardada por alguns
que a nunca esqueceriam e que fariam dela memória cativa de situações vividas
e jamais apagáveis.

Por instantes, a imagem deles, já ali, intrometeu-se.
Sacudiu a cabeça, negando-lhe a presença.

Levantou-se e foi até a rua.

Crianças a brincar....
O sol que fugia...
Cães a ladrar...
O transito a fluir...
Conversas de esquina...

Era só mais uma tarde de um quotidiano ritmado ao som da vida.

Na fila de transito que se formará por instantes,
um carro atraiu a sua atenção.
Apercebeu-se das lágrimas que nasciam debaixo
de uns óculos grandes e escuros
e que não paravam de correr desalmadamente.
Franziu a testa, semicerrou os olhos.
Escutou. Conseguia ouvir...
Aquela canção...aquela canção tocava...dentro daquele automóvel..!

Sentiu-se triste.
Não conhecia quem chorava.
Mas entendia.

Pena era, que nem sempre a mesma canção conseguiria trazer o sol
a quem a escutá-se.
Mesmo depois, de uma chuva cantada.