Estou de volta, disse, e com isto, os anos de ausência como que, desapareceram.
Acho, que desta vez voltei para sempre. Senti me inteira outra vez. Algo dentro de mim suavizou-se.
Quer dizer que tu estás..., hesitei antes de continuar, tu estás sozinho ?
É..., riu-se outra vez. Agarrei-lhe o braço, precisava de tocar nele, precisava de ter a certeza. Ele estava mesmo ali, à minha frente.
E foi assim. Engraçado, agora que me lembro, nem pediu para ficar noutro quarto. Nada.
Posso ficar aqui até encontrar um sítio ? Estou cansado.
Mas eu sabia que ele ia ficar, que não procuraria mais nenhum lugar. Conseguia ver como estava exausto da procura, da mudança, do recomeço e de se habituar a lugares novos. Desta vez, ele ia ficar.
Queria, mas não podia perguntar – que era feito do duplex à beira-mar e daquela tipa morena de cabelos longos e curvas sugestivas, a tal de quem a última carta dele transbordava, em palavras de espanto e perfume exótico. Fiquei calada.
Os dias seguintes foram estranhos. Tinha tantas perguntas, saudades, memórias. Recordei o dia em que partiu, no meio de um sol abrasador. Fiquei de joelhos no alpendre a olhar o carro a desfazer-se naquela onda de calor, a sentir pena de mim. Lembro-me da razão que me dera - antes da carta. Estou farto, sinto-me inquieto, nunca acontece nada aqui ! Quero viver ! De certeza que há muita mais ...
Por vezes sentava-me junto à janela a escrever. Tentava organizar os meus pensamentos – ou eram os dele ? Queria tanto saber como fazer, como alcançá-lo, como apagar os anos perdidos, o duplex, a morena.
Os infinitos fins-de-semana tornaram-se curtos e cheios de conversas. Ele falava comigo como se nunca tivesse ido. Contava-me histórias de cidades, apartamentos sujos, empregos miseráveis, loiras, negras, fome e traição. Eu não podia imaginar, não conseguia perceber.
Porque demoraste tanto em voltar ? perguntei-lhe.
Ele desviou o olhar e esboçou um fino sorriso. Para aqui ?Para esta vidinha triste ? E não teria descoberto o mundo, pois não ?Há sempre um preço a pagar.
Demorei uma eternidade para perguntar se ele ainda preferia o mundo dele ao meu, à nossa casa, a mim. O não amargo não deixou lugar a dúvidas.
Uma manhã acordei cedo com o sussurrar das folhas secas e luz ténue. Fui caminhar. Não havia ninguém. O meu mundo dormia. A terra bebia o orvalho da noite e o vento soprava misturas de quente e frio. E durante uma hora, acho que foi uma hora, recordei, senti, vomitei e odiei.
Com o passar dos dias, fiquei com a ideia de que ele pretendia reparar o passado. Obter perdão.
Olha, sei que não devia ter partido daquela maneira, sei que não entendes as minhas razões ... desculpa ... só que ...
Está bem. Já não estou zangada, disse-lhe.
Pois, se calhar devias ficar, se calhar devias odiar-me...
Encontraste o que procuravas ? Fez-te feliz ? pergunte-lhe.
Cheguei a pensar que sim. Ela era maravilhosa mas tentou mudar-me e tudo ficou pior. Não – eu é que fiquei pior – e magoei-a – e deixa-a
Por isso voltei. Talvez este seja o meu lugar. Só tu consegues entender-me.
Então agora sentes-te melhor – aqui ...
Sabes, a primeira noite, depois de ter voltado ? Quando adormeceste fiquei a olhar para ti ... para tudo ... e parecia que nada tinha mudado, que eu nunca tivesse estado longe.
Mas estiveste – muito longe. Muito tempo. Senti muito a tua falta – acho que ainda sinto. Talvez porque sinto que só metade de ti está aqui – comigo.
Ajuda-me. Faz com que tudo volte a ser como dantes. Ele agarrou-me e olhou-me nos olhos, como antigamente, dominador. Sustive a respiração e arranquei as minhas mãos prisioneiras. Não, já não preciso de ti. Não posso, pensei.
Não sei o que dizer, não sei se posso ajudar-te, ela não soube...
Mas é diferente, ela não aguentou, ela disse que se matava se eu a deixa-se. Era uma fraca. Mas boa na cama. Tanta encenação e um dia sumiu. Nem se despediu de ninguém. Aquela não sabia o que é amar – não como tu. É só pena não seres morena. E riu-se.
Imagino que naquela noite ele tivesse acordado aos gritos. Imagino que o mundo dele desabou. Imagino que rezou pela primeira vez. Imagino que chamou por mim ... finalmente.
Sinceramente – espero que tenha sofrido.
“Isso é tudo muito interessante, minha senhora, mas diga-me, aqui na fotografia que tiramos no local - quem é esta pessoa ... quer dizer...o que resta dela...aqui ao lado ...?”
O senhor inspector vai-me desculpar mas, sabe, percebi que estava melhor sozinha ...
“ ...sim, mas...isso não explica...”
Foi pena , deve ter sido o vento do deserto, sempre imprevisível, deixei um bilhete, escrevi -
Sabia que havias de voltar
Tive pouca esperança
Que mudasses
Vai !
A tua morena, há muito,
Que te espera ...

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