sexta-feira

Morte na Tapadinha



Hoje, sozinho, olhou para o infinito
e perdeu-se na imensidão do nada.
Não havia inspiração e nem vontade,
apenas um enorme vazio.
Não sentia tristeza, não sentia alegria,
imaginou que morrer podia ser assim.

Embora sentisse vida no corpo, não sentia vontade de vivê-la.

Aos poucos, muito lentamente, foi voltando a si,
começou a ouvir vozes baixinho vindas de um lugar distante,
sussurrando pelo seu nome.
Iam chegando cada vez mais perto,
ficando cada vez mais alto,
até se tornaram gritos ensurdecedores,
obrigando a voltar a realidade.

Foi então,
que sentiu uma leve brisa a soprar nos cabelos,
sentiu o cheiro das flores,
reparou que o sol e o frio pareciam estar a lutar pelo protagonismo naquele dia,
que as estações lutavam pelo seu espaço,
enquanto ele,
apenas continuava ali,
paralisado,
as lágrimas a caírem.

Sorriu, porque sabia o porquê daquelas estúpidas lágrimas.
Verdade.
E, lembrou-se de uma frase que um dia, fazia muito tempo,
tinha rabiscado, em algum lugar :

"empresta-me um sonho"

Então, concluiu, talvez isso pudesse ser o seu mal,
talvez tenha deixado de sonhar,
e a vida assim não tem graça.
Sem sonhos não há inspiração,
mas é preciso inspiração para sonhar.

Hoje, escapava-lhe toda e qualquer inspiração.

A memória de um jantar, o último,
apoderara-se dele.
O fim anunciado.
A constatação da rejeição.

Hoje, a noite haveria de ser calma,
solitária,
contida.
Tinha de libertar-se da recordação,
de quando foi rotulado de homem obcecado,
de amante sem destino,
de futuro sem sentido.

Mas não fazia mal.
Tinha o que merecia...provavelmente...
E, portanto, continuaria a tratar do problema,
mesmo sem saber, como ia conseguir...
E depois, não tinha ele, para Ela - morrido?