quinta-feira

A Miúda do Autocarro



Quando ali chegou, por volta das sete e meia da tarde, o calor era sufocante.
O ar pairava no céu, imóvel. O vento, visitante provocador, trazia os aromas agridoces de vinhas à beira-mar.
Que belo dia para voltar às paragens de autocarro após décadas de cómoda ausência !
Afinal o indicador de temperatura sempre servia para algo, pena era ele não lhe ter dado a devida importância.
Uma coisa era certa, não iria ficar naquela fila medonha, a derreter.
Sem perder tempo, atravessou o pequeno jardim que se encontrava atrás e ocupou o banco de madeira, ou o que restava dele, debaixo de uma enorme palmeira.

Não demorou muito – até que reparou em quem se aproximava.
Teria sido impossível não reparar.
Era esbelta, mas não no sentido esquelético, como em tantas miúdas reféns de imagens propagadas por deusas de mundos elitistas, o cabelo era negro, quase liso, o vestuário simples, justo, elegante, usava óculos de sol castanhos, grandes, que lhe escondiam os olhos.

Acabou por ser o último a entrar no autocarro.
Podia ter permanecido em pé mas a curiosidade convidou-o a sentar-se – em frente a ela, naquele que alguns chamam de assente do enjoo. É claro que tentou fazer de contas que não olhava e é claro que ela percebeu e daí o sorriso contido mas divertido que os cantos da boca dela denunciavam.

Trazia consigo a sua pasta.
Acontece uma travagem brusca.
De repente, ela estava a ajudá-lo a reunir os papéis espalhados no chão.

“ Tome ... esse fecho não deve estar grande coisa...” disse-lhe, no meio de uma gargalhada.

“ É...parece que tem razão...olhe...fazemos uma troca...os meus papeis pelos seus óculos” Não que lhe façam falta...tem uns olhos, pensou.

“Está bem...espere...” Devolveu-lhe toda a papelada, excepto uma folha.
“Escreve ?”

“Só coisas sem importância...para passar o tempo...não quer os seus óculos ?”

“ummm...não sei...Não...fazemos a troca amanhã...”

“Não sei se dá...amanhã já devo ter o meu carro...não costumo apanhar...”

“Eu sei...um cinzento...deixa-o no lugar dos CTT quando vai tomar o café de manhã...”

E com isto levantou-se, tocou a campainha e dirigiu-se à saída. Ele estava estupefacto.
“Como é que ...” Mas ela já tinha saído. Sentou-se. Que diabo !

Sete e vinte. Os olhos dele percorriam a avenida. Era possível ? Viria ? E era bom que viesse ? Aquela miúda...aquela mulher...? Pertencia a outro mundo, a outra realidade que não a dele. Contudo, falou-lhe com tanta intensidade, à vontade , como se, secretamente, tivesse aguardado por aquele encontrou.
Estaria ele a sonhar ? O “amanhã” era agora...
Não.

Apertou com mais força os óculos que segurava. Olhou-os. Numa das hastes havia uma inscrição, ou melhor, o inicio de uma palavra, de um nome...“An ”.
Eram um bocadinho dela. Ela existia.

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