quinta-feira

Desejo Inesperado




Lúcia pensava no seu futuro. Não se sentia bem a viver numa cidade pequena do interior, relacionando-se com pessoas medíocres, que preferiam a futilidade da sociedade local à cultura e às artes em geral. Apesar de ter dois empregos, sentia que precisava de alcançar novos voos embora não conseguisse descortinar o caminho a seguir.
O relógio de ponto marcava 08h29 e justificava a pressa dela para a reunião marcada com dois consultores de uma firma da capital.

Ela já os conhecia: Gustavo, com quem tivera um ligeiro affair e Alex, que tinha visto muito pouco e que não lhe despertara qualquer interesse.
A reunião correu tranquilamente e ela teve oportunidade para conversar um pouco mais com o Alex.
Era um pouco tímido, mas começava a intrigá-la pois demonstrava inteligência e um excelente nível cultural, e conseguia isto, sem ser chato.
Nas conversas que se seguiram, a sós, em ocasiões seguintes, ele como que a enfeitiçava. Passava de comentários sobre a pintura impressionista a críticas sobre o urbanismo com a mesma facilidade que opinava sobre problemas da actual administração da empresa. Essa característica de Alex exercia especial fascinação sobre a Lúcia.

Homens como Gustavo despertavam-lhe aquele desejo comum às mulheres, em relação a homens mais fortes, mas reforçavam a posição secundária da mulher.
Com Alex, no entanto, ela sentia uma espécie de masculinidade subtil, ele não a despia com os olhos, mas olhava-lhe directamente, como que a pesquisar o seu ser interior, aquele que ela tanto escondia. Despia-a, de dentro para fora.
Lúcia sentia-se estranha apesar daquele homem, aparentemente, não forçar uma atitude de intimidade. Ele não dava pistas de estar interessado em qualquer contacto e isso desnorteava-a... apesar de a excitar cada vez mais.

De uma forma meio inconsciente, começou a imaginar uma forma de conquistá-lo, sem que parecesse uma mulher fácil ou vulgar. Teria de parecer algo inesperado, sem nenhum propósito prévio.
A oportunidade surgiu pouco tempo depois numa festa promovida pela empresa.
A propriedade era extensa. Haveria por lá, muita gente e era bem provável que pudessem passar despercebidos.

No dia da festa, a pretexto de tirar algumas dúvidas sobre o trabalho, Lúcia tratou logo de convencer Alex a dar um passeio pela extensa herdade. Quando já estavam bastante afastados e quando ambos falavam de uma forma mais descontraída, mais próximos, ela sentiu o seu corpo a exigir que algo acontecesse. Cada olhar cruzado, cada toque despretensioso, ateava-lhe mais fogo nas entranhas, deixando-a tonta.
Ao descer ao riacho que corria ruidosamente junto a uma ravina prisioneira de canas verdes e altas, quase perdeu o equilíbrio fazendo com que ele a segurasse, envolvendo-a nos seus braços. Naquela posição, tão perto dele, sentindo a sua respiração, sentindo-se respeitada e protegida como há muito não sentia, não consegui evitar as lágrimas.

Ele nada dizia, apenas apertava-a cada vez mais enquanto passava a mão pelos seus cabelos. Quando recostou a cabeça no seu ombro, Lúcia manteve o rosto bem próximo do dele, absorvendo o seu cheiro, o seu hálito quente. Tanto desejo era insuportável. Mexeu o corpo levemente, como que procurando uma melhor posição para ajustar-se ao corpo de dele. Mexeu-se outra vez. E outra.
Os movimentos assemelhavam-se à de uma dança ensaiada e bem sensual, ritmada por uma música sensual que se ouvia longe e fraca.
Quando ele espalmou as mãos em torno do seu rosto e olhou-a de forma tão cúmplice e protectora, tão seguro de si e tão disponível, o choro deu lugar a um sorriso maroto desajeitado. Finalmente ela compreendeu o que era sentir-se dependente de alguém, se calhar até necessitada de alguém.
Alex beijou – a.
Mas não foi na boca, foi nos lábios... não, nem sequer fora um beijo, mas sim uma espécie de massagem, toques quentes e macios que eram completados pelo calor exalado da boca dele, provocando um peso tranquilo nos olhos fechados e o entreabrir dos seus lábios. Ela deixou aquela emoção gostosa invadir-lhe a alma, derreter-lhe o bom senso, o domínio, e depressa deu conta de uma humidade quente que a denunciava e a entregava aquele homem.
Afinal, quem era? Sem dizer muitas palavras tinha-lhe roubado toda a razão, com movimentos leves mas precisos, com o corpo em câmara lenta, fazia-a sentir toda a rigidez protegida pela roupa, mas que no entanto, de forma indescritível parecia estar a fazer amor com ela...
Lúcia deixou-se ir.
Na sua real imaginação, ele já deslizava dentro dela.
Momentos depois, atingiu um orgasmo jamais conhecido sem saber diferenciar aquela penetração imaginária da língua que, finalmente, e ainda só, começava a preencher-lhe a boca...

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