terça-feira
Magiamor
A décima primeira badalada abriu-lhe os olhos.
Sacanas ! Não podiam ter esperado até que saísse do escritório ?
Permanecia deitado.
Imóvel.
Agora, só imagens dela percorriam-lhe o pensamento.
Era o fim.
Era mesmo o fim.
Não escaparia àquela bala bem alojada no seu lado esquerdo.
Começava a respirar com dificuldade.
Já não faltava muito.
Esboçou um sorriso ao lembrar-se da manhã, ao lembrar-se dela.
“Tenho estado a pensar.”
“Sobre o quê ?” perguntou-lhe.
“Bem...sobre tantas coisas que temos falado...tu sabes...a vida...aquilo do amor... e tudo mais. Achas que nós também temos hipótese...de um dia...o encontrarmos...de ser felizes ?”
Na verdade ele não sabia como responder-lhe. Não tinha a resposta.
Se calhar tinha medo da resposta.
Sendo o romântico que era, preferiu puxa-la para ele e envolve-la num forte abraço, encostando os lábios à sua testa.
“Olha, no que me diz respeito...não sei, mas, tu és uma mulher muito especial. Um tipo teria de ser muito estúpido para não se apaixonar por ti...”
“Ummm... pois...e tu és o amigo mais especial... que alguém, alguma vez, podia desejar ter...”
E com um enorme sorriso, ela, tinha lhe devolvido o abraço.
Já não conseguia rir.
A dor tornara-se insuportável.
O tempo fugia-lhe.
O raciocínio desagregava-se em nuvens cada vez mais densas mas estranhamente leves.
“Mereceu a pena...o tempo que me dedicaste ? Mesmo que eu seja...o tipo mais estúpido que há ? Mesmo que eu não te tenha dito...como sempre foste especial ?”
O retrato em cima da secretária...olhava-o. A sala sustinha a respiração.
Acabara-se o tempo.
Ísis, testemunha petrificada, relegada para uma prateleira de artefactos e mármores de figuras imortais, na casa dela, podia ter lhe contado;
como ao último sopro, os olhos dele iluminaram-se, espelhos de plena alegria, ao escutarem palavras trazidas por uma aragem familiar;
“Sim...mereceu...porque foste tu que me fizeste feliz.”
Mas, Ísis também sabia que não era preciso contar.
Por vezes acontecia - magia.
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