domingo

Horas Extra



Que fazia ela ali, àquela hora ?
A noite já ia longa.
Ele próprio precisava, por vezes, de umas horas extra
para pôr tudo em dia,
mas, nunca a encontrara antes, muito menos assim...
Resolveu não entrar.
Abriu cuidadosamente a porta que dava acesso à sala das
cadeiras em pele preta, apenas o suficiente para puder observá-la.
Sorriu.
Quem diria? Que bela imagem.
Quantas vezes, enquanto esperava numa daquelas cadeiras,
ficava a admirá-la, de longe, passando lhe tudo pela cabeça
menos os assuntos de trabalho que o levavam ali.
De repente, ocorreu-lhe, que de facto era mesmo muito
estranho o que estava a presenciar.
Estaria mais alguém com ela? Outro colega?
Encostou-se, com jeitinho, à ombreira da porta.

Ela tinha optado por ouvir música enquanto lia uma revista,
o corpo semi-deitado no sofá, as pernas cruzadas,
roçando uma na outra de forma inconsciente e sensual.

Que absurdo!
Sabia que o escritório dela tinha uma casa de banho
completa privativa, provavelmente o outro estaria lá dentro...

Mas ela não lhe dá tempo para concluir qualquer raciocínio,
levanta-se, deita a revista para o chão e desaparece de cena,
isto é, de onde ele a consegue ver.
Regressa com uma peça de fruta e senta-se, olhando para a
suculenta maçã que tinha na mão.
Cheira-a antes de trincar.
Parece não estar com vontade de comer.
Ele apercebe-se do olhar, do sorriso malicioso,
do suspiro libertado.
O que lhe apetece realmente é saborear, pensa.
Algo mexe dentro dele.
O vermelho da fruta e o negro daqueles olhos
criam vertentes coloridas que lhe aguçam o apetite.

Era como que estar dentro de um filme
sem contudo fazer parte dele.
Sentiu-a a acariciar a maça, a textura lisa e suave,
olhos fechados, passando-a delicadamente pelo rosto,
mordendo os lábios ao de leve...

Quase que dava um salto quando ela seguidamente trinca
a maçã carnuda com paixão desmedida,
deixando escapar um pequeno gemido abafado,
a seiva a escorrer pela mão,
o sabor ácido a arrepiar-lhe a pele,
os mamilos agora claramente estampados no lingerie negro.
Seguidamente, ela fecha os olhos e com a língua lambe o sumo.

Enquanto saboreia o fruto...os olhos dela abrem-se, devagar,
e como fechos de uma poderosa luz....fixam-se nele !
Subitamente levanta-se, deixando cair a maçã no chão
e com um olhar penetrante dirige-se a ele,
agarra-o pela cintura e sussurra-lhe ao ouvido:
“apeteces-me...”

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