quinta-feira

Vista de Despedida


Foi vê-la, ou melhor, espreitá-la.
Tinha de ser.
Não havia como não fazê-lo.
A força interior que o obrigava a tal, era insuperável.

Teve o máximo dos cuidados e total discrição.
E, demorou a conseguir.
A paciência, contudo, não se esgotou.
Estava focado.

Dentro dele, não havia como negá-lo, a pancada doeu.
Mais do que estava à espera...
Uma mistura de emoções tomaram conta dele.
A dor de meses e meses apareceu e demoliu, mas, ele aguentou-se.
Manteve a distância.

Ela, estava diferente.
Permanecia bela, claro.
Sorria facilmente.
Pareceu-lhe mais magra e que se comportava de uma forma mais...jovem.
À primeira vista, quase hesitou em perceber que era mesmo ela.
O cabelo mais claro, em tons de castanho, apanhou-o de surpresa.
Não lhe ficava mal, linda como era, tudo encontrava uma forma
de assentar-lhe bem!
Mesmo assim, para ele, o cabelo dela negro, autêntico, era mais bonito.
Dava-lhe outro ar, aquele que ele apreciava, de mulher mais sensual,
sobretudo quando o usava comprido e esticado.

Na verdade, arrastou-se um pouco até ao carro.
Antes de ir, ponderou muito se devia ou não.
Mas, concluiu que devia levar por diante a vontade de sossegar a sua vontade.

Agora, teclando as palavras para um dia mais tarde recordar,
sentia que tinha feito o que estava certo.
Apesar da dor que sentira, conseguia, pela primeira vez,
entender que tratava-se de olhar e sentir o passado,  não do presente,
sentiu claramente que aquela mulher já não tinha nada em comum com ele,
que vivia noutro mundo, que se tinha entregue a outro homem,
que haviam outros propósitos, outras intenções.

Mais importante ainda, era ter a percepção vincada quando se encontrava
com a mulher que agora habitava a vida dele, mesmo sendo ao de leve,
que algo nele tinha mudado.
E não era importante, para já, amar, ter a certeza de voltar a amar,
de voltar a confiar,
não!
O importante era sentir que estava a dar passos nessa direcção.
O importante era dar a si mesmo a possibilidade de encarar um futuro diferente,
eventualmente, se calhar até melhor do que teria sido com a ela.
Sim, estava tudo numa fase embrionária...mas...estava!
Já não vagueava pelas auto-estradas nem procurava os bares para consumir
as longas horas de noites sem fim.

Havia um olhar novo que se fundia no dele, um corpo sensual que se exprimia
e complementava no dele, palavras de afecto e tesão que se misturavam com as dele.

Um...novo amor?

O tempo diria.
O tempo que estava mais velho e cauteloso.
O tempo que jamais queria que ele voltasse a ser jogado fora.
O tempo que outrora fizera-o acreditar em almas gémeas e vidas passadas
tinha amadurecido.
Talvez o amor não fosse encontrado no meio do caos e numa paixão desmedida,
talvez, apenas, fosse bastante esperar que ele nos encontre,
e que traga consigo a pessoa certa, aquela que nos valoriza sem nada cobrar,
que realmente fica do nosso lado porque é forte e não porque não tem outro remédio,
que espera lealdade, dedicação e paixão e que tem e deseja dar-nos o mesmo,
porque quer, porque precisa, porque acredita, porque tem certezas do que sente,
sem julgamentos, sem comparações, sem hesitações.

Verdade, que em tempos tê-la visto, teria-o rasgado ao meio.
Hoje, felizmente, sentia-se inteiro.
Pensava com clareza.
Estava ciente dos passos que dava.
Tinha retomado o controlo da sua vida.

Sim, haviam uns pedaços quebrados por arranjar e frestas por tapar,
mas o pior passará.

Esta noite, tinha para onde ir,
uma porta que o esperava,
um beijo por receber.
Depois do ginásio,
um robe floreado aveludado,
de certeza,
cairia ao chão,
poucos minutos após a chegada dele.

E,
era tão...bom!



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