Ando por aí, cada vez mais acostumado aos dias tristes.
Tenho numa mão a escrita e na outra a interrogação.Sigo, invariavelmente, a rota das interrogações.
Sou dono de sorrisos simpáticos e frases cativantes.
E ninguém percebe de onde vem a força gladiadora que conquista
as montanhas de ontem com fome insaciável,
nem o porquê de falar dos sentimentos sem complexos.
No Teu tempo, a primeira estrela chegava para encher a noite.
Hoje, até o primeiro raio de sol explode no vazio.
E, o primeiro nome das coisas começa com um sorriso apenas tímido,
porque agora, tudo no mundo tem uma face distorcida.
Nas noites acordadas acabei por saber que os sonhos são traições,
que a fonte das lágrimas não pode secar.
Afinal, o que seria da dor sem as suas lágrimas?
Que seria de todos os coitadinhos se as lágrimas secassem?
Chegamos ao mundo para subir montanhas e calcorrear estradas.
Para descobrir que nunca descobrimos a Verdade.
Para descobrir que também podemos inventar a Verdade.
E sermos mais nós?
E sermos mais sãos?
E crermos num futuro que fatalmente nos vai atraiçoar?
Mas também podemos atraiçoar um futuro que fatalmente não será nosso.
Rir. Ri-te à vontadinha deste ser dito humano,
descrente de coisas contadas,
quando era criança.
quando era jovem,
quando era adulto, tão apaixonado,
tão...crente...
Vês a prata da lua nos campos?
Não, já não consegues ver.
Deixaste de ver essa Verdade.
Não és Tu.
E queres outra das verdades verdadeiras?
Dias como este - são dias em que qualquer pergunta,
esconde uma vontade de nada perguntar!
Ser.
Apenas ser.
Ser-se.
Enquanto o tempo se escoa pelas entranhas dos prédios.
Enquanto o sol aquece as veias da alma.
Enquanto os candeeiros dormem para logo alumiarem o deserto dos becos,
a física das sombras tecendo enigmas intermináveis,
que passam ao lado das gentes normais.
Andava por aí...a escrever com as palavras.
Mas tive de descansar.
Queria dizer aquela palavra que não saía.
A esquecida.
A intolerável.
Aquela que enchia os regatos da vida.
A palavra-temporal.
A palavra arrancada de dentro.
A palavra normal.
Cheia de riso e de encanto.
A palavra devoradora da obscuridade.
Sem tempo nem hora.
Nem vendaval nem tristeza.
Apenas uma palavra.
Qualquer uma...que me fizesse sentir aconchegado,
nestes dias,
nestas noites.
nesta tarde que sou fugitivo...
Mas,
Ela não veio. Não me quis encontrar.
Deixou-me sozinho. Como Tu fizeste.
Apenas espreitou-me pelas fechas obscuras,
fazendo uso da magia que detêm,
para te mostrar ali, ao meu alcance imaginário,
naquele quarto só cheio de mim,
onde me escondi por umas horas,
das ruas que percorro,
holograma perfeito,
como Tu és,
mulher que amo por defeito.
Queres saber outra das verdades?
Saio à rua.
E...na rua...espero...
Espero por um milagre...
Espero por um sinal...
...para que possa voltar a viver,
...ou
...de vez
...MORRER!

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