terça-feira

À beira do Pilar 7




Sem desconfiar de nada, até porque à semelhança do que ele fizera uns dias antes,
não lhe tinham dito onde iam jantar, ali estava, a passar à beira da entrada que
dá acesso ao recinto afecto à "Experiência do Pilar 7".
Entraram logo de seguida para o estacionamento à porta do Falstaff,
restaurante do Hotel Vila Galé Ópera, praticamente no sopé da Ponte 25 de Abril.

Por essa altura ele já transportava o coração na boca e suores frios
desciam espinha abaixo para serem colhidos na fronteira criada
à cintura pelas calças ajustadas ao corpo pelo respectivo cinto.

"Então...surpreendido? Amor??...Bemmm...vejo que sim!" - ela ria-se jovialmente
espreitando-o de lado tal e qual gata assanhada.

Ele quis responder mas tinha a garganta seca.
Um nó tomara conta da traqueia que ele lutava desesperadamente para libertar.

"Olha...sim...estou mesmo. Não podia imaginar que era aqui que vínhamos.
Ao menos podias ter dito que era chic e carote...assim não tinha vindo de ténis!"

Agora, também ele sorria...
No entanto, a verdade é que tentava igualmente sacudir as garras
de um mau estar momentâneo, geradas pelo fluxo diabólico e fulminante
de memórias ainda demasiado frescas presas àquele local em Alcântara,
a uma tarde de Outubro, num dia de aniversário...

"Nem penses! Não podia dizer...não achas? Dizias logo que era demasiado caro!
E quanto aos ténis, ficam te lindamente! Até parece que tens um veleiro ali na marina!"

Não pôde se não acompanhá-la numa risada ao sair do carro, audível para
o garçon com cabelo grisalho e de trajo singular que os aguardava no seu posto.

Ao atravessar a calçada de mão dada com ela, um misto de felicidade e tristeza
irrompeu dentro dele, causando um ligeiro aperto na sua respiração.
Recordava-se de como tinha comentado o valor elevado que deveria ser cobrado
naquele restaurante com esplanada fina e de vista privilegiada para o Tejo.

Passará por ali...de mão dada com outra...sentindo-se feliz.
Muito feliz...!
E ela...a de outros tempos...também ia feliz.
Não sabia ao que ia...mas confiava nele...nessa altura...
No fim da noite, confessou que adorara aquele dia.
Ele acreditou que sim.
Teriam um dia para recordar para sempre.
Será que ao passar pela varanda envidraçada, lá em cima...?
E será que ao contar...ao homem dela...?
Não...não diria que fora com ele.
Não diria o nome dele.
Contudo, para a eternidade...a memória daquele dia,
ficaria com ela também.

Entraram na sala de refeições, toda ela alusiva a temas musicais clássicos
e à ópera em particular, aliás, a música de fundo também fazia jus ao nome do hotel.
Era um espaço sem duvida confortável e bem decorado onde facilmente
alguém apreciador de ambientes serenos com um toque de romantismo
sofisticado se sentia à vontade.

Mais uma vez dava conta que a vida dele actual estava e provavelmente
estaria, repleta de momentos assim.
Pelos vistos, esta miúda tinha entrado na vida dele para o fazer viver
de novo emoções e sentimentos antigos por forma a fazê-lo entender
que somos, como pessoas, como seres que aspiram ser felizes,
o resultado do somatório de imensas e variadas vivências que compõem
aquilo que é o trajecto das nossas vidas.

Como tal, olhando ao que está subjacente a essa linha de raciocínio,
talvez, "ela", tivesse tido razão, mesmo não sabendo verdadeiramente
do que realmente falava e do alcance das palavras que dizia naquele momento.

"O que tiver de ser teu...será."

Pois bem, nada como acreditar de novo na possibilidade de poder
encontrar alguém, de ser...feliz.
Por enquanto, muito ainda havia a fazer porque nele os lugares
especiais e secretos continuavam ligados ao passado partilhado e vivido
com a menina-mulher que conhecera e que o largara à beira do precipício!
Essa mulher desmanchara as muralhas dele.
Ela movera as defesas, deitara fora as suas armaduras de um vida.
Mas,
Ela partira à procura de novo rumo para a sua vida.

Olhou a mulher linda sentada à sua frente.
Ela contemplava-o atentamente, serenamente.
Pareceu-lhe que lia os seus pensamentos, pois havia no olhar dela
um brilho ternurento e um pouco triste.

"Sabes miúda..." - disse-lhe baixinho enquanto estendia a mão sobre
a toalha imaculadamente branca, até cobrir a dela, aproximando-se,
encurtando o espaço entre eles.

"Estou muito feliz por estar aqui contigo."

"Mesmo?...Às vezes pareces ficar longe, de costas para o mundo..."

"Tens razão. Ainda luto contra mim mesmo. Ainda desconfio de mim mesmo."

"Não precisas de o fazer amor...Não consegues ver? Porque não experimentas
olhar-me de outra maneira? Já viste que podes estar a deixar escapar algo?'"

Apertou-lhe a mão.
Ele, devolveu o aperto com suave firmeza.

"Sim, és muito perspicaz. É muito bom estar aqui contigo. Obrigado."

"Ai é assim é? Nem penses que fica assim! Vou cobrar tudinho mais logo. Prepara-te!"

"Não me digas que vai haver striptease na cozinha?!"

Ambos ainda riam quando o empregado se aproximou para perguntar o que iam beber.

"Traga-me a lista por favor " - disse ele enquanto tirava os óculos do casaco,
fixando os olhos nela - "Esta noite merece um vinho especial!"









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