segunda-feira

Ferroviário



 "Não vou dizer nada, não adianta queres saber...é surpresa!"
Dito isto, desligou a chamada rindo-se alegremente enquanto ela resmungava
algo sobre não saber o que vestir, ao qual ele apenas tinha adiantado que para
aquele restaurante e bar as pessoas, sobretudo as mulheres, normalmente caprichavam,
dado tratar-se de um local procurado por gente de bem na vida.

Queria proporcionar-lhe uma noite encantadora,
fazê-la sentir que tinha conquistado uma lugar importante na sua vida
e que para ele, era muito bom tê-la ao seu lado.
Não era fácil para ele admitir que precisava de alguém que entrasse no seu pensamento,
nem tão pouco em planos eventuais para um futuro mais próximo, mas,
o facto é que aos poucos, do jeito dela, isso tinha vindo a acontecer.

Ao reservar a mesa para aquela noite,
o termo "namorada" saiu-lhe naturalmente,
" Será possível arranjar uma mesa para dois no cantinho?
É uma surpresa para a minha namorada."

Sim, ela merecia algo mais da parte dele.
Era uma mulher paciente, partilhava a vida dela com ele e
aguardava que ele fizesse o mesmo.
Mesmo a reacção que tivera ao ver uma foto da sua ex,
que servira para ele mostrar o cão dela, numa conversa que metia os pais da sua cadela,
deixou-o satisfeito, pleno de confiança na sua maturidade.
"Pronto...até que enfim eu a vejo! Ela é uma mulher muito bonita.
Consigo perceber facilmente o teu fascínio por ela, tem uns traços diferentes."
E, de seguida a sorrir ousadamente, acrescentou - "É por isso que te chamei à
atenção também amor? Só pode ser os meus traços únicos!"

Havia claramente parecenças entre"elas" em alguns domínios e bastou
ver como estava vestida para ele sorrir e dizer para si mesmo.
Es um gajo com muita sorte, caralho!
Estava linda, ariscaria dizer - "exótica".
Aliás, ao entrar no Ferroviário, foram algumas as cabeças mascaradas
que deram conta da bela mulher, dona de um andar confiante,
que seguia à frente, mas de mão dada para trás, com ele,
até chegar à mesa indicada pela empregada.

No meio de casais embrulhados nos telemóveis e outros
convivendo com silêncios tristes, eles estavam bem - ela radiante.
Eles, eram um "casal".
Ao olhá-la nos olhos, percebeu bem o que viu.
Gostou.
Muito.
Sabia que precisava de mais tempo...mas...
sentiu também que ela podia ser a resposta para o que ele sempre
procurara durante anos, algo que julgara ter encontrado no relacionamento anterior.
Uma mulher fiel aos seus próprios princípios, que acreditasse nele,
que quisesse construir um futuro a dois, com iguais responsabilidades,
que complementasse a vida dele e que precisasse dele para complementar a dela.
Na verdade, alguém com o qual pudesse construir...um porto seguro.

A noite de hoje ia ser de temporal...diziam os entendidos.
Portanto, naturalmente ficariam por casa depois do jantar,
a ver um filme talvez, depois de ele levar o patudo à rua.
Café...Moscatel...enroscados no sofá dela...






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