sexta-feira

Semelhanças Boas




O tempo estragou-se.
A viagem pelo interior teria de ficar para outra altura.

Assim, naquela Quarta-feira de folga, para ambos, Lisboa piscou-lhes o olho.
Quando estacionou à porta do prédio onde ela reside,
ainda matutava sobre o destino a traçar.
Um beijo matinal mais demorado que o habitual, ao entrar na carrinha,
deu lugar a um sorriso soalheiro, contrastando com o céu cinzento.

"Porque não vamos ao Castelo de São Jorge, não conheço, sabes? Pago eu!"

A pergunta mexeu com ele.
Era daquelas situações que irrompiam, do nada - sem controlo.
O castelo...em Lisboa...

"É mesmo? Nunca foste até lá?  Não sei...é capaz de fazer frio hoje..."
- respondeu-lhe, olhando em frente enquanto arrancava,
fazendo fé que ela não tivesse reparado em alguma reacção diferente nele.

"Se calhar...mas olha...trouxe casaco. Vês?!" - e de novo sorrio-lhe amplamente,
fazendo-o encher-se de coragem ao ver o casaco que se encontrava dobrado
sobre as calças de ganga justas e os olhos que lembram uma criança expectante.

"Pronto! Não se fala mais no assunto! Passamos o dia por lá." - acabou por dizer.
" E, se tivemos vontade, à noite levo-te a um barzinho bem simpático para desfrutar
de um cocktail que faz borbulhar as hormonas femininas !" - acrescentou,
soltando uma gargalhada à qual ela não resistiu.
" Afinal sempre fiz bem em trazer o meu casaco sport!" - disse-lhe, tipo snob.
"Acho bem amor...gosto muito de te ver com ele ..."

A outra também me disse isso - pensou...e deu uma risada.

E assim...o dia começara.
Do nada, nascera um plano compartilhado.
Contudo, ele não sonhava que quando ela vestisse o casaco, mais uma vez,
os Deuses lançariam os dados do acaso e da coincidência,
obrigando-o a ser integro e forte e a dissociar, a ultrapassar...o momento.

Rumaram ao Campo das Cebolas para deixar o carro.
Aí, deslocou-se ao paquímetro mais próximo para tratar do ticket de estacionamento
enquanto ela terminava uma chamada que acabara de receber.
Seguidamente, colocou o papel no tablier de forma visível e enquanto a aguardava
foi dar uma olhadela na ementa do Solar dos Bicos, restaurante que herdava o nome
do famoso edifício centenário, hoje, pertença da Fundação José Saramago.

"Vamos almoçar aí amor?" - a pergunta fez-o rodar para encará-la de frente,
de casaco vestido e mala feita mochila no ombro.
Foda-ssseee! - gritou uma voz bem dentro dele.
Na verdade, não era igual...mas...em tons de preto e branco...bem podia
assemelhar-se a um outro casaco que ele conhecera em tempos,
não muito longínquos...

"Quem sabe...depois vemos por onde andamos...e decidimos onde comemos".
Mais uma vez, nessa amanhã, tivera de esforçar-se por demonstrar uma
naturalidade que ameaçava escapar-lhe.

O dia correu bem.
Melhor do que ele podia supor.
A forma como ela encaixava ao seu lado e bebia do conhecimento que ele
tinha para transmitir era diferente...e isso ajudou.
Lembrava-se bem do último passeio por aquelas ruas e muralhas
e de como no meio de risos, brincadeiras e fotografias que ficariam para a história,
a miúda que era mulher dele, que tanto amava, ficava silenciosa e distante,
por vezes até absorvida em pensamentos vedados a ele, fumando o seu cigarro,
olhos postos no horizonte.

Entendia, cada vez mais, que tudo "aquilo" era necessário.
Só assim ele poderia superar o passado recente de um amor de longa data
que acabará.
Passo a passo - haveria de vencer a dor.
Aquela dor...

Quando o sol fez a sua vénia dando lugar a uma lua cheia, ele, sentia-se bem.
Estava grato por estar vivo.
Feliz por estar ali, outra vez naquele lugar maravilhoso.
Agora, ainda mais razões teria para sorrir,
ao olhar o monte e o seu grandioso castelo.
Nada como um novo amor para pôr tudo, de novo, em perspectiva.

Acabaram por jantar na Rua Augusta armados em turistas,
ele fazendo-a sorrir, cada vez que falava em inglês com o empregado,
a boa disposição reinado e dando lugar à atracção pura e cativante entre eles,
sentimento que assumiria-se com forçar durante a ida ao tal bar prometido,
emoções à flor da pele que tomariam conta da noite fresca,
em que a lua estenderia o seu brilho nas luzes das muitas velas que ela
iria acender ao chegar a casa, enquanto ele, de peito colado às costas dela,
abarcava-lhe os seios com mamilos erectos,
e ela...sucumbia ao gostoso volume que procurava aninhar-se no meio das nádegas
firmes, donas do epicentro tempestuoso...já inundado por antecipação...

Não era Sexta à noite.

A vida dela mudará.

Caminhava...













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