terça-feira

Sem Palavras



O Outono estava perto.
Àquela hora, o ar vindo do mar tornara-se cortante e o seu abraço envolvente deixava pele de galinha em todos que encontrava.
Perto da lagoa, os primeiros tons amarelos e alaranjados começavam a cobrir as árvores que mais pareciam lugares esquecidos e despejados dos seus inquilinos veraneantes.
O sol despedia-se naquele mar calmo, espelho perfeito, com apenas pequeninas ondas a remexerem a superfície de cor quase negra.
Mais ninguém conseguia ouvir a melodia que pairava ali por perto, única e reservada, para eles os dois.

Escondidos por debaixo de um enorme chorão, aninhados bem juntos, uma manta grossa por cima dos ombros, ali permaneciam, quietos, silenciosos.
Tinham vindo para esquecer o mundo, os outros, eles mesmos.
Por debaixo daquele cobertor, um só calor unia-os.
Um silêncio tranquilo tinha-se instalado e nenhum dos dois achava necessário perturba-lo com conversa fiada, no havia razão para encher o ar de palavras.
Por vezes, palavras a mais estragam os momentos mais preciosos.

Ouviu-a suspirar.
Puxou-a de encontro a si. Apertou com força.
Queria que ela sentisse que o sonho era verdadeiro, que era possível.
Olhos de chocolate pensou, quando ela o olhou, a mesma curiosidade patente, a mesma paixão inquisidora, a mesma necessidade de o ouvir dizer que lhe ocupava os pensamentos dia após dia, preenchendo o vazio, noite atrás de noite.

Carinhosamente, agarrou-lhe a cara, deixando os lábios entre os dedos.
Beijou-a com paixão. Beijou-a com afecto.
Sabia que não havia nada que podia dizer. Nada. Nenhuma palavra, nenhum poema, podia explicar ou descrever o que sentia por ela naquele momento.
Esperava que um mero beijo doce fosse suficiente para demonstrar o porquê de ás vezes o melhor ser não dizer nada, até porque, ás vezes, fica se mesmo...sem palavras.

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