domingo

Vazio



Aquela noite prometia ser amena mas corria uma brisa fresca como sempre acontecia por ali naquela altura do ano, apetecia-lhe o mar e uma música leve num bar.

Pousou o telemóvel no balcão, sorrindo com o vibrar de um sms. Leu. Suspirou.
Tinha estado ali, com ela.
Lembrou-se de quando a viu pela primeira vez, do exacto momento em que lhe serviam uma bebida, ele fingindo que não via, de novo, o olhar tímido e breve, mas intenso, tal como já tinha observado ao almoço.
Tinha-lhe pedido o número.
Insensato.
Mas ela tinha-o dado.

Encontraram-se depois no local que seria tão dos dois que o saberiam de cor.
Num meio de conversas e sorrisos de cumplicidade, vieram os abraços e bocas coladas em beijos que formavam abrigos naturais aos desejos contidos.
As mãos e os dedos percorriam caminhos que paravam, voltando atrás e ganhando outros ritmos que se ouviam juntamente com o som do mar.
Depois partiam.
Já não se olhavam mas entendiam que se quereriam de novo, afastavam-se após um beijo longo, envolvido num confortável silêncio em que passeavam as memórias dos momentos recentes.

Hoje, resolvera ficar por ali, mais um pouco.
Procurava esquecer a percepção dos acontecimentos e entregar-se aos sons únicos naquela praia sem ninguém, sentir as ondas calmas embalando o nascer da lua cheia, preenchendo-lhe a alma e fazendo com que se sentasse na areia, tranquilamente, admirando, apenas…
Apercebeu-se de como era tarde mas não ia correr, nem achou importante fazê-lo, caminhou, pensando, em tudo, a preocupação dissipando-se no entardecer, nas cores, na magia do crepúsculo e o cheiro a delícias do mar.
Observava o mundo à sua volta e pensava nela longe dali mas sem dúvida dentro do seu pensamento, dentro do seu coração...
Tinha saudades... muitas, imensas, cresciam descontroladas...uma mistura doce e quente que o envolviam e causavam uma certa dor e faziam crescer nele uma ânsia absoluta de a ver, de estar com ela, novamente.
Recordou o seu abraço, o seu beijo, os seus mimos... estava tudo presente.
Olhou o relógio. Lembrou-se. Lembrou-se dela, deles, dos momentos, das imagens.
Queria estar com ela, é o que sentia, e era o que apenas queria.
Repousou os olhos sonhando para dentro, os dedos caídos na areia.
Sentia-se a adormecer, na memória retalhos de emoções; abriu os olhos e olhou para o caderno que gostava de trazer consigo, na folha branca; desenhos abstractos, palavras soltas e frases riscadas.
Meteu as mãos nos bolsos e...deu uma gargalhada.
Tinha encontrado nele um isqueiro e um cigarro, mole da humidade da noite.
Endireitou-o com os dedos, levantou-se e caminhou em direcção ao mar. Tornou a rir.
Bocadinhos da marota!

Mas as horas...essas...não passavam...

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