domingo

Beijo


A noite tinha sido animada e surpreendentemente
com umas boas gargalhadas à mistura.
Contudo, o vazio permanecia,
uma sombra que persistia até na noite,
fiel presença de um alguém ausente.

Sentou-se com as pernas cruzadas, enquanto
bebericava uma chávena de chocolate quente.
Àquela hora encontrava-se na varanda, sozinha como gostava.
Olhando a negra e sarapintada imensidão, deixou-se levar
nas suas asas e permitiu o voo dos sonhos, sonhos nascidos
no desencanto de madrugadas adormecidas em angústia e solidão.

Imaginou-o...
Imaginou-o sentado ao seu teclado, tocando para ela uma
sonata de letras musicais que voavam, abrindo brechas
na solidão do silêncio, enquanto o olhar dela se prendia
na luminosidade que dele emanava, ofuscando as luzes da
cidade que se viam pela janela aberta e o emolduravam,
como se fossem uma fiada de pequenos diamantes.
Sentia-se acariciada na alma, enquanto as mãos dele
deslizavam com ardência pelo imaginário teclado,
de onde saiam notas quentes e sons ternurentos.
Ondas de sentires rebentavam-lhe no peito...
O coração dela nunca fora um mar sem ondas, e ele sabia-o...
Percebeu que o coração sempre se deixou levar até ele,
apesar das ausências, do silêncio e da distancia.
Percebeu naquele olhar de espuma, que ela era as ondas no mar dele.

Fechou os olhos.
Era tão fácil recordar, obter um bocado, um momento...partilhado.
Engraçado, pensou, as coisas que uma pessoa se lembra !

Levantou-se.
Sentiu um arrepio na pele... e na boca ainda o sabor do beijo.
Dirigiu-se para a porta.
Era tarde. Era noite.
Fez deslizar a porta.
Olha em volta.
O mar. A cidade.
A saudade...
De repente tudo aquilo lhe parece frio e anestesiante.
Não era ali que queria estar.
Queria tanto saborear aquele beijo...outra vez !

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