segunda-feira

Farol ( 1ª Parte )



Olhando profundamente o mar, inspirou longamente até não lhe caber mais ar nos pulmões. Reteve-o durante longos segundos, numa tentativa frágil de guardar dentro de si as memórias que nele se avivavam.
Era triste aquela imagem da areia moribunda na calçada.
Felizmente aparecera a nortada, fria e protectora, e sopro após sopro, empurrava afectuosamente cada grão para a praia, para junto dos outros grãos,
num gesto quase maternal.
Contrariado, foi libertando o ar lentamente.
Ajustou o casaco de cabedal sobre os ombros, virou as costas ao mar e dirigiu-se para o pequeno descapotável estacionado junto à calçada.

O carro rodava paralelo à marginal, descontraído, como que
vagueando apenas pelo simples prazer de passear.
Mas era precisamente o contrário.
Inconscientemente aliviou a pressão sobre o acelerador.
Ao longe vislumbrava já a silhueta do farol.
Uma dúvida pairava sobre a sua cabeça, uma incerteza que, nunca como agora, desejou manter inalterada, a incógnita de saber, se ela estaria lá.
A aproximação fazia crescer nele o medo, o receio de uma viagem em vão.
Na verdade nunca seria em vão, pois levaria dali uma resposta, talvez não fosse a esperada, mas não deixaria de ser uma resposta.
A distância ia-se dissipando e a silhueta do farol crescia no cimo da falésia.

Chegara finalmente, e tal como temera, não estava lá ninguém.
Olhou para o relógio, o qual, apesar da sofisticação não possuía a resposta à pergunta que lhe fustigava a mente como uma tempestade marítima.
Estaria ela atrasada, ou simplesmente...?

Saiu do carro e dirigiu-se ao pequeno miradouro.
Não era fácil estar ali sozinho.
O farol tinha um significado muito especial.
Para ele, este mantinha uma relação do tipo amor – ódio com o mar e a luta desigual que travava todas as noites com a cegueira enquanto procurava levar luz aos olhos cansados de marinheiros, trazia ao lugar uma harmonia e beleza capaz de despontar nele um bem-estar, uma sensação de protecção e liberdade ao mesmo tempo,
que nunca conseguira nem tentara explicar.
Mais um dia que chegava ao fim.
Ao longe, bem ao longe, o sol, naquela tarde de um tamanho descomunal partia numa viagem com regresso anunciando.

Desviou o olhar em direcção à estrada que serpenteava junto ao mar, e pareceu-lhe ver um carro que se aproximava. Sentiu o coração bater mais depressa e
uma excitação infantil apoderou-se dele.
Casou o olhar com a estrada e segundos depois teve a certeza.
As mãos começaram a suar.
Atabalhoadamente tentava construir um discurso coerente.
Voltou apressadamente para junto do carro.

Ela estacionou o carro junto ao dele.
Olho-o demoradamente através da janela aberta com um sorriso ao canto da boca, olhos semi-cerrados, cabelos longos a esvoaçar ao sabor do vento, e as frases pensadas, afundaram-se bruscamente naquele mar agitado de sentimentos,
rendidas à frase muda que ela tinha para ele.
Depois, com aquela elegância provocante que lhe caracterizava, deslizou para fora do automóvel e atirou os braços em volta dele, aninhando-se com um abraço só comparável em intensidade ao abraço da lapa à rocha.

Pensei que não estivesses cá – disse ele após alguns momentos.
E eu pensei que tu não vinhas – disse-lhe ela.
Como poderia não vir, não pensei noutra coisa desde que falámos.
Eu também.

Não! – disseram os dois em uníssono, libertando uma leve risada.
Vamos entrar? – perguntou ele.
Não é possível… tu… conseguiste? - disse ela num misto de admiração e espanto.
Sim consegui...a chave...do farol! – exclamou ele, enquanto metia a mão no bolso, de onde saiu recheada com uma chave.
Vamos, finalmente, poder partilhar o farol...a sós...
Ela sorriu e sem dizer mais, libertou-se dos braços dele e puxando-o,
guiou-o até à porta do farol.
Entraram em silêncio de mão dada, ela à frente.
Seguiram directamente em direcção às escadas e subiram os inúmeros degraus que davam acesso ao varandim que albergava a lâmpada.
Aí, olhando o horizonte profundo, entregaram-se um ao outro num abraço sereno.

Afastando-lhe os longos cabelos, beijou-a suavemente no pescoço enquanto levantava ligeiramente a camisola dela, deixando os dedos deambular à procura do calor que emanava dela, tacteando ternamente a pele que se arrepiava ao toque.
Ao ouvido ia-lhe murmurando sentimentos, palavras que não ousará libertar antes.
Sentia que era um daqueles raros momentos de eterna comunhão, um instante que iria ficar gravado neles para sempre, mesmo sabendo que aquela alegria se iria desvanecer como a neblina matinal ao encontrar a alvorada de um novo dia.
Afastou-a ligeiramente de si, e mergulhando sem medo no seu olhar, sentiu o calor de um mar tropical. Aproximando-se ligeiramente pousou nos seus lábios um beijo,
que ela retribuiu carinhosamente.
Ambos sabiam que aquele momento teria um fim, mas não iriam pensar nisso.
As suas vidas eram como duas linhas paralelas, que por uma anomalia inexplicável, que nem o mais entendido ousaria tentar explicar, teriam se intersectado durante a sua viagem pelo universo infinito do tempo.
Agora, restava-lhes esperar pela inevitabilidade de outra anomalia, que voltaria a separar as linhas ou mesmo, emaranhá-las para sempre.
Havia, contudo, algo que nunca mais teria solução, que para sempre permaneceria inalterado, que faria vida dentro daquilo que alguns, para tudo e para nada, por tudo e por nada, rotulavam de Coração.
Ambos transportavam em si momentos tatuados na alma, e por mais que se afastassem, jamais se perderiam de vista, pelo menos até que a luz que iluminava cada um dos seus caminhos se extinguisse.
Ela beijou-lhe os olhos com o olhar e puxou-o para si.
Há muito que bastava olharem-se para entenderem o que ambos estavam a pensar, a sentir, a desejar. Nessas alturas, pensavam - fosse tudo...tão simples!
Estavam decididos, iriam aguardar pelos desígnios supremos do tempo.

Olha, parece que esta noite ninguém vai precisar dele, vê como o mar está calmo, que noite perfeita...basta esta lua cheia a qualquer marinheiro...
Não sei amor, sabes o que se diz de noites destas...
Sei, sei...mas não há lobisomens marinhos querida !!
– disse-lhe, soltando uma gargalhada.
Pois não...há sereias!!
Riram-se ambos descontraidamente enquanto ele esboçava uma careta de medo
como se dela se tratasse.

A noite era deles.
O Farol era deles.
Aquele amor...era somente, deles.

Então,ela,atirou com os saltos altos para o canto e sentiu o calor das tábuas aquecidas.
Deixou cair a saia justa para revelar as pernas altas e torneadas e a cuequinha preta com um lacinho ao meio.
Deu dois passos até ele e elevando-se em bicos de pés,
colou os lábios ao ouvido dele.
Sussurou.
Vem amor...vem amar-me.

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