quinta-feira

Farol ( 2ª Parte )



Partira ao amanhecer.
Sabia que tinha de ser assim.
Haviam olhado longamente nos olhos de um e outro.
O amor, dando lugar ao silêncio cumplice, sabia que não ia ser suficientemente forte,
que as circunstâncias e as razões fustigavam os corações doridos e que era altura de ponderarem o futuro que se explanava a partir daquela manhã.

Parou ao fim da colina de onde ainda conseguia observar o farol,
e era como se visse através das suas paredes frias.
Conseguia vê-la, enrolada nas mantas quentes.
Não chorava.
Achava, e odiou este pensamento, que ela sentia uma dor tal, uma perca tal,
que as lágrimas teimavam em não sair, antes, preferiam permanecer escondidas por detrás de um espírito que se julgava fragilizado e abandonado.
Como gostaria de voltar para ao pé dela, abraçá-la de novo, amá-la de novo...
Mas...
O que mudaria?
Não!
Precisava que o tempo tomasse conta deles,
precisava sentir que as suas linhas de vida,
estavam, de facto, fundidas.
Naquela manhã, não vislumbrava outra saída.

Fez a janela do carro baixar e inspirou o ar fresco, pesado e salgado.
Tinha o espírito quebrado.
Mas ele era um lutador!

Saiu do automóvel.
Abeirou-se da encosta.
Olhou o céu, o mar, o farol.
Gritou!
E tornou a gritar!

Teria gritado...palavras...frases...sentimentos...emoções
...esperanças ??
Talvez...um pouco de tudo...
Teria ela...os ouvido??

Voltou para o automóvel e fez descer a capota.
O sol prometia aquecer a manhã invernosa.
O vento secaria as lágrimas que eventualmente ele não conseguisse estancar.
Era outro dia.
Outra manhã.
Sem ela.

Ao largar da embraiagem, pneus cuspindo, ferozmente, arrião soltou,
sorriu um sorriso triste e lembrou-se
- Amar não Basta!

Sem comentários: