terça-feira

Momento Dourado


( musica de acompanhamento - Caruso )

Estava mais que ansiosa!
Será que ele estava lá?
Ou teria aquilo sido apenas um encontro casual, uma mera coincidência?
Dois lugares num avião, lado a lado..?
Será que não que se tratava somente de um jogo, que alguns homens gostam de acalentar?
A conversa tinha fluido com tanta naturalidade e o senso de humor dele,
instrumento cativante.
"Que sorte a minha, huh? Uma hospedeira, com cabelo à hospedeira,
estrondosamente linda, de folga, sentada ao meu lado!"

De qualquer forma, recebera a chave eletrónica do quarto três dias depois
de ter regressado a casa, tal como ele prometera, para o hotel que mencionara.
Agora, ponderava se tinha sido seguro dar-lhe a sua morada...
Contudo, ela sabia que virar as costas à curiosidade não era seu feitio.
E, afinal de contas, trazia o vestido que acompanhara o convite e a chave,
que ela colocara numa caixa com um norme laço, tudo dourado.
"Para uma mulher deslumbrante, um vestido deslumbrante. Encanta-me...".

Inseriu o cartão na ranhura da fechadura, dando lugar ao característico som do
dispositivo a destrancar.
Entrou.
Foram precisos uns instantes para ajustar os olhos à luz que emanava de uns
quantos castiçais, dourados, criteriosamente colocados em diversos lugares.
Não havia qualquer barulho para além de água a correr, que abruptamente
parou, dando lugar à música que tocava baixinho.

Instintivamente, reconheceu a canção!
Era "Caruso - Russell Watson".
Tinha-se deixado surpreender quando a ouvira, pela primeira vez, no telemóvel dele,
um momento emocionante, marcante, naquela viagem de avião.
Contudo, na verdade, ela não o conhecia e o corredor que passava pela provável
casa de banho tornara-se imenso, silencioso e algo assustador.
Repentinamente, sentiu o cheiro, aquele cheiro!
Conhecia aquele perfume, que tomara conta do seu espaço anteriormente,
uma consequência de lugares próximos...
Ele, estava por perto movia-se na sua direção.
Ficou imóvel.
Então, sentiu a mãos dele nas costas, mexiam-se, de cima para baixo, fazendo
com que um arrepio lhe subisse espinha acima.

Ele, beijou-lhe a nuca demoradamente.
Traçou uma linha imaginária com a ponta da língua, pescoço acima.
Mordeu-lhe o lóbulo da orelha, ao de leve.
Depois, pegou-lhe nas mãos e conduziu-a quarto adentro e sentou-a numa
enorme e confortável poltrona.
De seguida, ajoelhou-se e tirou-lhe os sapatos de salto alto, prendendo o seu olhar,
os cantos da boca dele a denunciarem um sorriso docemente malicioso.

Tinha apenas uns boxers pretos vestidos, que lateralmente apresentavam
uma risca fina vertical dourada.
Algumas gotas sobreviventes ao tumulto imposto pela toalha de banho,
ora corriam desalmadamente pelo corpo dele abaixo, ora precipitavam-se
em direção à carpete como que inebriadas pelo calor da pele dele.

Ela, sentia-se que nem elas.
Ansiava por ser a sua prisioneira.
Desejava ser dominada.

Ele, beijou-lhe os tornozelos, serpenteava as mãos pelas pernas,
subindo até às coxas, erguendo o elegante vestido dourado que ela trazia,
expondo a sedutora lingerie preta que ela escolhera a preceito.


Gemeu e não conseguiu evitar o sorriso, sabendo que ele ia perceber
o quanto ela já estava excitada.

Com os dentes, primeiro de um lado, depois do outro, ele fez deslizar aquela peça
de roupa íntima para o chão.
"Anda.."- ordenou-lhe, fazendo com que ela se levantasse, enquanto soltava as
alças pelos ombros, catapultando o vestido na mesma direção e, com delicada
precisão, libertou os seus seios ansiosos do resto do conjunto intimo.
Beijou-os, macios e quentes, percorrendo caminhos com a boca, provando a
ereção dos mamilos famintos de saliva envolvente e chupões atrevidos.

Sentia prazer...
Queria entregar-se a ele, desfazer-se nele...
Adorava como ele brincava com os mamilos pontiagudos e quando ele
passou a mão na parte interna das suas coxas, não conseguiu aguentar.
Contorceu-se e deixou-se cair para trás na poltrona, pedindo que ele continuasse,
que não parasse!

Mas, ele parou...

Olhava-a, intensamente, percorrendo cada bocadinho dela e da sua intimidade.
Virou-se para a mesinha de cabeceira perto dele.
Fazendo companhia ao castiçal com maior número de velas douradas, uma garafa
de moscatel roxo, estupidamente gelada, aguardava impacientemente.
Encheu um dos copos e tornou a fixar os olhos nos dela.
Bebeu um golo. Encheu o outro copo e colocou-o ao lado da garrafa.
"Para daqui a nada...vais adorar..."- brincou.
Passou a língua pelos lábios.
Bebeu mais um pouco.


O olhar dele era sereno, seguro, cativante e enaltecedor.
Era como se já tivessem sido amantes noutra vida.
Era como se adivinhasse o que ela estava a pensar.
Era como se soubesse o que ela, secretamente, gostava de fazer.

Num movimento suave, mas deliberado, desenhou um V com as pernas.
Tocou-se, ao de leve, levando o olhar dele a desviar-se até onde os dedos dela
começavam a circundar o botãozinho carnudo, inchado e ávido da boca dele,
instigando nela uma gargalhada encoberta,
de quem gosta de provocar e ser provocada.

A boca dele aninhou-se nela, o V fechando-se em torno da sua cabeça,
a preparar o caminho para o delírio,
saboreando a sua intimidade, o gosto dela,
tudo que vazava em ondas de prazer,
escorrendo e ensopando o tecido vintage.


Não ia demorar muito, pensou...
A sua respiração estava ofegante...
Contrações pélvicas encetavam o ritmo descontrolado...

Ele, não abrandava.

Depois! - disse para si mesma.
Depois seria a vez dele - ser dela!
Mas agora...
Agora queria somente gritar!
Agora era tudo dourado...

quarta-feira

A Morte


( musica de acompanhamento - Nocturne )

São de palavras soltas, que nascem tantas frases.
Delas se fazem poemas, versos, diários, livros, memórias.
E, esta carta.

Mas a maior parte delas, perdem-se na escrita comum.
No dia a dia, em momentos banais da vida quotidiana.
Contudo, há dias, em que as palavras soltas ganham outra dimensão!

Hoje, ou quem sabe amanhã, quando estas fizerem eco no teu coração,
as minhas palavras soltas irão abraçar-te e envolver-te.
Vais sentir o quanto mais elas são verdadeiras,
porque nunca tais palavras escreveria,
sem o mais profundo dos sentimentos.

Não temas o amanhã meu amor, nela irás encontrar tanto mais.
Nesta hora de despedida confirmada, lembra-te dos momentos vividos.
Dos sentimentos entrelaçados,
das palavras sussurradas,
e do amor construído.

Tu sabes, o quanto anseio por um amanhã!
Liberto de correntes,
sem magoas e ressentimentos,
transparente e verdadeiro,
cheia de amor e esperança!

Arriscando um sorriso dos teus lábios,
faço minha uma frase que muitos conhecem, mas que poucos entendem.
A morte pode levar o corpo,
mas o amor,
transcende a barreira da morte!

terça-feira

A Casa


( musica de acompanhamento - Love Theme )

A casa parece vazia.
Escuto o som do vento,
que traz o manto branco.
Estás lá,
tu.
No campo,
perto da casa.

Sinto a sombra.
O perfume sobrevoa,
entre labirintos memoráveis.
Olho para ela,
a casa.
Retrato de um tempo,
quadro de memória pitoresca.

Procuro outro som.
Aguço sentidos,
que provocam sensações.
O encher de abraços,
de sonhos adiados.
Exaustos e atados,
à imensidão de uma noite.

Misteriosa linguagem,
esta.
Entre mim e a casa,
que me enche o ser.
Perco-me entre o telhado,
e o chão que piso.
Como se aqui tivesse vivido.

Caminho, caminho sem máscara.
Recomeço onde a realidade parou,
em tempos.
Preso à memória,
sinto-te de novo.
Vejo-te.
Cobre-te um sorriso, no rosto.

Faz silêncio,
A noite já convida o dia,
para o ritual esperado.
Sabes,
o que quero.
Sabes muito bem.

Não me despeço.
Hei-de voltar,
vez após vez.
Porque,
encoberto do mundo,
reencontro,
mais um pedaço de mim.