quinta-feira

Leap of Faith ( 1ª Parte )


( musica de acompanhamento - Feel your Weight )

Já tinha feito o check-in.
Agora, só faltava esperar pelo Hugo. Ele tinha os documentos essenciais para formalizar o
contrato com o grupo espanhol.

"Fiz-te esperar muito?"

Aquela voz, não é do Hugo...
Ergueu a cabeça e olhou para a sua esquerda.
Um aperto tomou conta do seu coração.

"Quem diria! Sr. Ferreira...Que faz aqui?"- perguntou, com o tom mais sarcástico possível.

"Sr. Ferreira? Formal demais para meu gosto, mas se preferes tratar-me assim..."

"Que está a fazer a aqui?"

"Eu? Eu vou para Iibiizaaa!"

O olhar dele mexeu de imediato com as suas entranhas.
Ficou bem claro, para ela, que ele já tinha algo em mente.

"Como... vai para o Ibiza? Fazer o quê?"

"Não achas que estás a fazer perguntas a mais? Eu, vou em negócios!"- repondeu-lhe,
num tom também formal mas envolto no sorriso que a tirava do sério.

"Ahhh! Quando é que vais?"

"Tu?! Trataste-me por..tu...Viste ?"

"Então diga, quando é que vai?"- disse, franzindo as sobrancelhas.

"Eu? Vou daqui...exatamente a... 45 minutos. E tu?
Ahh, antes que me esqueça...Toma lá os documentos que precisas para assinar
o tal contrato."

"Obrigado... Mas...o que aconteceu ao Hugo?"

"O Hugo ? Ah sim, aquele que tem sempre vontade de beber café à mesma hora que tu ?
Pois...ele realmente disse que gostaria de acompanhar-te, mas o teu patrão achou melhor
ser eu, a tua companhia, durante a semana em Ibiza,
Sabes como é. Putos...Depois é o que dá..."

"A minha companhia?! Não obrigado! Sei muito bem tomar conta de mim!"

"Sim? Pois, mas ele disse que, como eu conheço Ibiza, é melhor ser eu a acompanhar-te para
não te perderes. E, eu tenho muitos contactos entre os accionistas com quem vais falar.
Ohhh...não fiques assim, só te vou ajudar!"

"Não me parece! Acho que vais atrapalhar!"

Levantou-se e viu como ele a olhava, de cima a baixo.

"O que foi agora? Nunca viste?"

"Já, mas parecias menos atraente das outras vezes! Não que não o sejas sempre, atenção..."

"A sério? Isto não me está a acontecer! Eu não acredito nisto!!"

Estava com um vestido curto, leve, em tons térreos. Se calhar, até podia ser considerado
mais apropriado para outras ocasiões, mas há muito tempo que não o usava e não era
todos os dias que iria puder ir a Ibiza, onde o calor habitualmente é demais.

"Ainda a olhar?!"- perguntou, ao reparar que ele continuava no mesmo sítio enquanto ela já
se preparava para virar a esquina e subir para o andar seguinte.

Ele começou a andar na sua direção.
Ia num ritmo calmo, com as mãos nos bolsos, parecia bem confortável apesar do fato
azul-escuro que vestia.
Viu-o levar a mão à gravata, tirá-la e colocá-la num bolso do casaco.
Desapertou os primeiros botões da camisa e sorriu-lhe. De seguida, arregaçou as mangas.
A ela, pareceu-lhe que ele se estava a pôr à vontade! Demasiado à vontade!
Mas por que raio estava ele a comportar-se desta maneira ?!
Olhou em redor para se certificar daquele pensamento e logo arrependeu-se.
Estão todos a olhar, todos! - pensou. E todas!

Finalmente embarcaram e ele pediu-lhe licença para se sentar à janela.
Bem ao meu lado - pensou - teve logo de arranjar um lugar ao pé de mim, e eu a querê-lo
bem longe! Que cena!

Mas, havia uma "mas" que não a largava. Há muito tempo. Não conseguia entender.
Sentia algo muito forte quando o via e quando ouvia a sua voz clara e aveludada.
Mas depois, quando ele lhe falava, tinha vontade de o matar!
Apetecia-lhe estrangulá-lo até ele a deixar em paz!

Olhou-o meio de lado, pensando no que teria sido...era...que fazia com que ela se sentisse
daquele jeito... por aquele homem...
Considerava-o um completo desconhecido e não era que não o queria conhecer, até queria,
mas quando surgia uma oportunidade, simplesmente estragava tudo!

Como que por pressentimento, ele olhou para ela, aqueles olhos escuros a observar, a cintilar
de uma maneira que ela nunca tinha visto antes. Parecia-lhe, que queriam dizer algo.
A vontade de querer aproximar-se dele e pedir desculpa, tomou conta dela.
Devia-lhe uma data de desculpas.
Primeiro por ter fugido em Londres, depois por o ter despachado bruscamente, da última vez
que tinham falado, quando ele ligou para convidá-la para jantar.

"Que pensas fazer quando aterrarmos?"- perguntou sem desviar a sua atenção das nuvens
que observava através da janela.

"Não sei... que achas que devemos fazer?"- sentiu-se contente por ele meter conversa e
sobretudo pelo sorriso aberto que lhe estava a lançar.
"Que foi?"

"É a primeira vez que te referes a tu e eu, como nós..."- disse-lhe e voltou a olhar pela janela.

"Ummm. Até parece...Que estás a ver?"

"Nada. Mas eu gosto do ar, em pequeno queria ir para a força aérea..."

"Ah! E imagino que também quiseste ser um Tom Cruise!"

"Quase fui!"

"Pois, acredito mesmo. E porque desististe?"

"De ser um Tom Cruise? Bem... não era uma profissão aceite por um pai que sempre desejou
ter o filho a seguir-lhe as pegadas, mas que no fundo, pouco fez para isso acontecer.
Acho que não tive muita escolha na verdade...
E tu?"
Olhou-a nos olhos, serenamente.

"Foi...mais ou menos assim...comigo também."

"Simm..."
 Esperou a resposta que parecia não querer surgir.
"Bom, pelo menos já temos algo em comum.
Achas que os accionistas já chegaram ao hotel?"- perguntou-lhe.

Lá está ele a enervá-me! A mudar de assunto sem mais nem menos!
Não sou obrigada a responder...

 
"Vou tirar a manhã para dar uma volta pela praia.
Vamos ficar num hotel mesmo em frente à praia, sabias?"

"Deve ser bem confortável..."
Começou a morder o lábio para não mandá-lo à merda!


Senhores passageiros, dentro de 20minutos vamos aterrar em Ibiza.
Está aproximadamente 30º.
Céu limpo com muitos estrelas a brilhar.
Espero que tenham uma boa estadia e que se divirtam.
Muito obrigado por escolherem este voo.



"Bem, quase lá... Isto é muito bonito, acho que vai gostar!"

"É...eu...Eu sei que vou gostar..."

"Temos de combinar uma coisa desde já. Detesto ser tratado pelo meu apelido.
Ou tratas-me por Pedro, ou eu começo a chamar-te Dª Moura...ou Queridinha!"

"Está bem, está bem... Pedrinho ou Entrecostozinho !"

"Ei! Não abuses!"
Ele riu-se e aproximou-se do seu ouvido.
"Quem sabe? Se calhar até vais acostumar-te ao entrecostozinho...Queridinha..."
- disse sussurrando, provocando algo indescritível, uma sensação única, nela.

Entretanto, havia uma passageira que não deixava de olhar para ele,
até mesmo após de saírem do avião.
Tinha dado conta da morena de calças justas e cabelo sobejamente ondulado no aeroporto.
Ela não desgrudara os olhos dele nem por um minuto.
Por fim quando passaram por ela, à saída, teve mesmo a lata de piscar-lhe o olho.
Ele, limitou-se a sorrir e ao passar por ela deu-lhe um beijo na face,
deixando a jeitosa perfeitamente estupefacta.

"És assim com todas?"- perguntou, continuando a andar e sem se dar ao trabalho de olhar
para ele porque estava bem irritada.

"Ciúmes?"

"Vai sonhando!"- retorquiu de imediato. Mas, teve que se conter para o não demonstrar.

"Pois é. Pelos vistos foi um sonho...contigo incluído!
Ela piscou-me o olho e eu apenas decidi deixar-lhe uma recordação minha.
Qual é o mal de um beijinho inocente na cara? Ela não parece ter ficado nada chateada..."

"Querias que ela ficasse, não?! És mesmo..."

"O quê? Vá ! Diz ! Desabafa comigo!
Eu ando à espera disso desde que nos reencontramos pela primeira vez."

"Que queres dizer com isso?"

"Foi por minha causa que não ficaste em Londres?"

"Não tens nada com isso!"

"Se foi por minha causa - tenho..."

"Então, não foi por tua causa!"

"Vou partir do princípio que estás a dizer o contrário..."

"Porque?!"

"Porque não é isso que a tua voz nervosa me diz! Inês, olha para mim..."

"Pára! Vamos para onde, mesmo? Neste momento, é o que importa..."

"Eu sabia! Foi por minha causa!
Se queres mesmo saber, vamos para o Fiesta Club Palm Beach.
Espera aqui, que eu já volto!"

Ele afastou-se com alguma rapidez e em segundos já não o via nem de longe.
Andou um pouco até ao exterior do aeroporto e sentou-se no primeiro banco que viu.
Olhava de vez em quando para ver se ele vinha, mas nada.
Meia hora e nada dele.
Onde andaria? Já era noite...
Começou a ficar chateada e, por outro lado preocupada.
Será que tinha acontecido alguma coisa?

"Pronto, podemos ir!"

Olhou para trás e lá estava ele.
Suspirou de alívio.
Era boa, a sensação que tomava conta dela.
"Que foste fazer? Quase morri aqui à seca!"

"Se tinhas sede, podias ter ido beber um copo de água. Não?
Não me digas que tiveste saudades minhas ??
Vá, temos um táxi á nossa espera ali à frente..."

Não pode deixar de rir com ele.

"Por acaso até dá jeito ter-te por perto. Às vezes..."