quinta-feira

A Miúda do Autocarro



Quando ali cheguei, por volta das sete e meia da tarde, o calor era sufocante.
O vento, visitante provocador, trazia os aromas agridoces de vinhas à beira-mar.
No céu pairavam gaivotas em busca de um jantar fácil.
Que belo final de dia para voltar à paragem do autocarro!

Afinal o indicador de temperatura sempre servia para algo,
pena era não lhe ter dado a devida importância.
Ter automóvel ia obrigá-lo a ser mais responsável.
Uma coisa era certa, não iria ficar naquela fila medonha, a derreter.
Sem perder tempo, atravessai o pequeno jardim que se encontrava atrás da paragem
e ocupei o banco de madeira, ou o que restava dele, debaixo de uma enorme palmeira.

Não demorou muito até que reparei em quem se aproximava.
Teria sido impossível não reparar.
Era esbelta, mas não no sentido esquelético como tantas miúdas reféns de imagens
propagadas por deusas de mundos elitistas.
O cabelo era negro, quase liso, bastante longo.
O vestuário desportivo, justo, elegante, sapatilha branca.
Usava óculos de sol pretos, grandes, que lhe escondiam os olhos
Tinha ar de quem ainda estudava ou tinha acabado os estudos há pouco tempo.

Acabei por ser o último a entrar no autocarro.
Podia ter permanecido em pé mas a curiosidade convidou-me a sentar-me em frente
a ela, naquele que alguns chamam de assente do enjoo.
É claro que tentei fazer de contas que não olhava e é claro que ela percebeu e daí o
sorriso contido mas divertido que os cantos da boca dela denunciaram.

Trazia comigo uma mochila.
De repente o autocarro fez uma travagem brusca.
E, de repente, ela estava a ajudar-me a reunir os papéis espalhados pelo chão.
E, de repente, eu estava a resgatar os óculos de sol dela que tinha ido parar debaixo
de um assento mais à frente.

“ Toma. Esse fecho não deve estar grande coisa”- disse-me, no meio de uma gargalhada.

“ É...parece que tens razão. Olha...fazemos uma troca...os meus papeis pelos seus óculos.”
Não que te façam falta - pensei - Tens cá uns olhos!

“Não queres ficar com eles?”- interpelou-me.

Fiquei meio encavacado.

De seguida devolveu-me toda a papelada excepto uma folha, para a qual olhava com
intensa curiosidade.

“Escreves?”- perguntou-me.

“Só coisas sem importância...para passar o tempo"- respondi, olhando em redor.

"Ai é? Interessante..."

"Ok...Vá... Toma os teus óculos...”

“Ummm...não sei. Não. Fazemos a troca amanhã!”
Olhou-me de forma felina, provocando um verdadeiro terramoto no meu peito valente.

“Não sei se dá...Amanhã já devo ter o meu carro...Sabes, eu não costumo andar de...”

“Eu sei. É um cinzento. Deixas-o no estacionamento reservado aos Correios, quando
vais tomar o café da manhã na pastelaria ao lado...”

Com isto, levantou-se.
Ouvi a campainha soar.
Ela dirigui-se à porta central do autocarro.
Eu estava estupefacto!

"Como é que sabes que..."- quis perguntar.
Mas, ela já tinha saído.
Sentei-me.
Que cena !



Eram sete e vinte da tarde.
Os meus olhos percorriam a avenida incansávelmente.
Será que vinha?
E era bom que viesse?
Aquela miúda tinha algo de desconcertante!
Era como se pertencesse a outro mundo, a outra realidade que não a minha.
Contudo, falou-me com tamanha à vontade, como se, secretamente,
estivesse a aguardar por aquela situação há algum tempo.
Estaria eu, estúpidamente, a sonhar?

Apertei com mais força os óculos que segurava.
Olhei-os.
Reparei em algo numa das hastes.
Havia uma inscrição, ou melhor, o inicio do que tinha sido uma palavra,
de um nome -“An”

É um bocadinho dela...
Ela existe!

27 comentários:

Nuria de Espinosa disse...

En conjunto, se trata de un relato que consigue algo difícil: hacer que un encuentro fugaz parezca el comienzo de algo inevitable. Para despertar la intriga; le bastan un autobús, unas gafas, una mirada y un nombre incompleto. Quizá ahí resida su mayor encanto: en la sospecha de que algunas personas no aparecen en nuestra vida por casualidad, sino que llegan cuando la historia ya ha comenzado, aunque nosotros todavía no lo sepamos.
Me gustó mucho.
Saludos y feliz fin de semana

ibso disse...

No parece un encuentro casual, al menos no para la chica delgada de las gafas.
Saludos.

LUFERURA disse...

Hola Fox
Una historia original que abre la puerta al misterio. ¿Es casualidad o causalidad?
Un saludo

Olá Fox
Uma história original que abre as portas para o mistério. Será coincidência ou causalidade?
Atenciosamente

Fox disse...

Olá Nuria.
Bem-vinda.
Agradeço o teu comentário perspicaz.
Realmente, há momentos assim na vida...

Fox disse...

Olá Ibso.
Fizeste-me rir.
De facto...

Fox disse...

Olá!
Bem...isso é algo que vou, sempre, deixar à consideração do leitor.
Grato pela visita!

Neogeminis Mónica Frau disse...

Existe, no la soñó. Los anteojos son la prueba de que es real y seguramente volverán a verse. Buena historia para iniciar tu aventura juevera, Fox. Espero se repita. Gracias por sumarte. Buen fin de semana

El Demiurgo de Hurlingham disse...

Ella parece tener algo de misterio, sugiriendo que el encuentro no fue casual, sino que ella lo planeó.
Saludos.

Sindel Avefénix disse...

Una historia que merece una segunda parte! Un encuentro único y misterioso de esos que no se olvidan! Beijos

Campirela_ disse...

Es chica tenía algo misterioso, ojalá pueda ser descubierto o mejor dejarlo en el misterio..
Un saludo.

El Demiurgo de Hurlingham disse...

Un relato con una bella y misteriosa mujer, que parecía saber mucho.
Y dejó una huella, una evidencia de su existencia.
Saludos

حزقيال disse...

Muy buena la historia, super atrapante muy bien contada, puedes estar en la escena donde transcurre la historia. Me quede con las ganas de si la misteriosa mujer vendría.

Que tengas un buen fin de semana
Saludos

Mujer de Negro disse...

Una pequeña prueba de que el encuentro fue real; y la interrogante de quién es realmente y cómo sabe tanto .
Abrazo

Somos Artesan@s de la Palabra disse...

Un raro encuentro casual que puede con el tiempo en terminar siendo algo más.
Saludos.
PATRICIA F.

el oso disse...

Me han pasado situaciones similares al menos en cuanto al contexto. Y a veces uno quiere saber, otras no, por miedo a perderla. Pero quiere tener la posibilidad de que al amor llegue también, claro. Saludos

Tracy disse...

Creo que es la primera vez que te leo en los Jueveando, si es así te doy la bienvenida al grupo y espero seguir leyéndote, tú aportación me ha gustado mucho.
Saludos

Fox disse...

Olá!
Grato por me teres aceite a minha participação e pelo teu simpático comentário.
Cumprimentos!

Fox disse...

Olha...até hoje não sei...:))
Cumprimentos!

Fox disse...

Quem sabe?
Boa sugestão.
Obrigado.

Fox disse...

Qual o rapaz que não sonha em cruzar-se com uma miuda misteriosa?
Abarço

Fox disse...

Agradeço as tuas palavras simpáticas e o teu olhar sobre a história.
Cumprimentos!

Fox disse...

E, será que ela não "apagou" o resto do nome de propósito?
Abraço!

Fox disse...

Olá Patricia.
Bem-vinda!
Teria sido bom...:))
Cumprimentos.

Fox disse...

Realmente, só quem passa por algo, é que sabe como é...
Cumprimentos!

Fox disse...

Olá Tracy!
Creio que sim,
Obrigado.
Volta sempre...

Gustab disse...

Pude sentir esa mirada... porqué seran todas tan prfundas cuando caaln el amlm...Diablos. me quedé pegado.

Fox disse...

Porque será mesmo? :))
Abraço!